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6.9.12

O que Sócrates não disse

Para Cármides, Sócrates diz que se tornou um xamã durante a batalha de Potidéia, quando ainda era um jovem soldado grego [1]. Para a grande maioria dos estudiosos, entretanto, não é crível que Sócrates tenha passado por uma iniciação espiritual em meio à guerra. Tais coisas, supõe-se, não teriam como ocorrer nesse tipo de ambiente. Será mesmo?

No Banquete, Alcibíades relata, talvez, o êxtase socrático de maior duração, 24 horas ininterruptas de transe: Sócrates imóvel, insensível às exigências normais do corpo e a tudo o que ocorre em torno dele, totalmente ausente. Ora, mas Alcibíades era um companheiro de Sócrates na batalha da Potidéia, e tal relato se refere à experiência mística socrática bem no meio da guerra!

Dizem então, os estudiosos, que o xamanismo socrático é nada mais que uma metáfora: Sócrates é capaz de curar a alma pela palavra, assim como os xamãs curam por seus encantamentos. Na verdade, os estudiosos tem razão em dizer que Sócrates curava a alma pela palavra, mas isto não é somente uma metáfora: é a essência da magia. Sócrates era, portanto, um xamã, um feiticeiro, exatamente porque sabia “curar pela palavra”.

Nem tudo que o homem com olhos de touro experienciava em seus êxtases podia, no entanto, ser dito... Conta-nos Alcebíades que, após um dia em transe na Potidéia, Sócrates volta a “realidade normal”, faz uma prece ao sol, e depois age normalmente, como se absolutamente nada tivesse transcorrido. Essa maneira de retomar contato com a realidade ordinária denota o caráter místico da experiência. Mesmo o destinatário da oração, o sol, indica uma relação de Sócrates com a natureza e os elementos que não provém da religião grega clássica [2].

Esta iniciação xamãnica tampouco foi o único êxtase socrático. No caminho para a festa organizada por Agatão no Banquete, Sócrates estava a seguir com outro convidado, Aristodemos, mas durante o caminho “isola-se em seus pensamentos” e fica para trás. Aristodemos chega sozinho a casa de Agatão, que envia um criado para buscar Sócrates. O escravo o encontra de pé, sobre o pórtico da casa vizinha, mas o filósofo não responde aos seus chamados. Aristodemos explica que é inútil insistir: o fenômeno é habitual em Sócrates; isso se apodera dele em qualquer lugar, mas após um tempo ele acaba por retornar. Os outros não esperam por “seu retorno a esta realidade”, e quando Sócrates “chega”, já estão no meio da refeição.

Hoje em dia um sujeito como Sócrates seria taxado de “completamente lunático”, mas em sua época foi conhecido como um dos homens mais sábios de toda Grécia, ou pelo menos entre os seus seguidores e amigos, que como sabemos não foram poucos; e podemos contar dentre eles alguns dos maiores filósofos da história do Ocidente. Porque, afinal, seguiam aos ensinamentos, a “palavra xamãnica”, de um “homem louco?

Pode-se questionar, claro, se o transe socrático se impunha à força, ou se Sócrates tinha como escapar dele. Não temos, é evidente, uma resposta precisa. Talvez Sócrates, sentindo vir o êxtase, não pudesse evitá-lo, talvez considerasse esse estado tão superior às convenções sociais que achava absurdo privar-se dele. Apesar disso, de acordo com os relatos dos livros de Platão, Sócrates não parece ter “o controle da situação”: é arrebatado sem ter desejado nem previsto, por vezes, literalmente, no meio da estrada.

É evidente que gostaríamos de saber o que vivenciava o sábio grego durante esses longos arrebatamentos, que visões lhe poderiam ser oferecidas, que conhecimento tiraria delas. Quando chegou ao banquete, Agatão lhe pediu para que ele tomasse o lugar a seu lado, e lhe contasse sobre “as descobertas” que acabara de fazer. Mas Sócrates esquiva-se, e encerra o incidente com uma ironia: “Basta estar perto de um sábio para participar de sua ciência, e vou pôr-me ao lado de ti, que acabas de obter tal sucesso com [a análise da] tragédia”. Agatão não se engana, sabe que nada mais vai saber acerca do “incidente”.

Em realidade, ninguém ousava insistir nestes questionamentos... Um pudor compreensível diante do inconcebível. Não se fala dessas experiências, pois estão ligadas ao incomunicável, ao que nem a “palavra mágica” de Sócrates era capaz de dar conta. Esse saber, a sophia, não passa de um espírito para o outro, é um conhecimento que não se transmite e do qual Sócrates jamais se refere diretamente.

