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27.8.12

O grande campo

Somos todos reflexões
Da luz que irradiou de si mesma
A natureza de todas as paixões
E, da vida, toda a beleza.

No princípio havia apenas o Grande Ser
Refletido na forma de si mesmo;
Disse, então, tudo que havia por saber:
“Isto sou eu”.

Surgindo de tal pensamento, tornou-se a criação;
E aquele que o busca com ardor
Torna-se, na criação, um criador.

Em tudo que há existe o repouso e o movimento;
Somos todos luz condensada, luz repousada:
“Tudo existe neste momento”.


raph’12

***

Crédito da imagem: BordomBeThyName

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22.8.12

Indecência espiritual

Por agora encerrando as traduções dos poemas de Rumi em inglês... Há alguns poemas de Rumi que trazem metáforas “grosseiras”. De fato, tanto é assim, que os primeiros tradutores de tais poemas para o inglês, nos idos dos 1920s, preferiram manter tais passagens em latim, supondo que “quem quer que saiba ler em latim, terá refinamento suficiente para não se escandalizar”... Zoofilia! Os puritanos e os de mente em conserva iriam levá-lo a fogueira! Sorte de Rumi que sua poesia tem se irradiado somente entre os amantes, estes que sempre serão bem vindos a passear em sua Grande Carruagem...


[A importância do artesanato de cabaças]

Havia uma camareira
que usou da inteligência para treinar um asno
ensinando-o a fazer o serviço de um amante.

De uma cabaça,
ela esculpiu um engenhoso orifício
de modo que encaixasse no pênis do animal,
impedindo-o de penetrar muito profundamente nela.

Ela arquitetou sua cabaça de tal modo que a penetração ia somente até o ponto máximo de seu prazer.
E ela aproveitava seu brinquedo sempre que podia!

Ela entrou em êxtase, mas o asno começava a aparentar um pouco magro e um tanto cansado.

Sua patroa começou a suspeitar.
Um dia ela espiou através de um buraco na porta
e viu o espantoso membro do asno,
e o deleite da garota
esticada embaixo do animal.

Não disse nada. Mais tarde bateu na mesma porta
e incumbiu a criada de uma tarefa,
uma tarefa longa e complicada.
Não entrarei em detalhes.

A camareira soube o que se passava, no entanto.
“Ah, minha senhora,” ela pensou consigo mesma,
“você não deveria ter mandado embora a especialista.

Quando começa num caminho sem conhecimento total,
você arrisca sua vida. Seu pudor lhe impede
de me perguntar sobre a cabaça, mas ela é necessária
para que possa se unir a este asno.
Há um truque que desconhece!”

Mas a mulher estava muito fascinada com a ideia
para considerar qualquer perigo. Ela deixou o asno entrar
e trancou a porta, pensando, “Com ninguém em volta,
poderei gritar de prazer.”

Ela estava desorientada
pela ansiedade, sua vagina ardia
e cantava como um rouxinol.

Ela arrumou a cadeira abaixo do asno,
assim como viu a criada fazer. Ela levantou suas pernas
e o colocou dentro dela.

Seu fogo brilhou ainda mais,
e o asno educadamente a estocou conforme ela o instigou,
seu membro entrou fundo e através de seu intestino,
e, sem uma palavra, ela morreu.

A cadeira caiu para um lado,
e ela pro outro.

O quarto estava manchado de sangue.

Leitor,
alguma vez já viu alguém martirizado por um asno?
Lembre o que o Corão diz sobre o tormento
de desgraçar-nos a nós mesmos.

Não sacrifique sua vida por sua alma animal!

Acaso morra pelo que ela lhe instigou a fazer,
você será como a mulher morta no chão.
A imagem da imoderação.

Lembre-se dela,
e mantenha seu equilíbrio.

A criada retorna e diz, “Sim, você viu
meu prazer, mas não percebeu a cabaça
que colocava nele um limite. Você abriu
sua loja antes que um mestre
houvesse lhe ensinado a arte.”

