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8.7.22

Lançamento: Box George Orwell

As Edições Textos para Reflexão trazem três das principais obras de George Orwell, na tradução de Rafael Arrais. É a sua chance de conhecer alguns dos livros que mudaram a literatura política para sempre.

Orwell foi, no sentido mais profundo, alguém que buscou a arte para nos ajudar a crescer mais gentis, mais justos e mais sábios. Este box digital traz três das principais obras do autor: A Revolução dos Bichos, 1984 e O Leão e o Unicórnio: O socialismo e o gênio inglês.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

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18.11.21

Lançamento: O Leão e o Unicórnio: O socialismo e o gênio inglês

As Edições Textos para Reflexão retornam a George Orwell com um dos seus ensaios políticos mais importantes: O Leão e o Unicórnio: O socialismo e o gênio inglês, traduzido por Rafael Arrais.

Muito se investigou e debateu os reais posicionamentos políticos de Orwell. Afinal, como poderia um crítico tão potente e certeiro dos imensos erros do comunismo soviético ser ele próprio um socialista? O tipo de socialismo defendido por Orwell está muito bem descrito neste ensaio, escrito em plena Segunda Guerra. Neste texto relativamente desconhecido de grande parte dos seus leitores, ele defende uma espécie de “revolução socialista inglesa” como forma de proteção contra a máquina de guerra nazista.

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13.9.21

Minha tradução de 1984 publicada pela Faro Editorial

Em 2020 eu vendi três das minhas traduções à Faro Editorial e me tornei definitivamente um tradutor profissional. Este ano negociei mais uma das minhas traduções com a Faro, o célebre 1984 de George Orwell.

Logo abaixo trarei imagens da edição, que já foi lançada. Eu não recebo direitos autorais pela venda do livro, pois a negociação de uma tradução se dá por um pagamento único, como a venda de um produto mesmo. No entanto, caso vocês o comprem na loja da Amazon utilizando o link abaixo, eu ganharei uma comissão praticamente equivalente à parte que um autor leva de direitos autorais :)

Eis as imagens do livro:

Comprar 1984 na Amazon

***

Obs.: 1984 foi publicado pelo selo Avis Rara, da Faro Editorial.

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30.7.21

Orwell e Huxley, os mestres da distopia

Neste vídeo vamos comparar as duas obras distópicas mais lidas desde o seu lançamento no século passado: "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, e "1984", de George Orwell. Veremos como, embora possa não parecer à primeira vista, tais obras guardam similaridades importantes, apesar de uma focar exclusivamente no campo político, enquanto a outra também abre espaço para uma reflexão aprofundada da espiritualidade humana. Afinal, Huxley também foi um perenialista.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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13.5.21

Orwell Político

George Orwell é um fenômeno. Juntas, as suas principais obras, A Revolução dos Bichos e 1984 (publicadas, respectivamente, em 1945 e 1949 [1]), venderam mais cópias do que os dois livros mais vendidos de qualquer outro escritor do século XX. Uma grande parte da fama de tais livros se deve a maneira como o escritor britânico soube mesclar a literatura com a crítica política. Ou, como ele mesmo descreveu:

Quando eu me sento para escrever um livro, eu não digo a mim mesmo que vou produzir uma obra de arte. Eu escrevo porque há alguma mentira que eu quero expor, algum fato para o qual quero chamar atenção, e minha preocupação inicial é conseguir ser lido por uma boa audiência.

Lançadas nos últimos anos de sua vida, tais obras se destacaram pela coragem com que Orwell atacou o totalitarismo, particularmente o stalinismo e o fascismo, em uma época onde boa parte dos regimes criticados ainda estava em plena operação. Apesar de ter atacado o comunismo russo (ou o que ele se transformou), Orwell também nutria clara simpatia pelo socialismo. Isso, por si só, explica como até os dias de hoje qualquer menção a sua obra suscita as mais acaloradas discussões nas redes sociais: os simpatizantes da direita dizendo que ele na verdade nunca foi socialista, e que dedicou-se somente a criticar a esquerda autoritária; os simpatizantes da esquerda afirmando que, pelo contrário, ele sempre foi socialista, e suas críticas na verdade se direcionavam mais ao fascismo, ao totalitarismo de direita, do que ao stalinismo e outros regimes de esquerda que assassinaram a democracia [2].

Qual deles tem razão? Para tentar responder essa pergunta, é preciso voltar no tempo, conferir as obras e ensaios anteriores, onde ele esteve morando, quais guerras lutou, enfim: tentar entender melhor o que fez de Orwell o que ele é até hoje, um mito da literatura.

Para compreender sua importância, temos de tentar entender o que ele amava, e o que odiava. Contra o que ele se rebelou, e o que ele exaltou. É isso que nos dará a chave para a compreensão da sua obra. Orwell sempre odiou o grupo social do qual ele mesmo era, apesar dos pesares, um membro exemplar: os intelectuais. Desde cedo, ele quis ser um escritor, mas sempre se destacou em nunca realmente se encaixar em emprego algum. Ele nasceu em 1903, na Índia, que era na época uma parte do Império Britânico, mas foi enviado ainda criança para a Inglaterra, onde cresceu sem muita presença do pai, um funcionário público que atuava na colônia indiana. Era filho de pais em frágil situação econômica, que lutaram duro para que ele tivesse uma clássica educação inglesa de classe média, e esperavam que ele pudesse se tornar um médico ou um advogado. Orwell acabou conseguindo uma bolsa para estudar em Eton, um colégio tradicional de Berkshire (onde teve aulas de francês com Aldous Huxley), mas nunca teve notas boas o suficiente para tentar bolsas em grandes universidades. Mais tarde, decidiu servir como policial imperial na Birmânia (atual Mianmar), onde pôde conhecer mais da cultura do Oriente, e de como se estruturavam e funcionavam um império colonial e suas colônias. Ao retornar à Inglaterra, passou a se dedicar com mais afinco à escrita, e construiu uma carreira como jornalista e ensaísta político.

