21.5.09

Lembrando de nós mesmos

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Os professores afirmam ser capazes de ensinar tudo, e assim de fabricar o homem completo. Sócrates nada ensina, não forma nem transforma ninguém. E contudo pode-se sair transformado de sua frequentação, e só ele é o mestre verdadeiro. Os outros vendem fórmulas que não passam de simulacros de realidade, evoluem no não-ser. Sócrates é o catalisador pelo qual vai poder revelar-se a marca divina escondida em nós. Não há meio de fazer tornar alguém um outro, se já não o for em si mesmo, de sorte que há alunos para os quais reconhece que nada pode fazer.

Daonde vem essa marca divina da qual Sócrates é o revelador? Encontramos as imagens da visão, da caverna, do vôo da alma, mas como essa busca é interior seu objeto está em nós mesmos. Longe de ser esquecimento de si, o êxtase socrático é sua descoberta. O divino não é uma figura da alteridade, mas da identidade. A busca obedece uma intimação: "Conhece-te a ti mesmo", que, é claro, nada tem a ver com a psicologia, seja geral ou individual. Conhecer-se, para Sócrates, é buscar o que se é realmente.

Somos nosso corpo? Mas como nesse caso teríamos uma identidade, já que ele muda constantemente? A idéia mesma de um Si exclui que a essência do ser humano resida na matéria que o compõe. Além disso, como um ser vivo poderia definir-se por algo não-vivo? Somos antes de tudo seres vivos, de modo que é pela vida que é preciso definir-nos. Ora, a vida diz-se psychè, o que faz que não seja outra coisa que a alma. A essência do vivente está por conseguinte em sua alma. E inversamente, como mostra o Fédon, a identidade da alma e da vida permite estabelecer a imortalidade da alma: a vida não pode morrer porque então não seria mais ela mesma. Essa incompatibilidade da vida e da morte vale também para a alma pelo fato de que não é outra coisa que a vida, como indica sua identidade nominal.

Sócrates é pois um revelador graças ao qual o discípulo vai empreender descobrir-se, isto é, ter acesso ao conhecimento de sua alma, que conserva ocultas dentro dela algumas lembranças do divino. É aqui que se articula a reminiscência: a alma, a psychè, já habitou no além, mas voltando para a terra tudo esqueceu [1]. O conhecimento verdadeiro consiste por conseguinte na tentativa de reencontrar essas lembranças perdidas. O problema teórico é de fato muito simples. Trata-se de encontrar uma resposta à questão de saber como a alma pode ter acesso ao divino - apesar de sua imortalidade - que conteria em si mesmo, por natureza, o saber divino; é que ela já o encontrou. Conhecer-se a si mesma consiste assim em reencontrar fragmentos de visões perdidas por ocasião da encarnação [2].

A reminiscência permite dar conta dos eixos essenciais que já destacamos. Explica que a alma possa ter acesso a uma visão do divino, e que o faça ao interrogar-se sobre si mesma. Nisso o método socrático é extremamente paradoxal. Essa método, a dialética ascensional, utiliza, por definição, a palavra, mas o que se trata de atingir é um saber indizível; e essa busca no mais profundo de si requer a presença ativa de um outro, que no entanto nada transmite. A palavra é o instrumento da descoberta do indizível, o outro é necessário para a descoberta de si, e o divino encontra-se no questionamento sobre esse Si. Não é no silêncio nem na solidão que se empreende a subida para o divino, que é de fato uma descida para dentro de Si, que não pode ser feita sem um outro [3].

***

[1] Porisso diz-se, com razão, que a teoria da reencarnação é muito mais antiga do que a da ressurreição, e talvez tenha surgido em um mesmo momento que a crença na vida após a morte. Ao associar a vida ao oposto da morte, Sócrates demonstra com lógica implacável que o que é vivo não pode morrer, e certamente já estava vivo antes de nascer. Por alguma razão o cristianismo primitivo deixou definitivamente para trás a crença na reencarnação à partir do século IV (aproximadamente), apesar de dever uma forte influência a fiolosofia socrática e estóica, talvez por influência do mesmo materialismo que sempre esteve presente no judaismo.

[2] Aqui também temos claramente o conceito de que a alma vive em algum lugar entre suas encarnações, tanto que adquire memórias que podem ser acessadas durante a encarnação atual. Dessa forma já temos pelo menos desde Sócrates (25 séculos atrás) a definição de que a reencarnação não é um ato instantâneo, como querem acreditar certos céticos que creditam toda teoria reencarnacionista antiga a uma associação direta com a mentempsicose.

[3] Assim como um olho não pode "ver a si mesmo", a alma também, se quer conhecer a si mesma, deve olhar uma outra alma, e nessa alma, a parte onde reside a excelência própria da alma. É observando o mundo e os seres que encontraremos os parâmetros para nosso próprio conhecimento (sophia) interno.

***

Crédito da foto: Wikipedia ("A morte de Sócrates", Jacques-Louis David)

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2 comentários:

Anonymous Rayom disse...

Sócrates e a maioria dos filósofos gregos sempre pontearam a lógica da existência. Deve-se a eles a sobrevivência da gnose filosófica que os gregos foram buscar lá atrás com os essênios, que por sua vez, trouxeram as idéias e cultos do budismo.

“Sócrates demonstra com lógica implacável que o que é vivo não pode morrer, e certamente já estava vivo antes de nascer”.

A Igreja sim, desconstruiu o gnosticismo antigo, substituindo as idéias sãs e lógicas sobre a reencarnação por outras prosaicas explicações, a despeito de os simbolismos do Velho Testamento e de algumas parábolas de Cristo serem legítimas referências.

No entanto, os cristão primitivos, – os inquestionáveis precursores do cristianismo, – foram adeptos da reencarnação tanto quanto os primeiros sacerdotes da Igreja Cristã nos seu verdadeiros primórdios.

Abs.

24/5/09 10:47  
Blogger raph disse...

"Deve-se a eles a sobrevivência da gnose filosófica que os gregos foram buscar lá atrás com os essênios, que por sua vez, trouxeram as idéias e cultos do budismo."

Não sei se é possível delinear uma influência direta, mas certamente essas idéias "corriam o mundo"... Acredito que Sócrates tenha entrado em contao com elas através dos Mistérios de Elêusis, como Duhot menciona (destacado por mim) no tópico "Sócrates nas Nuvens".

Mas Sócrates parece ter "desenvolvido" tais idéias ou pelo menos as compreendido profundamente (ao contrário da maior parte dos envolvidos nos cultos), tanto que da sua compreensão é possível até mesmo dizer que ocorreu o nascimento do Monoteismo no Ocidente (o que foi continuado pelos estóicos e depois deturpado por Constantino em sua edição dos testamentos).

Abs
raph

25/5/09 17:09  

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