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16.3.18

Através do olhar de Maria Madalena

Ao contrário das outras poucas análises de filmes que já fiz por aqui, desta vez vou trazer a vocês um texto sem tantos spoilers, para que possam ler mesmo antes de ver o filme Maria Madalena (2018; direção de Garth Davis). Aliás, como poderão ver, não é bem um filme agradável para todos os públicos...


Uma coisa que posso contar é sobre a belíssima cena inicial do filme, justamente porque é a primeira coisa que irão ver. Nela, vemos uma mulher mergulhando nas profundezas do Mar da Galileia (na verdade um extenso lago perto de Tiberíades, onde provavelmente ficava a aldeia de Magdala) enquanto ouvimos uma parábola de Jesus descrita em Mateus 13:31-32:

O Reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; o qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.

É interessante como, no restante do filme, todo o desenrolar se dá no sentido de nos explicar, não como palavras, mas sobretudo com imagens e profundas atuações, isto é, com cinema, o que poderia ser este tal Reino. E é nesse sentido que o filme não é para todos. Sua narrativa é mais mística e contemplativa do que cheia de ação e narrativas paralelas. Não há uma grande trama por ser desvendada (até mesmo porque todos já devem conhecer a história principal), não há maiores polêmicas em relação a Jesus e Maria (apesar da histeria usual dos ortodoxos com os trailers iniciais, uma espécie de “crítica preventiva”), nada disso: o filme trata do encontro com o Reino, e portanto não será mesmo do gosto de todos.

Aliás, em sua fotografia e figurino de época extremamente realistas, ele lembra muito A última tentação de Cristo (de Martin Scorsese). Neste sentido, nalguns momentos dos trechos iniciais no entorno da aldeia de Magdala e, mais ainda, nas cenas de Jerusalém (com o Templo de Salomão ainda de pé) vista de longe, a beleza do filme supera o antigo; ainda que, como cinema em si, esteja relativamente bem aquém do clássico de Scorsese.

Logo após a cena inicial no lago somos apresentados a Maria e sua vida em Magdala, uma pequena aldeia de pescadores. Logo fica muito claro, mesmo para quem ainda não sabia, que se trata de um roteiro escrito por mulheres (Helen Edmundson e Philippa Goslett): o retrato da função feminina nos lidos domésticos e do seu espaço limitado na vida religiosa da comunidade é claramente algo novo e intencional. Durante todo o restante do filme, aliás, o que vemos é a história de Jesus e seus apóstolos através do olhar de Maria Madalena. É assim que, muitas vezes, vemos os outros pelas costas enquanto caminham à frente (ela ficava geralmente atrás, para não chamar atenção) e cochichando pelos cantos (os apóstolos não se sentiam tão à vontade com ela, principalmente quando era a única mulher do grupo)... Vale lembrar, aliás, que em nenhum momento o filme comete o antigo erro de associar Maria a uma prostituta, algo que já foi inclusive corrigido pelo próprio Vaticano, que em 2016 a proclamou a apóstola dos apóstolos.

O primeiro apóstolo a se aproximar mais intimamente de Maria é Judas. É interessante e, ao mesmo tempo infeliz, a maneira como o caracterizam no filme. Judas já foi o tradicional traidor maléfico dos filmes mais ortodoxos, e o confidente belicista, o apóstolo mais próximo de Jesus na Última tentação (...) de Scorsese. Aqui, entretanto, ele é mais como um fanático religioso ingênuo, que tem altas expectativas acerca da chegada iminente do Reino. Não sei se ele foi pensado como uma crítica aos cristãos fanáticos de hoje em dia (o tipo de gente que acha que a ida da embaixada dos EUA para Jerusalém vai apressar a vinda do messias), mas o considero como o grande ponto fraco do filme, ainda que o ator seja em geral bem simpático.

Já a caracterização de Pedro vai muito além de ser um (excelente) ator negro (sim, havia negros naquela época); ele é basicamente neste filme o que Judas é, em boa parte, no filme de Scorsese: a “rocha firme” que mantém o grupo forte e unido, e aquele que protege Jesus nos momentos em que à força física se faz necessária. No entanto, as roteiristas trouxeram para o filme, como era de ser esperado, o famoso conflito entre Pedro e Maria que se passa no Evangelho de Maria, um dos chamados “apócrifos”:

Pedro [...] questionou sobre o Salvador: “Ele realmente falou com uma mulher sem o nosso conhecimento (e) não abertamente conosco? Vamos todos mudar de posição e ouvi-la? Ele preferiu a ela a nós?”

