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2.4.14

Cerâmicas inúteis

Hoje o dia nasceu claro e quente,
e ao largo dos jardins os seres já caminham apressados –
esses mesmos que buscam por tudo o que ainda se sente
em meio as ruínas dos templos dos antepassados.

Até a tardinha já recolheram muitos pedaços e detritos
de cerâmicas novas e antigas, espalhadas ao léu –
esses mesmos que buscam alcançar seus mitos
numa bela reunião no tabernáculo do céu.

Hoje a noite cobriu tudo com a sua escuridão
e todos se recolheram em suas casas,
protegidos em seu porão.

Os dias e os mitos e as noites continuarão seu ciclo –
mas não serão conquistados num céu futuro
e nem remontados com tais cerâmicas inúteis...


raph'14

***

Crédito da imagem: Carla Prates (restauradora)

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5.3.14

A grande aventura

Pé ante pé, por esta trilha de contos e histórias,
eu procurei por ti, ó andarilho das beiras de estradas,
sombra das tavernas, incitador de aventuras,
mas tudo o que pude ouvir foram seus passos
silenciosos, sempre próximos,
sempre ocultos...

Montei uma frota de balões,
contratei os melhores mestres baloeiros de todo o reino,
e juntos partimos a lhe buscar pelos céus.
Você, porém, estava sempre detrás das nuvens,
voando além do poente,
ou escondido, em silêncio, no ninho da Fênix.
Foi o guardião do portão da Cidadela dos Silfos quem disse,
“Desistam, ele não está no céu,
se estivesse, os pássaros já o teriam encontrado.”

Então juntei grandes mestres navegadores
e juntos construímos os barcos mais velozes de todo o oceano,
cujas velas eram ungidas com o óleo mágico
fabricado pelos alquimistas da Casa das Sereias.
Você, porém, estava sempre uma onda a nossa frente,
cortando as profundezas em sua carruagem de golfinhos,
ou escondido, meditando, na última torre do Grande Abismo.
Foi o velho Noé, da proa de sua grandiosa Arca, quem disse,
“Desistam, ele não está nem na superfície nem pelo fundo do mar,
se estivesse, os peixes já o teriam achado.”

Então reuni os maiores cientistas do mundo
e juntos projetamos uma grande nave espacial,
que era uma versão ainda mais moderna
daquela outra onde voou meu amigo Carl.
Você, porém, estava sempre além do próximo asteroide,
velejando pelo cosmos em seu barco sideral,
ou no escuro da noite eterna, perfeitamente imóvel,
fingindo ser uma estrela ou um vaga-lume.
Foi o comandante Kirk, em sua Enterprise, quem disse,
“O que diabos buscam pelo espaço?
Ora, se alguém como ele realmente existisse,
nós já teríamos catalogado em nossa rede.”

Pé ante pé, por esta trilha de contos e histórias,
eu procurei por ti...

Rodei por todos os mundos e todos os caminhos,
me aventurei por tenebrosas masmorras
e enfrentei o bafo de labaredas de centenas de dragões.
Foi somente após morrer no último jogo,
e passar toda a madrugada imaginando como seria
o meu próximo personagem,
que finalmente percebi:
Você não é, afinal, como a donzela em perigo,
aprisionada na Terrível Caverna do Grande Sono,
e nem mesmo como a espada encantada presa na rocha,
a espera de um nobre rei para empunhá-la;
você é mais do que todos os tesouros desta grande aventura,
você é a própria aventura,
o herói e o vilão,
e todas as histórias
e todos os contos
e todos os rolamentos de dados.


raph’14

***

Crédito da imagem: Larry Elmore

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23.2.14

A tua estrela

Se não posso estar agora ao teu lado
Se não posso te olhar face a face
Te despir, te beijar e te ter por toda pele
Lhe ofereço o céu:
Olha para esta noite tão negra e nebulosa
Olha e imagina as estrelas além destas nuvens

Escolha uma delas

Que nesta doce imaginação pode ser
Que ainda tão distantes um do outro
Possamos, quem sabe, ter escolhido juntos
A mesma estrela...

A tua estrela


raph’14
em memória aos amores distantes...

