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4.3.09

Reflexões sobre o ceticismo, parte 2

continunando da parte 1...

Mecânica quântica: é o estudo dos sistemas físicos cujas dimensões são próximas ou abaixo da escala atômica, tais como moléculas, átomos, elétrons, prótons e de outras partículas subatômicas. A Mecânica Quântica é um ramo fundamental da física com vasta aplicação. Para compreender melhor este artigo é recomendado ver esta animação explicando a dualidade onda/partícula pelo experimento de fenda dupla.

Quando a quântica deixa de ser física.

Para começar nossa história, vamos trazer a informação deste artigo da Superinteressante sobre o livro mais antigo do mundo:

"Os físicos do século 20 descobriram que as partículas que compõem a matéria estão em perpétua transformação: prótons se convertem em elétrons que se convertem em nêutrons, e assim por diante. O Universo não é algo estático, mas uma massa de energia em constante transformação, uma teia de processos infinitos e dinâmicos – ou mutações. E mais: o fluxo de metamorfoses que domina o mundo subatômico e forma tudo o que existe é regido pela dança de opostos. Os elétrons de carga negativa giram em torno dos núcleos de carga positiva, formando o átomo e o Universo.

Niels Bohr, um dos pais da física quântica, ajudou a derrubar a noção de que as leis que regem o Cosmos são independentes da matéria – em vez disso, hoje se acredita que essas leis emanam da própria energia em mutação que forma o mundo. Idéia que pode ser resumida no seguinte lema: 'As leis naturais não são forças externas às coisas, mas representam a harmonia e o movimento inerente às próprias coisas'. Note bem: essa frase não saiu de um livro de física. É um trecho do I Ching."

Na história da ciência, engana-se quem imagina que encontram-se apenas gênios racionais, porém absolutamente materialistas. Como dito anteriormente, a ciência não é materialista nem espiritualista, é apenas um método racional de observação e compreensão da Natureza. Ora, Niels Bohr foi genial, um dos pais da física quântica, mas não usou apenas sua razão para chegar a criação e comprovação dos ramos científicos pelos quais é reconhecido: sem dúvida, não apenas ter lido o I Ching e pesquisado doutrinas espiritualistas, como também não ter tido receio de usar sua própria imaginação, decerto o ajudou imensamente, talvez tanto quanto o próprio estudo do cálculo em si.

Não é materialista quem crê na existência da matéria, fosse esse o caso alienado seria aquele que não fosse materialista. É materialista aquele que acredita que somente a matéria existe, e que tudo pode ser explicado através dela, incluindo a consciência... O problema não é crer especificamente que somente a matéria existe, mas crer que essa matéria se resume aquela matéria já detectada, do tipo que interage com a luz (fótons) - assim como crer que todos os mecanismos por detrás da formação e funcionamento dessa matéria já foram desvendados pela ciência (por exemplo: classificar de absurda por antemão uma teoria que afirme que "a alma" pode ser formada de "matéria desconhecida"). Se Bohr houvesse se limitado pelo que "já se sabia" sobre a matéria, teria sido materialista, teria ignorado o I Ching possivelmente, e seria um completo desconhecido na história da ciência.

Porém, não foi através do I Ching que Bohr compôs suas equações. O I Ching, a exemplo do que falamos sobre o ceticismo em si anteriormente, foi uma ferramenta e não um meio em si próprio: nesse caso, a espiritualidade e imaginação de Bohr o auxiliaram em suas descobertas científicas - porém, o que ele alcançou dentro da ciência, foi somente através do método científico. O problema está, obviamente, em se misturar os conceitos e os métodos.

Ultimamente a física quântica tem sido vítima dessa confusão. São livros, documentários e outras mídias que afirmam que "somente a consciência causa o colapso de onda, então a realidade física só existe porque a observamos", e que não param por aí, dizem mais adiante que "se podemos causar o colapso de onda, podemos moldar nossa própria realidade". Em suma, uma extrapolação não apenas da ciência, mas também de diversas noções espiritualistas, extrapolação esta que afirma que em última instância "as coisas a nossa volta ocorrem porque pensamos nelas, ou as desejamos."

Segundo a teoria da Redução Objetiva Orquestrada, dos cientistas Stuart Hammeroff e Roger Penrose, a consciência é fruto de processos quânticos no cérebro, e nossas decisões nada mais são do que "colapsos de onda de estados cerebrais" - essa teoria de que pensamentos e decisões podem ser explicados pela Mecância Quântica é não apenas de uma lógica elegante, como também resolve o problema da ausência de livre-arbítrio nas teorias que afirmam que absolutamente tudo, mesmo nossas decisões morais e sentimentos, são fruto de reações químicas do cérebro, que são por si mesmas já determinadas.