Então Maria lamentou e disse a Pedro, “Meu irmão Pedro, o que pensas? Tu crê que eu mesma inventei essas coisas no meu coração, ou que esteja mentindo sobre o Salvador?” Levi respondeu e disse a Pedro, “Pedro, tu sempre foste o exaltado. Agora eu te vejo te opondo a uma mulher como (a) adversários. Mas se o Salvador a fez digna, quem és tu de fato para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece muito bem. Por isso ele a amava mais do que a nós. Vamos nos envergonhar e nos vestir do homem perfeito e recebê-lo em nós como ele nos comandou e pregar o evangelho, sem proclamar outra regra ou lei além daquilo que o Salvador disse.”

Este “ciúme” de Pedro em relação às conversas a sós entre Jesus e Maria é retratado no filme como teria de ser: não como a suspeita de uma possível relação amorosa (como personagens históricos, ambos provavelmente eram essênios e celibatários), mas como um entendimento de que ele simplesmente “estava perdendo tempo com uma mulher, que não poderia compreendê-lo”. Afinal, Maria era uma mulher, e o fato de ser tratada como um “igual intelectual” era, para aquela época e região do planeta, algo extremamente revolucionário (e que foi convenientemente esquecido por Paulo e muitos “doutores da Igreja” ao longo dos séculos).

O grande “pulo do gato” no roteiro, e onde ele é sem dúvida mais original, é justamente no andamento da relação entre Pedro e Maria, e como o próprio Jesus toma providências para que eles, ao menos, entendam e respeitem um ao outro. Jesus manda os dois, sós, para evangelizar numa aldeia que, talvez, ele já soubesse estar devastada pela fome. Fato é que, lá chegando, Pedro se recusa a batizar pessoas moribundas, que teriam no máximo alguns dias de vida. Já Maria, tal qual faria Madre Teresa de Calcutá muitos séculos depois, decide mesmo assim batizá-los e assisti-los em suas mortes. Pedro fica boquiaberto, e repete a palavra “misericórdia” algumas vezes, como se a tivesse compreendido pela primeira vez naquele dia, ao lado de Maria. É uma das cenas marcantes do filme.

Ao final, obviamente, eles ainda tomam rumos distintos: Pedro vai fundar sua Igreja de homens, e Maria vai evangelizar por todo o sul da Europa, onde eventualmente dará origem aos mitos das “virgens negras” (sim, para os padrões europeus da época, uma mulher vinda da Galileia poderia muito bem ser considerada negra – ainda que a atriz escolhida para o filme não o seja).

Já Jesus e Maria estão ambos fantásticos em suas atuações (Joaquin Phoenix e Rooney Mara, respectivamente). Jesus é, desde a cena inicial, o chamamento, o enigma que precisa ser decifrado por ela. Como esta relação é precisamente o que há de mais precioso no filme, eu prefiro não dar spoilers sobre ela. Há, porém, uma cena que inclusive aparece no trailer, em que Maria lhe pergunta enquanto estão ambos a sós nos montes galileus:

“É isso que se sente quando se é um com Deus?”

Ao que Jesus diz:

“Nunca me perguntaram como é a sensação.”

Mas isto não chega a ser respondido completamente em nenhum momento do filme, pois que isto não é para ser dito. E é precisamente assim que Maria Madalena deve ser visto: como uma experiência religiosa. Para os que têm olhos para ver, um belíssimo filme lhes aguarda nos cinemas.

***

Crédito da imagem: Divulgação/Maria Madalena

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26.6.13

Um mergulho no gnosticismo

O próximo projeto para as Edições Textos para Reflexão é um mergulho nas águas profundas do gnosticismo.

Em Os Evangelhos de Tomé e Maria, lhes trarei não somente a transcrição destes dois evangelhos ditos apócrifos, como também toda a série de contros O mensageiro dos céus especialmente revisada para a ocasião, além de diversos outros contos e artigos do blog que foram inspirados direta ou indiretamente no gnosticismo cristão. Também iremos contar, provavelmente, com um prefácio especial de um amigo que entende muito mais de gnosticismo do que eu.

