Pular para conteúdo
13.10.09

Oferendas ancestrais

O bipedalismo, ou seja, a capacidade de se andar apenas com dois membros, e não com quatro, é uma característica desenvolvida por pouquíssimos animais ao longo da evolução das espécies. Como se sabe, um desses animais é o homo sapiens. Segundo a teoria de Darwin-Wallace, o homo sapiens evoluiu a partir de um ancestral comum com o chimpanzé, ou pelo menos esta era a teoria mais aceita até alguns anos atrás. Uma outra teoria acerca da evolução humana postulava que o bipedalismo foi desenvolvido sobretudo quando os humanos arcaicos, ancestrais do homo sapiens, abandonaram as regiões africanas de densas florestas e se aventuraram nas pradarias, onde a capacidade para arrancar frutos e carregar comida e armas de caça seria, talvez, mais importante do que a velocidade e equilibrio conferidas pelo andar em quatro patas, o que seria muito mais útil para se fugir de predadores.

No entanto, descobertas da arqueologia nas últimas décadas tem colocado em xeque tais teorias. Particularmente a descoberta do esqueleto de Ardi (ardipithecus ramidus) encontrado em 1992. O esqueleto demorou três anos para ser escavado pela equipe do Projeto Médio Awash, em Aramis, na Fenda de Afar, Etiópia. Sua reconstrução foi realizada por dezenas de cientistas de todo o mundo, sendo que atualmente a liderança dos estudos está em mãos de Tim White. Ele trabalha com Paleontologia e Arqueologia Paleolítica na África desde 1974, sendo professor de biologia da Universidade da Califórnia em Berkley e codiretor do projeto que atuou na retirada do achado.

Após mais de uma década de análises minuciosas, as conclusões finais dos arqueólogos e cientistas envolvidos foram finalmente publicadas na revista Nature de Outubro de 2009. A datação de Ardi como tendo vivido a 4,4 milhões de anos, e sua combinação única de bipedalidade indiscutível com os dentes molares pequenos, assim como a curiosa semelhança dos pés com os pés de outros símios, capazes de agarrar objetos com as mãos, lança muito mais dúvidas do que certezas no estudo dos cientistas.

Primeiro, fica comprovado que o "elo perdido", ou a espécie ancestral que o homo sapiens teria em comum com outros símios, teria vivido há muito mais tempo do que antes se imaginava, há pelo menos 7 milhões de anos. Isso levanta a curiosa hipótese de que os chimpanzés evoluíram por muito mais tempo após terem se "dissociado" de nosso galho evolutivo. Nesse sentido, é possível que muitas características dos chimpanzés sejam exclusivas deles, e nunca tenham estado realmente presentes em humanos arcaicos.

Mas a questão mais curiosa é que, além da bipedalidade ter se desenvolvido há muito mais tempo do que antes se imaginava (sabe-se também que ela ocorreu milhares de anos antes do aumento e evolução do cérebro humano), estudos da região onde Ardi foi encontrada comprovaram que, em sua época, há mais de 4 milhões de anos, aquela região da Etiópia era cercada por densas florestas! Isso significa que a ciência precisa arranjar uma nova e arrojada explicação para o motivo dos humanos arcaicos teremos evoluído para a bipedalidade e os caninos menores, ainda milhares de anos antes de desenvolverem a cognição peculiar da mente do homo sapiens.

Uma das hipóteses que mais me agradaram foi a descrita no documentário da Discovery Channel. Segundo essa teoria, o bipedalismo e a redução dos dentes caninos foi acompanhada das primeiras convenções sociais entre os caçadores-coletores. As fêmeas passaram a preferir machos menos agressivos, e passaram também a trocar sexo por comida, além de se comprometerem por mais tempo com a "educação" dos filhos. Isso favoreceu nos machos, e consequentemente em toda a espécie, o bipedalismo: assim poderiam se deslocar por distâncias maiores, e carregar oferendas (pequenos pedaços de comida, sejam frutos ou carne de animais abatidos) por sexo. A redução dos caninos talvez indicasse que os machos não precisavam mais competir agressivamente pelas fêmeas, e que a troca de carinho (sim, talvez pudéssemos usar esta palavra) era mais reconfortante e necessária, então, do que as lutas sangrentas pelo direito de copular com as fêmeas.

Será que isso faz sentido? Será que nossas convenções sociais, nossa organização em famílias de indvíduos, tem uma origem ancestral, bem mais antiga até do que nossa cognição avançada?

Hoje se sabe que o altruísmo é uma forma de evolução da espécie. Grupos de indivíduos capazes de colaborar entre si tem maiores chances de sobrevivência do que indivíduos solitários que caçam sozinhos. Sim, eles tem maior reserva de alimento, mas muito menos proteção contra outros predadores, e contra a própria solidão da vida selvagem... Caso possamos fazer uma associação entre o altruísmo e o que o homem moderno chama de amor, talvez o estudo científico da evolução humana nos traga lições muito mais profundas do que a mera compreensão do mecanismo pelo qual nossos corpos evoluíram. Talvez compreendamos que não foram apenas dentes que deixaram de ser pontiagudos, ou mãos que passaram a ser capazes de produzir ferramentas especializadas, mas antes a evolução social que potencializou nossas chances de sobrevivência, e nos tornou a espécie dominante deste planeta.

Talvez, as oferendas ancestrais de humanos arcaicos em troca de sexo, dando origem aos rudimentos do que hoje chamamos de família, tenha sido o momento-chave que possibilitou toda a evolução seguinte. Afinal, a partir do momento que deixamos de rastejar junto ao solo, buscando comida e sobrevivência, e passamos a andar eretos, e a enxergar as estrelas no céu, e os olhos e a face de nossos semelhantes, possivelmente tenhamos passado a desenvolver o rudimento da consciência de nós mesmos, e do que afinal viemos fazer nesta terra.

***

Crédito da imagem: J.H.Matternes

Marcadores: , , , , , , , , ,

0 comentários:

Postar um comentário

Toda reflexão é bem-vinda:

‹ Voltar a Home

Related Posts with Thumbnails