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28.7.13

Lançamento: Os Evangelhos de Tomé e Maria

Os evangelhos apócrifos são basicamente todos aqueles que não foram incorporados “oficialmente” ao Novo Testamento [NT]. Eles se relacionam claramente com Jesus Cristo e trazem alguns dos eventos citados no NT, muitas vezes sob outra ótica ou interpretação. A maior parte dos evangelhos apócrifos que chegaram à modernidade faz parte da Biblioteca de Nag Hammadi, um conjunto de pergaminhos antigos que foram enterrados em vasos no deserto, e só vieram a ser descobertos em 1945.

Esta edição traz dois dos textos mais profundos encontrados em Nag Hammadi: Os Evangelhos segundo Tomé e Maria Madalena. Os acompanha uma série de contos (O Mensageiro) inspirados no gnosticismo e escritos por Rafael Arrais, autor deste blog e tradutor e editor de diversos livros ligados a espiritualidade, a poesia e a filosofia.

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Abaixo, o prefácio do livro (uma cortesia de Giordano Cimadon):

Houvessem sido encontrados na forma de antigos pergaminhos escondidos no interior de velhos jarros de cerâmica enterrados nas silenciosas areias de algum deserto oriental, os contos que formam O Mensageiro seriam hoje considerados narrativas gnósticas escritas por algum místico iluminado dos primeiros tempos da era cristã.

Seu estilo se aproxima bastante daquele empregado por muitos dos antigos gnósticos quando narravam a vida do Salvador e os seus ensinamentos. Ao lado de preceitos éticos e filosóficos apresentados com grande clareza, existem verdades esotéricas veladas por uma poesia que pode ser facilmente confundida com aquela nascida da pena de um sábio persa, ou pelos diálogos que evocam a sabedoria dos enigmáticos mestres orientais.

Embora as palavras que tecem os contos tenham sido empregadas com a destreza que se espera de um escritor moderno, a sensação que nos transmitem é de que foram deliberadamente arranjadas por algum hábil criptógrafo dos tempos medievais. Símbolos e alegorias bastante significativos aguardam o momento em que serão decifrados por todo aquele que carregue em seu coração a chave da gnosis.

O personagem central de O Mensageiro é apresentado como um homem excepcional, um enviado de Deus, mas um homem que hesita, que num primeiro momento não compreende a sua missão, que considera a si mesmo um homem simples, comum como todos os outros. À exemplo dos gnósticos, ele descobre a verdade dentro de si mesmo e por seus próprios esforços, e pretende ajudar os seus semelhantes a encontrarem, eles também, a verdade, cada qual à sua própria maneira.

Este humano mensageiro possui um mestre de terras distantes, um sábio budista que viaja às terras do Oriente Médio em busca de um enviado divino. Sua mensagem sobre o Reino dos Céus é esotérica, podendo ser compreendida em diversos níveis, por cada um que a ouve, à sua maneira. Este é o caso do conto em que o mensageiro conquista a simpatia e contrai a amizade e o respeito do demônio tentador das sombras que o ameaça, e ainda o converte em um de seus mais dedicados discípulos.

Outro de seus grandes amigos foi um guerreiro que pretendia sacrificar a vida de muitos em nome de uma liberdade ilusória. Ao invés de repreender seu amigo pela disposição assassina movida por uma ignorância justificada, o mensageiro prefere ensinar a ele uma lição definitiva, oferecendo a si próprio como um sacrifício solitário, com o objetivo de garantir a todos a possibilidade de uma liberdade autêntica, que é a liberdade da alma.

Além disso, foi inspirado e levado pelos anjos dos Céus a conhecer, momentos antes de sua partida, a personagem gnóstica mais importante da era que marcou a difusão da essência de sua mensagem esotérica. Esta mulher foi escolhida para ser não só a sua mensageira e a sua divulgadora, mas também a sua discípula e sua amiga, alguém que parecia desfrutar de grande intimidade espiritual com o mensageiro.