A seguir, lhes trago um trecho do capítulo com a transcrição do Evangelho de Tomé. Temos abaixo a introdução e os três primeiros versículos em sua versão final:

***

Introdução

O Evangelho de Tomé é uma coletânea de pronunciamentos de um “Jesus sábio”, embora sua sabedoria também possa ser vista como messiânica, fazendo com que a obra seja mais religiosa do que puramente filosófica.
A autoria deste evangelho é atribuída ao apóstolo Judas Tomé Dídimo. Tanto o aramaico Tau’ma (Tomé) quanto o grego Didymos (Dídimo) significam “gêmeo”. Na Igreja Síria, Judas Tomé Dídimo era conhecido como o irmão de Jesus que fundou as igrejas do Oriente, especialmente a de Edessa. Tradições orais antigas também afirmam que ele teria viajado até a Índia e entrado em contato com o budismo e o hinduísmo.
Outras escrituras cristãs das igrejas orientais também têm sido atribuídas ao mesmo apóstolo, como Os Atos de Tomé; e também, provavelmente, O Livro de Tomé, que foi descoberto como parte da Biblioteca de Nag Hammadi.
Quanto ao seu gênero literário, O Evangelho de Tomé se assemelha muito a uma das fontes dos evangelhos canônicos que compõe o Novo Testamento, particularmente a chamada Fonte Sinóptica (“Fonte Q”), que foi usada tanto em Mateus quanto em Lucas. Por outro lado, ele também contém alguns pronunciamentos antigos completamente diferentes, que remetem a João (trechos diversos), Marcos (4:21-25) e mesmo a Coríntios I (2:9).
Além disso, os pronunciamentos sobre a futura vinda do Filho do Homem, característicos da Fonte Sinóptica, não são vistos. Neste evangelho Jesus tampouco é crucificado, demonstrando que ele tem uma relação ao mesmo tempo próxima e absolutamente independente do Novo Testamento. Em sua forma mais original, pode pertencer a última metade do século I d.C. (a mesma data provável, portanto, da Fonte Sinóptica).

***

“Muito tempo antes de os textos da Biblioteca de Nag Hammadi e do Códice Gnóstico de Berlim terem sido escritos, havia sabedoria, hokhmah, Sofia. Uma das expressões mais primitivas da religião no mundo mediterrâneo era a que se referia à sabedoria, e a sabedoria mostrou-se ser uma das mais duradouras. Em todos os textos egípcios, mesopotâmicos, judaicos, greco-romanos, cristãos e islâmicos, a sabedoria ocupa um lugar central, e na tradição do Evangelho de Tomé, Jesus é apresentado como um homem de sabedoria.”

Marvin Meyer, em Mistérios gnósticos: as novas descobertas (Ed. Pensamento).

***

“No Evangelho de Tomé não aparece o menor indício de uma hierarquia eclesiástica nem hegemonia clerical. O cristianismo original era uma fraternidade espiritual, uma espécie de democracia crística, e não uma monarquia hierárquica [...] Não há referência à transubstanciação nem ao poder de perdoar pecados, conferido por Jesus aos seus discípulos. Tudo visa unicamente ao despertamento do poder espiritual no homem.”

Huberto Rohden, em O Quinto Evangelho (Ed. Martin Claret).


O Evangelho de Tomé

Estas são as palavras secretas que Jesus, o Vivo, disse, e que Judas Tomé, o Dídimo, escreveu.

[1]

E ele disse: Aquele que souber como interpretar estas palavras, não experimentará a morte.

[2]

Disse Jesus: Deixem o buscador continuar buscando até que encontre.
Quando encontrar, ficará perturbado. Quando se perturbar, ficará maravilhado e reinará sobre o Todo.

[3]

Disse Jesus: Se aqueles que os guiam disserem, “Vejam, o Reino está no céu”, então os pássaros os precederão. Se lhe disserem, “Ele está no mar”, então os peixes os precederão.
Mas certamente o Reino está dentro, e também fora, de vocês mesmos. Se o reconhecerem, serão reconhecidos, e saberão que são filhos do Pai Vivo.
Mas se não o reconhecerem, então estarão na pobreza, serão a pobreza.


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23.5.13

O amante

Numa noite fria da Galileia, enquanto acampavam próximos a Magdala, Yeshua teve um sonho com o Anjo do Senhor:

Anjo – É chegada a hora de encontrar-te com aquela que fala conosco.

Mensageiro – A essênia?