A geração de intelectuais da qual Orwell fazia parte, que havia testemunhado a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão, estava obcecada por novas doutrinas grandes e abstratas para redimir a humanidade. Alguns eram comunistas fanáticos, outros firmes defensores do capitalismo radical, e alguns estavam admirados com os novos regimes autoritários da Itália, Espanha e Alemanha, e queriam algo semelhante para a Inglaterra. Orwell ouviu, e foi por um breve período seduzido por algumas dessas doutrinas. Mas ele gradualmente veio a defender algo muito mais radical: os gostos, as opiniões, as necessidades e as perspectivas de alguém que ele chamou de “a pessoa comum”.

A jornada de Orwell na vida comum começou na primavera de 1928, quando ele deixou os privilégios de sua classe para trás, e passou a trabalhar em uma série de serviços braçais, nas capitais francesa e inglesa. Experiências que ele estava para contar em seu livro, Na pior em Paris e Londres (1933). Em outro livro narrando suas viagens ao redor da indústria de mineração de carvão, no norte da Inglaterra, O caminho para Wigan Pier (1937), Orwell lança um olhar generoso e complexo sobre as pessoas que conheceu. Sua experiência com a vida das pessoas comuns e ordinárias, em geral as grandes vítimas das guerras e dos regimes ditatoriais, explica em boa parte a profundidade de suas obras mais conhecidas.

E, se Orwell podia falar com propriedade da vida comum, também sabia o que era uma guerra em primeira mão! Juntou-se ao POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), uma milícia de marxistas revolucionários não-stalinistas, na luta contra Francisco Franco e seus aliados Mussolini e Hitler, na Guerra Civil Espanhola. Foi ferido no pescoço. Uma bala danificou suas cordas vocais, saindo pelas costas, e desde então sua voz ficou ligeiramente inaudível. Mais tarde escreveria o livro Lutando na Espanha (1938), em que relata sua experiência no conflito.

Mas foi num ensaio intitulado O Leão e o Unicórnio: O Socialismo e o Gênio Inglês, escrito em 1941, em plena Segunda Guerra, literalmente com bombas caindo nas proximidades [3], que Orwell me parece ter deixado mais clara a sua real posição política. Apesar da sua importância, é um ensaio relativamente desconhecido e/ou esquecido pelas editoras, quem sabe justamente por desmistificar muito do que já foi dito, tanto à direita quanto à esquerda, sobra suas crenças políticas.

A tese do seu ensaio afirma, basicamente, que aquele era o momento ideal para uma revolução socialista na Inglaterra [4]:

Não podemos esperar que este, ou qualquer governo similar, leve a cabo as mudanças necessárias por conta própria. A iniciativa terá de vir de baixo. Isso significa que será preciso surgir algo que nunca existiu na Inglaterra, um movimento socialista que de fato conte com o apoio da massa da população. Mas é preciso começar reconhecendo os motivos pelos quais o socialismo inglês fracassou.

Segundo Orwell, a grande mácula do socialismo na Inglaterra foi fazer chacota do patriotismo da população, ao invés de abraçá-lo, como ocorreu no fascismo e no nazismo:

Não é possível entender o mundo moderno tal como ele é sem que se reconheça a força esmagadora do patriotismo, da lealdade nacional. O cristianismo e o socialismo internacional são fracos como palha em comparação com ele. Hitler e Mussolini ascenderam ao poder em seus países em grande medida porque compreenderam esse fato, e seus opositores, não.

O escritor também busca explicar porque regimes totalitários nos moldes fascistas e nazistas conseguiram chegar ao poder sem grande oposição dos mais ricos:

Hitler defende uma economia centralizada, que despoja o capitalista de grande parte de seu poder, mas preserva quase intacta a estrutura anterior da sociedade. O Estado controla a indústria, mas ainda há ricos e pobres, patrões e empregados. Portanto, enquanto opositoras do socialismo genuíno, as classes abastadas sempre estiveram ao lado dele. Isso ficou cristalino na época da Guerra Civil Espanhola, e de novo claro na época em que a França se rendeu. O governo títere de Hitler não é de trabalhadores, mas uma gangue de banqueiros, generais caducos e políticos de direita corruptos.

E, mais para o final do longo ensaio, Orwell deixa muito claro que ainda acreditava num movimento socialista genuinamente democrático e igualitário como solução dupla para a Inglaterra: tanto no sentido de se igualar ao Estado nazista no fomento da máquina de guerra, e assim poder lutar de igual para igual, quanto nos sentido de criar uma nova sociedade onde a distribuição de renda seja uma realidade, e onde a pessoa comum possa enfim ter uma vida mais digna e justa. Eis o que ele diz:

Em tempos [de guerra] há a possibilidade, inexistente em épocas de paz, de sermos ao mesmo tempo revolucionários e realistas. Um movimento socialista que consiga atrair o apoio da massa da população, que desaloje os pró-fascistas das posições de comando, que elimine as injustiças mais flagrantes e permita à classe trabalhadora entrever uma razão pela qual lutar, que conquiste as classes médias em vez de antagonizá-las, que resulte numa política imperial viável em vez de uma mescla de enganação e utopianismo, que estabeleça uma parceria entre o patriotismo e a inteligência — pela primeira vez, um movimento desse tipo torna-se possível. [...] Esse governo socialista fará o essencial: nacionalizar a indústria, reduzir a disparidade de renda e implantar um sistema educacional não classista. Sua verdadeira natureza se tornará patente a partir do ódio que os homens ricos remanescentes no mundo sentirão por ele.

O Leão e o Unicórnio foi escrito anos antes das duas grandes obras literárias de Orwell, e no ensaio vemos claramente que, a despeito de já ser um crítico ferrenho do comunismo nos moldes stalinistas, Orwell continuava acreditando que uma revolução socialista seria o caminho mais eficaz para garantir que a pessoa comum inglesa, a única coisa que contava com sua genuína adoração, pudesse ter uma vida melhor. Depois disso vieram as bombas atômicas no Japão, a derrota de Hitler e a manutenção do totalitarismo do regime soviético (que contava com a conivência de boa parte do Ocidente). É difícil dizer se, ao escrever 1984, já perto da morte (por conta da tuberculose, que ele provavelmente contraiu ao ser tratado do tiro no pescoço em um hospital espanhol), Orwell ainda mantinha viva a crença no socialismo democrático, mas fato é que em nenhum momento da vida ele se aproximou do espectro oposto, seja no conservadorismo, seja no liberalismo econômico.

