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3.2.12

Para ser um médium, epílogo

« continuando da parte 5

Como pode o Íon ser oferecido como obra canônica quando este pequeno diálogo é apenas uma zombaria! Provavelmente, por haver, no fim, menção à inspiração divina! Infelizmente, entretanto, aqui como em vários outros lugares, Sócrates está falando ironicamente. (Goethe em Essays on Art and Literature)

Íon

Você pode estar se perguntando o que Sócrates e o Íon – um dos livros de Platão – estão fazendo neste epílogo. Também pode estar se perguntando o que Goethe tem a ver com tudo isso...

Vamos começar pelo escritor alemão: a citação acima foi retirada de um artigo de um livro de ensaios, intitulado “Platão como uma festa para a revelação cristã”... Em 1795, o poeta e jurista Friedrich Stolberg, outrora um colega de Goethe que, posteriormente, se converteu ao cristianismo, publicou uma seleção de diálogos de Sócrates com um prefácio notadamente religioso. Goethe estava irado com essa tentativa de “reinventar” Sócrates como “cristão” e não como “grego”. Para o poeta alemão, ainda que não saibamos exatamente como os gregos antigos pensavam, certamente seria um contrassenso tratar toda a obra platônica, onde Sócrates é retratado em todas as suas nuances mais complexas, como uma mera “introdução ao cristianismo”. Como se Sócrates houvesse sido, tal qual Elias, algum “profeta” a anunciar o advento do Reino de Deus.

Aqui tudo parece se complicar demais: Não sabemos se Sócrates existiu – pode ter sido criação de Platão, portanto apenas um personagem literário. Não sabemos até que ponto a obra platônica foi exaltada por seu mérito filosófico, e até que ponto teve apenas a sorte de cair nas graças dos primeiros pensadores cristãos. E, finalmente, não sabemos nem se o Íon, onde a relação entre a poesia e filosofia encontra seu debate inaugural em nossa história, é efetivamente uma obra de Platão, e não uma obra “apócrifa” – que foi apenas atribuída a Platão, mas teria sido escrita por um anônimo.

Vamos tentar resolver tudo sucintamente: Sócrates decerto existiu, pois não foi usado como personagem apenas por Platão, mas também por Xenofonte e Aristófanes, além de ter sido citado por Aristóteles e, sobretudo, por Diógenes Laércio, célebre historiador da época. Não sabemos, no entanto, até que ponto Platão “interferiu” no pensamento de seu mestre, Sócrates. Mas é quase certo que obras como A República, por exemplo, sobretudo nas questões políticas, traga grande influência de Platão.

Quanto à influência do cristianismo, é possível até mesmo afirmar que foi de ”ida e volta”, já que tanto o platonismo influenciou os primeiros pensadores cristãos quanto o próprio cristianismo fez diversas “releituras” da obra platônica ao longo dos séculos. O mito da caverna pode ser primordial na interpretação dessas duas correntes filosóficas e religiosas: enquanto para Sócrates parece ser óbvio que o lado de fora (da caverna) fazia parte deste mundo – e que, portanto, não é o mundo que muda, mas nossa visão dele –, para muitos pensadores cristãos o lado de fora foi interpretado como uma espécie de céu prometido ou, no mínimo, uma dimensão espiritual onde talvez Deus pudesse ser “acessado” de forma mais clara. Dizer que Sócrates tinha alguma relação direta com o cristianismo não faz sentido, já que ele nasceu séculos antes de Jesus. Porém, dizer que o cristianismo não deve nada a obra platônica também me parece errado: todos sempre devemos muito aos sábios de outrora, todos caminhamos nos ombros de gigantes.

Finalmente, o caso do Íon me parece ter referência direta com a influência de Goethe na literatura e pensamento de sua época. Quando uma figura de seu porte escreve uma crítica contundente ao Íon, muitos que vieram depois se apressaram em taxá-lo de “apócrifo”... Porém, se considerarmos o contexto da crítica de Goethe, veremos que tudo o que ele pretendia era demonstrar que era um erro, uma injustiça, incluir Sócrates entre os “profetas do cristianismo”. Não porque isso fosse diminuir Sócrates ou aumentar o cristianismo, mas simplesmente porque não fazia mesmo sentido algum.

Abordadas essas questões, vou explicar melhor o que Sócrates tem a ver com a mediunidade, citando um trecho de Nicolas Grimaldi em seu excelente Sócrates, o feiticeiro (Edições Loyola):

Sócrates era um feiticeiro. O testemunho é do próprio Platão. ‘Ouvindo-lhe’, diz-lhe Mênon, ‘parece que fui drogado. Tu me enfeitiçastes tão bem que não sei mais o que penso’. Essa magia constituía o charme de Sócrates. Ele encantava. O efeito de suas palavras era tão arrebatador quanto a música. Como se tratasse de um transe dionisíaco, era-se possuído. Alcibíades confessava não poder ouvi-lo sem ficar totalmente a sua mercê. Acusá-lo de feitiçaria era reconhecer-lhe o poder, do mesmo modo que aqueles que o admiravam. E, com efeito, designando-o em As nuvens como o mais célebre dos sofistas, Aristófanes não mostrava um Sócrates capaz de persuadir qualquer um sobre qualquer coisa? Ora, vangloriando-se de ser capaz de fazer qualquer pessoa perder o sentido da realidade, de fazê-la experimentar o falso como mais evidente que o verdadeiro e o real como mais inconsistente que o irreal, a sofística também era uma feitiçaria. Até mesmo os discípulos que viam em Sócrates o mais cáustico crítico dos sofistas não deixavam de reconhecê-lo, eles também, como uma espécie de feiticeiro, de mágico ou de xamã. Quando Sócrates tem apenas algumas horas a mais de vida, ou alguns momentos, é menos o desaparecimento de seu amigo que Fédon lamenta que a perda do encantador: ‘Onde encontraremos um mágico tão perfeito depois que nos abandonares?’”.

