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21.1.10

Espiritualismo: o que a ciência pode estudar

Nesses mais de três anos de artigos, contos e poesias, este blog nunca pretendeu negar que trata de espiritualismo, apesar de também falar bastante sobre ciência e filosofia. Para os que me acompanham a algum tempo, devem ter notado que volta e meia falei sobre questões espiritualistas com certo ceticismo (espero que na medida certa). Isso porque acredito que não devemos impor crenças adiante, é bem melhor esperar que as pessoas se convençam por si mesmas (ou não, mas é importante não haver imposição de qualquer forma)...

Embora a questão espiritualista ainda esteja na maior parte intimamente ligada a experiência subjetiva, acredito que algumas questões podem, e devem, ser analisadas pela ciência. Ao falar sobre isso, vale lembrar que a ciência não é materialista nem espiritualista, e que tanto o materialismo quanto o dualismo são apenas teorias conceituais ainda não comprovadas. Não adiantará nada, portanto, visualizar tais questões com uma opnião (ou dogma) já formada, do tipo "espíritos não existem" ou "os espíritos de luz é que sabem das coisas" - nada disso irá contribuir para que alcancemos objetivamente a compreensão desses assuntos, que permeiam a história da humanidade desde antes da invenção das linguagens. Vamos aos casos:

1. Da consciência
Os dualistas acreditam na separação mente-corpo como duas entidades separadas. Na realidade essa separação, com o avanço da neurologia, hoje é compreendida como mente (ou consciência) e cérebro. Apesar da ciência ter conquistado avanços no estudo da mente humana, ao ponto de conseguir decodificar sinais motores e fazer macacos "pilotarem" membros robóticos a meio mundo de distância, ainda não se sabe onde está a "usina cerebral", o que exatamente ativa as correntes elétricas em questões mais complexas como decisões morais ou emoções como o amor. Este é o famoso problema difícil da consciência, mas engana-se quem pensa que todos os neurologistas sejam contrários a noção do dualismo.

Sir John Eccles, neurologista vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente e o cérebro. Ele dizia: "Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do 'eu'" - em suma, Eccles apenas defendia uma característica até mesmo óbvia que surpreendentemente escapou ao olhar atento de muitos cientistas (e ainda escapa): que alguma coisa em nós faz escolhas, simples e complexas, e que não sabemos exatamente onde esse 'eu' está fisicamente no cérebro (se é que está lá, ou apenas lá).

Outro defensor dessa teoria é Bahram Elahi, especialisa em cirurgia e anatomia. Diz ele que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Para saber mais: Reflexões sobre a consciência

2. Da memória de vidas passadas
Muitos acreditam que "lembrar de vidas passadas" seja um delírio ocasionado por estados de consciência alterada. Entretanto, nas práticas de Terapia de Regressão de Memória a Vidas Passadas tem sido realizada a décadas nos EUA, no Brasil e no mundo, com considerável porcentagem de sucesso - ou seja, no sentido de serem benéficas para a patologia do paciente. No entanto, é óbvio que esse tipo de experiência não pode ser analisada objetivamente, e é muito difícil encontrar casos onde adultos tenham memórias vívidas o suficiente para, por exemplo, encontrar seu endereço ou árvore genealógica de vidas passadas.

Já no caso das crianças, o assunto é bem mais interessante. Desde os estudos de Ian Stevenson nos países do sul da Ásia, a ciência tem estudado de forma mais séria essa possibilidade. Até mesmo na "bíblia do ceticismo", Carl Sagan admite que a questão merece um estudo aprofundado (embora faça questão de afirmar que não crê na possibilidade das vidas passadas). Ora, se crianças podem descrever parentes de vidas passadas com exatidão, e reconhece-los ainda vivos, além de muitas vezes poderem descrever a região e o endereço de onde viveram, é porque algum tipo de informação é passada adiante, e não de mãe para filho. Aí temos uma possibilidade intrigante, mas que é avassaladoramente ignorada pela ciência moderna, independente das evidências. Algumas dessas evidências são tão fortes que fica difícil pensar em outra hipótese, como no caso do garoto americano, filho de protestantes, e que lembrou-se de outra vida onde morreu em um combate aéreo na Segunda Guerra Mundial.