***

Crédito da foto: Google Image Search

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5.1.14

O prefácio para a deusa

Quem seria tal bela deusa?
O ensinamento de todos os instrutores desconhecidos
contido numa gota de orvalho a escorrer
por uma folha verde da relva?

O fingimento do fingimento
do que deveras se sente
neste momento?

A imagem daquilo que é lembrado para sempre,
embora jamais haja existido aqui deste lado?

Aquilo que estivemos sempre a buscar,
mas que também nos busca?

A ânsia da Vida por si mesma?
O estar no coração do próprio Ser?
Diga, quem seria ela?
A deusa poesia?

Seria o espanto sem ofensas?
O querer crer que ao menos
alguma alma existe?
O estar por certo
que o amor persiste?

Seria o encontrar-se com toda a tristeza do mundo
na soleira de nossa porta,
para que conversemos juntos por toda a noitinha
e contemplemos a felicidade vir com a aurora?

Seria o morrer para si,
e o nascer para a vastidão da linguagem?

Talvez ela seja tudo isto...
Porém, estranho de se pensar:
Ainda creio que sobre ela era melhor nada haver dito,
já que o silêncio do olhar sempre falou por nós...

Este prefácio é somente a apresentação
de tudo aquilo que não deveria ter sido dito,
mas que não pude evitar
que irrompesse de meu ser
ante a infinita beleza de sua face,
face a face
com o que nunca teve face alguma.


raph'14

***

Este poema constará no prefácio do próximo livro digital das Edições Textos para Reflexão. Desta vez, poemas de mim mesmo...

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12.12.13

Por que chora agora?

Que é isso que vejo em seus olhos?
Sou eu quem regresso e não você, querida;
Sou eu quem retorno a Mansão do Amanhã,
e embora já mal me lembre de quem sou
e do que faço aqui neste leito,
sou eu quem me vou a sonhar,
e você quem vai ficar
neste mundo sem sonhos.

E, no entanto, por que chora agora?
Porque chorar por mim que vou?

Talvez, por achar que já não me lembro mais de você
ou de seu nome?
Ora, querida, seu eu pudesse me levantar
e lhe falar uma última vez, eis o que diria:
“Não sei seu nome, nunca soube;
Sei que veio do lugar para onde agora vou.
Sei que lhe amo, e amo seu olhar,
sei que este amor habita a eternidade,
e isso basta!”

E então, algo estranho acontece,
e eu me lembro de quando tinha sua idade –
de quando dei o primeiro beijo em sua mãe.

Querida, por que chora agora?
Será porque eu mesmo também choro
ante tamanha beleza?
Um beijo do passado,
que gerou vida, vida!
Um beijo eterno, eterno!

Olho para o canto da sala, e vejo um bebê engatinhar.
Seria meu neto? Não poderia ser...
Eu sou muito novo para ser avô,
e foi outro dia que andei sozinho pela primeira vez!

Qual será, afinal, a minha idade?
Qual será a idade da eternidade?
Até onde vai, e volta, todo este amor?

Não chore, não chore... Me responda:
“Quando eu retornar da Mansão de onde todos saímos,
poderei ser seu filho, e você minha mãe?
Poderemos ser irmãos ou primos?
Ou melhores amigos?
Ou será que já fomos tudo isso,
e não lembramos mais?”

Num momento, estarei já a caminho...
Quem sabe não encontro sua mãe por lá,
e a convido para nossa próxima brincadeira!

Há tanta luz, e tanta beleza,
quando percebemos a vida pelo que ela é –
assim nos damos conta de que passamos boa parte dela
com medo do fim;
e não existe fim...

Então, por que chora agora?


raph'13 (após Zambujo)

***

Crédito da foto: krausjr

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28.9.13

Uma pergunta para Debora

Não há porque temermos o Lago de Enxofre
Debora, este mundo já é um inferno.
As guerras por restos fósseis,
as matanças e perseguições,
os estupros, as famílias divididas,
e mesmo as pequenas violências
do dia a dia...

Não existem “violências pequenas”.
E eu bem sei, Debora, o quanto
sua mente está cansada disso tudo;
tudo o que os “homens de bem”
fazem pela África e outros grotões
e tudo o que dizem ser
na TV: “Paladinos agindo
em nome de Deus!”

