Pular para conteúdo
12.9.11

A história de uma folha

Texto de Leo Buscaglia, tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. Este conto pode ser adquirido em formato de livro pela Ed. Record.

A primavera passou. E o verão também.

Era uma vez uma folha, que crescera muito. A parte intermediária era larga e forte, as cinco pontas eram firmes e afiladas.
Surgira na primavera, como um pequeno broto em um galho grande, perto do topo de uma árvore alta.
A folha estava cercada por centenas de outras folhas, iguais a ela. Ou, pelo menos, assim parecia. Mas não demorou muito para que descobrisse que não havia duas folhas iguais, apesar de estarem na mesma árvore. Alfredo era a folha mais próxima. Mário era a folha à sua direita. Clara era a linda folha por cima. Todos haviam crescido juntos. Aprenderam a dançar à brisa da primavera, a se esquentar indolentemente ao sol do verão, a se lavar na chuva fresca.

Mas Daniel era seu melhor amigo. Era a folha maior no galho e parecia que estava lá antes de qualquer outra. A folha achava que Daniel era também o mais sábio. Foi Daniel quem lhe contou que eram parte de uma árvore. Foi Daniel quem explicou que estavam crescendo num parque público. Foi Daniel quem revelou que a árvore tinha raízes fortes, escondidas na terra lá embaixo. Foi Daniel quem falou dos passarinhos que vinham pousar no galho e cantar pela manhã. Foi Daniel quem contou sobre o sol, a lua, as estrelas e as estações.

Fred adorava ser uma folha. Amava o seu galho, os amigos, o seu lugar bem alto no céu, o vento que o sacudia, os raios do sol que o esquentavam, a lua que o cobria de sombras suaves.
O verão fora excepcionalmente ameno. Os dias quentes e compridos eram agradáveis, as noites suaves eram serenas e povoadas por sonhos.
Muitas pessoas foram ao parque naquele verão. E sentavam sob as árvores. Daniel contou à folha que proporcionar sombra era um dos propósitos das árvores.
- O que é um propósito? - perguntou a folha.
- Um razão para existir - respondeu Daniel - tornar as coisas mais agradáveis para os outros é uma razão para existir. Proporcionar sombra aos velhinhos que procuram escapar do calor de suas casas é uma razão para existir.

A folha tinha um encanto todo especial pelos velhinhos. Sentavam em silêncio na relva fresca, mal se mexiam. E quando conversavam eram aos sussurros, sobre os tempos passados.
As crianças também eram divertidas, embora às vezes abrissem buracos na casa da árvore ou esculpissem seus nomes. Mesmo assim, era divertido observar as crianças.
Mas o verão da folha não demorou a passar.
E chegou ao fim numa noite de outubro. A folha nunca sentira tanto frio. Todas as outras folhas estremeceram com o frio. Ficaram todas cobertas por uma camada fina de branco, que num instante se derreteu e deixou-as encharcadas de orvalho, faiscando ao sol.

Mais uma vez, foi Daniel quem explicou que haviam experimentado a primeira geada, o sinal que era outono e que o inverno viria em breve.
Quase que imediatamente, toda a árvore, mais do que isso, todo o parque, se transformou num esplendor de cores. Quase não restava qualquer folha verde. Alfredo se tornou um amarelo intenso. Mário adquiriu um laranja brilhante. Clara virou um vermelho ardente. Daniel estava púrpura. E a folha ficou vermelha, dourada e azul. Todos estavam lindos. A folha e seus amigos converteram a árvore num arco-íris.
- Por que ficamos com cores diferentes, se estamos na mesma árvore? - perguntou a folha.
- Cada um de nós é diferente. Tivemos experiências diferentes. Recebemos o sol de maneira diferente. Projetamos a sombra de maneira diferente. Por que não teríamos cores diferentes?
Foi Daniel, como sempre, quem falou. E Daniel contou ainda que aquela estação maravilhosa se chamava outono.

