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14.10.11

Almas egípcias

Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 162 a 167. Os comentários ao final são meus.

Eis um defunto dono de sua Bela Casa da Eternidade. O feitio da tumba evoluiu no decurso de três milênios. A tumba escavada na falésia substituiu a pirâmide e a mastaba, mas um sarcófago ficou dissimulado num poço funerário subterrâneo ou no maior segredo possível.

Este lugar oculto é precedido de uma porta aberta, acessível do exterior: a capela, dotada de uma estrela sobre a qual está gravado o nome, ou, eventualmente, a efígie do morto. Aqui encontra-se a mesa de oferendas. Uma porta virtual, imitação em pedra de uma porta verdadeira, liga espiritualmente as duas salas, a de baixo e a do Além. Só o morto a pode transpor para ir buscar as oferendas que lhe são levadas: pão, legumes, aves e carne vermelha nos dias de festa. Ele aprecia particularmente o incenso que satisfaz o seu olfato, e a cerveja ou a água fresca, visto que habita na orla do deserto.

Os seus filhos devem abastecê-lo com regularidade. Muitas vezes o defunto institui, enquanto vivo, uma doação para a Eternidade, e assim os sacerdotes funerários velam pela manutenção do culto, que fornece sustento ao clero do templo, atendendo a que as oferendas são levadas para a sua mesa.

Contudo, a experiência revelou aos Egípcios, sobretudo durante os períodos intermediários de desordem, que nada perdura neste mundo, nem mesmo as doações eternas. A acreditar na magia da imagem e da escrita, e no poder da palavra, eles tomaram o cuidado de representar também as oferendas nas paredes, ou inscrevê-las em hieróglifos.

Assim, seria suficiente pronunciar o nome das dádivas para que o defunto as pudesse apreciar. É a razão desta prece, inscrita sobre muitas peças decorativas: Vós que viveis na terra e que passeis diante desta estrela, indo e vindo, se ameis a vida e detesteis a morte, dizei que há mil pães e mil potes de cerveja.

Passando pela porta fictícia do seu túmulo, o morto pode vir deliciar-se com as dádivas que lhe são oferecidas e manifestar-se de diversas maneiras, visto que a simples dualidade do corpo e do espírito não satisfaz o pensamento egípcio. Para os Egípcios, a personalidade humana é composta de um corpo material associado a vários princípios espirituais.

Tanto quanto possível, a mumificação evita que o corpo se decomponha, mas se ele se altera ou é queimado, os outros elementos a que se religou são destruídos com ele, a não ser que, dentro do túmulo, se tenha posto um corpo de reserva, uma estátua. Não é muito importante que ela se lhe assemelhe, mas é indispensável que indique o respectivo nome, porque este elemento é essencial ao homem, que, sem ele, não tem personalidade nem, consequentemente, qualquer hipótese de sobrevivência.

O que nós entendemos por alma, difere da noção que os Egípcios tinham de vários princípios espirituais: o ka, o ba, e o akh, e ainda a personalidade que comporta também uma sombra, o shouyt.

O ka é a energia vital, o que mantém a vida. É a ele que se destinam as oferendas, atendendo a que lhe é necessária a alimentação. Quando um homem nasce, o seu ka é modelado pelo deus criador Khnum, no seu torno de oleiro, e nunca mais o deixa. Ele é representado por dois braços erguidos.

O ba corresponde mais à ideia que fazemos de alma e pode afastar-se do corpo mas deve voltar para ele. É simbolizado por um pássaro com cabeça humana, firmado nos ramos de um sicômoro, ao lado do túmulo ou voando nos arredores: Tu sobes, tu desces [...]/ Tu deslizas como o teu coração deseja, / Tu sais do teu túmulo todas as manhãs / Tu regressas todas as noites.

O fato de o morto poder deslocar-se, deixando o seu túmulo, também comporta perigos: Um terceiro princípio espiritual denomina-se akh e pode atormentar os vivos como uma espécie de espírito. Um viúvo do Novo Império implora ao espírito Anchiri numa carta que a sua esposa defunta o deixe em paz, senão ele ver-se á obrigado a apresentar queixa junto aos deuses do Ocidente.

Também havia juízes no Além e antes que um defunto fosse ali acolhido, deveria apresentar-se diante dele – na sua totalidade, com todas as suas partes componentes.

O tribunal divino tem sede na Sala da plena Justiça, onde, o submundo e o Além estão em contato, e onde se situa uma grande balança. O coração do morto é colocado sobre um prato na balança sob a vigilância de Anúbis e de Toth, o deus-escriba. (Para os Egípcios, o coração é o centro real da personalidade, o assento da razão, da vontade e da consciência moral). No outro prato encontra-se uma pluma, símbolo de Maât, a ordem divina. Se os dois pratos se equilibram, o defunto está absolvido.