Anjo – Tu já cruzaste com ela, mas não em sonho. Esta que vê em teus sonhos pertence somente a tua imaginação. A outra de que falo é ainda mais sábia do que imaginas. Tu foste o mensageiro das coisas do Alto, mas será ela quem fará tua mensagem chegar ao mundo todo...

Yehsua acordou subitamente com um raio de sol nascente lhe cegando os olhos. Enquanto ainda se habituava de volta ao mundo dos despertos, disse aos demais: “Amigos, levantem-se. Devemos aproveitar a manhã, nosso próximo destino será a própria aldeia de Magdala”.

“O que iremos fazer em Magdala, mestre?” – perguntou Shimon (aquele a quem Yehsua chamou Kepha). “Iremos nos encontrar com um mestre essênio, e o convidar para o nosso grupo” – tendo dito isso, fez com que todos se entusiasmassem com aquele dia, particularmente Shimon, que sempre teve curiosidade em conhecer mais sobre os essênios.

***

Chegaram na pequena Magdala, nada mais do que uma antiga torre em ruínas perto da costa, onde um dia houve um agrupamento de essênios, mas que naquele tempo estava mais para um agrupamento de pescadores e mercadores.

Não foi sequer necessário perguntar pela essênia. Uma bela mulher, de pele morena e cabelos negros, contrastando com sua longa veste branca que ajudava a ornar um corpo sinuoso, aproximou-se do grupo de Yeshua. Ela logo disse o seu nome, “Miriam”.

Yeshua parecia aturdido (não se sabe se por sua beleza ou por sua presença), então Shimon falou em seu lugar:

Shimon – Olá mulher. Acaso sabe de algum essênio que ainda tenha permanecido em Magdala?

Miriam – Em realidade todos se foram. Foram buscar um local ainda mais afastado do mundo dos homens, onde não existe propriedade nem a necessidade de pagar tributos a César. Mas vocês têm sorte, pois que hoje há um deles que retornou a aldeia em visita.

Shimon – Mas nós buscamos por um mestre essênio, um Mestre da Justiça.

Miriam – Quem veio é também Mestre da Justiça.

Shimon – E onde está?

Miriam – Está diante dos seus olhos, ó caminhante.

Shimon (confuso) – Mas como? Eu só vejo uma mulher na minha frente!

Não foi preciso que Miriam de Magdala explicasse, foi o próprio Yeshua quem interrompeu a conversa, já recobrado da espécie de transe em que tinha entrado repentinamente:

Mensageiro – Kepha, meu caro amigo, não seja rude... Acaso não sabe que entre os essênios mesmo as mulheres podem ser mestras?

***

Já se passavam três dias desdê que a comitiva de Yeshua havia se hospedado na antiga torre de Magdala. Os discípulos começavam a ficar impacientes, não somente pelo fato de que não havia muito o que se fazer naquela aldeia, mas sobretudo pelo fato de seu mestre passar quase todo o tempo conversando a sós com a Mestre da Justiça. Ora eram vistos no entorno da aldeia, ora muito distantes, caminhando juntos sob a sombra de um pequeno bosque que crescia na direção da costa...

Mensageiro – Então você é aquela garotinha que encontrei há anos quando me dirigia ao Oriente. Inacreditável como cresceu, e neste caso me refiro a sua alma e sua sabedoria.

Miriam – É muito gentil, Yeshua. Mas, ainda que minha sabedoria crescesse muito além da torre de Magdala, jamais haveria de alcançar o Céu, como você parece fazer todos os dias.

Mensageiro – Se consigo alcançar o Céu, não sou como você que vê aos anjos ainda acordada...

Miriam – Você não precisa ver aos anjos. Eles vêm somente para nos ensinar, e não há nada que tenham para lhe ensinar, Yeshua.

Mensageiro – Bobagem; há sempre o que se aprender, mesmo entre os que sabem menos do que nós. Ainda que este fosse o caso dos anjos, mas não é... Há alguns anjos que sabem muito mais do que outros, e há alguns que sabem muito mais do que eu. Foi exatamente um destes que me enviou até você há quase três dias atrás...

Miriam – E os anjos que vejo raramente são desta falange, Yeshua. Veja bem, eu sei que o Pai e a Mãe estão espalhados por todas as coisas, naquela pedra ali, naquele outro galho partido acolá. Mas eu ainda não participo deste casamento, ainda não fui convidada a presenciar esta cerimônia, ainda não trouxe o Céu para a Terra. Você quem se aventurou nas terras do Alto e retornou, Yeshua, me conte dessas maravilhas!

