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17.5.12

Comentário: sem Deus, tudo é permitido?

Comentário das respostas da pergunta “sem Deus, tudo é permitido?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Estamos mais acostumados a presenciar casos de preconceito dos religiosos para com os ateus. Normalmente as explicações incluem “ora, mas ele não tem Deus no coração” e coisas do tipo; acho que todos aqui já sabem do que estou falando...

Pois bem, comigo ocorreu algo como o oposto disso, de certa forma: durante os meses em que esta série se estendeu, eu tive a felicidade de ler o mais novo livro do filósofo suíço Alain de Botton, Religião para ateus [1]. Ora, eu sempre adorei os livros de Botton, e nunca me preocupei em saber se ele era ou não ateu... Da mesma forma, nunca me preocupei em saber se o funcionário de uma livraria que frequento era ou não ateu. Ele sempre me atendeu bem, mas era impossível não notar a forma meio “distante” com a qual ele lidava comigo, particularmente quanto estava folheando livros das estantes de espiritismo e ocultismo. Eu pensava que ele era evangélico ou coisa do tipo, sabe como é: nós espiritualistas estamos mais do que acostumados com esse tipo de preconceito. Normal.

Pois é, tal funcionário por acaso era agnóstico, e seu “distanciamento” não tinha nada a ver com o preconceito por eu ser espiritualista, mas sim por uma pura pressuposição de que era eu quem devia ter preconceito para com ele... Engraçado como são as relações humanas: bastaram cinco minutos de conversa sobre o livro de Botton, e ambos percebemos que nenhum dos dois tinha a menor necessidade de “temer” o preconceito do outro. Na verdade, nenhum dos dois tinha preconceito algum, pelo contrário: tinham certo cuidado, certo “distanciamento”, exatamente por considerar a possibilidade do outro ser preconceituoso. Cinco minutos de conversa: quem dera fosse tão simples resolver o preconceito do mundo assim...

O problema é que a maior parte das pessoas infelizmente não costuma frequentar muito a livraria, elas preferem que alguma autoridade leia os livros para elas, e resuma o que achou. Mas livros são apenas conjuntos de palavras, o que importa é o que conseguem fazer com aqueles que os leem. Livros não mudam o mundo, as pessoas que os leem é que mudam o mundo.

***

Você pode achar que um espiritualista ou ocultista não tem muito sobre o que conversar com um cientista ou cético. Pior ainda seria ambos dialogarem sobre Deus: “perda de tempo total”... Se este é o seu pensamento sobre a questão, permita-me trazer-lhe aqui um diálogo meu com um amigo que foi professor universitário de física e matemática (hoje está aposentado, mas é vice-diretor de um colégio de Viçosa/MG). Este amigo se autointitula “livre pensador, cético, racionalista, humanista, estóico, epicurista, anarquista e ateísta” – você acha que eu não teria nada a falar com ele sobre Deus?

O diálogo começou quando eu comentei sobe um post seu numa rede social. No post ele mostrava parte da resposta para uma pergunta de uma provável jovem estudante: “Acho que estou apaixonada de novo, o quão estou fodida?”. Para essa pergunta, tão corriqueira da juventude (com fodida e tudo), meu amigo me trouxe uma belíssima resposta do qual destaco apenas um trecho: “Você ganhou o prêmio de estar experimentando a sensação mais maravilhosa que a vida pode propiciar. Você já está no céu sem ter morrido. O resto não importa”.

Foi a partir daí que comecei a dialogar com meu amigo, que vou chamar aqui de Wolf:

Raph – Se Deus for o nosso amor, não será preciso esperar a morte para chegar ao céu, nem temer inferno algum.

Wolf – O amor a Deus é um amor platônico. O amor completo, além dos aspectos agape e philia, também envolve o eros, que, em geral, não se devota a Deus. Além disso, o amor a Deus não é sensivelmente correspondido. Você pode ter a intelecção de que Deus o ama, mas você não tem essa sensação, como você pode ter do amor de outra pessoa. Assim, o céu que o amor de Deus pode propiciar é um céu intelectual. O céu que uma paixão amorosa humana propicia, além de intelectual, é também sensorial.

Raph – Pois é eu quis dizer literalmente isso: se Deus for o nosso amor, se tudo o que associamos ao amor, ao amor puro, mesmo que sexual, seja Deus. É mais um jogo de palavras, cada um entende a palavra "Deus" do seu modo, para o bem ou para o mal (poderia dizer, talvez, "se o Sagrado for nosso amor")... Mas eu toquei nisso porque achei bonito o que disse: "Você já está no céu sem ter morrido".