E um dia aconteceu uma coisa estranha. A mesma brisa que, no passado, os fazia dançar começou a empurrar e puxar suas hastes, quase como se estivesse zangada. Isso fez com que algumas folhas fossem arrancadas de seus galhos e levadas pela brisa, reviradas pelo ar, antes de caírem suavemente ao solo.
Todas as folhas ficaram assustadas.
- O que está acontecendo? - perguntaram umas às outras, aos sussurros.
- É isso que acontece no outono - explicou Daniel - é o momento em que as folhas mudam de casa. Algumas pessoas chamam isso de morrer.
- E todos nós vamos morrer? – perguntou a folha
- Vamos sim - respondeu Daniel - tudo morre. Grande ou pequeno, fraco ou forte, tudo morre. Primeiro cumprimos a nossa missão. Experimentamos o sol e a lua, o vento e a chuva. Aprendemos a dançar e a rir. E, depois morremos.
- Eu não vou morrer! - exclamou Folha, com determinação - você vai, Daniel?
- Vou sim... Quando chegar meu momento.
- E quando será isso?
- Ninguém sabe com certeza - respondeu Daniel.

A folha notou que as outras folhas continuavam a cair. E pensou:
"Deve ser o momento delas."
Ela viu que algumas folhas reagiam ao vento, outras simplesmente se entregavam e caíam suavemente.
Não demorou muito para que a árvore estivesse quase despida.
- Tenho medo de morrer - disse a folha a Daniel - não sei o que tem lá embaixo.
- Todos temos medo do que não conhecemos. Isso é natural - disse Daniel para animá-la - mas você não teve medo quando a primavera se transformou em verão. E também não teve medo quando o verão se transformou em outono. Eram mudanças naturais. Por que deveria estar com medo da estação da morte?

- A árvore também morre? - perguntou a folha.
- Algum dia vai morrer. Mas há uma coisa que é mais forte do que a árvore. É a Vida. Dura eternamente e somos todos uma parte da Vida.
- Para onde vamos quando morrermos?
- Ninguém sabe com certeza... É o grande mistério.
- Voltaremos na primavera?
- Talvez não, mas a Vida voltará.
- Então qual é a razão para tudo isso? - insistiu a folha - Por que viemos para cá, se no fim teríamos de cair e morrer?
Daniel respondeu no seu jeito calmo de sempre:
- Pelo sol e pela lua. Pelos tempos felizes que passamos juntos. Pela sombra, pelos velhinhos, pelas crianças. Pelas cores do outono, pelas estações. Não é razão suficiente?
Ao final daquela tarde, na claridade dourada do crepúsculo, Daniel se foi. E caiu a flutuar. Parecia sorrir enquanto caía.
- Adeus por enquanto – disse ele à folha.

E, depois, a folha ficou sozinha, a única que restava em seu galho.

A primeira neve caiu na manhã seguinte. Era macia, branca e suave. Mas era muito fria. Quase não houve sol naquele dia... e foi um dia muito curto. A folha se descobriu a perder a cor, a ficar cada vez mais frágil. Havia sempre frio e a neve pesava sobre ela.
E quando amanheceu veio o vento que arrancou a folha de seu galho. Não doeu. Ela sentiu que flutuava no ar, muito serena.
E, enquanto caía, ela viu a árvore inteira pela primeira vez.

Como era forte e firme! Teve certeza de que a árvore viveria por muito tempo, compreendeu que fora parte de sua vida. E isso deixou-a orgulhosa.

A folha pousou num monte de neve. Estava macio, até mesmo aconchegante. Naquela nova posição, a folha estava mais confortável do que jamais sentira. Ela fechou os olhos e adormeceu.
Não sabia que a primavera se seguiria ao inverno, que a neve se derreteria e viraria água. Não sabia que a folha que fora, seca e aparentemente inútil, se juntaria com a água e serviria para tornar a árvore mais forte. E, principalmente, não sabia que ali, na árvore e no solo, já havia planos para novas folhas na primavera...

O começo!

***

Comentário
Este é um dos grandes clássicos da literatura infanto-juvenil. Buscaglia consegue falar sobre a morte de forma leve e branda, embora não recorra a fábulas para amenizar o desconhecido e o mistério... Em muitos sites esse texto se encontra incompleto, sem os parágrafos finais, talvez por remeterem a um conceito de reencarnação – ao qual nem todos são simpáticos.

***

Crédito das fotos: [topo] Richard Murkland; [ao longo] Dan Sherman.

Marcadores: , , , , ,

30.7.11

Buscaglia no Camboja

Parte (1 de 3) do interlúdio da série de artigos "4 amores"

Neste trecho do livro "Vivendo, Amando e Aprendendo" (ed. Nova Era), Leo Buscaglia nos fala sobre os anos que passou na Ásia, e sobre a grande lição que aprendeu no Camboja - uma lição sobre a transitoriedade da vida, e a permanência do amor:

O vídeo foi criado por alunos de Publicidade da UNIFIEO.