Mensageiro – Você quer a história verdadeira?

Miriam – Se acha que mereço a verdade, me conte a verdade...

Mensageiro – No início, eu era levado à força. O Pai surgia como um pássaro raivoso, embora eu não pudesse vê-lo. Tudo que sentia eram suas garras: uma me segurava pelo pescoço e impedia que eu fugisse, e a outra se enterrava em minha cabeça... Era então que a dor se iniciava. Era como se eu explodisse e me separasse em milhares de pedaços, para só então renascer em sua Casa. Lá o Anjo do Senhor me falava do que vim fazer neste mundo, enquanto uma grande luz pairava por todo o ambiente. Nesta época em me rebelei, eu não suportava mais toda aquela luz, e sussurrei em meio às lágrimas que escorriam: “Pai, afasta de mim este cálice”.
Então passei alguns anos da minha infância pretendendo não ser o que sou, mas com o tempo me arrependi, pois percebi que o mundo precisava de um pouco daquela luz, e talvez eu fosse mesmo aquele quem deveria trazer a mensagem, refletir um pouco dela para aqui embaixo... Mas não sabia se eu era o único, e por isso rumei para o Oriente...

Miriam – Existiram outros como você?

Mensageiro – Sem dúvida, muitos, muitos outros! Mais sábios e mais antigos... Mas parece que o grande plano do Céu era reunir toda a sabedoria antiga nalguma espécie de ensinamento simples que pudesse ser transmitido a todos, e não apenas aos mestres e aos príncipes.
Após muito sofrer e muito duvidar, eu finalmente compreendi o que o Pai queria de mim, foi então que descobri o que sou... Não sou eu quem vai divulgar tais ensinamentos pelo mundo, Miriam, eu sou apenas um mensageiro.

Miriam (entristecida) – Foi o que os anjos me contaram... Então, é verdade... Então, não lhe resta muito tempo junto conosco, junto comigo?

Mensageiro – Miriam, Miriam, não chore para que eu não chore junto contigo. Saiba que o Pai veio até mim como uma brisa suave de primavera, e me encheu de entusiasmo e de sentido!
Eu me pus de pé e agora estou aqui entre vocês para realizar o que precisa ser realizado. E quando eu me for, será você quem divulgará minha mensagem. A tarefa não foi dada a um homem, mas a uma mulher – a única capaz de fecundar um novo pensamento na alma dos homens.

Miriam – Mas você não é um homem nem uma mulher, Yeshua. Sua natureza nos transcende... É como se a própria terra houvesse sido fecundada pela chuva, para que nascesse um ser como você... Se eu serei aquela quem divulgará sua mensagem, ao menos isto eu tenho de saber: O que, afinal, é você?

Mensageiro – Um coração. Um amante de tudo o que há, foi e ainda está para ser... Eu sou um coração, Miriam, e todo o sangue do mundo passa pela minha alma...

 

FIM

 

Este é o fim da série de contos Mensageiro dos Céus,
que havia iniciado em 1996. Gostaria de agradecer
a todas as brisas de primavera
que tornaram isto possível...

raph’13

***

Este conto é uma continuação direta de "O recitador".

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Crédito da foto: worldwidehealth.com

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6.9.12

O Evangelho de Maria

» Caso não saiba ao certo o que são os apócrifos e o gnosticismo, leia antes este artigo

A seguir temos a transcrição do Evangelho de Maria, conforme consta em A Biblioteca de Nag Hammadi (organização de James M. Robinson, publicado no Brasil pela Editora Madras, com tradução de Teodoro Lorent).

O Evangelho de Maria é o primeiro tratado fragmentário do Códice Gnóstico de Berlim, mas sua versão copta, achada em Nag Hammadi, é de longe a mais completa. Estão faltando 6 páginas iniciais, e 4 no meio do texto. Apesar de estar tão danificado, o texto retém uma parte substancial de sua mensagem, e o que foi mantido pode ser esclarecedor, embora certamente não seja parte de uma simples compreensão.

Este texto gnóstico (ou estoico, segundo alguns pesquisadores [1]) nos traz duas partes bem distintas. Na primeira, há um diálogo iniciático entre Jesus e seus discípulos. Na segunda parte, após Jesus ter saído de cena, é a própria Maria quem prossegue o diálogo, falando sobre “mistérios” que ela teria aprendido a sós com Jesus. Ao final, os discípulos homens questionam a autoridade de Maria, “enquanto mulher”, de assumir tal papel professoral acerca dos ensinamentos de Jesus.

