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22.8.12

Indecência espiritual

Por agora encerrando as traduções dos poemas de Rumi em inglês... Há alguns poemas de Rumi que trazem metáforas “grosseiras”. De fato, tanto é assim, que os primeiros tradutores de tais poemas para o inglês, nos idos dos 1920s, preferiram manter tais passagens em latim, supondo que “quem quer que saiba ler em latim, terá refinamento suficiente para não se escandalizar”... Zoofilia! Os puritanos e os de mente em conserva iriam levá-lo a fogueira! Sorte de Rumi que sua poesia tem se irradiado somente entre os amantes, estes que sempre serão bem vindos a passear em sua Grande Carruagem...


[A importância do artesanato de cabaças]

Havia uma camareira
que usou da inteligência para treinar um asno
ensinando-o a fazer o serviço de um amante.

De uma cabaça,
ela esculpiu um engenhoso orifício
de modo que encaixasse no pênis do animal,
impedindo-o de penetrar muito profundamente nela.

Ela arquitetou sua cabaça de tal modo que a penetração ia somente até o ponto máximo de seu prazer.
E ela aproveitava seu brinquedo sempre que podia!

Ela entrou em êxtase, mas o asno começava a aparentar um pouco magro e um tanto cansado.

Sua patroa começou a suspeitar.
Um dia ela espiou através de um buraco na porta
e viu o espantoso membro do asno,
e o deleite da garota
esticada embaixo do animal.

Não disse nada. Mais tarde bateu na mesma porta
e incumbiu a criada de uma tarefa,
uma tarefa longa e complicada.
Não entrarei em detalhes.

A camareira soube o que se passava, no entanto.
“Ah, minha senhora,” ela pensou consigo mesma,
“você não deveria ter mandado embora a especialista.

Quando começa num caminho sem conhecimento total,
você arrisca sua vida. Seu pudor lhe impede
de me perguntar sobre a cabaça, mas ela é necessária
para que possa se unir a este asno.
Há um truque que desconhece!”

Mas a mulher estava muito fascinada com a ideia
para considerar qualquer perigo. Ela deixou o asno entrar
e trancou a porta, pensando, “Com ninguém em volta,
poderei gritar de prazer.”

Ela estava desorientada
pela ansiedade, sua vagina ardia
e cantava como um rouxinol.

Ela arrumou a cadeira abaixo do asno,
assim como viu a criada fazer. Ela levantou suas pernas
e o colocou dentro dela.

Seu fogo brilhou ainda mais,
e o asno educadamente a estocou conforme ela o instigou,
seu membro entrou fundo e através de seu intestino,
e, sem uma palavra, ela morreu.

A cadeira caiu para um lado,
e ela pro outro.

O quarto estava manchado de sangue.

Leitor,
alguma vez já viu alguém martirizado por um asno?
Lembre o que o Corão diz sobre o tormento
de desgraçar-nos a nós mesmos.

Não sacrifique sua vida por sua alma animal!

Acaso morra pelo que ela lhe instigou a fazer,
você será como a mulher morta no chão.
A imagem da imoderação.

Lembre-se dela,
e mantenha seu equilíbrio.

A criada retorna e diz, “Sim, você viu
meu prazer, mas não percebeu a cabaça
que colocava nele um limite. Você abriu
sua loja antes que um mestre
houvesse lhe ensinado a arte.”

***

[A grande carruagem]

Quando vejo sua face, as pedras começam a girar!
Você aparece; todo o estudo vagueia.
Eu perco meu lugar.

A água se torna perolada.
O fogo aplaina e não mais destrói.

Em sua presença não desejo o que achei
que desejava, essas três lamparinas suspensas.

Dentro de sua face os manuscritos antigos
mais parecem espelhos enferrujados.

Você respira; surgem novas formas,
E a música de um desejo mais conhecido
que a Primavera começa seu ritmo
como uma grande carruagem.

Conduza-a devagar.
Alguns de nós caminhando ao seu lado
são mancos!