Ora, Sócrates conversava frequentemente com seu daemon, que pode ser entendido como nada mais do que um guia espiritual, anjo da guarda, ou simplesmente um espírito de moral elevada. Além disso, não são poucos os relatos de que, por vezes, o grande filósofo se prostrava em profundo transe, ainda que em meio a uma caminhada, ou mesmo em meio à guerra, e ficava por horas estático, na mesma posição, acessando sabe-se lá quais informações divinas, sabe-se lá de onde...

Mas esse tipo de paganismo o cristianismo optou convenientemente por esquecer, da mesma forma que a Academia se esqueceu convenientemente de Alfred Russel Wallace [1]. Obviamente, as menções socráticas as ideias inatas e outras referências à reencarnação também foram suprimidas pelos pensadores cristãos através dos séculos... Mas o próprio Íon, diálogo teoricamente escrito ainda na “juventude” de Platão, talvez exatamente por isso ainda traga uma grande essência socrática e, incrivelmente, uma referência clara a mediunidade.

No diálogo com o poeta Íon, que em realidade é apenas um declamador da poesia de Homero, Sócrates é ácido e extremamente irônico, e termina por convencer ao próprio Íon que ele não tinha efetivamente conhecimento técnico nenhum sobre os assuntos que declamava poeticamente, mas que era apenas levado por uma inspiração oculta, divina, a declamar Homero de forma tão magistral que terminava por seduzir a todos.

Ora, o próprio Sócrates entendia muito bem disso. Ele era um poeta, um feiticeiro, além de ser filósofo. Neste célebre diálogo, portanto, pode parecer que Sócrates está a ironizar, ridicularizar e diminuir a poesia, mas, pelo contrário: nas entrelinhas o que se pode entender é que, embora não seja realmente parte de um conhecimento técnico, filosófico, puramente lógico, a poesia é algo de sagrado, e toda inspiração toca na essência divina, parte do mundo das ideias que Sócrates conhecia tão bem. Não um outro mundo, a parte, mas um mundo oculto que, não obstante, pode nos influenciar a todo e qualquer momento. Para tal, bastará ter a alma aberta à poesia. Que para ser um médium, é necessário sentir ao menos um pouco de poesia [2]:

[Sócrates] Mas então, tu, Íon, se dizes a verdade quando afirmas que és capaz de louvar Homero em virtude de uma técnica e de uma ciência, tu és injusto, tu, que garantindo para mim, que conheces tantas e belas coisas acerca de Homero e afirmando que darás uma exibição para mim, tu me enganas completamente e estás longe de dar-me uma exibição; tu, que nem queres dizer quais são essas coisas acerca das quais és terrível [3], embora eu esteja te suplicando a muito tempo. Mas tu, simplesmente, como Proteu, te transformas em todo tipo de formas, girando para cima e para baixo, até que, terminando por escapar-me, surges como um general, para que não me exibas como és terrível na sabedoria acerca de Homero.
E se, então, tu és técnico, como eu acabei de dizer, garantindo se exibir acerca de Homero, tu me enganas completamente, e és injusto; e se não és técnico, mas, por uma concessão divina, possuído por Homero, nada sabendo, tu falas muitas e belas coisas acerca do poeta [4], como eu afirmei acerca de ti, não és nada injusto. Escolhe então se preferes ser considerado um homem injusto ou divino.

[Íon] Uma coisa difere muito da outra, Sócrates. Pois é muito mais belo o ser considerado divino.

[Sócrates] Isto, então, a coisa mais bela [5], te é concedido por nós, Íon: ser divino, e não um louvador técnico de Homero.

***

[1] Co-criador da teoria da evolução das espécies (ou teoria de Darwin-Wallace), Wallace posteriormente tornou-se espiritualista, e isso obviamente explica por que seu nome é tão pouco mencionado, enquanto Darwin é quase um “semideus” para muitos cientistas.

[2] O texto na sequencia é o trecho final de Íon (Autêntica), na tradução espetacular de Cláudio Oliveira.

[3] No contexto da tradução, entenda-se “terrível” como “muito hábil”.

[4] Ou seja: Íon não pode declamar a poesia de Homero como um técnico, pois para tal precisaria conhecer absolutamente a técnica de todos os personagens de Homero – como, por exemplo, a arte da guerra de um general. Como Íon não demonstrou ter nenhum conhecimento técnico específico, seja na arte da guerra ou em outras artes, Sócrates deduz que a única forma que teria para acessar tal conhecimento seria através da intuição e da inspiração poética, e não do conhecimento filosófico propriamente dito. Sócrates, entretanto, era ele mesmo também um poeta, constantemente influenciado por seu daemon. Embora fosse também um filósofo – ou seja, sabia diferenciar a poesia da filosofia.

[5] O “ser belo” era a grande meta da filosofia de Sócrates. Não a beleza física, mas a beleza da alma. Sócrates, entretanto, não ignorava a beleza física – tanto que lutou em guerras e tinha porte atlético, além de considerar homens e mulheres muito belos uma tentação capaz de nos afastar da filosofia (daí a concepção cristã da ultravalorização da alma sobre o corpo é um passo gigantesco, passo esse que Sócrates não deu).

***

Crédito da foto: Richard T. Nowitz/Corbis

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1 comentários:

Blogger Marcos Oliveira disse...

Belo epílogo! Abordagens diferentes de Sócrates e Platão, mas que eu concordo!
Que venha o restante da série!!!

13/2/12 16:18  

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