Assim, o veredito mais provável e honesto é este: Orwell foi um socialista que defendia a liberdade com unhas e dentes, e que não se furtou a criticar ferozmente o próprio socialismo, quando este enveredou pelo totalitarismo. Se ainda fosse vivo hoje, o mais provável é que Orwell fosse de centro-esquerda, devido à falência da ideia de uma revolução socialista viável.

***

[1] Eu também traduzi as duas principais obras de Orwell pelas Edições Textos para Reflexão. Leia A Revolução dos Bichos e 1984 no seu Kindle, pelo preço de um café (os links levam para a loja da Amazon).

[2] Eu falo mais sobre totalitarismo de esquerda e de direita na série Reflexões Políticas. O tema é abordado mais especificamente na Parte 3, mas recomendo ler desde o início para ter uma visão abrangente do que busquei dizer.

[3] O ensaio se inicia de maneira épica: “No momento em que escrevo, seres humanos extremamente civilizados estão voando sobre mim, tentando me matar”. Era um momento em que Londres vinha sendo bombardeada pelos forças de Hitler.

[4] A partir desse ponto, todos os parágrafos em itálico trazem trechos retirados do ensaio. Ele pode ser encontrado em português na coletânea da Penguin & Companhia das Letras, Por que escrevo (Ensaios de Orwell na tradução de Cláudio Marcondes).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Orwell); [ao longo] luciusbooks.com (capa original do ensaio; ainda pode ser adquirido aqui).

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11.5.21

Orwell e Huxley

Querido Sr. Orwell,

Foi muito gentil da sua parte pedir aos editores que me enviassem uma cópia do seu livro. Ela chegou enquanto eu estava em meio a um trabalho que me demandava muita leitura e consultas de referências; e como a falta de visão faz com que seja necessário racionar a minha leitura, eu tive que esperar por muito tempo antes de ser capaz se embarcar em 1984.

Concordando com tudo o que a crítica escreveu sobre isso, eu não preciso te dizer, mais uma vez, o quão bom e profundamente importante o livro é. [...]

Assim se inicia a carta que Aldous Huxley enviou a George Orwell, escrita em 21 de outubro de 1949, alguns meses após a publicação de 1984, uma das obras mais lidas e discutidas do Ocidente [1]; e alguns meses antes da morte de Orwell, por tuberculose, aos 46 anos.

Quando tinha vinte e poucos anos, Huxley foi professor de francês de um Orwell ainda adolescente, no Eton College, uma famosa escola inglesa. Não há evidências de que tenham tido algum tipo de convívio fora da sala de aula, mas é certo que Orwell foi um ávido leitor da célebre ficção distópica de seu antigo professor, Admirável Mundo Novo, publicado em 1932. Assim, a despeito de terem tido uma amizade mais profunda ou não, fato é que dois dos grandes escritores do século XX leram as principais obras um do outro, e nutriam uma admiração mútua.

Enquanto uma utopia é uma espécie de “Céu erguido na Terra”, um ideal futuro de uma sociedade onde predominam a justiça e o bem estar social, a distopia é justamente o oposto: um futuro sombrio onde geralmente há opressão governamental e quase nenhuma liberdade individual.

Muito já se debateu acerca das duas visões distópicas descritas nessas obras. A princípio, eles se parecem mesmo antagônicas, tanto que em sua carta a Orwell, o próprio Huxley faz uma defesa da sua própria visão de um futuro sombrio da democracia. Essa comparação foi aprofundada em 1985, num livreto do teórico da comunicação americano Neil Postman, intitulado Amusing ourselves to death (Nos divertindo até morrer). Trago um trecho da obra abaixo:

“Na visão de Huxley, não é necessário nenhum Grande Irmão [grande líder totalitário] para despojar a população de autonomia, maturidade ou história. Ela acabaria amando sua opressão, adorando as tecnologias que destroem sua capacidade de pensar. Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Huxley temia que não haveria motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse lê-los. Orwell temia aqueles que nos privariam de informação. Huxley, aqueles que nos dariam tanta que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley, que fosse afogada num mar de irrelevância.”

No futuro pintado por Huxley, a sociedade está dividida em castas. Crianças projetadas geneticamente saem de fábricas de bebês e são condicionadas a exercer das funções mais nobres às mais abjetas. Não há mães, pais ou casamentos. O sexo é livre. A diversão está disponível na forma de jogos esportivos, cinema multissensorial e de uma droga que garante o bem-estar sem efeito colateral: o soma. Restaram na Terra dez áreas civilizadas e uns poucos territórios selvagens, onde grupos nativos ainda preservam costumes e tradições primitivos, como família ou religião. “O mundo agora é estável”, diz um líder civilizado. “As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma.”

Aqui é preciso destacar que nem utopias nem distopias existem no mundo real. O exercício de tentar adivinhar para onde nosso mundo está caminhando, se para a distopia de Huxley ou de Orwell, é algo curioso, muitas vezes interessante, mas nem sempre tão produtivo quanto se pode imaginar. Muitas vezes caímos na armadilha de imaginar que o mundo deve ser preto ou branco: ou se encaminha totalmente para um lado, ou para outro. Quando na verdade a realidade é composta por infindáveis miríades de cinza.

Fato é que Orwell e Huxely falavam sobre mundos diferentes em suas obras. Enquanto Orwell claramente fazia uma caricatura sombria de uma ditadura nos moldes fascistas e stalinistas, Huxley estava bem mais preocupado em criticar a cultura de massa alienante e o consumismo demasiadamente hedonista das democracias ocidentais. Além disso, é preciso lembrar do contexto específico em que 1984 é narrado, do ponto de vista de um membro do Partido [algo mais ou menos equivalente ao Partido Comunista da Coreia do Norte de hoje], que compunha uma modesta minoria dentro da sociedade como um todo. Trago um trecho do início do Cap. 7 da Parte 1 da obra que ilustra isso muito bem:

“Se havia esperança, ela DEVIA estar nos proletas [proletários; ou o povão em geral], porque só neles, naquelas massas desdenhadas, naquele enxame de gente, nos 85% da população da Oceania [uma das três superpotências do mundo], havia alguma possibilidade de que se gerasse a força capaz de destruir o Partido.”