Muitos cientistas e espiritualistas viram essa teoria como uma forma de ligação entre o que diz a ciência e o que diz a espiritualidade. Amit Goswami é um físico polêmico que, à partir dessa teoria, chegou a inúmeras conclusões das quais infelizmente uma análise cética nos traz muitos poucos resultados, ou mesmo nenhum, que possam ser considerados à luz da ciência. Mas pelo menos Goswami partiu de uma teoria científica, infelizmente não precisamos nem de muito ceticismo para perceber que muitas outras teorias pseudocientíficas acerca da Mecânica Quântica e da consciência não passam de uma espécie de mistificação da espiritualidade, também sem nada de realmente científico.

Analisemos a teoria mais comum em muitos desses livros, que diz que "qurendo muito podemos modificar a realidade a nossa volta": imaginemos duas ruas transversais, um cruzamento com um sinal para cada uma, e um motorista em cada uma delas, dirigindo seus respectivos carros em direção ao cruzamento, ainda um pouco distante. O motorista A, usando dessa teoria, pode imaginar que o sinal deve ficar verde enquanto ele está cruzando. O motorista B fará o mesmo. Então, o que diabos ocorrerá? Será que a Natureza irá "medir" quem está "desejando mais forte" que o final fique verde, e julga-lo o ganhador? Ou pior, será que a Natureza não fará absolutamente nada e ambos se encontrarão em um acidente estúpido? Ou um dos motoristas, reconhecendo "sua falta de fé", irá freiar o carro bem a tempo? Qual o "segredo" nessa teoria? O "segredo" é que ela é ilógica, injusta, e portanto não serve nem para a ciência nem para a espiritualidade (tudo bem, muitos espiritualistas até tem uma visão utópica de que "pela fé tudo conseguimos", mas se isso significa prejudicar o direito do próximo, de que vale uma "fé que favorece a injustiça"?).

Nesse sentido verificamos que o ceticismo é uma poderosa ferramenta para que julguemos de forma responsável e justa teorias científicas e espiritualistas. Pode ser que o ceticismo as vezes nos leve a lugares sombrios, mas enquanto estiver baseado na lógica, na ponderação e coerência de pensamento, ainda assim será um poderoso aliado nessa jornada pela selva dos mistérios da Natureza. Nosso facão para cortar as matas da ilusão, mas também para formar uma trilha coesa em direção as maravilhas que a Natureza ainda nos esconde.

Na última parte, a energia na ciência e a energia na espiritualidade...

***

Crédito da foto: Mark Miller e The Virgo Consortium

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2 comentários:

Anonymous Franco-Atirador disse...

Vc já leu O Tao da Física, de Fritjof Capra? Ele faz um paralelo entre a forma como a física quântica e as correntes espiritualistas orientais tratam da realidade. Observa que monges e físicos quânticos parecem estar falando uma mesma língua, descrevendo a realidade. Também há um capítulo exclusivo para tratar dos problemas acerca da linguagem, encontrado nas duas formas de interpretar a Natureza, o que considerei fascinante. Abaixo, um texto meu.

A natureza tem um padrão, sendo descoberto a cada canto, cada ângulo e olhar. Muitos padrões estão sendo redescobertos por nossos físicos, padrões que, de tão complexos para nossas mentes, mimetizam o aleatório. Padrões que refletem estabilidade, formados não sei como, que estão lá. Padrões que, em números, ganham lógicas maravilhosamente complicadas em mentes brilhantes, eventos ocorrendo em cadeia linear, te guiando pela mão, passo a passo. Estes são ininteligíveis à mentes mais humildes, ou não iniciadas no assunto nesta modalidade, mas que, como uma linguagem, podem ser traduzidas em outra, mais macia, arredondada, feminina, descontínua, simbólica... poética! Assim, o homem do século XXI caminha para a reafirmação do que diziam sábios à milênios atrás pela linguagem dos símbolos, que faz com que nosso pensamento corra, associe, admire, explore sua subjetividade, uma linguagem descontínua, que vc completa com tua beleza interna, a beleza que vês, que conheces, pois passou por experiências que as revelaram pra ti, que as signifique. São esses dois estados de linguagem/pensamento, que geraram, há muito e agora, Budas e Eisteins, que agora dão as mãos, pois descobriram as mesmas coisas sob ângulos diferentes, atônitos diante do mistério infinito, cheio de faces, maior do que eles podiam imaginar, transformando rivais em aliados, mostrando que a caminhada continua, que agora que você entende, depois dessa pista, vem uma jornada ainda maior, e Ele/Isto vai te mostrar muito mais, até o infinito. Então, derrepente, adentramos à História Sem Fim!

9/9/12 01:33  
Blogger raph disse...

Não li o Tao da Física, mas folheei muito na Saraiva, um dia tenho de comprar e ler tudo :)

Mas gostei muito do seu texto. De certa forma (ou de muitas formas), tem tudo a ver com o que eu defendo aqui no blog.

Abs
raph

10/9/12 12:30  

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