9.6.10

A comunicação simbólica como sistema de herança

Texto de Eva Jablonka e Marion J. Lamb em "Evolução em quatro dimensões" (editora Cia. das Letras) – Trechos das pgs.241 a 245. Tradução de Claudio Angelo. As notas ao final são minhas.

Nós já sugerimos que nossa capacidade de se comunicar por meio de símbolos está na raiz de muitas das coisas que nos tornam tão diferentes de outros animais [1]. Os seres humanos têm um método único de transmitir e adquirir informação. O que queremos agora é examinar o sistema de comunicação simbólica de um ponto de vista mais focal, o do sistema que fornece uma quarta dimensão à hereditariedade e à evolução. Queremos tentar caracterizar esse sistema especial de herança da mesma forma como fizemos com os sistemas genético, epigenético e comportamental e ver o quanto ele é similar a cada um desses sistemas [2].

Existe pelo menos uma semelhança superficial entre a maneira como transmitimos informação através da fala e a maneira como os animais usam seus diversos cantos e chamados, então será que o sistema simbólico funciona da mesma maneira que o sistema de herança comportamental? Ou será mais parecido com o sistema genético? O DNA é chamado de “linguagem da vida”, e dizemos que nossas características estão “escritas nos genes”, portanto deve haver semelhanças óbvias entre os dois sistemas. Quais são elas? Que traços o sistema simbólico compartilha com outros sistemas de transmissão de informação, e o que o torna tão diferente e especial?

Existe uma propriedade importante compartilhada pelos sistemas genético e simbólico, mas que está ausente na herança comportamental. Símbolos e genes podem transmitir informação latente, ao passo que a informação precisa ser usada antes de ser transmitida ou adquirida por meios comportamentais. É fácil ver isso se pensarmos como um canto ou uma dança são transmitidos. Consideremos três casos: transmissão através do sistema genético, transmissão através do sistema comportamental e transmissão através do sistema simbólico. Para o exemplo genético, podemos usar as moscas-das-frutas do gênero Drosophila, que têm cantos e danças muito bonitos. As canções são entoadas pelos machos, que produzem-nas vibrando as asas (...) Cada espécie tem cantos e danças característicos, que permitem às moscas identificarem a própria espécie. Esses cantos e danças são inatos e sabe-se um bocado sobre sua genética, mas o ponto importante é que eles serão herdados mesmo que os pais nunca cheguem a executá-los (talvez porque um cientista malvado tenha arrancado suas asas) (...) Em outras aves e mamíferos, no entanto, o canto deve ser executado na frente dos indivíduos para que eles possam aprendê-lo. Somente ouvindo um canto é que os indivíduos poderão obter a informação que lhes permitirá reproduzi-lo. Em outras palavras (...), não existe informação latente que possa pular gerações.

Isso não acontece com a transmissão através do sistema simbólico. Seres humanos podem transmitir uma canção ou dança uns para os outros mesmo que sejam desafinados ou tenham dois pés esquerdos. Não é preciso cantar uma nota ou dar um passo de dança, pois podemos transmitir a informação necessária para a reprodução de uma canção ou de uma dança usando discos ou filmes, ou mesmo com instruções escritas ou orais. Não é preciso agir de imediato em cima de informações simbólicas para que elas sejam transmitidas. Ainda que a cultura capaz de interpretá-las permaneça intacta, elas podem permanecer latentes por gerações [3]. As informações para construir o Terceiro Templo têm sido transmitidas entre os judeus por quase 2 mil anos, mas o templo ainda não foi construído. E a receita da sopa da vovó pode ser passada entre várias gerações de uma família até que alguém resolva preparar a sopa de novo.

Os sistemas genético e simbólico são parecidos porque ambos podem transmitir informação latente, mas o sistema simbólico pode fazer muito mais do que isso. Como símbolos são convenções compartilhadas – signos socialmente pactuados –, eles podem ser mudados e traduzidos em outras convenções correspondentes. Teoricamente, seu potencial de tradução é ilimitado. Uma instrução em inglês que seja dada em letras romanas também pode ser dada em código Morse, num semáforo ou em código binário de computador. Os símbolos podem até mesmo ser “traduzidos” entre sistemas: a idéia de Jesus na cruz pode ser expressa em linguagem, em imagens, na dança e em mímica. “Perigo” pode ser expresso por uma palavra, uma imagem, um assobio. Uma história pode ser transmitida oralmente depois de ser decorada; pode ser transmitida também por meio de uma canção ou pantomima; pode ser transmitida por escrito; e, hoje em dia, pode ser transmitida também através de filmes, TV e jogos de computador. Assim, embora a informação simbólica seja como a informação genética no sentido de que é codificada e traduzível, o potencial de tradução da informação simbólica é muito maior que o da informação no sistema genético. Já que podemos “traduzir” símbolos de uma forma para outra e separar e combinar diferentes formas e níveis seguindo princípios gerais de coerência, é enorme a quantidade de informação simbólica que pode ser gerada.