Atrás de todas estas narrativas envolventes estão escondidas pérolas de conhecimento universal que o autor, em seus momentos de inspiração, elaborou através de sua poesia. Os esforços realizados pelo leitor que almeja a sabedoria oculta na representação heterodoxa de Jesus em O Mensageiro serão absolutamente recompensadores, e mais ainda em virtude da possibilidade de realizar este mesmo mergulho nas profundezas dos outros dois textos que o acompanham nesta edição primorosa: Os Evangelhos de Tomé e Maria.

No primeiro deles encontramos um Jesus absolutamente místico e mensageiro de ensinamentos revolucionários, os quais ensinam seus discípulos a encontrar o Reino dos Céus no fundo de suas próprias consciências, e não em algum lugar no tempo e no espaço. Este mensageiro do Evangelho de Tomé afirma que o Reino dos Céus está ao alcance de todos os seres humanos, e que estes podem alcançá-lo mediante a gnosis, a sabedoria divina, a qual é capaz de transformá-los radicalmente.

Através de suas palavras conhecemos um Jesus que não se apresenta como um intermediário entre o homem e o Reino dos Céus, mas como alguém que alcançou sua iluminação interior mediante seus próprios esforços, e que agora pretende indicar, com precisão esotérica, um caminho que levaria os demais até este mesmo estágio interior.

Esta iluminação é, portanto, uma busca, e uma busca que traz sofrimento e espanto, já que está relacionada com a descoberta íntima da natureza espiritual do homem e do universo que o cerca. Mudança de identidade e de percepção dos mundos físico e espiritual através do conhecimento que começa em si mesmo, eis aí o que propõe Jesus neste Evangelho que pode ser lido como uma mensagem espiritual bastante subversiva.

E uma mensagem como esta somente poderia ter sido concebida e entregue por um professor absolutamente libertário como era o Jesus retratado pelos gnósticos. Um professor que não se limitava à ensinar uma verdade através de uma forma única, pretendendo que ela servisse da esma maneira a todos os corações. Esta sua característica pode ser vista no Evangelho de Maria, o segundo evangelho que acompanha esta edição, onde encontramos um Jesus que ensinava a cada qual segundo sua inclinação particular para aprender, e tinha mensagens individuais que entregava a seus discípulos.

Foi exatamente o que aconteceu com Maria Madalena, sua discípula e companheira, quem recebeu do mensageiro um ensinamento particular e íntimo, que mais tarde entregou também aos demais discípulos. Entre outros motivos, este talvez tenha sido um dos que provocou a antipatia de Pedro por aquela mulher preferida entre os apóstolos.

Na ótica dos antigos gnósticos, aquele que se transformaria na pedra angular da Igreja de Cristo, segundo os evangelhos canônicos, não via com bons olhos a intimidade de Maria Madalena com o Salvador, e relutava em aceitar o papel de liderança que ela exercia naquela comunidade de primeiros cristãos.

É provável que a rivalidade de Pedro para com Maria Madalena não estivesse somente relacionada com uma disputa pelo poder. Talvez sentimentos mais corriqueiros sustentassem esta rivalidade. Pedro poderia muito bem sentir-se envergonhado ao lembrar do momento da prisão e da crucificação de seu Mestre, quando ao invés de ter seguido o exemplo de Maria Madalena e ficado junto ao Salvador em seus momentos de maior angústia, chegou até mesmo a negar tê-lo conhecido. Pode também a raiva de Pedro encontrar seu fundamento no sentimento da inveja, já que após a sua ressurreição Jesus decidiu aparecer primeiro diante de uma mulher, e não de seus discípulos homens.

Contudo, esta provável mesquinhez de Pedro não deve fechar os olhos da alma do leitor para a possibilidade de que também esta que parece ser apenas mais uma rivalidade banal entre discípulos encerre um sentido oculto que aguarda ser revelado. Pois sempre há um sentido esotérico dado pelos antigos gnósticos aos seus escritos, e este deve ser encontrado por cada um. Caso contrário, como nos avisa Tomé, fogo sairá das pedras lançadas pelos transtornados e este mesmo fogo os consumirá.