Marcadores: , , , , ,

29.7.11

4 amores, parte 3

« continuando da parte 2

Nós mesmos seremos amados por pouco tempo e depois esquecidos. Mas o amor terá sido suficiente; todos aqueles impulsos do amor retornam ao amor que os produziu. Mesmo a memória não é necessária no amor. Existe uma terra da vida e uma terra da morte e a ponte é o amor, a única sobrevivência, o único significado. (Thornton Wilder)

Filia: a felicidade

Em algum canto de 1969, um homem começa a falar do amor. É a primeira aula de um curso sem direito a créditos da Universidade da Califórnia do Sul (USC), nos EUA. O nome do curso é Love 1A, e quando Leo Buscaglia o propôs a reitoria, nem o seu prestígio como professor adorado pela grande maioria dos alunos evitou que tentassem dissuadi-lo da ideia. “Vai ser ridículo, qual aluno vai querer passar o semestre inteiro estudando sobre o amor?”.

No entanto, a primeira aula já conta com mais de 20 alunos. Em realidade, nos anos seguintes, o Love 1A se tornaria um sucesso estrondoso, com até 200 inscritos todo ano, e cerca de 600 na lista de espera (o que era, em todo caso, o máximo). Por todos os cantos do mundo dito civilizado, as pessoas suplicam por amor, por senti-lo, por compreendê-lo, por viver em seu nome... Mas quão poucas efetivamente dão ao menos um passo em sua direção. A aula do professor Buscaglia talvez fosse à maneira mais simples de começar a caminhada.

O Dr. Amor, como eventualmente chegou a ser conhecido, já como famoso palestrante da televisão americana, e tendo seus livros vendidos no mundo todo, nos contou sobre o principal motivo pelo qual tomou coragem para propor uma aula sobre o amor: “No inverno de 1969, uma de minhas alunas, inteligente e sensível, suicidou-se. Pertencia a uma distinta família de classe média alta. Seu aproveitamento escolar era excelente. Era muito querida por todos e tinha sempre programas para fazer. Num determinado dia de janeiro, foi de carro para os penhascos de Pacific Paradises, em Los Angeles, deixou o carro ligado, caminhou até a beira de um rochedo íngreme que se debruçava sobre o mar e pulou para a morte. Não deixou qualquer bilhete, nem uma palavra de explicação. Tinhas apenas 20 anos.”

Há muitos que dizem que o pós-modernismo comprovou a falência das ideologias racionalistas, que prometiam que a idade da razão, da ciência e da tecnologia, nos elevaria a um novo patamar de saúde, progressos e realizações. Na verdade o que aumentou foi nossa expectativa de vida e nosso índice de desenvolvimento humano, mas as questões profundas, espirituais, permaneceram sem solução... Buscaglia descobriu, talvez após passar dois anos viajando pelo Oriente, que não seriam os intelectuais, os cientistas, os padres e pastores, e muito menos o governo, quem resolveriam nossa questão com o amor – teríamos de buscá-lo por nós mesmos. Não são vacinas, comprimidos, carros do ano, livros de auto-ajuda, livros sagrados, sermões religiosos ou científicos, nem mesmo homens pregados em cruzes para morrer, quem nos salvam... Apenas o amor nos salva, e por isso era vital aprender a amar.

Após muito debater com os próprios alunos acerca do amor, e também se baseando na extensa obra de mais de 400 autores, Buscaglia chegou a algumas premissas básicas acerca do tema:

(a) Ninguém pode dar aquilo que não possui. Para dar amor, você deve ter o amor; (b) Ninguém pode ensinar aquilo que não sabe. Para ensinar o amor, você precisa compreendê-lo; (c) Ninguém pode conhecer aquilo que não estuda. Para estudar o amor, você precisa viver no amor; (d) Ninguém pode apreciar aquilo que não aceita. Para aceitar o amor, você deve tornar-se receptivo a ele; (e) Ninguém pode ter dúvida daquilo em que deseja acreditar. Para acreditar no amor, você deve estar convencido do amor; (f) Ninguém admite aquilo a que não se entrega. Para se entregar ao amor, você deve ser vulnerável a ele; e finalmente: (g) Ninguém vive aquilo a que não se dedica. Para se dedicar ao amor, você deve estar sempre crescendo no amor.