Wolf – Sim, se considerarmos que Deus significa, simplesmente, "amor", então quem está apaixonado está com Deus no coração. Nesse caso, Deus não é um ser. Essa é uma concepção que me agrada. Quando alguém diz "fica com Deus" ou "vai com Deus", está dizendo "fica com amor" ou "vai com amor". Realmente, é disso que a humanidade precisa. Para tal vale ler o "Tao Te Ching" de Lao Tsé.

Raph – Exato, quem sabe o Tao não seja o Amor: Deus em movimento... Mas vamos aprofundar um pouco mais: quem sabe se o motivo de tantos terem medo de se apaixonar não tenha algo a ver com esse entendimento de Deus como agente de barganha: "eu Te amo, Pai, e em troca ganho isto ou aquilo" (por ex: "a salvação").

Nas relações amorosas, às vezes as pessoas parecem pensar assim, só que quando percebem que nem sempre recebem "amor de volta", ficam com medo de amar. Mas, se o amor for sua própria recompensa, não deveriam se preocupar com barganhas, mas simplesmente com o exercício do amor.

Lao Tsé não espera nada em troca, o simples fato de refletir sobre o Tao o faz feliz. É como contemplar as estrelas: ninguém espera uma estrela cadente de presente, para guardar em casa - apenas as admira.

Wolf – Gosto dessa linha. A questão é a seguinte: o esquema da natureza fez com que a vida tenha surgido e, para que ela continue, desenvolveu-se o sexo, do qual o amor, qualquer amor, é uma sublimação. Então o amor é, assim considerando, o supremo objetivo da natureza. Ele é o caminho para que o esquema funcione e a evolução progrida, pois não há evolução sem reprodução. Note que não falo "projeto" e sim "esquema", pois não há plano nenhum nisso, por parte de ninguém. É o que aconteceu de acontecer. E se o que podemos chamar de "Deus" seja, simplesmente, uma personalização abstrata desse esquema, como o concebia Einstein e Espinosa, que não viam em Deus uma pessoa, e, nem mesmo, um ser, então crer em Deus e amá-lo nada mais é do que se amoldar a esse esquema. Como portadores do livre arbítrio, que nos retirou, em parte, do esquema cego e nos concedeu a liberdade de escolha, podemos escolher a salvação, que é, justamente, aderir ao amor, ou a perdição, que é negá-lo. Esse tipo de exegese eu aceito.

***

Claro que isso não quer dizer que estamos totalmente de acordo acerca do que seja Deus, ou o Amor, mas pelo menos deixou de haver este “distanciamento”, este “deus-barreira”, entre nós. Mas, talvez ainda falte uma explicação mais profunda acerca do que quero dizer aqui:

Se Deus é pensado como um Ser, ou apenas como um Ser, racionalmente e intuitivamente chegaremos a dilemas sem volta, a paradoxos irreconciliáveis, e invariavelmente dia chegaremos numa certa descrença. Mas, então, será o início, e não o fim... Pois quando finalmente percebermos que Deus é Substância, a Substância que não pode criar a si mesma [2], o Uno que formou tudo o que há através do Movimento, então teremos a genuína experiência de estarmos encharcados por seu Oceano onde quer que cheguemos, em todos os momentos da existência...

Então começaremos a compreender que todos somos parte dele, e todos estamos conectados numa longa teia de luz. E saberemos que é o Amor, só o Amor, a essência de seu Movimento. Então passaremos a amar, pelo prazer de amar, pois o Amor é sua própria recompensa, e quanto mais arde em nossa alma, mais combustível há para que o fogo cresça ainda mais, cada vez mais...

E não teremos nada pelo que crer ou descrer, nem nada a temer. Teremos dado o primeiro passo no caminho, e depois do primeiro já saberemos que a época da escuridão da alma ficou para trás. Será o início da vida, e o fim da sobrevivência.

Mas nada disso se aprende lendo palavras - o Amor não é uma palavra, tampouco Deus.