É oportuno buscar também a este sentido esotérico nos contos que formam O Mensageiro, pois tal sentido é como um espírito imortal que anima suas palavras, além de ser o fio que os enlaça com a tradição gnóstica de séculos passados. Através da estética que o caracteriza, proporcionará uma leitura agradável aos olhos da carne, mas através da essência que lhe dá vida, será alimento para toda alma que anseia pela plenitude.


Giordano Cimadon é psicólogo, escritor, professor gnóstico e coordenador das atividades da Sociedade Gnóstica Internacional (www.sgi.org.br).


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26.6.13

Um mergulho no gnosticismo

O próximo projeto para as Edições Textos para Reflexão é um mergulho nas águas profundas do gnosticismo.

Em Os Evangelhos de Tomé e Maria, lhes trarei não somente a transcrição destes dois evangelhos ditos apócrifos, como também toda a série de contros O mensageiro dos céus especialmente revisada para a ocasião, além de diversos outros contos e artigos do blog que foram inspirados direta ou indiretamente no gnosticismo cristão. Também iremos contar, provavelmente, com um prefácio especial de um amigo que entende muito mais de gnosticismo do que eu.

A seguir, lhes trago um trecho do capítulo com a transcrição do Evangelho de Tomé. Temos abaixo a introdução e os três primeiros versículos em sua versão final:

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Introdução

O Evangelho de Tomé é uma coletânea de pronunciamentos de um “Jesus sábio”, embora sua sabedoria também possa ser vista como messiânica, fazendo com que a obra seja mais religiosa do que puramente filosófica.
A autoria deste evangelho é atribuída ao apóstolo Judas Tomé Dídimo. Tanto o aramaico Tau’ma (Tomé) quanto o grego Didymos (Dídimo) significam “gêmeo”. Na Igreja Síria, Judas Tomé Dídimo era conhecido como o irmão de Jesus que fundou as igrejas do Oriente, especialmente a de Edessa. Tradições orais antigas também afirmam que ele teria viajado até a Índia e entrado em contato com o budismo e o hinduísmo.
Outras escrituras cristãs das igrejas orientais também têm sido atribuídas ao mesmo apóstolo, como Os Atos de Tomé; e também, provavelmente, O Livro de Tomé, que foi descoberto como parte da Biblioteca de Nag Hammadi.
Quanto ao seu gênero literário, O Evangelho de Tomé se assemelha muito a uma das fontes dos evangelhos canônicos que compõe o Novo Testamento, particularmente a chamada Fonte Sinóptica (“Fonte Q”), que foi usada tanto em Mateus quanto em Lucas. Por outro lado, ele também contém alguns pronunciamentos antigos completamente diferentes, que remetem a João (trechos diversos), Marcos (4:21-25) e mesmo a Coríntios I (2:9).
Além disso, os pronunciamentos sobre a futura vinda do Filho do Homem, característicos da Fonte Sinóptica, não são vistos. Neste evangelho Jesus tampouco é crucificado, demonstrando que ele tem uma relação ao mesmo tempo próxima e absolutamente independente do Novo Testamento. Em sua forma mais original, pode pertencer a última metade do século I d.C. (a mesma data provável, portanto, da Fonte Sinóptica).

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“Muito tempo antes de os textos da Biblioteca de Nag Hammadi e do Códice Gnóstico de Berlim terem sido escritos, havia sabedoria, hokhmah, Sofia. Uma das expressões mais primitivas da religião no mundo mediterrâneo era a que se referia à sabedoria, e a sabedoria mostrou-se ser uma das mais duradouras. Em todos os textos egípcios, mesopotâmicos, judaicos, greco-romanos, cristãos e islâmicos, a sabedoria ocupa um lugar central, e na tradição do Evangelho de Tomé, Jesus é apresentado como um homem de sabedoria.”

Marvin Meyer, em Mistérios gnósticos: as novas descobertas (Ed. Pensamento).

