Pular para conteúdo
11.5.10

O homem que afirmava levitar

Trecho do Projeto Ouroboros

(O.) Vamos dizer que tenhamos ouvido falar de um homem que afirma levitar. E vamos dizer que ele já tenha realizado o fenômeno algumas vezes na presença de inúmeras testemunhas, e que muitas delas afirmem que de fato este homem levitou bem à frente de seus olhos. Digamos também que ele tenha de realizar uma espécie de meditação e invocar alguma espécie de auxílio divino para realizar o fenômeno, mas que ainda assim não consiga levitar mais do que alguns palmos acima do chão.
Não retirei esse exercício mental do nada, ele reflete mais ou menos uma média das características do que o conhecimento popular afirma acerca do fenômeno da levitação, e das pessoas que dizem levitar.
Dito isso, o que vocês teriam a me dizer acerca da possibilidade? Provável, improvável, possível ou impossível?

(I.) Certamente possível, há inúmeros relatos de santos católicos que levitavam, assim como de xamãs e yogis... Mas creio que para tal fenômeno se realizar tais homens tenham de ter uma comunhão com Deus própria das grandes almas!

(P.) Absurdo! Se formos confiar em todos os relatos do que os santos, xamãs e yogis fazem, teríamos antes que afirmar que a gravidade “nem sempre é a mesma”. O sistema-natureza teria então os seus defeitos de funcionamento...

(S.) Eu preferia responder com outra indagação: E seriam tais homens mais ou menos sábios, mais ou menos conectados a Deus ou ao Cosmos, somente porque levitam a alguns palmos do chão?

(O.) Precisamente minha amiga. Há mesmo muitas perguntas que se tornam secundárias ante à perguntas ainda mais profundas... Você acaba de nos trazer um belo exemplo.
Quando tocamos no tema de fenômenos sobrenaturais, freqüentemente caímos na questão superficial: se Deus permite ou não permite, se intercede ou não intercede... Ora, e o que Deus tem a ver com isso? O que pode lhe interessar se um homem na periferia de uma de suas bilhões de galáxias vai ou não conseguir levitar alguns palmos do solo?
Se estivemos falando de igualdade universal, de como a gravidade e outras forças naturais afetam a todos e à todo momento, sem distinções, e que por isso mesmo esse sistema-natureza seria “perfeito” – ao menos no sentido de que sua totalidade induz ao florescimento da vida, sem que para tal algum Criador precise interceder, modificando ou deturpando suas próprias leis –, então a questão da levitação se torna secundária ante uma outra questão bem mais profunda: e Deus acaso se “disporia a atender” a todos os chamados desses homens que afirmam levitar?

(S.) Não se disporia. Se é que algum homem pode levitar, o faz por suas próprias forças e conhecimento...

(P.) Concordo plenamente. Hoje mesmo temos algumas tecnologias que permitem a levitação, como a dos modernos trens de Xangai. Se é verdade que é possível levitar objetos até mesmo milhares de vezes mais pesados que um ser humano, não acredito que um homem consiga fazer levitar-se apenas pela “força do pensamento”, por auxílio divino ou qualquer outro efeito sobrenatural parecido.

(I.) Decerto o fenômeno da levitação não é algo para ser utilizado de forma leviana, como que para entreter platéias... Acredito que Deus possa sim interceder a favor daqueles que entram em contato estreito com Ele, e estão em comunhão divina.
Porém, não creio que o fenômeno seja um fim em si mesmo, e sim apenas um efeito de tal contato direto com as forças divinas.

(O.) Bem, acho que podemos chegar num consenso prévio sobre o assunto, meu amigo: você diria então que o fenômeno da levitação, em sendo real, não deveria ser utilizado como um “teatro” ou “show de mágica”, visto que Deus não deveria se sujeitar a esse tipo de evento?

(I.) Certamente, isso é algo sagrado, próprio da comunhão divina dos grandes santos da humanidade.

(O.) Então, se acaso o homem de nosso exemplo não fosse um grande “santo”, poderíamos pressupor que a alegação de que ele pode levitar é falsa de antemão?

(I.) Sim. Correto.

(P.) Levanta a mão e intercede na conversa.
Permita-me comentar: muito provavelmente falsa. Mas não inteiramente falsa, visto que não fomos lá para ver por nós mesmos, ou realizar algum tipo de estudo ou experiência objetiva para comprovar se é ou não uma fraude.

(O.) Surpreso.
Mas você acabou de afirmar que não acredita que esse tipo de fenômeno seja possível.

(P.) Correto: e eu não acredito mesmo. Porém, não posso afirmar objetivamente que seja falso sem estar lá para ver ou realizar um estudo. Da mesma forma, não acredito no relato das levitações de santos católicos, xamãs, yogis e etc., mas não posso afirmar objetivamente que não ocorreram.
Isso é o cerne do ceticismo: não crer sem evidências, não descrer sem evidências. Mas toda a prova tem de ser objetiva, e cabe a quem afirma provar o fenômeno... Enquanto o tal homem que afirma levitar não provar sua afirmação em algum experimento objetivo, replicável, e que não dependa apenas de relatos subjetivos de sua platéia, eu me reservo ao direito de não acreditar.
Mas não posso julgá-lo uma fraude a priori, por mais absurda que seja a sua afirmação, sem ao menos estar presente em seu “espetáculo” e encontrar algum mecanismo secreto ou truque de mágica pelo qual ele faça sua “levitação”. E, da mesma forma, não posso afirmar que é impossível que ele consiga levitar. É, na minha opinião, algo extremamente implausível, mas não impossível...

(O.) Parabéns, eis uma coerência de pensamento notável.