No entanto, fato é que inúmeras interpretações dos evangelhos (incluindo aqui tanto os “canônicos” quanto os “apócrifos”) apontam para Maria Madalena como não somente uma das discípulas “mais queridas” de Jesus, mas também como uma das poucas que parecia compreender toda à profundidade de seus ensinamentos. Segundo a pesquisadora Karen King (em The Gospel of Mary Magdala), no cristianismo primitivo, “a autoridade é investida não em uma hierarquia masculina, mas na liderança de homens e mulheres que atingiram a força de caráter e a maturidade espiritual”. Ou seja, “as mulheres, assim como os homens, podiam assumir papéis de liderança com base em seu desenvolvimento espiritual”. De todos os discípulos de Jesus, talvez justamente uma mulher detivesse, portanto, a maior autoridade espiritual...

***

[...] (pgs. 1-6 faltando; pg. 7) irá a material então será [destruída] ou não?”. O salvador disse, “Todas as naturezas, todas as formações, todas as criaturas existem por si e umas com as outras, e elas serão resolvidas em suas próprias raízes. Pois a natureza da matéria é resolvida nas (raízes) de sua própria natureza. Quem quer que tenha ouvidos para ouvir, permita-lhe que ouça”.
Pedro disse a ele, “Desde que explicaste tudo para nós, conta-nos também isto: qual é o pecado do mundo?” O salvador disse, “Não há pecado, mas és tu quem comete o pecado quando fazes as coisas que estão na natureza do adultério, que é chamado de ‘pecado’. É por isso que o Bondoso veio ao meio de vós, à (essência) de cada natureza, para restaurá-la junto com sua raiz”. Então ele continuou e disse, “Por isso tu [te tornas enfermo] e morre, pois [...]

(pg. 8) daquele que [... Aquele que] compreende, permite-lhe compreender. [A matéria deu a luz a] uma paixão que não há igual, a qual emanou de (algo) contrário à natureza. Então um distúrbio se ergueu em todo o corpo. Por isso eu vos digo, ‘Sede de boa coragem’, e se vós perderes a coragem, (sede) corajoso na presença de formas diferentes da natureza. Quem quer que tenha ouvidos para ouvir, permita-lhe que ouça”.
Quando o abençoado disse isso, Ele saudou a todos, dizendo, “Que a paz esteja convosco. Recebi minha paz entre vós. Cuidai-vos para que ninguém vos desoriente, dizendo, ‘Por aqui!’ ou ‘Por ali!’ Pois o Filho do Homem está convosco. Segui os passos Dele! Aqueles que o buscam o encontrarão. Ide, então, e pregai o evangelho do reino. Não

(pg. 9) proclamai novas leis além daquelas que vos apontei, e não oferecei a lei como um legislador, para que não sejais obrigados a ela”. Quando disse isso, ele partiu.
Porém, eles ficaram aflitos. Eles lamentaram muito, dizendo, “Como devemos ir aos gentis pregar o evangelho do reino do Filho do Homem? Se eles não o pouparam, como pouparão a nós?” Então Maria se ergueu, saudou a todos eles, e disse aos seus irmãos, “Não chorai e não vos afligi e nem sede irresolutos, pois sua graça está plenamente convosco e vos protegerá. Vamos louvar sua grandeza, pois ele nos preparou e nos transformou em homens”. Quando Maria disse isso, ela fez com que seus corações se voltassem ao Bondoso, e eles começaram a discutir as palavras do [Salvador].

(pg. 10) Pedro disse a Maria, “Irmã, nós sabemos que o Salvador amava a ti mais do que todas as mulheres. Diga-nos as palavras do Salvador que mais te recordas – as quais tu sabes (mas) nós não sabemos, nem ouvimos falar delas”. Maria respondeu e disse, “O que a vós está oculto eu vos proclamarei”. E ela começou a falar para eles estas palavras:
“Eu”, ela disse, “eu vi o Senhor em uma aparição e eu disse a ele, ‘Senhor, eu o vi hoje em uma aparição’. Ele respondeu e disse a mim, ‘Abençoada és tu que não hesitou diante da minha aparição. Pois onde a mente estiver, lá haverá um tesouro’.
Eu disse a ele, ‘Senhor, como aquele que vê uma aparição a vê <através da> alma <ou> através do espírito?’ O Salvador respondeu e disse, ‘Aquele que não vê através da alma não vê através do espírito, mas da mente que [está] entre os dois – ou seja [o que] vê a aparição e o [...]’. (pgs. 11-14 faltando)