O encantador ateniense teve a honestidade de não explorar seus êxtases para apresentar-se como detentor de saberes divinos, o que significa que jamais pretendeu transmitir uma revelação ou um conhecimento “superior”. Paradoxalmente, afirmam outros estudiosos, vê-se Sócrates sempre repetir que “nada sabe”.

Mas a verdadeira questão em jogo é: “nada sabe em relação ao que?”. Vemos no pensamento socrático inúmeras referências aos mitos antigos dos reinos das almas [3], embora ele certamente jamais afirme “ter alguma certeza em relação a isso”. Mesmo ao ser condenado a morte, se pergunta “se estaria em situação melhor ou pior do que aqueles que ficariam do lado de cá”. Mas se a morte não fosse nada, no entanto, ele nada teria de se preocupar, afinal... Sócrates, porém, parecia se lembrar, parecia saber de algo que poucos homens na história compreenderam. No relato de sua morte, todos os seus amigos próximos estavam aos prantos, e ele parecia tratar a ocasião como “algo trivial” ou, quem sabe, apenas mais um de seus êxtases a se aproximar – só que este seria mais longo.

Aquele que se julga “normal” não encontra outra alternativa que não julgar Sócrates como “um louco”, da mesma maneira que muitos céticos de hoje em dia julgam as práticas místicas “uma loucura coletiva”. Mas, afinal, o que seria exatamente esta loucura em que as pessoas podem “entrar e sair”, e depois disso seguirem com suas “vidas normais”, sem terem nenhum tipo de incapacidade mental relacionada à prática em si? Sócrates foi um soldado, serviu bem sua pátria, e depois tornou-se um sábio, um filósofo, e encantou aos jovens, e enfeitiçou ao pensamento ocidental, muito embora pudesse muito bem ser julgado, segundo os padrões da “normalidade”, um perfeito lunático!

Não é sua culpa que tenham se usado de seu pensamento para construírem dogmas. Sócrates, afinal, não deixou nada escrito [4], e tampouco afirmou que tinha certezas. Todo o seu pensamento é baseado nas suas próprias dúvidas, sobretudo na maior delas, aquela que se colocava frente a algo em que não quis acreditar por toda a vida: “Que era, realmente, o maior sábio da Grécia” [5]... Passou a vida buscando por alguém efetivamente sábio, mas se viu cada vez mais solitário na empreitada.

Houvesse Sócrates encontrado alguém que tivesse, como ele, subido por breves momentos no alto da caverna, e visto ao sol diretamente, talvez pudesse ter com quem falar acerca do indizível. Talvez não, pois afinal as palavras, estas cascas de sentimento, estas cascas de êxtases pregressos, talvez estas sejam mesmo incapazes de explicar a inconcebível natureza da Natureza. Aquele que acha que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, este começou, finalmente, a saber...


“Medita agora e examina a fundo, gira teu pensamento em todas as direções, recolhido sobre ti mesmo. Depressa, se cais em um impasse, salta para outra ideia de teu espírito; e que o sono doce ao coração esteja ausente de teus olhos”. (Sócrates em As nuvens, de Aristófanes, 700-705)

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Bibliografia recomendada
Sócrates ou o despertar da consciência, de Jean-joël Duhot (Edições Loyola); Sócrates, o feiticeiro, de Nicolas Grimaldi (Edições Loyola).

[1] Em Cármides, de Platão.

[2] De fato, uma das acusações que levaram a sua pena de morte foi exatamente a de ateísmo: não seguir aos deuses locais, mas “à um outro deus desconhecido”.

[3] Ele também foi iniciado nos chamados Mistérios de Elêusis, embora muito pouco, ou quase nada para ser mais exato, nos tenha chegado acerca do significado oculto, esotérico, destes rituais.

[4] Há uma célebre e profundamente irônica crítica de Sócrates a escrita descrita no Fedro, de Platão.

[5] A pitonisa do Oráculo de Delfos uma vez lhe afirmou isso quando ele perguntou quem seria o homem mais sábio da Grécia. Ora, era ele mesmo!

