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28.9.10

Pra não dizer que não falei da política

Eu não gosto de política. Eu não entendo quase nada de política. Por isso eu quase nada escrevo sobre política. Já me disseram algumas vezes que eu deveria me interessar mais por política, que “a política é essencial na formação do cidadão”. Porém, normalmente entende-se por cidadão aquele membro pertencente a uma determinada nação ou estado, com seus direitos e deveres... O meu problema, portanto, é que antes de ser cidadão eu sou poeta – e poetas são cidadãos do mundo todo, não compreendem como tantos enxergam essas fronteiras invisíveis onde tudo o que há são florestas e aves a voar e, quando muito, um rio a fluir. Eu sou cético quanto a essas alucinações, até hoje ninguém fotografou uma fronteira (fotografaram grades e muros, mas esses a gente passa por cima).

Há pouco tempo, finalmente encontrei um motivo para falar de política, e aqui segue o meu depoimento... Ocorre que descobri que um dos heróis da resistência contra a ditadura militar que perdurou no país por pouco mais de 20 anos (vocês se lembram não?) foi exatamente um poeta, e sua arma foi a poesia:

Esta música de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores”, foi entoada como um hino pela liberdade por legiões de jovens e admiradores do ser humano. Como dizia que os soldados eram ensinados “a morrer pela pátria e viver sem razão”, foi censurada, e Vandré foi um dos inúmeros “formadores de opinião” forçado a se exilar fora do Brasil em 1969.

Mesmo após seu retorno ao país, em 1973, Vandré nunca mais foi filmado em um palco nem participou de algum show ou comemoração musical que a relevância de sua obra requeria. Isolou-se como se nunca tivesse existido... Isso foi o suficiente para que surgissem boatos de que ele havia sido torturado física e mentalmente pelos militares, que estava louco ou que sofrera lavagem cerebral... Para muitos radicais da época (e até hoje), Vandré era uma espécie de “Che Guevara brasileiro” – ocorre que ele nunca pegou numa arma, nem tampouco morreu em alguma revolução.

Na verdade, Vandré não foi torturado. Na verdade, Vandré não queria fazer revolução alguma... Um dos motivos de nunca ter retornado a carreira artística de forma pública (pois compõe músicas até hoje) foi exatamente porque se sentiu incomodado com essa fama de “mártir revolucionário”... Vandré não era apenas um “Che Guevara”, era muito mais do que isso – era antes um poeta revolucionário.

Sua música que se tornou hino era muito mais uma poesia sobre a condição humana, e não sobre uma ditadura militar dentre tantas outras na história da América do Sul. Para Vandré, tanto os cidadãos quanto os militares eram todos soldados, alguns armados com fuzis, outros apenas com a razão e a intuição – sempre muito mais poderosos. Porém, todos irmãos, todos fadados à caminhar juntos, de mãos dadas, rumo ao futuro em comum.

O poeta nada tinha contra os militares, muito pelo contrário – era apaixonado por aviação desde criança, e ainda nos dias de hoje é quase sempre visto nas ruas próximas a seu apartamento em São Paulo vestindo uma camisa branca com um símbolo da aeronáutica no peito. Vocês podem não acreditar, e por isso mesmo eu acho interessante verem este outro vídeo, onde ele acompanha um sargento cantar seu hino atemporal, e depois vai até ele para abraçá-lo... Se você chegou até aqui sem compreender que não existe nem nunca existiu uma nação dividida entre militares e cidadãos, é provável que tão cedo não compreenda:

Da mesma forma, a política trata da organização e administração dos interesses comuns de um dado grupo de pessoas. Moisés fez política ao trazer suas tábuas para o povo no deserto. Os gregos fizeram política ao decidir condenar Sócrates a beber cicuta. Gandhi fez política ao livrar todo um país da opressão estrangeira com um aceno de paz e uma grandiosa alma a irradiar-se por milhões e milhões de irmãos... O fim da política é resolver os interesses comuns da melhor forma possível – a questão é que muitas vezes os homens, esses animais políticos, não dispõe da ética e da poesia necessárias para alçarem vôos às regiões mais ensolaradas do reino da liberdade e da fraternidade universal.

Ainda crêem que partidos políticos significam divisões eternas, e que o inimigo está sempre do outro lado... Ora, o inimigo é a própria noção profundamente ignorante de que existe um inimigo. O inimigo é achar que o mundo divide-se entre esquerda e direita, branco e preto, e não nas mais variadas gradações de cores e culturas.

Assim como nas religiões os seres ignorantes digladiam-se em nome de um Deus que só poderia pertencer a todas elas, na política muitas vezes os homens elegem deuses os seus próprios sistemas políticos, e há alguns que se autodenominam avatares desses deuses fajutos. Ora, o único sistema político que predomina e sempre predominou é aquele que atende aos desejos da maioria pensante, ou seja, aquela que foi ensinada a pensar...

Em “1984”, George Orwell retratou um futuro sombrio onde as ditaduras políticas tomaram o controle da maioria dos países, e onde toda liberdade à informação é cerceada. Já Aldous Huxley foi um pouco mais perspicaz, e previu um futuro superficialmente mais ameno, mas no fundo muito pior – um futuro onde seríamos de tal forma atordoados por uma overdose de informações irrelevantes, que não seria sequer necessária à censura, pois os possíveis revolucionários seriam reduzidos à passividade e ao egoísmo. O primeiro temia que o medo nos arruinasse, o segundo previu que o desejo seria nossa maior ruína.