E, se formos analisar a obra mais a fundo, veremos que, tal qual em Admirável Mundo Novo, o povão em geral também é mantido anestesiado de qualquer tipo de pensamento revolucionário através de distrações como a loteria, o noticiário de crimes e guerras e a boa e velha cerveja. O Partido de Orwell policia de maneira ferrenha os seus próprios membros, mas deixa que o restante de população desfrute de certa liberdade. Assim, embora o conhecimento em geral seja filtrado e devidamente censurado pelo Estado totalitário, nada impede que um proletário de Oceania beba a sua cerveja no final do dia e se divirta, por exemplo, com um jogo de dardos. Tons de cinza, tons de cinza...

Outra característica que separa o foco narrativo de ambas as obras é a questão religiosa. Enquanto em 1984 as religiões foram abolidas, o personagem principal é ateu (no máximo um humanista agnóstico), e todas as questões religiosas não passam de um pano de fundo para a narrativa política, na obra de Huxley há uma crítica clara e contundente à ausência de espiritualidade da sociedade dita civilizada em relação àqueles que são chamados de selvagens, vivem fora das metrópoles e ainda praticam costumes primitivos. Ora, como um perenialista, Huxley está claramente defendendo que a religião antiga não é somente importante, como essencial para que o indivíduo alcance uma vida digna e plena.

A filosofia perene, ou perenialismo, é um ponto de vista da espiritualidade moderna que enxerga todas as tradições religiosas do mundo como compartilhadoras de uma verdade única, sendo ela metafísica ou a origem da qual todo o conhecimento esotérico e exotérico se irradiou. O perenialismo tem suas raízes no interesse renascentista pelo neoplatonismo e sua ideia do Uno, da qual toda a existência emana.

Anos após Admirável Mundo Novo ter sido publicado, Huxley continuava a propagar uma interpretação universalista das religiões do mundo, inspirada por vertentes do hinduísmo. Sua obra A Filosofia Perene, de 1945, traz mais luz sobre o tema:

“A filosofia perene é expressa de maneira mais sucinta na fórmula sânscrita, tat tvam asi (‘Isto és tu’); o Atman, ou Eu eterno imanente, é um com Brahman, o Princípio Absoluto de toda a existência; e a finalidade última de todo ser humano é descobrir o fato por si mesmo, descobrir quem ele realmente é.”

Dessa forma, enquanto Orwell procurava alertar seus leitores para os graves perigos das doutrinas políticas que podiam descambar para um Estado totalitário, uma ditadura, Huxley trazia outra espécie de alerta, que dizia mais sobre o perigo de uma sociedade moderna inteiramente afastada da espiritualidade, e seduzida pelas drogas e o hedonismo exacerbado [2]. Enquanto 1984 focava quase que unicamente na política, Admirável Mundo Novo dava também um grande espaço para a religiosidade humana. Assim, o tipo de comparação que Postman nos trouxe em 1985 deve ser considerado em seu contexto limitado. Do contrário, corremos o risco de vermos demônios imaginários onde eles não existem, e nos esquecermos de que o mundo real é muito mais complexo, muito mais acinzentado, do que uma obra de ficção.

***

[1] Eu também traduzi as duas principais obras de Orwell pelas Edições Textos para Reflexão. Leia A Revolução dos Bichos e 1984 no seu Kindle, pelo preço de um café (os links levam para a loja da Amazon).

[2] Sei que pode parecer que Huxley era um conservador do tipo avesso a toda experimentação com drogas e afins. Mas, tanto pelo contrário, Huxley chegou a descrever sua experiência com uma droga alucinógena, a mescalina, que é até hoje o seu segundo livro mais famoso, intitulado As Portas da Percepção.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Orwell à esquerda, Huxley à direita); [ao longo] Autor anônimo (a cidade de Londres na obra 1984); Bill Butcher (ilustração para o Financial Times; Brave New World é o título original da obra de Huxley).

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30.4.21

Lançamento: 1984

As Edições Textos para Reflexão retornam a George Orwell com uma das obras literárias mais importantes e lidas do século XX: 1984, traduzida por Rafael Arrais.

Em 1984, George Orwell reinventou o romance de ficção científica. Na sua obra, a sociedade está repleta de novas máquinas intrigantes: telas onipresentes que viciam e, ao mesmo tempo, vigiam constantemente seus cidadãos. As pessoas, no entanto, não sentem que são escravizadas. Como Orwell entendia tão bem, os regimes realmente inteligentes e assustadores do mundo moderno não são aqueles obviamente ditatoriais: eles são democráticos na aparência, mas, na realidade, cegam os seus cidadãos com distrações constantes.

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» Veja também um trecho da tradução aqui.


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2.2.21

O ano em que virei tradutor profissional

Muitos aqui devem saber que tenho trabalhado há alguns anos com tradução, edição e autopublicação de e-books e livros impressos na Amazon e outras lojas. Bem, para quem não sabe, ou não conhece a história toda, ela está bem relatada noutro texto aqui do blog, O ano em que virei editora.

Pois bem, ocorre que até pouco tempo atrás eu talvez nem pudesse ser considerado um tradutor profissional, mas sim alguém que traduzia por hobby. Isso mudou. Mudou não somente porque com o advento da pandemia de COVID-19 as vendas de e-books deram um salto, e eu passei a conseguir viver somente disso, mas também, e talvez o mais importante nesse caso, pelo fato de eu ter sido procurado por uma editora para vender minhas traduções!

Sim, após tanto enviar meus originais para diversas editoras ao longo de anos e anos, calhou de eu ser publicado por uma delas sem nem precisar ir atrás dos seus editores: foram eles que vieram “bater a porta” da minha caixa de e-mail.

É claro que fui publicado não como autor, e sim como tradutor, mas fato é que hoje também estou presente em estantes de livrarias físicas, não somente em lojas virtuais.

Ao longo do ano passado (2020) eu vendi três das minhas traduções à Faro Editorial. Duas delas já foram publicadas: O Pequeno Príncipe (de Antoine de Saint-Exupéry), ainda em 2020, e A Revolução dos Bichos (de George Orwell), no início deste ano. Quanto à terceira tradução, ainda não foi publicada, e não posso revelar qual é.

