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20.8.12

O filho da vida

Numa noite fria um homem letrado veio tratar com Yeshua, que o recebeu em sua tenda, animado por poder conversar com um sacerdote. Seu nome era Nicodemus...

Sacerdote – Shalom, rabi.

Mensageiro – Está errado: tu que és o rabi, e eu é que estou em paz.

Sacerdote – Mas como pode estar em paz, vendo seu povo sofrendo, oprimido?

Mensageiro – E quem não sofre nesta vida?

Sacerdote – Mas nós judeus temos sofrido em demasiado. Onde está Adonai para libertar nosso povo? Dizem que você trouxe-nos sinais de que é seu enviado, seu filho... Então me diga, onde está este Senhor Ausente?

Yeshua apanhou um galho seco do solo onde foi montada a tenda...

Mensageiro – Você vê a vida aqui?

Sacerdote – Não, isto é apenas um galho seco.

Mensageiro – Esta é a diferença. Tu achas que teu senhor está aqui e ali, e eu o percebo em todo lugar, para onde quer que olhe estou sempre coberto por seu perfume. Este galho seco um dia abrigou vida, e agora se torna inerte novamente, porém não menos sagrado. Eis o meu sinal e a minha mensagem, rabi: tudo é sagrado, tudo vibra e nada está parado. Quem há de ter iniciado esta roda senão aquele quem proclamas ausente?

Sacerdote – E porque não o convoca então? Quero vê-lo!

Mensageiro – Ele já está aqui. Ainda mais perto de tua alma do que teu próprio olho.

Sacerdote – Mas não o vejo, não o vejo! Se o vê, diga-te então que nos ajude, que nos lidere, que expulse os opressores de nossa terra...

Mensageiro – Mas como pode alguém retirar a moeda ou o trigo da balança, sem que torne a transação injusta para o vendedor ou o comprador? Tu desejas um Senhor dos Exércitos, mas como pode um general marchar contra o seu próprio exército?

Sacerdote – O que está dizendo, rabi? E acaso Adonai também defende aos opressores?

Mensageiro – E como poderia existir um exército de homens que não pertença ao Senhor da Vida? Não é sua culpa que os homens busquem a morte, e não a vida. Em verdade lhe digo, ó Nicodemus, que Nosso Pai não é um general, mas um semeador... E nós somos as sementes! Algumas há que germinaram em solo fértil, enquanto outras encontraram o solo seco, e viveram vidas de galhos secos. Porém, há sempre a oportunidade de aproveitar as chuvas que antecedem a primavera.

Sacerdote – Eu não compreendo... Se este de quem fala é o senhor dos romanos, não pode ser Adonai. Você é filho de um falso deus, um deus ausente, um deus traidor. Quem é você afinal?

E dizem que aquela foi a primeira vez que o viram exaltado:

Mensageiro – Ó Nicodemus, porque tanto proclamas ser um conhecedor das coisas celestes, se mal compreende das coisas do mundo? A quem pretende ensinar com esta alma cega? Tu acusas Nosso Pai de ser ausente, e, no entanto, ele é tão ausente quanto à luz das estrelas é ausente da noite! Tu acusas Nosso Pai de ser traidor, quando não há no mundo quem ele possa trair, visto que não fez promessa alguma! Tu me acusas de ser filho de um deus falso, quando ele é a fonte única de todos os Elohim, que são a essência de tudo o que há de belo e verdadeiro no mundo!
Saia desta tenda, Nicodemus, e volte para seus manuais de palavras vazias e sem vida. De nada adianta conhecer as palavras se você não percebe o baile da vida a escorar pelo ombro, o vento que sopra onde quer, e não atende ao chamado de almas secas.

Mas, antes de sair, Nicodemus virou-se e perguntou:

Sacerdote – E como tu fazes para falar com esse tal deus? Quem sabe um dia eu consiga falar com ele, para que possa fazer por nosso povo o que você se recusa a pedir...

Mensageiro – Em verdade lhe digo, hipócrita, que ele fala na única linguagem que não és ainda capaz de compreender sequer duas palavras: o amor. E, caso te perguntem como eu sei de tudo isso, diga-lhes que eu sou o Filho da Vida.


raph’12

***

Este conto é uma continuação direta de "O zelote", e continua em "O recitador".

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Crédito da foto: Janis Christie/Corbis

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