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Jacques-Louis David, A morte de Sócrates); [ao longo] Google Image Search

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21.5.09

Lembrando de nós mesmos

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Os professores afirmam ser capazes de ensinar tudo, e assim de fabricar o homem completo. Sócrates nada ensina, não forma nem transforma ninguém. E contudo pode-se sair transformado de sua frequentação, e só ele é o mestre verdadeiro. Os outros vendem fórmulas que não passam de simulacros de realidade, evoluem no não-ser. Sócrates é o catalisador pelo qual vai poder revelar-se a marca divina escondida em nós. Não há meio de fazer tornar alguém um outro, se já não o for em si mesmo, de sorte que há alunos para os quais reconhece que nada pode fazer.

Daonde vem essa marca divina da qual Sócrates é o revelador? Encontramos as imagens da visão, da caverna, do vôo da alma, mas como essa busca é interior seu objeto está em nós mesmos. Longe de ser esquecimento de si, o êxtase socrático é sua descoberta. O divino não é uma figura da alteridade, mas da identidade. A busca obedece uma intimação: "Conhece-te a ti mesmo", que, é claro, nada tem a ver com a psicologia, seja geral ou individual. Conhecer-se, para Sócrates, é buscar o que se é realmente.

Somos nosso corpo? Mas como nesse caso teríamos uma identidade, já que ele muda constantemente? A idéia mesma de um Si exclui que a essência do ser humano resida na matéria que o compõe. Além disso, como um ser vivo poderia definir-se por algo não-vivo? Somos antes de tudo seres vivos, de modo que é pela vida que é preciso definir-nos. Ora, a vida diz-se psychè, o que faz que não seja outra coisa que a alma. A essência do vivente está por conseguinte em sua alma. E inversamente, como mostra o Fédon, a identidade da alma e da vida permite estabelecer a imortalidade da alma: a vida não pode morrer porque então não seria mais ela mesma. Essa incompatibilidade da vida e da morte vale também para a alma pelo fato de que não é outra coisa que a vida, como indica sua identidade nominal.

Sócrates é pois um revelador graças ao qual o discípulo vai empreender descobrir-se, isto é, ter acesso ao conhecimento de sua alma, que conserva ocultas dentro dela algumas lembranças do divino. É aqui que se articula a reminiscência: a alma, a psychè, já habitou no além, mas voltando para a terra tudo esqueceu [1]. O conhecimento verdadeiro consiste por conseguinte na tentativa de reencontrar essas lembranças perdidas. O problema teórico é de fato muito simples. Trata-se de encontrar uma resposta à questão de saber como a alma pode ter acesso ao divino - apesar de sua imortalidade - que conteria em si mesmo, por natureza, o saber divino; é que ela já o encontrou. Conhecer-se a si mesma consiste assim em reencontrar fragmentos de visões perdidas por ocasião da encarnação [2].

A reminiscência permite dar conta dos eixos essenciais que já destacamos. Explica que a alma possa ter acesso a uma visão do divino, e que o faça ao interrogar-se sobre si mesma. Nisso o método socrático é extremamente paradoxal. Essa método, a dialética ascensional, utiliza, por definição, a palavra, mas o que se trata de atingir é um saber indizível; e essa busca no mais profundo de si requer a presença ativa de um outro, que no entanto nada transmite. A palavra é o instrumento da descoberta do indizível, o outro é necessário para a descoberta de si, e o divino encontra-se no questionamento sobre esse Si. Não é no silêncio nem na solidão que se empreende a subida para o divino, que é de fato uma descida para dentro de Si, que não pode ser feita sem um outro [3].

***

[1] Porisso diz-se, com razão, que a teoria da reencarnação é muito mais antiga do que a da ressurreição, e talvez tenha surgido em um mesmo momento que a crença na vida após a morte. Ao associar a vida ao oposto da morte, Sócrates demonstra com lógica implacável que o que é vivo não pode morrer, e certamente já estava vivo antes de nascer. Por alguma razão o cristianismo primitivo deixou definitivamente para trás a crença na reencarnação à partir do século IV (aproximadamente), apesar de dever uma forte influência a fiolosofia socrática e estóica, talvez por influência do mesmo materialismo que sempre esteve presente no judaismo.

[2] Aqui também temos claramente o conceito de que a alma vive em algum lugar entre suas encarnações, tanto que adquire memórias que podem ser acessadas durante a encarnação atual. Dessa forma já temos pelo menos desde Sócrates (25 séculos atrás) a definição de que a reencarnação não é um ato instantâneo, como querem acreditar certos céticos que creditam toda teoria reencarnacionista antiga a uma associação direta com a mentempsicose.