Logo abaixo trarei imagens de ambos os livros. Eu não recebo direitos autorais pela venda deles, pois a negociação de uma tradução se dá por um pagamento único, como a venda de um produto mesmo. No entanto, caso vocês os comprem na loja da Amazon utilizando os links abaixo, eu ganharei uma comissão praticamente equivalente à parte que um autor leva de direitos autorais :)

Eis as obras:

O Pequeno Príncipe

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A Revolução dos Bichos

Comprar A Revolução dos Bichos na Amazon

***

Obs.: A Revolução dos Bichos foi publicado pelo selo Avis Rara, da Faro Editorial.

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2.1.21

Lançamento: A Revolução dos Bichos

As Edições Textos para Reflexão adentram 2021 com uma das obras literárias mais importantes e lidas do século XX: A Revolução dos Bichos de George Orwell, traduzida por Rafael Arrais.

Trata-se de um ensaio político sobre como as revoluções podem ser vítimas de contrarrevoluções, virando as costas para suas próprias ideias originais. Para tal, Orwell seguiu os passos de Walt Disney e La Fontaine, que consistia em contar uma história sobre seres humanos através de animais. Esta é precisamente a genialidade da fábula de Orwell: ao cortar todas as referências humanas contemporâneas, o autor encontrou uma maneira de nos contar sobre nós mesmos em todo e qualquer tempo, inclusive no futuro. Esta obra é, portanto, um clássico eterno.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

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» Veja também um trecho da tradução aqui.


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1.10.20

Traduzindo Orwell: 1984

No primeiro dia de 2021 entra em domínio público em todo o planeta (exceto os EUA) toda a obra de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu célebre pseudônimo: George Orwell.

Orwell foi um peso pesado da literatura do século XX, e duas de suas obras são best-sellers praticamente eternos: 1984 e A Revolução dos Bichos. Desde o início de Maio deste ano eu tenho me dedicado a traduzir ambas. A última, uma tradução consideravelmente mais curta, foi finalizada há algumas semanas, e recentemente eu finalmente dei início à tradução da primeira.

Sim, é isso mesmo: neste momento eu, Rafael Arrais, estou no início da tradução de 1984. É importante deixar isso divulgado aqui, pois tenho certeza de que não serei o único a publicar traduções de Orwell ano que vem, seja na Amazon ou nas outras plataformas de autopublicação.

Se tudo correr bem, as Edições Textos para Reflexão iniciarão o ano que vem em grande estilo, com lançamentos das traduções das obras já citadas em versão digital e impressa [1]; além de, pela primeira vez na história da editora, estarmos preparando um lançamento na própria língua inglesa. Quem viver verá!

Na sequência, trago um trecho da minha tradução de 1984:


Parte 1, Capítulo 1

[...] Winston despertou de seus devaneios e se acomodou melhor na cadeira. Soltou um arroto. Era o gim em seu estômago começando a subir.
Seus olhos voltaram a focar a página. Constatou que durante o tempo em que esteve ali sentado em devaneios, sentindo-se só e desamparado, havia continuado a escrever, numa espécie de ação automática. E já não era mais a letra pequenina e desajeitada de antes. A sua pena havia deslizado como uma libertina através do papel macio, escrevendo em letras grandes e nítidas:

ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO

Muitas vezes. Elas preenchiam a metade de uma página.
Ele não conseguiu deixar de sentir uma pontada de pânico. Era absurdo, já que ter escrito aquelas palavras não era nada mais perigoso do que o próprio ato de iniciar um diário; mesmo assim, por um momento, teve a tentação de rasgar as páginas já escritas e abandonar por completo aquela ideia toda.
Não o fez, porém, porque sabia ser algo inútil. Quer tivesse ou não tivesse escrito ABAIXO O GRANDE IRMÃO, era algo inteiramente irrelevante. Não fazia a menor diferença prosseguir ou não com aquele diário. A Polícia do Pensamento o descobriria de um jeito ou de outro. Ele havia cometido – ainda que não tivesse escrito nada no papel – o crime essencial, que englobava todos os demais dentro de si. Era chamado de pensamento-crime. O pensamento-crime não era algo que pudesse ser ocultado indefinidamente. Seria possível escondê-lo durante algum tempo, às vezes por anos a fio, no entanto mais cedo ou mais tarde o criminoso sempre era pego.
E era sempre à noite – as prisões invariavelmente ocorriam à noite. A interrupção súbita do sono, a mão bruta sacudindo o ombro, as luzes cegando os olhos, o círculo de rostos impiedosos em torno da cama. Na grande maioria dos casos não havia julgamento, nem mesmo o registro da prisão. As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. Seus nomes eram removidos dos registros, todas as menções a qualquer coisa que tivessem realizado eram apagadas, suas existências anteriores eram negadas e logo mais totalmente esquecidas. Você era abolido, aniquilado: VAPORIZADO era o termo corriqueiro.
Por um momento, Winston foi tomado por um ataque de histeria. Assim, foi logo escrevendo, em garranchos apressados:

me darão um tiro que isso me importa me darão um tiro na nuca não me importa abaixo o grande irmão eles sempre atiram na nuca não me importa abaixo o grande irmão...

Ele se recostou outra vez na cadeira, ligeiramente envergonhado de si mesmo, e largou a pena. Logo em seguida levou um susto imenso. Batiam na sua porta.
Já?! Ele permaneceu sentado, imóvel como um rato, esperando que a pessoa fosse embora sem insistir. Mas não, bateram outra vez. Seria ainda pior se atrasar para atender. Com seu coração batendo tal qual um tambor – mas com o rosto provavelmente sem expressão alguma, fruto do velho hábito – ele se levantou e se dirigiu à porta, pé ante pé.

(tradução de Rafael Arrais)


***

[1] Infelizmente será praticamente impossível finalizar a longa e desafiadora tradução de 1984 até o início de 2021, mas espero publicá-la até a metade do ano, possivelmente ainda no primeiro trimestre. Já a minha tradução de A Revolução dos Bichos será lançada logo no início de 2021.

