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11.5.14

A Contagem do Ômer

A Contagem do Ômer

Até o dia seguinte ao sétimo sábado contareis cinquenta dias; e oferecereis uma nova oferta de cereais a Jeová. E quando segardes as searas da vossa terra, não segareis totalmente os cantos do vosso campo, nem colhereis o rabisco da vossa seara; para o pobre e para o estrangeiro o deixareis: eu sou Jeová vosso Deus – Levítico, 23:16 e 23:22 (Sociedade Bíblica Britânica)


Contagem do Ômer, ou Sefirat ha Ômer, é o nome dado a contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuót, feriados judaicos correspondentes, respectivamente, a Páscoa e ao dia de Pentecostes. A Pessach, também conhecida como “Festa da Libertação”, celebra a fuga dos hebreus da escravidão no Egito em 14 de Nissan no ano aproximado de 1280 a.C. Ora, Nissan é o mês do calendário judaico que se inicia com a primeira lua nova durante a época em que a cevada já plantada atinge o seu amadurecimento. A Contagem do Ômer (sefirat significa “contagem”) tem, portanto, a sua utilidade prática, que é a contagem dos dias até que a cevada esteja pronta para a colheita. Ômer era uma medida antiga de grãos secos, e equivalia a aproximadamente 2,2 litros.

O caráter festivo mais antigo de Shavuót é o de uma festa campestre. Ao final da Contagem, já no mês de Sivan do calendário judaico, era realizada a colheita da cevada e de outros cereais. Grandes grupos de agricultores afluíam de todas as províncias, e o país adquiria um aspecto animado e pitoresco. Todos se dirigiam a Jerusalém, acompanhados durante todo o trajeto pelos alegres sons das flautas. Em cestos decorados com fitas e flores, cada qual conduzia a sua oferenda: primícias do trigo, cevada, uvas, figos, romãs, azeitonas e tâmaras. Chegando à Cidade Santa eram acolhidos com cânticos de boas vindas e adentravam ao Templo, onde faziam a entrega de seus cestos ao sacerdote. A cerimônia se completava com hinos, toques de harpas e outros instrumentos musicais.

Há uma outra razão para o Shavuót ser tão festivo. Ocorre que a Contagem do Ômer (os 49 dias que o antecediam) não era exatamente um período de grandes alegrias, mas sim de introspecção, e até mesmo melancolia... Nesses dias, os hebreus também refaziam em seu imaginário os passos da jornada de seus antepassados do Egito ao Monte Sinai, em sua fuga angustiada do jugo do Faraó.

Posteriormente, o período da Contagem também passou a ser considerado um período de luto em memória à peste que matou centenas de discípulos do rabino Akiva. Costumeiramente os homens não se barbeavam e nem celebravam casamentos neste período. O único dia em que se abandonava o luto era no Lag Baômer, o trigésimo terceiro dia da Contagem (Hod shebe Hod), e o dia que marcou o fim definitivo dos casos da doença.

Este dia era também o dia em que faleceu o rabino Shimon bar Yochai, considerado o grande precursor da Cabala, uma vertente mística do judaísmo tradicional. E foi exatamente através da Cabala que a Contagem do Ômer deixou de ser somente uma tradição agrícola, ou histórica, para se tornar um dos maiores rituais de meditação e autoconhecimento do mundo, praticado simultaneamente por milhares (quiçá milhões) de pessoas em todo o globo, todos os anos.

Nesta Contagem mística, meditamos todos os dias relacionando sete das esferas da Árvore da Vida com elas próprias e também com as demais, totalizando exatamente os 49 dias de Contagem (7x7=49). A Árvore da Vida, na tradição da Cabala, representa um sistema hierárquico que pode ser lido de duas formas: De cima para baixo, se inicia na centelha divina (Kether), e vai se tornando mais “densa”, até atingir o mundo físico (Malkuth). De baixo para cima, se inicia na consciência “mundana”, que vai se elevando, esfera por esfera, até que se abra inteiramente para a comunhão com a divindade do Cosmos. Estes dois caminhos representam tanto a criação de tudo que há a partir desta substância primeira, como o caminho de religação que a consciência humana precisa galgar para que consiga se reunir novamente com sua origem divina.