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“No Evangelho de Tomé não aparece o menor indício de uma hierarquia eclesiástica nem hegemonia clerical. O cristianismo original era uma fraternidade espiritual, uma espécie de democracia crística, e não uma monarquia hierárquica [...] Não há referência à transubstanciação nem ao poder de perdoar pecados, conferido por Jesus aos seus discípulos. Tudo visa unicamente ao despertamento do poder espiritual no homem.”

Huberto Rohden, em O Quinto Evangelho (Ed. Martin Claret).


O Evangelho de Tomé

Estas são as palavras secretas que Jesus, o Vivo, disse, e que Judas Tomé, o Dídimo, escreveu.

[1]

E ele disse: Aquele que souber como interpretar estas palavras, não experimentará a morte.

[2]

Disse Jesus: Deixem o buscador continuar buscando até que encontre.
Quando encontrar, ficará perturbado. Quando se perturbar, ficará maravilhado e reinará sobre o Todo.

[3]

Disse Jesus: Se aqueles que os guiam disserem, “Vejam, o Reino está no céu”, então os pássaros os precederão. Se lhe disserem, “Ele está no mar”, então os peixes os precederão.
Mas certamente o Reino está dentro, e também fora, de vocês mesmos. Se o reconhecerem, serão reconhecidos, e saberão que são filhos do Pai Vivo.
Mas se não o reconhecerem, então estarão na pobreza, serão a pobreza.


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6.9.12

O Evangelho de Maria

» Caso não saiba ao certo o que são os apócrifos e o gnosticismo, leia antes este artigo

A seguir temos a transcrição do Evangelho de Maria, conforme consta em A Biblioteca de Nag Hammadi (organização de James M. Robinson, publicado no Brasil pela Editora Madras, com tradução de Teodoro Lorent).

O Evangelho de Maria é o primeiro tratado fragmentário do Códice Gnóstico de Berlim, mas sua versão copta, achada em Nag Hammadi, é de longe a mais completa. Estão faltando 6 páginas iniciais, e 4 no meio do texto. Apesar de estar tão danificado, o texto retém uma parte substancial de sua mensagem, e o que foi mantido pode ser esclarecedor, embora certamente não seja parte de uma simples compreensão.

Este texto gnóstico (ou estoico, segundo alguns pesquisadores [1]) nos traz duas partes bem distintas. Na primeira, há um diálogo iniciático entre Jesus e seus discípulos. Na segunda parte, após Jesus ter saído de cena, é a própria Maria quem prossegue o diálogo, falando sobre “mistérios” que ela teria aprendido a sós com Jesus. Ao final, os discípulos homens questionam a autoridade de Maria, “enquanto mulher”, de assumir tal papel professoral acerca dos ensinamentos de Jesus.

No entanto, fato é que inúmeras interpretações dos evangelhos (incluindo aqui tanto os “canônicos” quanto os “apócrifos”) apontam para Maria Madalena como não somente uma das discípulas “mais queridas” de Jesus, mas também como uma das poucas que parecia compreender toda à profundidade de seus ensinamentos. Segundo a pesquisadora Karen King (em The Gospel of Mary Magdala), no cristianismo primitivo, “a autoridade é investida não em uma hierarquia masculina, mas na liderança de homens e mulheres que atingiram a força de caráter e a maturidade espiritual”. Ou seja, “as mulheres, assim como os homens, podiam assumir papéis de liderança com base em seu desenvolvimento espiritual”. De todos os discípulos de Jesus, talvez justamente uma mulher detivesse, portanto, a maior autoridade espiritual...

