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19.11.11

Egito perdido, Egito reencontrado

Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 218 a 221. Os comentários ao final são meus.

O incêndio da biblioteca de Alexandria teria destruído 700.000 documentos referentes à civilização faraônica; aí se encontrava, entre outros, o único exemplar completo da lista dos reis, redigido pelo sacerdote Manétho. Considera-se que esta catástrofe pôs termo ao legado do Antigo Egito, ainda que dela se ignore a data precisa. Em 48 a.C., quando César mandou incendiar os seus arsenais, ter-se-ia propagado o fogo ao célebre templo-biblioteca? Teria sido em 391, quando o imperador romano Teodósis I, querendo impor o cristianismo como religião oficial, mandou saquear os templos pagãos? Segundo uma terceira visão, os manuscritos – ou o que deles restava – foram queimados por ordem do califa Omar.

Talvez que a biblioteca tenha sido por três vezes presa das chamas. Os manuscritos são material tão combustível que não é difícil admiti-lo. Mas nada proíbe considerar também que este incêndio tenha sido mais fictício que real [1]. As gerações seguintes se recusaram a aceitar o fim de uma grande e misteriosa tradição que [...] havia se arrastado através dos séculos.

Com efeito, as ideias religiosas dos Antigos Egípcios estavam em vias de desaparecer, e a expansão agressiva do cristianismo, e depois do Islã, aceleraram este processo. No Antigo Egito, a vida espiritual estava ligada ao templo. Assim que o clero deixou de ser legitimado ou mantido pelos soberanos locais ou pela população, a base material desapareceu.

Os sacerdotes desapareceram e o conhecimento dos hieróglifos e de outras escritas egípcias extinguiram-se com eles [2]. Foi o declínio da religião, e não as chamas, a causa do termo deste universo.

Uma herança misteriosa
Na Itália, particularmente em Roma, o culto de Ísis, originário do Egito, popularizou-se durante muito tempo, e os monumentos egípcios continuaram a fascinar os viajantes. [...] O imperador Augusto, no ano de 10 a.C., mandou que pela primeira vez se transportasse um obelisco para Roma, que hoje se encontra na Piazza de Popolo. Ergue-se em frente a São Pedro, e a cruz que lhe ornamenta o cimo assinala, de longe, que o cristianismo domina todas as outras religiões, ainda que podendo considerar-se outra interpretação, visto que os ensinamentos cristãos se apoiam na sabedoria egípcia: numerosas imagens e histórias bíblicas são provenientes do Nilo [3].

Os Egípcios pensavam que Deus tinha formado o homem com barro, concepção esta que se encontra no Antigo Testamento. O inferno cristão lembra o submundo egípcio, com os perigos e os castigos que espreitam os defuntos, e os faraós subiram ao céu anteriormente a Cristo [4]. O príncipe da Ressurreição era bem conhecido dos Egípcios, graças ao exemplo de Osíris despedaçado, cujos bocados foram reunidos por Isís, a grande Mãe, tal como Maria, venerada pelos católicos. As similaridades na concepção de Deus são notáveis: o Cristo, cordeiro pascal; a pomba do Espírito Santo correspondente à tradição egípcia, segundo o que os deuses se oferecem sob a forma animal. Quanto à Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – toda ela é simples e tipicamente egípcia – as divindades manifestam-se sob diferentes formas, são conteúdo de uma e de outra e reagrupam-se preferencialmente em tríades [5].

Os Egípcios já contavam histórias que nos parecem inseparáveis da Natividade bíblica, como por exemplo a deusa Ísis, que prestes a ser mãe, procura um albergue, e, rejeitada por várias grandes damas, deu à luz ao seu filho no pobre abrigo de uma filha de lameiros. Ou como a de Quéops, que, como Herodes, quis mandar matar três dos seus filhos porque uma predição anunciou que eles se disputariam. No que diz respeito aos símbolos visuais, a cruz copta, a dos cristãos egípcios, é descendente direta da cruz alada, a chave da vida dos Egípcios [6].

Seria possível prosseguir indefinidamente por esta via. Estes exemplos não questionam a essência dos ensinamentos cristãos, mas abalam a concepção da Igreja, segundo a qual os textos bíblicos teriam sido, por assim dizer, ditados por Deus. Os historiadores da região sabem desde há muito que nesses textos se encontra algo do legado egípcio, e sem que os crentes tenham consciência disso, as ideias herdadas da civilização faraônica mantêm-se vivas.

A Terra negra
Os Egípcios também inventaram o calendário, dividindo o dia em 24 horas e o ano em 365 dias. Resolveram alguns problemas matemáticos e redigiram listas de doenças com as respectivas terapias. Os seus conhecimentos foram transmitidos e evoluíram por intermédio dos Gregos e dos Romanos. Mas o seu ideal de equidade e retidão, exemplar no plano da vida social, é pelo menos igualmente importante. Maât simboliza a justiça à qual todos os homens estão sujeitos – particularmente os reis – e ensina que a justiça deve ser exercida independentemente do poder. Na Europa, a deusa continua a existir sob os traços da Justiça. Nas democracias ocidentais a justiça é devida, a par do governo e do parlamento, como a terceira potência independente no centro do Estado.

