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29.7.11

4 amores, parte 3

« continuando da parte 2

Nós mesmos seremos amados por pouco tempo e depois esquecidos. Mas o amor terá sido suficiente; todos aqueles impulsos do amor retornam ao amor que os produziu. Mesmo a memória não é necessária no amor. Existe uma terra da vida e uma terra da morte e a ponte é o amor, a única sobrevivência, o único significado. (Thornton Wilder)

Filia: a felicidade

Em algum canto de 1969, um homem começa a falar do amor. É a primeira aula de um curso sem direito a créditos da Universidade da Califórnia do Sul (USC), nos EUA. O nome do curso é Love 1A, e quando Leo Buscaglia o propôs a reitoria, nem o seu prestígio como professor adorado pela grande maioria dos alunos evitou que tentassem dissuadi-lo da ideia. “Vai ser ridículo, qual aluno vai querer passar o semestre inteiro estudando sobre o amor?”.

No entanto, a primeira aula já conta com mais de 20 alunos. Em realidade, nos anos seguintes, o Love 1A se tornaria um sucesso estrondoso, com até 200 inscritos todo ano, e cerca de 600 na lista de espera (o que era, em todo caso, o máximo). Por todos os cantos do mundo dito civilizado, as pessoas suplicam por amor, por senti-lo, por compreendê-lo, por viver em seu nome... Mas quão poucas efetivamente dão ao menos um passo em sua direção. A aula do professor Buscaglia talvez fosse à maneira mais simples de começar a caminhada.

O Dr. Amor, como eventualmente chegou a ser conhecido, já como famoso palestrante da televisão americana, e tendo seus livros vendidos no mundo todo, nos contou sobre o principal motivo pelo qual tomou coragem para propor uma aula sobre o amor: “No inverno de 1969, uma de minhas alunas, inteligente e sensível, suicidou-se. Pertencia a uma distinta família de classe média alta. Seu aproveitamento escolar era excelente. Era muito querida por todos e tinha sempre programas para fazer. Num determinado dia de janeiro, foi de carro para os penhascos de Pacific Paradises, em Los Angeles, deixou o carro ligado, caminhou até a beira de um rochedo íngreme que se debruçava sobre o mar e pulou para a morte. Não deixou qualquer bilhete, nem uma palavra de explicação. Tinhas apenas 20 anos.”

Há muitos que dizem que o pós-modernismo comprovou a falência das ideologias racionalistas, que prometiam que a idade da razão, da ciência e da tecnologia, nos elevaria a um novo patamar de saúde, progressos e realizações. Na verdade o que aumentou foi nossa expectativa de vida e nosso índice de desenvolvimento humano, mas as questões profundas, espirituais, permaneceram sem solução... Buscaglia descobriu, talvez após passar dois anos viajando pelo Oriente, que não seriam os intelectuais, os cientistas, os padres e pastores, e muito menos o governo, quem resolveriam nossa questão com o amor – teríamos de buscá-lo por nós mesmos. Não são vacinas, comprimidos, carros do ano, livros de auto-ajuda, livros sagrados, sermões religiosos ou científicos, nem mesmo homens pregados em cruzes para morrer, quem nos salvam... Apenas o amor nos salva, e por isso era vital aprender a amar.

Após muito debater com os próprios alunos acerca do amor, e também se baseando na extensa obra de mais de 400 autores, Buscaglia chegou a algumas premissas básicas acerca do tema:

(a) Ninguém pode dar aquilo que não possui. Para dar amor, você deve ter o amor; (b) Ninguém pode ensinar aquilo que não sabe. Para ensinar o amor, você precisa compreendê-lo; (c) Ninguém pode conhecer aquilo que não estuda. Para estudar o amor, você precisa viver no amor; (d) Ninguém pode apreciar aquilo que não aceita. Para aceitar o amor, você deve tornar-se receptivo a ele; (e) Ninguém pode ter dúvida daquilo em que deseja acreditar. Para acreditar no amor, você deve estar convencido do amor; (f) Ninguém admite aquilo a que não se entrega. Para se entregar ao amor, você deve ser vulnerável a ele; e finalmente: (g) Ninguém vive aquilo a que não se dedica. Para se dedicar ao amor, você deve estar sempre crescendo no amor.

Ora, e o que seria exatamente crescer no amor? Em sua tentativa de equacionar o amor, os cientistas o chamaram de “uma relação de troca onde há benefícios mútuos”, e o colocaram como alguma espécie de atividade onde o produto final é, coletivamente, sempre superior ao estado inicial, individualmente. E os cientistas tinham razão. Mas aí está o estranho paradoxo: quem doa amor, nada perde, apenas ganha ainda mais amor. Eis que o amor empresta sua essência do infinito, e a matemática do infinito está além de qualquer razão, de qualquer equação...