(...) [Porém], a informação simbólica é muitas vezes transmitida de adultos para crianças com quem eles não têm parentesco (como na escola), de crianças a adultos e entre indivíduos da mesma faixa etária [4]. Nesse ponto, o sistema simbólico se parece com o sistema comportamental de outros animais. Mas há uma diferença significativa: instruções ativas são importantes nos sistemas de transmissão simbólica. Em outros animais, o aprendizado social em geral não envolve ensinamento intencional, mas para os humanos este é essencial, pois é o próprio sistema simbólico, e não apenas a cultura local que ele produz, que precisa ser culturalmente adquirido [5]. Por exemplo, embora as pessoas discutam o papel do aprendizado e o tipo de aprendizado envolvido, ninguém duvida de que é necessário muito aprendizado para uma criança compreender e usar a linguagem. A necessidade de aprendizado e instrução é vista ainda com mais clareza em outros tipos de sistema simbólico: nos ensinam o sistema simbólico da leitura, nos ensinam o sistema simbólico da matemática, nos ensinam como entender e participar dos rituais da nossa cultura. O arcabouço necessário para a interpretação das informações simbólicas precisa ser aprendido.

***

[1] A teoria exposta pelas autoras ao longo do livro identifica quatro “dimensões” – quatro sistemas de herança que desempenham um papel na evolução: a genética, a epigenética (ou transmissão de características celulares, alheias ao DNA), a comportamental e a simbólica (transmissão através da linguagem e de outras formas de comunicação). Elas argumentam que esses sistemas são capazes de fornecer variações sobre as quais a seleção natural pode agir. Veja também meu comentário em outro trecho do livro publicado neste blog – “Astrologia genética”.

[2] Nada expõe de forma mais contundente a importância da capacidade de interpretar símbolos entre os seres humanos do que os casos de crianças selvagens – perdidas ou abandonadas em áreas selvagens e “criadas” por animais selvagens. Como no caso de Amala e Kamala, “criadas” por lobos em florestas da Índia, onde foi constatado que, após serem “salvas”, elas eram em realidade “pouco mais do que lobos”. Entretanto, vale também lembrar que o ser humano é um ser de potencialidades, e suas potencialidades de consciência e interpretação simbólica, uma vez despertas, o colocam sempre muito acima dos outros animais (que não têm tais potencialidades).

[3] Exemplos pela história não faltam. Os evangelhos de Nag Hammadi, encontrados em vasos séculos e séculos após terem sido escritos, nos trouxeram preciosidades como “O evangelho de Tomé”. Já o conhecimento contido nos manuscritos da Biblioteca de Alexandria, no entanto, infelizmente não teve a mesma sorte, e foi perdido em fogueiras acesas por seres ignorantes.

[4] Para o sistema simbólico a hereditariedade é apenas uma das formas de transmissão. Nesse sentido, ele é muito mais abrangente do que o genético, enquanto ainda tem muito mais possibilidades de transmissão e tradução que o comportamental. Não é difícil deduzir, diante dessa reflexão, que ele é o sistema de evolução da informação mais completo que conhecemos.

[5] A educação é, portanto, o cerne do desenvolvimento humano. Por isso verificamos que todos os sábios se preocuparam tanto em desenvolver as potencialidades de seus discípulos, ainda mais do que deixar manuscritos para a posteridade. É que eles sabiam que o sistema simbólico se transmite muito mais pela interpretação e pela compreensão do que pela escrita, que é apenas uma ferramenta da mente.

***

Crédito da imagem: Liz_D.S

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2 comentários:

Anonymous Franco-Atirador disse...

Muito bom. Já coloquei o livro na minha lista para ler.

Interessante refletir sobre esses sistemas de transmissão de informações, como agem de modo distinto em esferas diferentes com diferentes funções.

8/8/12 09:17  
Blogger raph disse...

Esse livro é extraordinário. Só não é tão comentado, talvez, por se tratarem de autoras (e não autores) que vivem e pesquisam longe dos grandes centros de pesquisa da Academia.

Abs
raph

8/8/12 10:53  

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