Os Egípcios mostraram-nos o caminho de uma outra herança do Egito faraônico que é a alquimia que visa entre outros objetivos, fabricar o elixir da imortalidade. Este desejo de imortalidade explica a concepção egípcia da preservação do corpo defunto, que será reanimado pela alma no Além.

Vários símbolos da alquimia são também egípcios: a serpente ouroboros que morde a cauda simboliza a eternidade, e a fênix que renasce das próprias cinzas representa a ressurreição. Alexandria foi considerada o berço da alquimia. Seu pai era o deus Hermes Trimegisto, que se identifica com Toth, deus egípcio da Sabedoria e da Escrita, aquele que guia as almas no submundo. A química, tal como nós a consideramos, desenvolveu-se a partir das experiências e das técnicas dos alquimistas. Aliás, o seu nome evoca a sua origem. Kemet significa em egípcio arcaico, Terra negra; Kemet é lodo negro dos campos do Nilo, e o nome que seus habitantes deram ao Egito [7].

***

Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.

[1] Independente do legado faraônico ter ou não sido extinto por conta da destruição da grande biblioteca, fato é que sua destruição ocorreu (mesmo que em vários incêndios em separado), e que com ela se perderam grandes escritos não só dos egípcios, como dos gregos – por exemplo, Aristarco de Samos já previa na época que os planetas giravam em torno do Sol, a perda de sua obra atrasou em muito o desenvolvimento da astronomia.

[2] Somente em 1822 o jovem e genial linguista francês Jean-François Champollion decifrou a escrita em hieróglifos a partir de comparação com um mesmo texto em grego, na famosa Pedra de Roseta. Estava então fundada a egiptologia. Segundo alguns reencarnacionistas de renome, Champollion fora ele próprio um sacerdote egípcio em vidas passadas...

[3] Como ficará bem demonstrado no texto que se segue, em realidade as guerras religiosas conseguem que uma igreja seja vitoriosa sobre um território (e isso, obviamente, quase nada tem a ver com religião), mas raramente os mitos antigos são suprimidos, na verdade são incorporados as novas doutrinas dominantes, sem jamais desaparecer por completo. Considerar que o cristianismo se baseia numa doutrina que teoricamente condena o paganismo é de uma ironia monumental...

[4] A grande diferença entre o Hades e o Inferno, é que no primeiro os sofrimentos são proporcionais aos pecados, enquanto que no último ladrões de galinha e assassinos aparentemente sofrem igualmente a mesma punição (algo como queimar eternamente num lago de fogo, sem jamais perecer).

[5] Aqui foram citados Osíris e Ísis, que geram um filho: Hórus. No hinduísmo temos a trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Em mitologias antigas pelo mundo todo veremos diversos agrupamentos parecidos.

[6] É de uma infelicidade tremenda que sejamos obrigados a ver a chave da vida manchada pelo sangue de um grande sábio ainda crucificado nela própria. E mais triste ainda vermos a glorificação dessa imagem de sofrimento.

[7] E eis que mesmo na mitologia sagrada, tanto quanto na alquimia e na química, nada se perde, mas tudo se renova e se transforma.

***

Crédito das imagens: [topo] Corbis Art (escultura do deus Osíris); [ao longo] Kenneth Garrett/National Geographic Society/Corbis

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4 comentários:

Anonymous Guilherme Sebold disse...

Olá, ótimo texto =)
mas, Como assim "Os soberanos foram sepultados sob pirâmides"?

19/11/11 20:53  
Blogger raph disse...

Oi Guilherme,

Muito bem observado, na verdade esse trecho estava totalmente fora de contexto, e também no livro original que tenho aqui (eu quase sempre digito a mão do original).

Não posso imaginar que existiam soberanos na Europa que eram enterrados sob pirâmides. Só poderia mesmo se referir aos próprios faraós, então não cabe realmente ali... Preferi substituir pelo clássico "[...]" :)

Eu acho que isso foi infelizmente um erro na tradução do original alemão para o português (de Portugal).

Abs
raph

19/11/11 22:29  
Blogger Rafael disse...

Raph, estive pensando a respeito da maneira como a nossa atual história será contada no futuro.
Me parece que grande parte desta história esteja sendo escrita em meios eletrônicos, como por exemplo o seu blog.
Se imaginarmos alguma catástrofe, sei lá, uma tempestade magnética que apague a maioria dos bits escritos, teremos um episódio singular, semelhante ao incêndio de Alexandria...
(sinta-se a vontade em escrever um conto sobre esse assunto)
Abraço

13/12/11 12:48  
Blogger raph disse...

Bem eu sou bastante cuidadoso em guardar tudo que escrevo, até faço backup de todos os posts do blog (em 5 anos já passou de uns 600) de tempos em tempos...

Mas, ainda que tudo se perca, acho que o que carregamos na alma jamais será esquecido. Talvez esse seja parte do motivo do Hermetismo e outros conhecimentos antigos nunca ter sido totalmente perdido, a despeito da parda dos documentos em si.

Abs
raph

13/12/11 15:27  

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