***

[A grande carruagem]

Quando vejo sua face, as pedras começam a girar!
Você aparece; todo o estudo vagueia.
Eu perco meu lugar.

A água se torna perolada.
O fogo aplaina e não mais destrói.

Em sua presença não desejo o que achei
que desejava, essas três lamparinas suspensas.

Dentro de sua face os manuscritos antigos
mais parecem espelhos enferrujados.

Você respira; surgem novas formas,
E a música de um desejo mais conhecido
que a Primavera começa seu ritmo
como uma grande carruagem.

Conduza-a devagar.
Alguns de nós caminhando ao seu lado
são mancos!

***

Hoje, como qualquer outro dia, nós acordamos desocupados
e aflitos. Não abra a porta para o estudo.
Guarde seu instrumento musical.

Deixe a beleza que amamos ser o que criamos.
Existem centenas de maneiras de se ajoelhar e beijar o chão.

***

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

***

A brisa matinal têm segredos a lhe contar.
Não volte a dormir.
Você precisa perguntar por aquilo que realmente deseja.
Não volte a dormir.
As pessoas estão indo e vindo através da soleira onde os dois mundos se tocam.
A porta é arredondada e está aberta.
Não volte a dormir.

***

Eu amaria lhe beijar agora.
O príncipe do beijo é sua vida.

Então meu amor está correndo em direção a minha vida, gritando,
Que barganha, vamos comprar.

***

Luz matinal, cheia de pequenas partículas a dançar,
e o grandioso a girar, nossas almas
dançam contigo, sem pés, elas dançam.
Você pode vê-las quando eu sussurro em seus ouvidos?

***

Eles tentam dizer o que você é, espiritual ou sexual?
Eles especulam sobre Salomão e todas as suas esposas.

No corpo do mundo, dizem, há uma alma,
é isto o que você é.

Porém nós temos caminhos entre nós
que nunca serão mencionados por ninguém.

***

Venha para o pomar na Primavera.
Há luz e vinho, e namorados
nas flores de romã.

Se você não vir, estes não farão diferença.
Se você vir, estes não farão diferença.


(Poemas de Jalal ud-Din Rumi. Refletidos do inglês para o português por Rafael Arrais)

***

Crédito da foto: Atlantide Phototravel/Corbis

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21.8.12

A arte sufi

Já que pediram, continuarei traduzindo alguns dos mais belos poemas de Rumi em inglês... Há muitos que julgam o Islã pelo que passa hoje na TV, mas se esquecem, ou, mais provavelmente, não sabem, que há um milênio atrás eram os islâmicos quem detinham os expoentes de nossa filosofia, tendo sido os grandes responsáveis por salvar a sabedoria grega do esquecimento; de nossa ciência, da medicina a matemática; e sobretudo de nossa espiritualidade. Somente numa época como esta poderia ter vindo a Terra um poeta como Rumi, talvez o último filho de Al-Andalus...


[A arte chinesa e a arte grega]

Disse o Profeta, “Há alguns que me veem
sob a mesma luz que os vejo.
Nossas naturezas são unas.

Sem referência a linhagens
de parentesco, sem referência a textos e tradições,
nós bebemos o mesmo líquido da vida, juntos.”

Eis uma história sobre este mistério oculto:

Os chineses e os gregos estavam debatendo sobre quais seriam os melhores artistas.
O rei então disse, “Resolveremos tal questão com um debate”.
Os chineses começaram a falar,
mas os gregos nada diziam.
E foram embora.

Os chineses então sugeriram que a cada grupo fosse dado em salão para que pudessem trabalhar em sua arte,
dois salões voltados um para o outro, separados por uma cortina.

Os chineses pediram ao rei por uma centena de cores, todas as variantes,
e a cada manhã eles voltavam onde as tintas eram deixadas
e as pegavam todas.
Os gregos não pegavam tinta alguma.
“Elas não são parte do nosso trabalho”.

Eles foram para o seu salão e começaram a limpar e polir as paredes.
Todo dia, a cada dia, tentavam deixar as paredes puras e límpidas
como o céu aberto.