Quando Vandré retornou ao país, percebeu que o povo que cantarolava suas poesias não existia mais... Não porque havia sido exterminado pela ditadura militar, mas simplesmente porque havia sido domado pela cultura massificada e irrelevante que ele já previra desde décadas atrás...

Bem, talvez Vandré seja muito mais revolucionário do que sequer poderíamos imaginar que a idéia de ser revolucionário algum dia poderia significar. Ele não estava interessado em salvar um sistema político, mas um sistema poético. Poetas são conhecidos por tirar as pessoas de suas vidas anestesiadas por breves momentos – mas será que a poesia pode fazer-nos despertar do “Admirável Mundo Novo” de Huxley? Isso somente nós mesmos é quem poderemos responder, no único espaço que jamais pôde ser controlado ou censurado, nem tampouco cercado por muros e grades – na consciência de quem pensa por si mesmo.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

***

Obs: Eu propositalmente iniciei este artigo falando de meu desgosto pela política, mas eu me referia a política dos corruptores e corruptíveis, e não a Política dos poetas, filósofos e grandes líderes como Gandhi. O texto é uma tentativa de analisar essas diferenças entre a política e a Política - embora continue sem pretensão nenhuma de ser um grande conhecedor do assunto.

Crédito da foto: Divulgação (Geraldo Vandré na década de 60)

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7 comentários:

Anonymous Ronaud disse...

O único motivo razoável que encontro para falar de política é desqualificá-la ;-)

Partidos políticos e religiões me parecem ter muito em comum, tipo a cegueira de quem está dentro e a aversão de quem está fora. Não?

28/9/10 20:33  
Blogger raph disse...

Oi Ronaud,

Eu entendo perfeitamente o que quer dizer.

Mas repare que faço um jogo de palavras nesse texto. A política que eu não gosto e quase não entendo, do início, não é a mesma a qual me refiro em certos trechos (como, por exemplo, a política da Gandhi).

Ocorre que no Brasil e em muitos países pouco se faz Política, faz-se mesmo são negócios baseados em corruptores e corruptíveis.

Já com a religião ocorre algo bem parecido... É necessário sempre ter em mente, portanto, o que é Religião e o que é Igreja. Todo eclesiástico se diz religioso, mas poucos o são realmente. Já a maior parte dos verdadeiros religisos não estão presos a uma (única) igreja ou doutrina.

Abs!
raph

29/9/10 02:27  
Blogger raph disse...

Entrevista de Vandré para GloboNews na íntegra (foi principalmente essa entrevista que inspirou o artigo, sendo que ele não dava entrevistas a décadas):

http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1620961-17665-337,00.html

30/9/10 09:41  
Blogger raph disse...

Achei um blog onde temos análises bem mais detalhadas do "Paradoxo Vandré", embora quase todas mais dentro da tese do "revolucionário que sofreu lavagem cerebral" do que propriamente de um "poeta que simplesmente isolou-se"...

http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/search/label/Geraldo%20Vandr%C3%A9

Esta análise de uma terapeuta é particularmente relevante, embora eu continue não concordando com a tese de lavagem cerebral:

http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2010/09/eliana-tanese-nogueira-uma-analise-de.html

1/10/10 15:49  
Blogger raph disse...

Mas claro que, de acordo com a tendência do blog, a tese de lavagem cerebral ganha muito mais importância do que a tese de que ele simplesmente isolou-se do mundo.

Em lavagem cerebral eu não acredito, mas óbvio que o fato de ter sido banido do país pode ter acarretado a depressão e o uso de drogas e daí em diante ele pode nunca mais ter sido o mesmo...

Só acho que ele nunca foi nem quis ser um “Che Guevara” brasileiro, e quando ele diz que se sente incomodado em até hoje ser associado e isso, a ser um antimilitarista, acho que é algo sincero.

Enfim, ele resume bem: “não sou nem militarista nem antimilitarista”.

O que me incomoda, em todas as áreas, são os radicais tentando eleger seus representantes. É por essas e outras que a maioria das grandes personalidades vira mito – não porque sejam sobre-humanas, mas porque as pessoas as elegem assim.

Mas ser radical por si mesmo, pela própria conta, aí é mais complicado... Vandré a meu ver é radical até hoje, mas como poeta, e não como revolucionário antimilitarista ou algo parecido.

1/10/10 15:57  
Blogger Sagula disse...

Oi, Raph!
Vc sabia que ele vive sob a proteção do 4ºCOMAR?
E ele é Advogado.
Eu sou fã do Geraldo Vandré, apesar de ele não ser da minha geração.

15/10/10 19:56  
Blogger raph disse...

Oi Ines,

Pois é, como foi mostrado na entrevista da GloboNews, ele inclusive costuma se hospedar em hotéis militares e tem alguns amigos militares também.

Agora, cada um tira as próprias conclusões disso né...

Abs
raph

17/10/10 17:27  

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