[3] Assim como um olho não pode "ver a si mesmo", a alma também, se quer conhecer a si mesma, deve olhar uma outra alma, e nessa alma, a parte onde reside a excelência própria da alma. É observando o mundo e os seres que encontraremos os parâmetros para nosso próprio conhecimento (sophia) interno.

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Crédito da foto: Wikipedia ("A morte de Sócrates", Jacques-Louis David)

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15.5.09

Sócrates nas Nuvens

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Vejamos como se faz o encontro de Estrepsíades com o mestre (Sócrates como caricatura [1] em As nuvens de Aristófanes, o texto mais antigo a seu respeito). Um discípulo introduziu no "pensadeiro" (novamente, caricatura de uma "escola" socrática [2], na peça de Aristófanes) um novo aluno: Sócrates está no ar, num barquinho suspenso:

Ando nos ares e olho o sol. Nunca, com efeito, teria deslindado exatamente as coisas celestes se não tivesse elevado meu espírito e confundido meu pensamento sutil com o ar semelhante. Se tivesse ficado na terra para observar de baixo as regiões superiores, nunca teria descoberto nada; não, porque a terra forçosamente atrai para ela a seiva do pensamento. É exatamente o que acontece com o agrião. [As nuvens, 225-243]

Por trás da paródia, pode-se compreender, parece que Sócrates se arranca da terra e pratica uma ascensão do espírito que lhe permite o acesso às realidades superiores. Esse acesso supõe uma iniciação comparada à dos Mistérios [As nuvens, 258, 303] [3]. E, depois de ter ouvido as Nuvens, a alma de Estrepsíades [As nuvens, 319] começa a alçar seu vôo. Contudo, o conhecimento supõe aptidões, trabalho e uma verdadeira ascese: precisa-se de memória, de concentração e de resistência, de saber aguentar de pé as caminhadas, o frio e a fome [As nuvens, 412-416]. Quando chega o momento da iniciação, Estrepsíades, trêmulo, evoca a consulta do oráculo de Trofônios [As nuvens, 50]. Depois de uma lição de mestre de escola, em que Estrepsíades exibe claramente seus limites intelectuais, Sócrates o convida a passar para uma sessão de meditação, alongando-se sobre um catre, coberto de percevejos para a circunstância. O coro traz ao novo discípulo alguns conselhos:

Medita agora e examina a fundo, gira teu pensamento em todas as direções, recolhido sobre ti mesmo. Depressa, se cais em um impasse, salta para outra idéia de teu espírito; e que o sono doce ao coração esteja ausente de teus olhos. [As nuvens, 700-705]

Conselhos que parecem bastante técnicos, notadamente sobre o risco de pegar no sono, ao qual Sócrates está atento um pouco mais adiante [As nuvens, 732], quando vem perguntar a Estrepsíades sobre o resultado de sua meditação. A isso acrescenta uma indicação sugestiva: é preciso relaxar o espírito para que ele alce o vôo [As nuvens, 762].

A encenação e o conteúdo de paródia dos diálogos não devem iludir-nos: eliminando tudo que tem a ver com a intenção cômica, parecem desenhar-se certas características. Sócrates concebe o ensinamento como uma iniciação aos Mistérios, o conhecimento adquire-se no termo de um trabalho e de uma verdadeira ascese, que necessitam e qualidades naturais: além disso, é necessário praticar a meditação. Tudo isso permite destacar-se da terra, o que abre o caminho para o conhecimento.

Assim, abstraindo do tom e do conteúdo da paródia, Aristófanes confirma amplamente os aspectos de Sócrates que Platão evocava com a metáfora do xamanismo (em Cármides). A iniciação dos Mistérios resultava em uma visão, a epoptia, que aparece frequentemente no Sócrates de Platão, de modo que também nesse ponto Aristófanes traz uma preciosa caução ao testemunho de Platão.

Parece, pois, que o êxtase esteja no coração do pensamento de Sócrates. É nesse vôo da alma que ele pode contemplar a realidade, libertado da terra, e tenta, por uma combinação de disciplina intelectual, de ascese e de meditação, provocá-la em seus discípulos [4].

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[1] O autor, Duhot, postula exatamente que a caricatura não é completa, e que por detrás dela se revela o Sócrates "iniciado" que Platão procurou ocultar.

[2] Mais adiante o autor postula sobre a possibilidade de ter existido, e conclui que era apenas uma alusão a escola pitagórica, além de um lugar ficctício necessário ao roteiro da peça em si.