Aparentemente, são os grandes traumas ou emoções fortes os únicos capazes de fazer com que, em uma suposta "outra vida", o ser se lembre do que ocorreu na vida imediatamente anterior. Aqui temos uma hipótese onde a ciência pode começar a avalisar caso a caso, embora eles sejam raros...

Para saber mais: Crianças que se lembram de vidas passadas

3. Da mediunidade
Essa é de longe a questão mais polêmica a vista, pois é atacada por duas frentes: os céticos que se escandalizam com a possibilidade, e os evangélicos que atribuem quase todas as práticas a necromancia ou "tratos com o demônio" (ainda que Jesus tenha, aparentemente, conversado com Moisés em uma tenda). Mediunidade é a capacidade de detectar os espíritos, ou consciências fora de um corpo físico, através de sentidos que a ciência ainda não compreende bem. Lógico que, a alternativa de ser tudo delírio ou esquizofrenia dos médiuns é igualmente válida. Falta no entanto a ciência explicar que tipo de delírio é esse, que dura alguns minutos e efetivamente altera o funcionamento cerebral, mas que depois deixa o médium tão normal quanto sempre fora: sem nenhuma sequela para sua vida (o que, aliás, já descaracteriza o rótulo de "doença").

Aqui no blog estudamos as cirurgas espirituais de João de Deus, e contrastamos o estudo da Associação Médica Brasileira com as alegações do dismistificador americano, James Randi, de que as cirurgias eram "truaques de mágica": fica evidente que, independente de haver ou não cura efetiva (o que não é comprovado), as cirurgias são reais. Esperamos que mais médicos tenham a coragem de continuar com o estudo em torno desse médium conhecido internacionalmente, embora tão polêmico (e não negamos: ele não é exatamente um ser iluminado, é até bem humano).

A grande questão da meduinidade é: "de onde diabos vem as informações, talentos e habilidades desconhecidos do médium, quando este está em transe mediúnico?" - Há muito tempo mostramos um vídeo com as psicopictografias de Gasparetto, este é um exemplo, pois fora do transe Gasparetto é um pintor medíocre... E o que dizer então de um dos maiores médiuns da história moderna? Chico Xavier sequer entrou na faculdade, e tinha habilidades literárias absolutamente limitadas, no entanto escreveu centenas de livros em estilos que vão desde a poesia espiritualista a divulgação científica - no seu "Mecanismos da Mediunidade", psicografado em pareceria com Waldo Vieira, separados por centenas de quilômetros - o que não impediu que os capítulos se "casassem" perfeitamente. Ora, de onde vem essas informações? Inconsciente Coletivo de Jung? Os memes de Dawkins? Para quem não ignora as evidências, essas podem ser questões para a ciência do futuro.

Para saber mais: Introdução a psicografia

4. Da projeciologia
Waldo Vieira já foi um dos grandes parceiros de Chico Xavier na psicografia de livros em conjunto. Em dado momento, porém, se desiliudiu com os rumos do espiritismo no Brasil, provavelmente por achar que estava se tornando "demasiadamente dogmático". Decidiu então abandonar o aspecto religioso, e investir no científico: há muitos anos mantém estudos quase herméticos em seu Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia. Ele insiste em criar termos técnicos que dizem algo somente aos "iniciados", mas talvez toda a base de conhecimento que ele esteja montando seja ainda um legado para o futuro, quando a neurologia finalmente chegar a um entendimento mais abrangente da consciência e suas capacidades.

Estudos objetivos, no entanto, podem ser realizados aos montes. Em documentários internacionais, são demonstradas as experiências na "academia" de Waldo Vieira, onde pessoas em projeção tentam visualizar imagens randômicas mostradas por um monitor de computador trancado em uma sala a parte. Por menor que fosse a porcentagem de acerto, ela seria surpeendente - e ocorre que ela é bem maior do que seria de se esperar. Serão fraudes tais experimentos? Os projeciologistas não se importam que céticos apareçam para estudar o fenômeno - o problema é que esse tipo de fenômeno a ciência moderna adora ignorar.