Apesar de a Árvore conter, na realidade, 10 esferas, há 3 delas que se situam tão próximas da centelha divina, do transcendente e inefável, que também estão além das conceitualizações da linguagem. Neste sentido, as meditações diárias da Contagem usam somente 7 das 10 esferas:

Chesed ou Bondade (Misericórdia)
Chesed se situa abaixo de Chokmah. É a misericórdia. Representa o desejo de compartilhar incondicionalmente. Representa a vontade de doar tudo de si mesmo e a generosidade sem preconceitos, a extrema compaixão.

Geburah ou Disciplina (Rigor)
Geburah se situa abaixo de Binah. É o rigor. Representa o desejo de contenção e de questionar os próprios impulsos. Canaliza sua energia por meio de objetivos concretos, com o intuito de superar obstáculos e transformar a própria natureza.

Tiferet ou Compaixão (Beleza)
Tiferet se situa abaixo e entre Chesed e Geburah. É a beleza. Transforma em beleza Chokmah, Binah e Kether (as 3 esferas superiores). É a sabedoria e o entendimento sob a luz do conhecimento. Representa a divisão da árvore em macrocosmo e microcosmo.

Netzach ou Tolerância (Vitória)
Netzach se situa abaixo de Chesed. É a vitória. Representa a energia dos sentimentos. Se relaciona com a vontade de reciprocidade, a busca pelo próximo e a superação dos próprios limites, propagando o pensamento eterno. Funciona como o princípio fertilizador do esperma masculino.

Hod ou Humildade (Esplendor)
Hod se situa abaixo de Geburah. É o esplendor. Representa o pensamento concreto. É um canal de aprimoramento interno, de identificação com o próximo, sendo uma forma de aceitação do pensamento, assim como do reconhecimento dos opostos. Funciona como o princípio receptivo do óvulo feminino.

Yesod ou Compromisso (Fundação)
Yesod se situa abaixo e entre Netzach e Hod. É a fundação. Representa o Plano Astral. Funciona como um reservatório onde todas as inteligências emanam seus atributos, que são então misturados, equilibrados e preparados para a revelação material. É a compilação das oito demais emanações (Malkuth não tem emanação).

Malkuth ou Nobreza (Reino)
Malkuth se situa na posição central inferior da árvore. É o reino. Representa o mundo físico, onde é revelado o material compilado e emanado por Yesod (das oito demais emanações). É o canal da manifestação, desejando a recepção das demais esferas. É a distância de Kether que provoca esse desejo, criando a sensação de falta e de solidão. É, assim, o início do caminho ascendente.


Vejam abaixo uma ilustração da Árvore da Vida, por Rodrigo Amorim Grola:

A Árvore da Vida

***

Durante 49 noites, enquanto este lado do globo vira suas costas ao sol, eu tenho meditado sobre tais esferas, sobre o microcosmo e o macrocosmo, sobre a lua e as estrelas, sobre a noite escura e a manhã vindoura, sobre a solidão e a tristeza, e sobre o amor que é eterno...

Tais meditações têm se transformado em poemas, e os seus títulos correspondem exatamente ao dia da Contagem em que chegaram para mim. Não sei até onde isso tudo vai dar, mas o vídeo abaixo é somente um exemplo do que tem ocorrido em minha vida durante a Contagem do Ômer.

Boa reflexão a todos!


Em 9 de Maio de 2014 (Netzach shebe Netzach), durante a meditação da Contagem do Ômer, estas palavras chegaram para mim. Um dia depois, meu amigo Fabio Almeida (autor do blog, podcast e videocast Música & Magia) me deu este presente maravilhoso, com música que parece ter saído do mesmo lugar de onde vieram as tais palavras...


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3 comentários:

Anonymous Marcos Novatto disse...

Salve, a luz de amor sabedoria que emana ininterruptamente do ser incriado, a fonte vida de toda vida, única vida viva vivendo e sendo toda vida que existe e que esta por existir, experimentando a existência em seu ato de existir dentro do infinito que ela, a vida, é e abriga. Obrigado por tudo que tenho aprendido com vocês. Grande abraço.

11/5/14 20:24  
Anonymous Anônimo disse...

Texto esclarecedor e vídeo inspirador!
Parabéns e obrigada por compartilhar!

24/4/16 10:42  
Blogger raph disse...

Obrigado por refletirem adiante!

Abs
raph

24/4/16 12:36  

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