A vida terrena do difunto é, portanto, aqui avaliada segundo o ideal da justiça divina, e muitos raros são aqueles que estão à altura dum tal julgamento que todos receiam, porque, ao lado da balança está presente a Grande Devoradora, um monstro híbrido de crocodilo, pantera e hipopótamo, pronto a devorar o defunto se o seu coração tiver um peso excessivo. Este seria o pior dos castigos imagináveis, o aniquilamento total, a morte absoluta sem esperança de ressurreição. Mas os Egípcios estavam prevenidos e tomaram precauções enquanto viveram.

Entre as pernas de grande número de múmias, envolvidos nas suas faixas de linho, há rolos de papiro que contêm fórmulas e imagens que servem de guia para a viagem no Império dos Mortos. [...] Um certo processo de democratização permitiu, mais tarde, que os funerários e sacerdotes bem sucedidos levassem com eles estas instruções. As informações que auxiliavam o defunto estavam inscritas sobre os caixões, e mais tarde em papiros. O Livro dos Mortos podia comprar-se completamente pronto, bastando acrescentar-lhe o nome do proprietário. Custava tanto como duas vacas, um escravo ou seis meses do que era pago a um operário, do que resultava não ser acessível às classes sociais inferiores.

Este guia para o uso no Além, que teria sido redigido pelo próprio Toth, deus da sabedoria, não se refere apenas aos perigos que espreitam o viajante no outro mundo. Incluía também receitas mágicas para os atenuar, ou seja, cerca de duzentas fórmulas que, pronunciadas no momento exato, afastariam o viajante de um passo em falso.

[...] De fato, o texto é uma conjuração: encantados pelas fórmulas e pelas representações mágicas do papiro, os pratos da balança equilibravam-se e os juízes anunciavam que o defunto está em harmonia com a ordem divina: Está justificado. A Devoradora não terá direito sobre ele.

***

Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.

Como podemos ver no texto acima, que trata das crenças egípcias ligadas aos seus rituais funerários, muitos dos mitos dessa civilização quase perdida em realidade penetram até hoje no íntimo de nossa sociedade, ou pelo menos da parte que bebeu da cultura egípcia através do que os gregos nos transmitiram dela... Isso demonstra, principalmente, que a espiritualidade humana é mesmo muito, muito antiga, provavelmente tão antiga quanto à primeira comunidade de caçadores-coletores; E todos esses séculos a nos separar no final das contas não nos separam tanto assim.

Para os leigos – mesmo o grande Heródoto tirou conclusões errôneas de sua passagem pelo Egito – a civilização egípcia consistia de uma única cultura que perdurou idêntica durante milênios, em que os homens e mulheres adoravam estranhos seres com cabeça de cachorro ou de águia. Para os iniciados – ou, pelo menos, os realmente curiosos – o Egito é uma concha de retalhos de várias culturas e povos se mesclando através de guerras e períodos de paz, e os deuses nada mais são do que reflexos de nossos questionamentos espirituais mais profundos. E ainda hoje o são, embora com outros nomes, desde heróis de quadrinhos até conceitos algo estranhos como “o gene da fé”.

***

Crédito das imagens: [topo] Roger Wood/Corbis (escultura do deus Anúbis); [ao longo] Philip de Bay/Historical Picture Archive/Corbis (o julgamento dos mortos, onde se vê Toth como um babuíno).

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5 comentários:

Anonymous Kpaxx disse...

Texto interessantíssimo.Comentários excelentes.Parabéns!

15/10/11 15:31  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Mas eles não acreditavam na reencarnação? Se o coração se equilibrasse ele reencarnaria, é isso? E se não equilibrasse, o que significa ser consumido pela devoradora? não reencarnar mais? Deixar completamente de existir?

Valeu.

9/8/12 13:58  
Blogger raph disse...

Acredito que por toda a história humana, sempre houveram os místicos e espiritualistas que compreendia a reencarnação e o carma, enquanto que uma outra parcela, provavelmente a maioria, interpretava a reencarnação e a espiritualidade de forma superficial, ou também, é claro, sequer acreditava em reencarnação. Isso decerto também ocorria no Egito Antigo.

Dito isso, acredito que "fugir da Devoradora" seria fugir do Umbral da própria alma, ou da culpa acumulada - para ser mais direto: do inferno que se armaria na própria consciência, na própria alma, quando reavalia seus atos da vida anterior.

Abs
raph

9/8/12 18:35  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Legal. Pode ser.

10/8/12 10:13  
Anonymous Leonardo disse...

A grande devoradora, ou seja, Ammut a fera que devorava o morto se seu coração pesasse mais q a pena, se devorada a alma o morto jamais teria a oportunidade de seguir seu caminho

10/11/13 19:29  

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