***

[...] (pgs. 1-6 faltando; pg. 7) irá a material então será [destruída] ou não?”. O salvador disse, “Todas as naturezas, todas as formações, todas as criaturas existem por si e umas com as outras, e elas serão resolvidas em suas próprias raízes. Pois a natureza da matéria é resolvida nas (raízes) de sua própria natureza. Quem quer que tenha ouvidos para ouvir, permita-lhe que ouça”.
Pedro disse a ele, “Desde que explicaste tudo para nós, conta-nos também isto: qual é o pecado do mundo?” O salvador disse, “Não há pecado, mas és tu quem comete o pecado quando fazes as coisas que estão na natureza do adultério, que é chamado de ‘pecado’. É por isso que o Bondoso veio ao meio de vós, à (essência) de cada natureza, para restaurá-la junto com sua raiz”. Então ele continuou e disse, “Por isso tu [te tornas enfermo] e morre, pois [...]

(pg. 8) daquele que [... Aquele que] compreende, permite-lhe compreender. [A matéria deu a luz a] uma paixão que não há igual, a qual emanou de (algo) contrário à natureza. Então um distúrbio se ergueu em todo o corpo. Por isso eu vos digo, ‘Sede de boa coragem’, e se vós perderes a coragem, (sede) corajoso na presença de formas diferentes da natureza. Quem quer que tenha ouvidos para ouvir, permita-lhe que ouça”.
Quando o abençoado disse isso, Ele saudou a todos, dizendo, “Que a paz esteja convosco. Recebi minha paz entre vós. Cuidai-vos para que ninguém vos desoriente, dizendo, ‘Por aqui!’ ou ‘Por ali!’ Pois o Filho do Homem está convosco. Segui os passos Dele! Aqueles que o buscam o encontrarão. Ide, então, e pregai o evangelho do reino. Não

(pg. 9) proclamai novas leis além daquelas que vos apontei, e não oferecei a lei como um legislador, para que não sejais obrigados a ela”. Quando disse isso, ele partiu.
Porém, eles ficaram aflitos. Eles lamentaram muito, dizendo, “Como devemos ir aos gentis pregar o evangelho do reino do Filho do Homem? Se eles não o pouparam, como pouparão a nós?” Então Maria se ergueu, saudou a todos eles, e disse aos seus irmãos, “Não chorai e não vos afligi e nem sede irresolutos, pois sua graça está plenamente convosco e vos protegerá. Vamos louvar sua grandeza, pois ele nos preparou e nos transformou em homens”. Quando Maria disse isso, ela fez com que seus corações se voltassem ao Bondoso, e eles começaram a discutir as palavras do [Salvador].

(pg. 10) Pedro disse a Maria, “Irmã, nós sabemos que o Salvador amava a ti mais do que todas as mulheres. Diga-nos as palavras do Salvador que mais te recordas – as quais tu sabes (mas) nós não sabemos, nem ouvimos falar delas”. Maria respondeu e disse, “O que a vós está oculto eu vos proclamarei”. E ela começou a falar para eles estas palavras:
“Eu”, ela disse, “eu vi o Senhor em uma aparição e eu disse a ele, ‘Senhor, eu o vi hoje em uma aparição’. Ele respondeu e disse a mim, ‘Abençoada és tu que não hesitou diante da minha aparição. Pois onde a mente estiver, lá haverá um tesouro’.
Eu disse a ele, ‘Senhor, como aquele que vê uma aparição a vê <através da> alma <ou> através do espírito?’ O Salvador respondeu e disse, ‘Aquele que não vê através da alma não vê através do espírito, mas da mente que [está] entre os dois – ou seja [o que] vê a aparição e o [...]’. (pgs. 11-14 faltando)

(pg. 15) “[...] isso. E deseja que, ‘eu não te vi descendo, mas agora eu o vejo subindo. Por que mentes, sendo que tu pertences a mim?’ A alma respondeu e disse, ‘Eu te vi. Tu não me viste nem me reconheceste. Eu te servi como um manto, e tu não me conheceste’. Quando disse isso, ela se foi em grande alegria.
“Novamente, veio o terceiro poder, que é chamado de ignorância. Ele questionou a alma dizendo, ‘Onde tu estás indo? Que perversão te aprisionas. Mas tu estás aprisionada; não julga!’ E a alma disse, ‘Por que julgas a mim se eu não tenho julgado? Eu estava aprisionada apesar de não ter sido aprisionada. Eu não fui reconhecida. Mas eu reconheci que o Todo está sendo dissolvido, tanto nas (coisas) mundanas