(pg. 15) “[...] isso. E deseja que, ‘eu não te vi descendo, mas agora eu o vejo subindo. Por que mentes, sendo que tu pertences a mim?’ A alma respondeu e disse, ‘Eu te vi. Tu não me viste nem me reconheceste. Eu te servi como um manto, e tu não me conheceste’. Quando disse isso, ela se foi em grande alegria.
“Novamente, veio o terceiro poder, que é chamado de ignorância. Ele questionou a alma dizendo, ‘Onde tu estás indo? Que perversão te aprisionas. Mas tu estás aprisionada; não julga!’ E a alma disse, ‘Por que julgas a mim se eu não tenho julgado? Eu estava aprisionada apesar de não ter sido aprisionada. Eu não fui reconhecida. Mas eu reconheci que o Todo está sendo dissolvido, tanto nas (coisas) mundanas

(pg. 16) quanto nas celestiais’.
Quando a alma havia superado o terceiro poder, ela subiu e viu o quarto poder, (que) tomou sete formas. A primeira forma é a escuridão, a segunda o desejo, a terceira a ignorância, a quarta é a excitação da morte, a quinta é o reino da carne, a sexta é a sabedoria néscia da carne, a sétima é a sabedoria colérica. Esses são os sete [poderes] da ira. Eles perguntaram à alma, ‘De onde tu vens, assassina de homens, ou onde tu estás indo, conquistadora do espaço?’ A alma respondeu e disse, ‘O que me prende tem sido o assassínio e o que me rodeia tem sido superado, e o meu desejo foi terminado, e a ignorância morreu. Em um [mundo] eu fui libertada

(pg. 17) de um mundo, [e] em um modelo de um modelo celestial, e (da) corrente do esquecimento que está de passagem. Daqui por diante eu alcançarei até o restante do tempo, das estações, do aeon, em silêncio’”.
Quando Maria disse isso, ela se calou, pois era até neste ponto que o Salvador havia falado com ela. Mas André respondeu e disse aos irmãos, “Dizei o que (desejeis) dizer sobre o que ela disse. Eu pelo menos não acredito que o Salvador disse isso. Pois, certamente, esses ensinamentos são ideias estranhas”. Pedro respondeu e falou sobre essas mesmas coisas. E as questionou sobre o Salvador: “Ele realmente falou com uma mulher sem o nosso conhecimento (e) não abertamente conosco? Vamos todos mudar de posição e ouvi-la? Ele preferiu a ela a nós?”

(pg. 18) Então Maria lamentou e disse a Pedro, “Meu irmão Pedro, o que pensas? Tu crê que eu mesma inventei essas coisas no meu coração, ou que esteja mentindo sobre o Salvador?” Levi respondeu e disse a Pedro, “Pedro, tu sempre foste o exaltado. Agora eu te vejo te opondo a uma mulher como (a) adversários. Mas se o Salvador a fez digna, quem és tu de fato para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece muito bem. Por isso ele a amava mais do que a nós. Vamos nos envergonhar e nos vestir do homem perfeito e recebê-lo em nós como ele nos comandou e pregar o evangelho, sem proclamar outra regra ou lei além daquilo que o Salvador disse”. Quando

(pg. 19) [...] e começaram a sair [para] proclamar e para pregar.


O Evangelho segundo Maria de Magdala


***

Sinais textuais:
[ ] As chaves indicam uma lacuna no manuscrito. Onde o texto não pôde ser reconstruído, as reticências (três pontos) foram colocadas dentro das chaves, independentemente do tamanho da lacuna.
< > Estes parênteses angulares indicam a correção de uma omissão ou erro do escriba.
( ) O parêntese indica o material fornecido pelo editor ou tradutor (moderno).

[1] Esther A. de Boer é uma das pesquisadoras dos apócrifos cristãos que se opõe totalmente a classificação do Evangelho de Maria como gnóstico. Vejamos um trecho do que ela escreveu em seu livro, The Gospel of Mary: “A linguagem particular do Evangelho de Maria [...] pertence a um contexto mais especificamente estoico, no qual a matéria é uma construção do pensamento, e a matéria e a natureza estão entrelaçadas. Isso significa que o mundo material como tal não pode ser evitado, como seria o caso de uma visão dualística gnóstica, mas que se deve tomar cuidado para não ser governado pelo poder contrário à natureza”.