(P.) Obrigado amigo. Eu acredito que se Deus existe, também trata e ama da mesma forma crentes e descrentes. Assim como os céticos oferecem iguais oportunidades para que todos comprovem suas alegações, têm de tomar o cuidado para não atacar injustamente aqueles que teoricamente afirmam coisas absurdas. A ausência de evidência não é uma evidência da ausência.
No entanto, se fica comprovada a fraude, tenho o direito de tratar o homem que afirma levitar como um falsário. Até lá, entretanto, nada posso afirmar sobre suas intenções...

(O.) Fico feliz que tenha encontrado tamanho senso de justiça independente da crença em um Deus pessoal. Mas prossigamos em nosso exercício mental...
Acredito que a questão não está em se Deus intercede ou não intercede. Como concluímos ao longo de nosso diálogo, as leis naturais já operam à todo momento e o sistema-natureza provavelmente não necessita de uma interferência divina, ou de um “milagre” ou evento sobrenatural. Afirmamos isso através de nossas conclusões lógicas, e não porque fomos investigar a todo e qualquer evento em que algum homem afirme levitar ou realizar quaisquer outros fenômenos do tipo.
Simpatizo com a abordagem de nosso amigo P. para com o assunto: há certos fenômenos realmente implausíveis, mas não podemos afirmar que sua totalidade seja formada por fraudes. Talvez ocorram fenômenos ainda desconhecidos da ciência, talvez o homem que afirme levitar realmente consiga afetar campos magnéticos ao redor de seu corpo e, com algum mecanismo mental desconhecido, levitar por alguns momentos a alguns palmos do chão.
Mas, se é que tais fenômenos são possíveis, acredito que deveríamos lhes dar outro título: paranormais, e não sobrenaturais. Pois na natureza não há nada que possa “entortar” ou “desligar” as forças e as leis naturais, sequer por alguns momentos... No entanto, toda nossa ciência dos mecanismos naturais é ainda precária e infantil, e me parece ser plausível que muitos dos fenômenos compreendidos como sobrenaturais sejam apenas fenômenos paranormais ainda incompreendidos pela ciência.
Se, por outro lado, Deus realmente intercedesse a favor de certos homens, por mais “santos” que fossem, para “desligar” a gravidade por alguns momentos, ele estaria sendo injusto – no sentido estrito de estar tratando aos seres de forma desigual, privilegiando alguns poucos “santos” em detrimento de todos os outros.
Há menos que o fenômeno seja paranormal, que dependa de alguma técnica ou mecanismo desconhecido da ciência, mas que repouse apenas na vontade e nas forças do ser em si, não acredito que devamos aceitá-lo como plausível. Ao menos não em detrimento de toda a noção de igualdade universal há que estivemos ligando o conceito de justiça divina. O que me dizem?

***

Crédito da imagem: Juanpri

Marcadores: , , , , ,

7 comentários:

Anonymous lucas disse...

como se entra nesse projeto?

29/5/10 00:41  
Blogger raph disse...

heh, só se for entrando na minha cabeça...

ainda tenho muita coisa sobre ele para postar ainda, assim mantenho o pessoal interessado enquanto escrevo :)

claro que, como se trata de um assunto sobre o qual lido no blog, qualquer conversa ou comentário pode influenciar potencialmente o projeto. porém, se trata de um livro autoral mesmo...

Abs
raph

29/5/10 03:48  
Blogger Uriann Rima disse...

Queria ver mais céticos racionais e cuidadoso nas palavras como este. *risos*

Ótima leitura, irei continuar lendo. Parabens. (:

23/11/12 16:25  
Blogger raph disse...

Obrigado, realmente o personagem é baseado em grandes céticos com quem tive o prazer de dialogar ao longo dos anos :)

Abs
raph

23/11/12 17:58  
Blogger Thiago Habib disse...

Estava conversando ontem mesmo com alguns amigos sobre a possibilidade da existência de milagres.
Eu não tinha lido esse post, mas era o Petrus na conversa... rs

7/5/13 18:17  
Blogger raph disse...

É um trecho do "Ad infinitum", que já foi lançado:

raph.com.br/tpr/

Abs
raph

7/5/13 22:16  
Anonymous Anônimo disse...

Não seria injusto a deus (quem quer que seja esse ser, não definido pelos debatedores) caso priorizasse alguns sobre os outros, se seu sistema de igualdade não fosse um tratamento igual a todos, mas sim um tratamento igual aos iguais, isso é, se houvesse uma base de comparação meritocrática entre os seres, e esse ser se pautasse nessa base para tratar de forma desigual aos desiguais.

Não que eu concorde com a ideia de um deus que faça tal coisa, mas esse é um ponto importante a se mencionar.

Também, no que diz respeito às leis naturais, elas são absolutas no estado em que são medidas por forças físicas - isso é, por não haver estudos quanto ao comportamento das leis físicas perante ações extra-físicas, é possível que essas leis elas mesmas se dobrem não à vontade divina, mas a forças extra-físicas vindas da pessoa. Nesse caso, haveria uma lei para o ambiente "livre de influência não-física" e outra lei para um ambiente "contaminado por influência não-física", ambas sendo essas sub-leis de uma lei geral multi-planos.

Também é possível que deus (o que quer que seja esse ser) seja injusto ou desigual, visto que a determinação de sua bondade ou equalidade são contemplações de uma possibilidade, e não dados factuais.

Por fim, vale dizer que há outras várias possibilidades que não incluem as citadas, e que podem se relacionar ao fenômeno. Poderia citar mais algumas, mas acho desnecessário.

1/3/15 02:19  

Postar um comentário

Toda reflexão é bem-vinda:

‹ Voltar a Home

Related Posts with Thumbnails