[3] Trata-se dos Mistérios de Elêusis: os sacerdotes de Elêusis ensinaram sempre a grande doutrina esotérica que lhes veio do Egito. Esses sacerdotes, porém, no decorrer do tempo, revestiram essa doutrina com o encanto de uma mitologia plástica, repleta de beleza.

[4] Dirigindo-se a Sócrates, o Alcibíades de O Banquete compara-o ao sátiro Mársias:

Mas, tu dirás, não és tocador de aulos (instrumento musical parecido com oboé). Sim, e bem mais extraordinário do que Mársias. Ele de fato servia-se de um instrumento para encantar os seres humanos com a ajuda do poder de seu sopro, e é o que se faz hoje em dia quando se tocam suas músicas no aulos. E as músicas de Mársias, se interpretadas por um bom tocador de aulos, são as únicas capazes de nos pôr em um estado de possessão, e porque são músicas divinas, capazes de fazer ver quais são os que têm necessidade dos deuses e de iniciações. Mas tu te distingues de Mársias em um só ponto: Não tens necessidade de instrumentos, e é proferindo simples palavras que produzes o mesmo efeito (...) Cada vez que a ti se ouve, ou se escuta uma pessoa que está transmitindo tuas falas (...) ficamos perturbados e possessos. (...) Quando lhe escuto meu coração bate muito mais forte do que o de Coribantes e suas palavras me tiram lágrimas. [O Banquete, 215 b-e]

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Crédito da foto: Wikipedia (tríade eleusiana)

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13.5.09

Atenas, Esparta e o humanismo

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Ao contrário de Atenas, Esparta não concebeu o projeto de construir um vasto império [1]. As molas da potência militar das duas cidades são diferentes. Atenas tem necessidade de dinheiro para construir frotas e pagar os marinheiros, os pobres apreciam esse soldo e os benefícios da guerra, e esse dinheiro exige o imperialismo que é a sua fonte. O dinheiro e o material encontram-se no coração desse encadeamento. Diante disso, Esparta conta essencialmente com os homens: forma guerreiros e apóia-se em seu valor. O dinheiro de um lado, e do outro o valor do homem. O Sócrates do Górgias critica assim o que está no centro do sistema, o Pireu e os Longos Muros que o ligam à cidade, conjunto que abre a cidade sobre o mar e seu império, ao mesmo tempo que a fecha para o acesso terrestre: não é sobre as fortificações materiais que deve repousar a potência verdadeira, mas sobre o homem. Além disso, enquanto a riqueza de Atenas é fundada também sobre o comércio marítimo, por sua vez possibilitado pelo domínio do mar e das costas, Esparta ignora a moeda, recusa o luxo e o comércio inútil e vive em autarquia.

Paradoxo no limite do inacreditável: é graças a uma reflexão sobre Esparta que se afirma a preeminência do homem. O modelo espartano ensina que os valores materiais são engodos, e que o ínico valor verdadeiro está no homem. A cidade é uma verdadeira escola, que se encarrega da criança muito cedo. O paradoxo está em que para os espartanos o homem é essencialmente o guerreiro, enquanto para Platão e, sem dúvida, para Sócrates o modelo espartano é transposto: a república ideal está centrada na formação do homem, concebido não mais como guerreiro, mas como filósofo (veremos aliás que Sócrates soube ser ambos) [2]. Essa cidade, que nos repugna por seu desprezo pelo homem, máquina desumanizante que choca nosso princípios, ocupa assim um lugar insuspeitável nas fontes do humanismo.

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[1] Mais adiante o autor irá afirmar que "Democracia, imperialismo e riqueza estão estritamente ligados em Atenas" - vale lembrar que a democracia ateniense é muito distinta da democracia atual; Ainda citando o autor: "É preciso dar-se conta que o sistema é tão perigoso que nenhuma democracia moderna se inspira nele: não são os cidadãos que tomam as decisões políticas, mas seus eleitos, que podem estudar os dossiês de maneira aprofundada. Transposta para época moderna, a democracia ateniense seria um governo por sondagens de opinião aquecida por uma imprensa arrebatada".

[2] Apesar de Sócrates ter sido militar, tenho sérias dúvidas acerca das ideologias políticas expostas em A Repúlica serem de fato originárias do próprio Sócrates, e não de Platão. Não me parece que Sócrates tinha qualquer vocação ou compromisso para com a política em si, tanto que usualmente demonstra até certo desprezo pelos políticos de sua época.

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Crédito da foto: Wikipedia (hoplita)

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