Mas a África não é “um grotão”.
É a casa de nossos ancestrais,
a nossa primeira casa.
Pise em suas terras com reverência,
dê graças por suas chuvas e rios,
pelas montanhas e as savanas,
e por todos os demais deuses.

O que falta, minha amiga,
para este inferno todo queimar
no fogo inefável do amor
até que se torne, novamente,
o Paraíso?

Antigamente, os deuses julgavam estranho
apenas ao que é estranho.
Não estavam tão preocupados
com a promiscuidade dos bonobos,
nem com o andar desengonçado dos elefantes
ou com a vaidade dos leões.

Quando o presidente em Washington
ofereceu uma quantia em dólares
ao Chefe Seattle, ele respondeu assim,
“Você deseja comprar nossa terra,
mas os homens não são donos da terra,
são parte dela.
Como podem comprar aos rios e as matas?
Esta é uma ideia estranha para nós.”
Foi o que eu quis dizer com
“Apenas ao que é estranho”.

Disso tudo você já sabe, Debora.
Que neste inferno de desejos desenfreados
não somos realmente proprietários de nada,
exceto do que há de mais precioso
e assustador...

Há muitos que tem preferido
viver anestesiados e alheios,
repetindo as orações das igrejas
e as fórmulas de sucesso
das celebridades.

Você que não é famosa neste mundo,
mas nos reinos de cima;
Você que tomou coragem
e se atirou nesse abismo infinito;
Você, ó grande dona
dos jardins da alma,
me diga:

Como conseguiu abraçar ao mundo todo
e realizar toda esta Alquimia
de dor e desespero
em sentido
e missão?


raph'13 (escrito na AE)

***

Crédito da imagem: Martin Bartsch Salvadores

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8.9.13

A última máscara

Retira a máscara que os outros lhe ofertaram
E finda definitivamente de ser cópia obscura
Em meio ao mar de clones que naufragaram
Entulhados em seus egos pela noite escura...

Toma coragem e te olha na superfície d’água
Observa neste vasto lago a todos os assassinos
E gênios e santos e loucos cantadores de hinos
Que lá todos são o que são e sem mágoa...

Cai uma estrela distante cortando a escuridão
E explode bem além da costa do mar
E cada gota ao céu é em si uma imensidão!

Afinal aqui neste baile há só este instante:
De amar e amar e amar
E assim, desmascarado de tudo, iniciar a dança [1]...


raph'13

***

[1] Variante para o trecho final do soneto:

Que aqui neste baile há só um sentido:
O de dançar desmascarado a amar
E colher cada gota que haja por chorar...

Crédito da imagem: Brooklyn Museum/Corbis (máscara mortuária egípcia)

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31.8.13

A canção da lua e do sol

Nunca acreditei muito num Céu futuro.
Creio mais no Céu que a gente mesmo faz
em meio a este mundo escuro
onde a vida é nada mais que lampejo fugaz.

Dizem que Deus criou o homem e a mulher,
um sol e senhor do dia;
outra lua e dona da noite.
Talvez os homens tenham cegado
ante tamanha luz ao seu lado,
pois foi a mulher quem viu primeiro a noitinha
a luz das estrelas na linha sem fim.

Foi um cientista quem o disse,
“Todos somos poeira estelar”.
Não é somente através da ciência
que chegamos a tal conclusão,
é preciso também saber amar...

Amar! Amar!
Além mar, além horizonte,
além planetinha a girar,
todas as estrelas são sóis
com luas e mundos e deuses
bailando junto a poeira sideral.
Há afinal na Antiguidade
esta conclusão magistral
de que não fomos criados
nem homens nem mulheres,
mas que antes o somos
(todos nós o somos)
da raça dos deuses!

Deuses! “Vós sois deuses
e dia farão tudo o que tenho feito
e ainda muito mais!”

Esqueçam desse velho deus decrépito.
O ancião patriarca
de barba muito, muito branca,
a exigir devoção,
a barganhar favores,
a determinar que há um gênero forte,
superior e muito macho,
e outro que lhe deve submissão.
Esqueçam dele, abandonem-no
em seu trono de escuridão.

Meus irmãos e irmãs,
caros viajantes das estrelas,
não foi este o deus quem os criou.
Há um outro, menos perfeito,
e por isso mesmo bem mais interessante,
que de fato, moldou ao homem e a mulher,
não apenas para que procriassem,
mas para que se amassem!