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20.5.20

Traduzindo Orwell: A Revolução dos Bichos

No primeiro dia de 2021 entra em domínio público em todo o planeta (exceto os EUA) toda a obra de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu célebre pseudônimo: George Orwell.

Orwell foi um peso pesado da literatura do século XX, e duas de suas obras são best-sellers praticamente eternos: 1984 e A Revolução dos Bichos. Desde o início de Maio deste ano eu tenho me dedicado a traduzir ambas, iniciando pela segunda.

Sim, é isso mesmo: neste momento eu, Rafael Arrais, estou no início da tradução de A Revolução dos Bichos. É importante deixar isso divulgado aqui, pois tenho certeza de que não serei o único a publicar traduções de Orwell ano que vem, seja na Amazon ou nas outras plataformas de autopublicação.

Se tudo correr bem, as Edições Textos para Reflexão iniciarão o ano que vem em grande estilo, com lançamentos das traduções das obras já citadas em versão digital e impressa; além de, pela primeira vez na história da editora, estarmos preparando um lançamento na própria língua inglesa. Quem viver verá!

Na sequência, trago um trecho da minha tradução do primeiro capítulo de A Revolução dos Bichos com comentários exclusivos (não vão constar na edição final):


1.

O sr. Jones, da Chácara do Solar [1], havia fechado o galinheiro para a noite, mas estava bêbado demais para lembrar de fechar as portinholas das galinhas. Com a luz da sua lanterna bamboleando de um lado para o outro, ele atravessou o pátio cambaleante, arrancou as botas ao atravessar a porta dos fundos, engoliu um último copo de cerveja do barril da copa e fez o caminho até a cama, onde a sra. Jones já roncava.
Assim que as luzes do quarto foram apagadas, houve um agito e um bater de asas em todos os galpões da chácara. Ao longo do dia correra o boato de que o velho Major (um porco que já havia sido premiado em exposições) tivera um sonho estranho na noite anterior, e gostaria de falar dele aos outros animais. Havia sido combinado que todos deveriam encontrar-se no grande celeiro assim que o sr. Jones tivesse se recolhido. O velho Major (assim eles o chamavam, apesar de haver concorrido nas exposições com o nome de “Belo de Willingdon”) era tão respeitado na chácara que todos estavam dispostos a perder uma hora de sono para poder ouvir ao que ele tinha a dizer.
Ao fundo do celeiro, sobre uma espécie de estrado de madeira, o Major já se encontrava deitado em sua cama de palha, sob a luz de um lampião atado a uma das vigas. Ele já contava os seus doze anos de idade e ultimamente havia se tornado um tanto corpulento, mas ainda assim permanecia sendo um porco de porte majestoso, com um ar sábio e benevolente, mesmo que as suas presas jamais tenham sido cortadas. Em pouco tempo os outros animais começaram a chegar e se alojar confortavelmente, cada um ao seu modo.
Primeiro chegaram os três cachorros, Bluebell, Jessie e Pincher, e logo após vieram os porcos, que se sentaram na palha em frente do estrado. As galinhas se empoleiraram no peitoril das janelas, as pombas voaram para as vigas do telhado, as ovelhas e as vacas permaneceram atrás dos porcos ruminando. Os dois cavalos de tração, Cascudo [2] e Margarida [3], chegaram juntos, andando bem vagarosamente e acomodando no chão seus enormes cascos peludos (com todo cuidado, de modo a não pisar em nenhum pequeno animal que pudesse estar oculto dentre a palha). Margarida era uma égua corpulenta, matronal, já próxima da meia-idade, cujas curvas jamais voltaram ao que haviam sido após o nascimento do seu quarto portinho. Cascudo, por sua vez, era um bicho enorme, com quase dois metros de altura, tão forte quanto dois cavalos comuns. Uma mancha branca que atravessava o seu focinho lhe conferia um certo ar de estupidez; e de fato ele não era lá tão esperto, no entanto era por todos respeitado devido a sua retidão de caráter e a sua tremenda disposição para o trabalho. Depois dos cavalos vieram Muriel, a cabra branca, e Benjamim, o asno.
Benjamim era o animal mais velho da chácara, e o mais ranzinza. Ele raramente se pronunciava, e mesmo quando o fazia, geralmente era para dizer alguma coisa cínica – por exemplo, ele dizia que Deus havia lhe dado uma cauda para que pudesse espantar as moscas, mas ele preferia que não houvesse nem cauda e nem moscas. De todos os demais animais da chácara, era o único que nunca ria. Quando lhe perguntavam por que, ele dizia que não via nenhum motivo para rir. Em todo caso, ainda que não admitisse abertamente, ele nutria certa afeição por Cascudo; eles geralmente passavam os domingos juntos no pequeno porteiro além do pomar, pastando lado a lado sem jamais dizerem uma palavra.
Os dois cavalos mal haviam se acomodado quando uma ninhada de patinhos órfãos adentrou o celeiro, todos eles piando baixinho e se aventurando pelos cantos, buscando um local onde não corressem o risco de serem pisoteados. Finalmente, Margarida ofereceu a proteção da sua pata dianteira, e em torno dela os patinhos se aconchegaram, logo caindo no sono. No último instante, Mollie, a bela e tola égua branca que puxava a charrete do sr. Jones, adentrou o recinto se locomovendo com toda graciosidade, enquanto mastigava um torrão de açúcar. Ela pegou um lugar bem à frente e ficou saracoteando com sua crina branca, na esperança de chamar atenção para as fitas vermelhas que a enfeitavam. Após todos os demais veio a gata, que buscou, como sempre fazia, o local mais morno, até enfim se enfiar entre Cascudo e Margarida; lá ela ronronou satisfeita ao longo de todo o discurso do Major, sem ouvir uma só palavra de tudo o que disse.
Agora todos os animais estavam presentes, exceto Moisés, o corvo domesticado, que dormia lá fora num poleiro atrás da porta dos fundos. Quando Major percebeu que todos já se encontravam bem acomodados e aguardando atentamente, limpou sua garganta e iniciou:

“Camaradas, todos vocês já ouviram algo a respeito do sonho estranho que eu tive a noite passada. Mas falarei sobre ele mais tarde. Antes, tenho outra coisa a dizer. Eu não creio, camaradas, que estarei entre vocês por muito mais estações, e antes que eu morra, sinto ser minha obrigação passar a todos vocês a sabedoria que adquiri por todo esse tempo. Sim, eu tive uma longa vida, e tive muito tempo para refletir enquanto permanecia só em meu chiqueiro; assim, hoje eu creio que posso dizer que compreendo a natureza da vida nesta terra tão bem quanto qualquer outro animal vivo. É sobre isso que eu quero lhes falar.
Então, camaradas, qual é a natureza dessa vida que levamos? Não vamos ignorar a realidade: nossa vida é miserável, curta e cheia de trabalho. Nós nascemos, recebemos o tanto de alimento minimamente necessário para que possamos continuar respirando, e aqueles que são capazes são forçados a trabalhar até o último pedaço de suas forças; e assim, no instante em que nossa utilidade acaba, somos abatidos com monstruosa crueldade. Nenhum único animal em toda a Inglaterra conhece o significado da felicidade e do lazer após completar um ano de vida. Nenhum animal na Inglaterra é livre. A vida de um animal é feita de miséria e escravidão: essa é a dura verdade.
Mas seria tudo isso simplesmente parte da ordem da natureza? Será esta nossa terra tão pobre que não possa ofertar uma vida mais decente aqueles que a habitam? Não, camaradas, mil vezes não! O solo inglês é fértil, o seu clima é bom, e ele é perfeitamente capaz de dar comida em abundância a um número de animais muitíssimo maior do que os que vivem aqui hoje. Só a nossa chácara comportaria uma dúzia de cavalos, umas vinte vacas, quiçá centenas de ovelhas – e todos eles vivendo em um nível de conforto e dignidade que agora se encontra praticamente além da nossa imaginação. Por que afinal nós continuamos nesta condição de vida miserável? Porque a quase totalidade do produto do nosso trabalho nós é roubada pelos seres humanos. Aí está, camaradas, a resposta para todos os nossos problemas. Ela pode ser resumida numa única palavra – Homem. O Homem é nosso único e verdadeiro inimigo. Retire o Homem da cena, e a raiz principal da fome e da sobrecarga de trabalho será cortada para sempre [...]”

(tradução de Rafael Arrais)


Comentários

[1] Já na primeira linha da obra temos um termo de tradução muito difícil. No original, Manor Farm, temos uma referência a uma fazenda onde há uma grande mansão luxuosa (propriedade do sr. Jones). Após a rebelião dos animais, essa mesma fazenda será rebatizada para Animal Farm, o título original da obra. Assim, o próprio título escolhido no primeiro lançamento da obra no Brasil foi um tanto infeliz, primeiro porque faz menção a algo que não estava na ideia original, segundo porque usa a palavra “revolução” no lugar de “rebelião”, que seria o mais correto. Ou seja, seguindo essa lógica o título no Brasil deveria ser A Rebelião dos Animais. No entanto, melhor ainda teria sido usar A Fazenda dos Animais, A Granja dos Animais ou A Chácara dos Animais.
Quanto à tradução de Manor Farm, eu optei por utilizar Chácara do Solar, uma vez que a fazenda não é lá tão grande, e poderia perfeitamente ser chamada de “chácara” por aqui. Quanto ao “do Solar”, se refere justamente ao “Solar”, isto é, a mansão do sr. Jones – uma tradução literal, como Chácara Solar ou Fazenda Solar, estaria errada.

[2] O nome original do cavalo é Boxer. Sempre que possível, eu tento deixar os nomes originais, ou a versão deles em português – como, por exemplo, Benjamim no lugar de Benjamin ou Moisés no lugar de Moses. Boxer, no entanto, soa demasiadamente estranho (na minha opinião), principalmente em se considerando a importância do personagem na obra. Assim sendo, quebrei a cuca para tentar achar um nome o mais próximo possível da ideia de “um boxeador, um cara forte e resiliente”. Cheguei, enfim, ao nome Cascudo. Sei que alguns podem não gostar, mas foi o melhor que pude fazer neste caso.

[3] Aqui o desafio foi ainda mais difícil. Clover, o nome original da égua, se refere a “um trevo” (quiçá a um trevo de quatro folhas, representando os seus quatro potros). Sendo uma personagem feminina, manter o nome seria especialmente ruim; então queimei a mufa para buscar, na natureza, alguma espécie de planta, flor ou folha que pudesse soar bem como o nome de uma égua, e acabei chegando a Margarida.

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28.9.10

Pra não dizer que não falei da política

Eu não gosto de política. Eu não entendo quase nada de política. Por isso eu quase nada escrevo sobre política. Já me disseram algumas vezes que eu deveria me interessar mais por política, que “a política é essencial na formação do cidadão”. Porém, normalmente entende-se por cidadão aquele membro pertencente a uma determinada nação ou estado, com seus direitos e deveres... O meu problema, portanto, é que antes de ser cidadão eu sou poeta – e poetas são cidadãos do mundo todo, não compreendem como tantos enxergam essas fronteiras invisíveis onde tudo o que há são florestas e aves a voar e, quando muito, um rio a fluir. Eu sou cético quanto a essas alucinações, até hoje ninguém fotografou uma fronteira (fotografaram grades e muros, mas esses a gente passa por cima).

Há pouco tempo, finalmente encontrei um motivo para falar de política, e aqui segue o meu depoimento... Ocorre que descobri que um dos heróis da resistência contra a ditadura militar que perdurou no país por pouco mais de 20 anos (vocês se lembram não?) foi exatamente um poeta, e sua arma foi a poesia:

Esta música de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores”, foi entoada como um hino pela liberdade por legiões de jovens e admiradores do ser humano. Como dizia que os soldados eram ensinados “a morrer pela pátria e viver sem razão”, foi censurada, e Vandré foi um dos inúmeros “formadores de opinião” forçado a se exilar fora do Brasil em 1969.

Mesmo após seu retorno ao país, em 1973, Vandré nunca mais foi filmado em um palco nem participou de algum show ou comemoração musical que a relevância de sua obra requeria. Isolou-se como se nunca tivesse existido... Isso foi o suficiente para que surgissem boatos de que ele havia sido torturado física e mentalmente pelos militares, que estava louco ou que sofrera lavagem cerebral... Para muitos radicais da época (e até hoje), Vandré era uma espécie de “Che Guevara brasileiro” – ocorre que ele nunca pegou numa arma, nem tampouco morreu em alguma revolução.