***

Hoje, como qualquer outro dia, nós acordamos desocupados
e aflitos. Não abra a porta para o estudo.
Guarde seu instrumento musical.

Deixe a beleza que amamos ser o que criamos.
Existem centenas de maneiras de se ajoelhar e beijar o chão.

***

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

***

A brisa matinal têm segredos a lhe contar.
Não volte a dormir.
Você precisa perguntar por aquilo que realmente deseja.
Não volte a dormir.
As pessoas estão indo e vindo através da soleira onde os dois mundos se tocam.
A porta é arredondada e está aberta.
Não volte a dormir.

***

Eu amaria lhe beijar agora.
O príncipe do beijo é sua vida.

Então meu amor está correndo em direção a minha vida, gritando,
Que barganha, vamos comprar.

***

Luz matinal, cheia de pequenas partículas a dançar,
e o grandioso a girar, nossas almas
dançam contigo, sem pés, elas dançam.
Você pode vê-las quando eu sussurro em seus ouvidos?

***

Eles tentam dizer o que você é, espiritual ou sexual?
Eles especulam sobre Salomão e todas as suas esposas.

No corpo do mundo, dizem, há uma alma,
é isto o que você é.

Porém nós temos caminhos entre nós
que nunca serão mencionados por ninguém.

***

Venha para o pomar na Primavera.
Há luz e vinho, e namorados
nas flores de romã.

Se você não vir, estes não farão diferença.
Se você vir, estes não farão diferença.


(Poemas de Jalal ud-Din Rumi. Refletidos do inglês para o português por Rafael Arrais)

***

Crédito da foto: Atlantide Phototravel/Corbis

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3 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

To admirado aqui com a descrição perfeita de Gamaliel, o Asno Obsceno! Precisava ler isso, apesar de já não ter muito o que fazer. Há um preço por se acessar uma esfera e ele é se deparar com sua concha. Os espertos, antes de prosseguir, fazem sua preparação, sua "cabaça", de acordo com a arte, que é o equilíbrio dos elementos do arcano do Mundo, antes de se arriscar. Acessar Yesod, com suas imagens e toda a intensidade de seu psiquismo, que liga os mundos superiores ao inconsciente e estes a mente consciente para atingir o plano material, através das ações, tem seu preço. Voce nao acessa Yesod com frequencia sem que do inconsciente saltem reações automáticas, arquétipos sombrios e demais instintos, que devem ser conhecidos, mas reconciliados e equilibrados e para isso é fundamental um equilíbrio sólido e anterior dos 4 elementos. Quem se depara com o Asno despreparado e não morre, só tem uma saída para continuar vivo, o caminho da Arte, pois nela tem o equilíbrio dos 4 elementos do arcano do Mundo e tbm das forças de Yesod. Este é o grande problema da via solitária: O controle do monstro que emerge quando as imagens da casa do tesouro mostram toda sua poluição egoíca e seus instintos básicos de dominação e prazer, nosso Asno Obsceno... Sorte que para alguns há tempo de gritar e obter socorro.

22/8/12 20:30  
Blogger raph disse...

Confesso que não fazia ideia que mesmo este asno do poema tinha um simbolismo oculto. É bem provável que Rumi tenha usado este símbolo em diversos outros poemas, sempre que menciona um asno geralmente está a falar de nossa alma animal... Mas talvez seja exatamente neste poema "obsceno" que ele tenha exposto de forma mais escancarada este símbolo :)

Como podemos ver, místicos de verdade sempre existiram, mas foram poucos e muito mal compreendidos. Ou se esforçaram para ser mal compreendidos, em alguns casos...

23/8/12 10:23  
Anonymous Anônimo disse...

Conheço muito pouco do sufismo, mas creio que os sufistas e cabalistas usavam uma linguagem bem similar... Gamaliel me sautou aos olhos ao ler texto... obrigado pela luz!

23/8/12 17:18  

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