Após ter passado pelos outros amores – porno, onde seres são utilizados como coisas; e eros, onde há um troca genuína, porém fugaz, de prazer –, acredito que finalmente tenhamos chegado a um patamar mais profundo: filia (ou philia) é a palavra grega para amizade e irmandade. Todos sabemos que o ato sexual tem sua duração, que apesar de poder ser prolongada por até mesmo por várias horas através de técnicas orientais pouco conhecidas da maioria, certamente não irá durar por semanas, muito menos por anos. Numa analogia, podemos afirmar que a paixão que se baseia na atração sexual também terá seus dias contados. Por muitos séculos, e através de muitas sociedades distintas, a principal função do amor era a reprodução e, quem sabe, a educação dos filhos. No final das contas, os casamentos serviam mais para que a continuidade do sangue familiar fosse garantida, do que para que houvesse efetivamente uma relação de amor entre os seres. Se não acreditam nisso, pesquisem sobre a história das monarquias europeias, e todos os seus reis e rainhas, e todos os seus casamentos “sagrados”.

Mesmo nas formas de poligamia, há muito das questões da reprodução e proteção mútua envolvidas. Nas épocas de escassez de alimentos e, sobretudo, nas épocas de guerras, eram as grandes famílias que sobreviviam, e muitas culturas optaram por não se limitar pela monogamia. Mas a monogamia existe, certamente que existe: temos raros e belos exemplos de homens e mulheres que permaneceram companheiros de outros homens ou mulheres por anos a fio; por vezes, por toda uma vida...

Ora, mas se formos analisar do ponto de vista pura e simplesmente evolucionista, mecanicista, animal, a monogamia é antes um grande desperdício: para que desperdiçar uma vida se reproduzindo apenas com uma outra pessoa, se teremos maiores chances de propagar nossos genes nos reproduzindo com o maior número de pessoas, e as mais saudáveis possíveis? Porque, enfim, sermos homossexuais, e, quando muito, adotarmos e criarmos os filhos dos outros, nos abstendo de propagar nossos próprios genes? Talvez, porque no fundo, aqueles que conseguiram chegar a esse patamar de amor são antes companheiros do que amantes, antes seres que buscam a fecundação de amizades, e não de óvulos.

Também no campo religioso, quem chega a essa distinta concepção do amor, não trata a Deus como um agente de barganhas ou um simples mantenedor de rituais sagrados. Antes o entendem como um amigo, aquele amigo que podem sempre contar, pois que hoje sabem que nunca os abandonou, e tampouco poderia abandonar – sua essência nos preenche a todos, ele está em tudo o que existe.

E é aqui, nessa distinta passada no caminho do infinito, que percebemos pela primeira vez o êxtase que se sinaliza no horizonte à frente... Pela primeira vez sentimos um facho de luz da felicidade pura a nos ricochetear pela alma – não aquela alegria que sempre esteve fadada a ser, brevemente, substituída por alguma tristeza, para logo após virar alegria novamente; mas antes aquele contentamento interno, aquela paz de espírito, aquela felicidade que permanece.

Todos somos ainda alunos do curso Love 1A, e foi exatamente um dos alunos de Buscaglia quem nos trouxe uma definição que talvez resuma da melhor forma essa espécie de amor de que estive falando:

“Acho que o amor é muito parecido com o espelho. Quando amo alguém, essa pessoa torna-se meu espelho e eu me torno o dela; e refletindo-se um no amor do outro, vemos o infinito”.

» Na continuação, o amor derradeiro: ágape... Antes, porém, trarei 3 posts que serão um interlúdio nesta série.

***

Nota: Todas as citações de Leo Buscaglia (e de seu aluno) foram retiradas de seu best-seller: “Amor” (Ed. Nova Era).

***

Crédito das fotos: [topo] Kate Mitchell/Corbis; [ao longo] Roger Ressmeyer/Corbis (Buscaglia em palestra ao ar livre).

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2 comentários:

Blogger Marcos Oliveira disse...

Perfeito! A série está ficando ótima, Raph! Você aceitou o desafio de escrever sobre algo tão difícil como o Amor e está conseguindo! Parabéns!

Eu não conhecia a obra do Buscagia, mas agora fiquei curioso para conhecer!

1/8/11 16:22  
Blogger raph disse...

Valeu Marcos, obrigado por acompanhar de perto a série :)

Mas o grande desafio vai ser falar sobre Ágape... Vamos ver hehe.

Sobre Buscaglia, tem dois livros extraordinários dele: além do próprio "Amor", gosto muito de "A história de uma folha", que é um livro para crianças, bem curtinho, mas que fala sobre a morte de uma forma belíssima.

Mas ele publicou vários livros, porém acho que esses se destacam dos demais.

Abs
raph

1/8/11 16:33  

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