Para saber mais: Viagem astral: fora ou dentro?

5. Outros fenômenos
Ainda temos artigos que citam outras hipóteses espiritualistas que ainda não foram analisadas com maior detalhe no blog: A aparente capacidade de certos monges de ficarem dias sem comer nem beber, ou mesmo absolutamente imóveis (embora não acredite que Ram Bonjam fique realmente tanto tempo imóvel quanto afirmam, o experimento com o yogi Prahlad Jani é absolutamente válido para a ciência); Os cristais na glândula pineal, detectados pelos estudos do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, e que podem talvez explicar finalmente o mecanismo da mediunidade pela percepção de ondas eletromagnéticas; A eficácia de tratamentos alternativos como a acupuntura e a homeopatia, que atestam que ainda falta muito para a ciência estudar acerca do efeito placebo-nocebo.

Certamente temos muitos, muitos fenômenos, que merecem um olhar mais cuidadoso da ciência, independentemente da polêmica que suscitam. Os grandes cientistas e pesquisadores são aqueles efetivamente curiosos em desvelar a natureza, independentemente de crenças e descrenças que, no final das contas, nada tem a ver com a ciência em si. Talvez um pouco de anarquia, por incrível que pareça, possa efetivamente ser benéfico para a ciência moderna, pelo menos é o que pensava Paul Feyerabend. E olhem que ainda nem falei sobre o Dr. Sam Parnia e seu estudo inovador sobre as Experiências de Quase Morte (EQMs), me aguardem!

***

Leitura recomendada (livros): Twenty Cases Suggestive of Reincarnation, de Ian Stevenson; Life before life, de Jim Tucker; Varieties of religious experience, de William James; A volta, do casal Leininger (sobre um caso forte de reencarnação); O que acontece quando morremos, do Dr. Sam Parnia; O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec; As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior; Encontros com médiuns notáveis, de Waldemar Falcão.

Leitura recomendada (online): paraPsi (blog que analisa com detalhe extremo os fenômenos ditos "paranormais"); Teoria da Conspiração (blog do ocultista Marcelo Del Debbio, que analisa muitas dessas questões de forma racional, com base na mitologia); Saindo da Matrix (blog espiritualista, nesse link temos apenas os artigos sobre espiritismo).

***

Crédito da foto: Photo Blues

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4 comentários:

Anonymous lucas disse...

Sobre o brog Parapsi é uma pena que o autor não o atualise desde outubro do ano passado

30/1/10 17:40  
Blogger raph disse...

Verdade, teve até um último post domingo 10/1, mas o penúltimo realmente é do início de outubro de 2009.. Tá meio paradão :(

31/1/10 15:18  
Blogger raph disse...

Acabei de postar o artigo onde falo sobre a pesquisa do Dr. Sam Parnia e as EQMs:

http://textosparareflexao.blogspot.com/2010/08/quase-morte-parte-2.html

Abs
raph

6/8/10 16:06  
Blogger raph disse...

Hoje sabemos que a maior parte dos que afirmam ter uma experiência religiosa não estão fingindo. A ciência **comprovou** isso por experimentação com ferramentas de neuroimagem. O estudo citado abaixo é somente mais um deles (ler, por exemplo, "O cérebro espiritual", do Dr. Mario Beauregard)...

"Recentemente, alguns estudos revelaram que regiões e sistemas cerebrais medeiam os diferentes aspectos da experiência religiosa, descartando, assim, a teoria "ponto de Deus", que postulava um local no cérebro como responsável pela experiência com o "divino". As experiências religiosas são complexas e multidimensionais na medida em que envolvem alterações na percepção (por exemplo, imagens mentais visuais); cognição (por exemplo, representações do self), e emoção (paz, alegria e amor incondicional)."

http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol40/n6/225.htm

8/1/14 15:36  

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