Se esse conhecimento pudesse ser obtido simplesmente pelo que dizem outros homens, não seria necessário entregar-se a tanto trabalho e esforço, e ninguém se sacrificaria tanto nessa busca. Alguém vai à beira do mar e só vê água salgada, tubarões e peixes. Ele diz: "onde está essa pérola de que falam? Talvez não haja pérola alguma". Como seria possível obter a pérola simplesmente olhando o mar? Mesmo que tivesse de esvaziar o mar cem mil vezes com uma taça, a pérola jamais seria encontrada.

É preciso um mergulhador para encontrá-la...

(...)

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

(Jalal ad-Din Rumi)

***

[1] Neste livro provocativo (e muito corajoso), Botton defende que à sociedade secular têm muito o quê aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Ele praticamente inaugura o ateísmo 2.0: uma forma mais tolerante, mais filosófica que eclesiástica (ou antieclesiástica, o que no fundo não é tão diferente, tal como o ódio não é o oposto do amor), de ateísmo.

[2] Espinosa foi quem melhor elaborou a questão para a modernidade, em sua monumental Ética. Porém, tais ideias acerca do Uno, da Substância-Primeira, datam de épocas muito mais antigas, tendo aparecido no hermetismo, na filosofia pré-socrática (particularmente em Parmênides), nos estoicismo e no neoplatonismo. Mesmo no taoismo, não é possível ignorar a abordagem da questão, ainda que de forma poética.

***

E aqui terminam, finalmente, as reflexões sobre a espiritualidade e a ciência. Não esqueçam: a luz que reflete numa alma jamais será a mesma luz, por isso é tão importante que sejamos como uma teia de luz. Para que nenhuma ideia de amor, nem mesmo a mais pequenina, se perca...


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***

Crédito das imagens: todas foram vistas nas redes sociais, portanto não sei dos autores (será que algum deles ficaria chateado?)

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2 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Lindo o texto e a conversa! Nós não conhecemos nada, Raph, o que conhecemos são só "imagens" ou "impressões" de um contato com "algo" e são nossas, não do algo em si ao menos, é como penso. Quando discutimos sobre algo, na verdade, discutimos sobre nossa imagem de algo e que importa ela, perante o algo inconcebível? Teve uma época em minha vida que concebi Deus como pessoa e não dava a mínima para ele, para seu conceito e sua imagem, por que o que poderia me fazer ser visto por alguém que detém todo o poder? Até cri em um deus pessoal, mas não cria que me amasse, ou eu fosse ao menos interessante a ele. Não tinha nem o que barganhar...rsrsrs... Então, relendo aquela velha coleção de filosofia, os pensadores, li sobre o Uno e senti amor por ele. Eu me lembrei de uma redação que escrevi na sétima série sobre Deus, na qual eu falei que todos os deuses eram "imagens" de um mesmo Deus, que estava em tudo e em todos. Nem eu entendi o que escrevi na época e minha professora de redação perguntou de qual livro eu tinha colado o texto...rs... Mas, relendo sobre o Uno, já com vinte e alguma coisa de idade, relembrei da redação de quando era criança e o que tinha escrito, o que havia sentido. Desconstruí minha imagem de Deus, construída por um lar cristão e no lugar dela, projetei meu próprio amor e ele foi tão grande, tão além das coisas e pessoas que amo, que me senti amado pelo meu próprio amor. Foi aí que conheci Deus, ou a imagem dele em mim, no meu próprio amor. E quando ele salta de mim, como amor próprio, eu sei que meu próprio amor me ama, além de tudo que amo...kkkk... Cada um projeta no seu conceito de Deus a imagem que quiser. Eu acabei projetando nele, a imagem do meu próprio amor... Meu único medo, no ateísmo, é que se projete na imagem de Deus, o ego inferior. Claro que um ateísta pode e deve se elevar acima das imagens, mas infelizmente, um trono vazio na imagem de Deus, ou o ego inferior elevado a este trono é complicado... Ainda bem que temos gente como o Botton neste lado. Bem, me perdi no comentário, mas resumindo, se entendermos que Deus, ao menos como o concebemos, é nossa imagem de Deus, e não o "algo" em si, fugimos do nós versus eles e dos riscos de inquisição e preconceito. abraços

17/5/12 17:31  
Blogger raph disse...

Exato.

Bem outra vantagem de abordar a Deus como nosso amor, é que não temos outra escolha para um religare que não o exercício, a experiência, o conhecimento do amor. Dessa forma, nem são necessários mandamentos: quem ama, já sabe o que é bom.

Abs!
raph

17/5/12 17:44  

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