E assim se amando, cantassem em uníssono
esta tal canção que une lua e sol
e nos carrega sempre adiante...

Além mar, além horizonte,
além planetinha a girar,
até a ponta da teia
eterna e infinita
que tece o Céu:
um passo,
um gesto,
um manifesto,
um canto,
um pensamento,
um momento por vez...

Até que raie o dia definitivo,
o dia que também é noite,
e se faça Céu enfim
onde antes era tudo assim
tão, tão escuro.


por raph em 31 de Agosto de 2013

***

Crédito da imagem: Helena Nelson Reed

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11.8.13

O que virá adiante

O que é este zumbido,
sussurro gotejante,
algo estranho vindo
de antes do ouvido?
Uma sensação de vida,
vida verdejante
e líquida, a escorrer tal qual
córrego sinuoso,
sempre em busca
do que haverá mais adiante...

O que ele quer lhe confessar?
O que somos nós,
de onde viemos e onde tudo isso
vai desaguar?
Ora, se ventos sussurrantes
acaso pudessem sussurrar,
é isso que lhe diriam:
“Onde finda a poderosa ventania,
há um eco no horizonte,
e tal som é como a doce brisa
da primavera. Nada no mundo
pode realmente deixar de existir,
desde que haja nalgum dia
sido brisa ou ventania
no coração a amar e seguir”.

Os ventos trazem a chuva
que se oferece em êxtase para o barro.
Assim nascem de infindáveis sementes
os braços de madeira da Terra...
Você não vê o que eles desejam
com toda a ânsia da Vida por si mesma?
Querem abraçar o Céu!

O que iniciou toda essa história ancestral?
De sussurros e brisas e ventos
e córregos de amor líquido
descendo em cascatas sem igual?
Disso não sabemos...

O que sabemos é que tais questões
nascerem de mentes que surgiram de sementes.
Há toda uma mitologia que se canta em canções
de deuses, heróis, duendes e arcanjos.
Em cada mente ainda corre o líquido
que flui da Fonte aos borbotões
rumo ao Grande Oceano.

Mas agora chega de tantas indagações.
Já lhe dissemos muito, e em todo caso
a linguagem só faz represar
toda esta mitologia líquida
nos córregos eternos do ser.

Basta de pensar.
Faça silêncio,
e apenas se deixe desaguar
rumo a eternidade...

Meu amigo, meu amor, meu semelhante,
você mal faz ideia do que virá adiante!


raph’13

***

» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da imagem: Google Image Search

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18.6.13

O choro do recém-nascido

Nós não esquecemos
De que sua guarda foi educada
Para defender o barão,
Morrer pela nação
E viver sem razão.
Nós não esquecemos
E não perdoamos.

Seus anunciantes pagos
Apontam suas câmeras para o bairro nobre
E fingem que não existem
Os que sofrem ao largo –
Estes que não merecem nem nota de rodapé.
Mas nós já não lemos seu jornal
Nem sintonizamos seu canal.

Nós não esquecemos
De como sua “bancada rural”
Vem tratando nossas matas e nossos índios,
Corrompendo ao que é ancestral.
Nós não esquecemos
E não perdoamos.

Uma grande escola evitaria dezenas de prisões,
Mas seu presídio condena ao inferno o marginal
E seu sistema de ensino
Serve apenas para ensinar ricos
A ganhar ainda mais dinheiro.
Mas nós não aprendemos mais da sua cartilha,
Somos a geração Coca-Cola
Que já não bebe Coca-Cola.

Nós não esquecemos
De seus corruptos impunes
Nem dos aplausos do pretenso “partido da moral”
Aos seus próprios corruptores.
Nós não esquecemos
E não perdoamos.

Hoje, vocês querem nos dar futebol...
Futebol em troca de saúde para os desesperados,
Educação para os desamparados
E segurança para os desnorteados.
Mas nós não faremos sua festa dentro dos estádios;
Faremos a nossa própria festa, fora deles,
E por todo este grandioso país.

Nós não esquecemos.
Nós não perdoamos.

Esperem por nosso grito...
O choro do recém-nascido!


raph’13 (inspirado em Anonymous)

***

Crédito da imagem: Anonymous

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