Ora, e o que seria exatamente crescer no amor? Em sua tentativa de equacionar o amor, os cientistas o chamaram de “uma relação de troca onde há benefícios mútuos”, e o colocaram como alguma espécie de atividade onde o produto final é, coletivamente, sempre superior ao estado inicial, individualmente. E os cientistas tinham razão. Mas aí está o estranho paradoxo: quem doa amor, nada perde, apenas ganha ainda mais amor. Eis que o amor empresta sua essência do infinito, e a matemática do infinito está além de qualquer razão, de qualquer equação...

Após ter passado pelos outros amores – porno, onde seres são utilizados como coisas; e eros, onde há um troca genuína, porém fugaz, de prazer –, acredito que finalmente tenhamos chegado a um patamar mais profundo: filia (ou philia) é a palavra grega para amizade e irmandade. Todos sabemos que o ato sexual tem sua duração, que apesar de poder ser prolongada por até mesmo por várias horas através de técnicas orientais pouco conhecidas da maioria, certamente não irá durar por semanas, muito menos por anos. Numa analogia, podemos afirmar que a paixão que se baseia na atração sexual também terá seus dias contados. Por muitos séculos, e através de muitas sociedades distintas, a principal função do amor era a reprodução e, quem sabe, a educação dos filhos. No final das contas, os casamentos serviam mais para que a continuidade do sangue familiar fosse garantida, do que para que houvesse efetivamente uma relação de amor entre os seres. Se não acreditam nisso, pesquisem sobre a história das monarquias europeias, e todos os seus reis e rainhas, e todos os seus casamentos “sagrados”.

Mesmo nas formas de poligamia, há muito das questões da reprodução e proteção mútua envolvidas. Nas épocas de escassez de alimentos e, sobretudo, nas épocas de guerras, eram as grandes famílias que sobreviviam, e muitas culturas optaram por não se limitar pela monogamia. Mas a monogamia existe, certamente que existe: temos raros e belos exemplos de homens e mulheres que permaneceram companheiros de outros homens ou mulheres por anos a fio; por vezes, por toda uma vida...

Ora, mas se formos analisar do ponto de vista pura e simplesmente evolucionista, mecanicista, animal, a monogamia é antes um grande desperdício: para que desperdiçar uma vida se reproduzindo apenas com uma outra pessoa, se teremos maiores chances de propagar nossos genes nos reproduzindo com o maior número de pessoas, e as mais saudáveis possíveis? Porque, enfim, sermos homossexuais, e, quando muito, adotarmos e criarmos os filhos dos outros, nos abstendo de propagar nossos próprios genes? Talvez, porque no fundo, aqueles que conseguiram chegar a esse patamar de amor são antes companheiros do que amantes, antes seres que buscam a fecundação de amizades, e não de óvulos.

Também no campo religioso, quem chega a essa distinta concepção do amor, não trata a Deus como um agente de barganhas ou um simples mantenedor de rituais sagrados. Antes o entendem como um amigo, aquele amigo que podem sempre contar, pois que hoje sabem que nunca os abandonou, e tampouco poderia abandonar – sua essência nos preenche a todos, ele está em tudo o que existe.

E é aqui, nessa distinta passada no caminho do infinito, que percebemos pela primeira vez o êxtase que se sinaliza no horizonte à frente... Pela primeira vez sentimos um facho de luz da felicidade pura a nos ricochetear pela alma – não aquela alegria que sempre esteve fadada a ser, brevemente, substituída por alguma tristeza, para logo após virar alegria novamente; mas antes aquele contentamento interno, aquela paz de espírito, aquela felicidade que permanece.

Todos somos ainda alunos do curso Love 1A, e foi exatamente um dos alunos de Buscaglia quem nos trouxe uma definição que talvez resuma da melhor forma essa espécie de amor de que estive falando:

“Acho que o amor é muito parecido com o espelho. Quando amo alguém, essa pessoa torna-se meu espelho e eu me torno o dela; e refletindo-se um no amor do outro, vemos o infinito”.

» Na continuação, o amor derradeiro: ágape... Antes, porém, trarei 3 posts que serão um interlúdio nesta série.

***

Nota: Todas as citações de Leo Buscaglia (e de seu aluno) foram retiradas de seu best-seller: “Amor” (Ed. Nova Era).

***

Crédito das fotos: [topo] Kate Mitchell/Corbis; [ao longo] Roger Ressmeyer/Corbis (Buscaglia em palestra ao ar livre).

Marcadores: , , , , , , , ,