***

Crédito da imagem: Terese Nielsen

 

Os Evangelhos de Tomé e Maria

Veja também
Esta edição traz dois dos textos mais profundos encontrados em Nag Hammadi: Os Evangelhos segundo Tomé e Maria Madalena. Os acompanha uma série de contos (O Mensageiro) inspirados no gnosticismo e escritos por Rafael Arrais.

» Versão impressa

» eBook (Kindle)

» eBook (Kobo)

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24.3.08

O discípulo amado

Vejamos João cap. 19:

19:25 Perto da cruz estavam a mãe de Jesus, a irmã dela, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena.

- Em outros envangelhos do Novo Testamento [NT] temos sempre uma lista de mulheres a observar Jesus na cruz, se um discípulo (homem) estivesse ali, com certeza teria sido preso imediatamente.

19:26 Vendo Jesus sua mãe, e perto dela o discípulo amado, disse: Mulher, eis o teu filho.

- Pela lista em 19:25, o discípulo amado precisa ser (1) uma mulher e (2) ou Maria, mulher de Clopas, ou Maria Madalena.

19:27 Depois disse ao discípulo: Eis a tua mãe. E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa.

- Após essa hora, o discípulo passou a receber Maria em sua casa... Ora, Maria mulher de Clopas já era irmã de Maria a mãe de Jesus e por certo já a recebia em sua casa. Portanto aqui é preciso que se determine Maria Madalena como o discípulo amado.

*

Muitos analistas ortodoxos da Bíblia tentam a todo custo explicar o inexplicável dizendo que, de alguma forma, o discípulo amado é João, quem escreveu o evangelho, e, de alguma forma, ele estava lá perto de Jesus na crucificação, rodeado de soldados romanos, sem ser molestado, enquanto outros discípulos (que eram todos bem conhecidos) eram caçados pelas ruas da cidade e precisaram fugir.

Ora, em sendo Maria Madalena o discípulo amado, ela também é o autor do Evangelho de João (João 21:24).

Isso faz sentido?

Acredito que sim, o fato de Jesus aparecer "ressuscitado" primeiro para Madalena demonstra que ela era um de seus discípulos mais considerados (porque não dizer também, amado). Sabe-se também que a pregação de Madalena acerca da "ressurreição" de Jesus foi um dos fatos mais importantes para a manutenção do cristianismo primitivo.

Significa que quiseram diminuir a importância de Madalena ao ocultar seu nome?

Não, quiseram sim fazer com que o seu evangelho fosse lido, se tivessem revelado abertamente que era o evangelho de uma mulher, QUASE NINGUÉM o iria considerar na época.

Significa que Jesus era casado com Madalena?

É uma hipótese MUITO improvável, que os "heterodoxos" levantaram como forma de trazer mais atenção da mídia para suas teorias (e ganhar mais dinheiro com seus livros e documentários "bombásticos").

Significa que outros apóstolos a invejavam?

Por certo que sim, nos evangelhos gnósticos é dito claramente que Pedro não se sentia bem com o fato de Madalena ser tão próxima a Jesus, e por certo que o preconceito da época permeava MESMO a Pedro.

Significa que Madalena era o discípulo mais espiritualizado de Jesus?

O fato de ele ter se mostrado "ressuscitado" primeiro para ela deve responder isso por si só.

Significa que uma ex-prostituta era o discípulo de moral mais elevada?

Não sei, hoje em dia muitos sequer consideram que era tenha sido mesmo prostituta, mas mesmo que tenha sido, se Paulo fora assassino e se converteu, o que é a prostituição perto do ato de lapidar pessoas?


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Coisas celestiais

1 Havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
2 Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.
3 Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.
4 Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?
5 Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
6 O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
7 Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
8 O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
9 Nicodemos respondeu, e disse-lhe: Como pode ser isso?
10 Jesus respondeu, e disse-lhe: Tu és mestre de Israel, e não sabes isto?
11 Na verdade, na verdade te digo que nós dizemos o que sabemos, e testificamos o que vimos; e não aceitais o nosso testemunho.
12 Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?

João 3. Ou, para alguns, Maria Madalena [Alterado em algumas partes] 3 :)

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