(pg. 16) quanto nas celestiais’.
Quando a alma havia superado o terceiro poder, ela subiu e viu o quarto poder, (que) tomou sete formas. A primeira forma é a escuridão, a segunda o desejo, a terceira a ignorância, a quarta é a excitação da morte, a quinta é o reino da carne, a sexta é a sabedoria néscia da carne, a sétima é a sabedoria colérica. Esses são os sete [poderes] da ira. Eles perguntaram à alma, ‘De onde tu vens, assassina de homens, ou onde tu estás indo, conquistadora do espaço?’ A alma respondeu e disse, ‘O que me prende tem sido o assassínio e o que me rodeia tem sido superado, e o meu desejo foi terminado, e a ignorância morreu. Em um [mundo] eu fui libertada

(pg. 17) de um mundo, [e] em um modelo de um modelo celestial, e (da) corrente do esquecimento que está de passagem. Daqui por diante eu alcançarei até o restante do tempo, das estações, do aeon, em silêncio’”.
Quando Maria disse isso, ela se calou, pois era até neste ponto que o Salvador havia falado com ela. Mas André respondeu e disse aos irmãos, “Dizei o que (desejeis) dizer sobre o que ela disse. Eu pelo menos não acredito que o Salvador disse isso. Pois, certamente, esses ensinamentos são ideias estranhas”. Pedro respondeu e falou sobre essas mesmas coisas. E as questionou sobre o Salvador: “Ele realmente falou com uma mulher sem o nosso conhecimento (e) não abertamente conosco? Vamos todos mudar de posição e ouvi-la? Ele preferiu a ela a nós?

(pg. 18) Então Maria lamentou e disse a Pedro, “Meu irmão Pedro, o que pensas? Tu crê que eu mesma inventei essas coisas no meu coração, ou que esteja mentindo sobre o Salvador?” Levi respondeu e disse a Pedro, “Pedro, tu sempre foste o exaltado. Agora eu te vejo te opondo a uma mulher como (a) adversários. Mas se o Salvador a fez digna, quem és tu de fato para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece muito bem. Por isso ele a amava mais do que a nós. Vamos nos envergonhar e nos vestir do homem perfeito e recebê-lo em nós como ele nos comandou e pregar o evangelho, sem proclamar outra regra ou lei além daquilo que o Salvador disse”. Quando

(pg. 19) [...] e começaram a sair [para] proclamar e para pregar.


O Evangelho segundo Maria de Magdala


***

Sinais textuais:
[ ] As chaves indicam uma lacuna no manuscrito. Onde o texto não pôde ser reconstruído, as reticências (três pontos) foram colocadas dentro das chaves, independentemente do tamanho da lacuna.
< > Estes parênteses angulares indicam a correção de uma omissão ou erro do escriba.
( ) O parêntese indica o material fornecido pelo editor ou tradutor (moderno).

[1] Esther A. de Boer é uma das pesquisadoras dos apócrifos cristãos que se opõe totalmente a classificação do Evangelho de Maria como gnóstico. Vejamos um trecho do que ela escreveu em seu livro, The Gospel of Mary: “A linguagem particular do Evangelho de Maria [...] pertence a um contexto mais especificamente estoico, no qual a matéria é uma construção do pensamento, e a matéria e a natureza estão entrelaçadas. Isso significa que o mundo material como tal não pode ser evitado, como seria o caso de uma visão dualística gnóstica, mas que se deve tomar cuidado para não ser governado pelo poder contrário à natureza”.

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Crédito da imagem: Terese Nielsen

 

Os Evangelhos de Tomé e Maria

Veja também
Esta edição traz dois dos textos mais profundos encontrados em Nag Hammadi: Os Evangelhos segundo Tomé e Maria Madalena. Os acompanha uma série de contos (O Mensageiro) inspirados no gnosticismo e escritos por Rafael Arrais.

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