Na verdade, Vandré não foi torturado. Na verdade, Vandré não queria fazer revolução alguma... Um dos motivos de nunca ter retornado a carreira artística de forma pública (pois compõe músicas até hoje) foi exatamente porque se sentiu incomodado com essa fama de “mártir revolucionário”... Vandré não era apenas um “Che Guevara”, era muito mais do que isso – era antes um poeta revolucionário.

Sua música que se tornou hino era muito mais uma poesia sobre a condição humana, e não sobre uma ditadura militar dentre tantas outras na história da América do Sul. Para Vandré, tanto os cidadãos quanto os militares eram todos soldados, alguns armados com fuzis, outros apenas com a razão e a intuição – sempre muito mais poderosos. Porém, todos irmãos, todos fadados à caminhar juntos, de mãos dadas, rumo ao futuro em comum.

O poeta nada tinha contra os militares, muito pelo contrário – era apaixonado por aviação desde criança, e ainda nos dias de hoje é quase sempre visto nas ruas próximas a seu apartamento em São Paulo vestindo uma camisa branca com um símbolo da aeronáutica no peito. Vocês podem não acreditar, e por isso mesmo eu acho interessante verem este outro vídeo, onde ele acompanha um sargento cantar seu hino atemporal, e depois vai até ele para abraçá-lo... Se você chegou até aqui sem compreender que não existe nem nunca existiu uma nação dividida entre militares e cidadãos, é provável que tão cedo não compreenda:

Da mesma forma, a política trata da organização e administração dos interesses comuns de um dado grupo de pessoas. Moisés fez política ao trazer suas tábuas para o povo no deserto. Os gregos fizeram política ao decidir condenar Sócrates a beber cicuta. Gandhi fez política ao livrar todo um país da opressão estrangeira com um aceno de paz e uma grandiosa alma a irradiar-se por milhões e milhões de irmãos... O fim da política é resolver os interesses comuns da melhor forma possível – a questão é que muitas vezes os homens, esses animais políticos, não dispõe da ética e da poesia necessárias para alçarem vôos às regiões mais ensolaradas do reino da liberdade e da fraternidade universal.

Ainda crêem que partidos políticos significam divisões eternas, e que o inimigo está sempre do outro lado... Ora, o inimigo é a própria noção profundamente ignorante de que existe um inimigo. O inimigo é achar que o mundo divide-se entre esquerda e direita, branco e preto, e não nas mais variadas gradações de cores e culturas.

Assim como nas religiões os seres ignorantes digladiam-se em nome de um Deus que só poderia pertencer a todas elas, na política muitas vezes os homens elegem deuses os seus próprios sistemas políticos, e há alguns que se autodenominam avatares desses deuses fajutos. Ora, o único sistema político que predomina e sempre predominou é aquele que atende aos desejos da maioria pensante, ou seja, aquela que foi ensinada a pensar...

Em “1984”, George Orwell retratou um futuro sombrio onde as ditaduras políticas tomaram o controle da maioria dos países, e onde toda liberdade à informação é cerceada. Já Aldous Huxley foi um pouco mais perspicaz, e previu um futuro superficialmente mais ameno, mas no fundo muito pior – um futuro onde seríamos de tal forma atordoados por uma overdose de informações irrelevantes, que não seria sequer necessária à censura, pois os possíveis revolucionários seriam reduzidos à passividade e ao egoísmo. O primeiro temia que o medo nos arruinasse, o segundo previu que o desejo seria nossa maior ruína.

Quando Vandré retornou ao país, percebeu que o povo que cantarolava suas poesias não existia mais... Não porque havia sido exterminado pela ditadura militar, mas simplesmente porque havia sido domado pela cultura massificada e irrelevante que ele já previra desde décadas atrás...

Bem, talvez Vandré seja muito mais revolucionário do que sequer poderíamos imaginar que a idéia de ser revolucionário algum dia poderia significar. Ele não estava interessado em salvar um sistema político, mas um sistema poético. Poetas são conhecidos por tirar as pessoas de suas vidas anestesiadas por breves momentos – mas será que a poesia pode fazer-nos despertar do “Admirável Mundo Novo” de Huxley? Isso somente nós mesmos é quem poderemos responder, no único espaço que jamais pôde ser controlado ou censurado, nem tampouco cercado por muros e grades – na consciência de quem pensa por si mesmo.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

***

Obs: Eu propositalmente iniciei este artigo falando de meu desgosto pela política, mas eu me referia a política dos corruptores e corruptíveis, e não a Política dos poetas, filósofos e grandes líderes como Gandhi. O texto é uma tentativa de analisar essas diferenças entre a política e a Política - embora continue sem pretensão nenhuma de ser um grande conhecedor do assunto.

Crédito da foto: Divulgação (Geraldo Vandré na década de 60)

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8.11.09

Orwell e Huxley

Texto de "Amusing Ourselves to Death", por Neil Postman. Tradução transcrita do blog de Marcelo Del Debbio.

George Orwell escreveu 1984. Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo.

Orwell temia aqueles que banem os livros.
Huxley temia que não houvesse razão para banir livros, por que ninguém mais se interessaria em ler algum.

Orwell temia a censura das informações.
Huxley temia que nos oferecessem tanta informação que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo.

Orwell temia que a verdade fosse ocultada de nós.
Huxley temia que a verdade fosse soterrada em um mar de irrelevância.

Orwell temia que nós nos tornassemos uma cultura oprimida (capturada).
Huxley temia que nos tornassemos uma cultura irrelevante, trivial, preocupada com "some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy".

Em 1984, as pessoas eram controladas pela dor.
Em Admirável Mundo Novo, elas eram controladas por prazer.

No final, Orwell temia que o medo nos arruinasse.
E Huxley temia que o desejo nos arruinasse.

Qual cenário parece ser mais convincente nos dias de hoje?

***

O próprio Aldous Huxley deu a sua opinião sobre o assunto:

Dá o que pensar, não?

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