Há um caminho que parte de todas as cores para a ausência de cor.
Saiba que a magnífica variedade das nuvens e do clima
vêm da simplicidade total do sol e da lua.

Os chineses concluíram sua arte, e estavam muito felizes.
Bateram seus tambores pela alegria da conclusão.
O rei entrou em seu salão,
espantado pelas cores maravilhosas e pelos detalhes.

Os gregos subiram a cortina que dividia os ambientes.
As imagens e figuras chinesas refletiram cintilantes
nos muros vazios dos gregos. Elas viviam lá,
ainda mais belas, e sempre
se modificando junto com a luz.

A arte grega é o caminho sufi.
Eles não estudam livros ou pensamento filosófico.

Eles fazem seu amor puro e cada vez mais límpido.
Sem desejos, sem raiva. Nessa pureza
eles recebem e refletem as imagens de cada momento,
daqui, das estrelas, do vazio.

Eles as absorvem
como se estivessem a ver
sob a mesma luminosidade
que os observa.

***

Sob sua luz eu aprendi como amar.
Ante sua beleza, como compor poemas.

Você dança em meu peito,
onde ninguém o vê,

por vezes tenho lhe visto,
e isto que contemplo torna-se minha arte.

***

O som de tambores se eleva pelo ar,
são uma pulsação, meu coração.

Uma voz dentre os batimentos me diz,
“Eu sei que está cansado,
mas venha. Este é o caminho.”

***

Está com ciúmes da generosidade do oceano?
Porque se recusaria a doar
esta alegria aos outros?

Os peixes não guardam o líquido sagrado em canecas!
Eles nadam nesta imensidão de liberdade fluída.

***

[Diga eu sou você]

Eu sou a poeira no raio solar.
Eu sou o sol circular.

Para os pedaços de pó eu digo, Fiquem.
Para o sol, Continue a viajar.

Eu sou a neblina da manhã,
e o suspirar da tardinha.

Eu sou o vento no topo do bosque,
e a arrebentação ao pé do penhasco.

Mastro, leme, timoneiro, e barco,
Sou também o recife de corais onde naufragaram.

Eu sou uma árvore com um papagaio treinado em seus galhos.
Silêncio, pensamento, e voz.

O ar musical saindo de uma flauta,
a faísca de uma pedra, uma oscilação

num metal. Tanto a vela,
quando a mariposa alucinada ao redor.

A rosa, e o rouxinol
perdido em sua fragrância.

Eu sou todas as ordens do ser, a galáxia circundante,
a inteligência evolucionária, a ascensão,

e a queda. O que é,
e o que não é. Você quem sabe

Jalal ud-Din, Você, o uno
em tudo, me diga quem

Eu sou. Diga eu
Sou Você.

***

[A grama]

O mesmo vento que arranca os troncos
faz a grama brilhar.

O vento senhoril ama a fraqueza
e a humildade da grama.
Jamais se vangloria de ser forte.

O machado não se preocupa com a grossura dos galhos.
Ele os corta em pedaços. Mas não as folhas.
Ele deixa as folhas em paz.

Uma flama não considera o tamanho da pilha de lenha.
Um açougueiro não corre de um rebanho de ovelhas.

O que é a forma na presença da realidade?
Muito pobre. A realidade mantém o céu revirado
como um cálice acima de nós, girando. Quem rodou
a roda do céu? A inteligência universal.

E o movimento do corpo
vêm do espírito como uma roda d’água
construída num riacho.

A inalação e a exalação vêm do espírito,
agora raivoso, agora em paz.
O vento destrói, e protege.

Não há realidade que não Deus,
diz o xeique completamente entregue,
que é um oceano para todos os seres.

Os níveis da criação são como pequenas ondulações neste oceano.
Seu movimento provém de uma agitação na água.
Quando o oceano deseja acalmar as ondulações,
ele as envia para perto da costa.
Quando ele as quer de volta, junto as grandes ondas do mar profundo,
faz com elas o mesmo que faz com a grama.

Isso nunca acaba.


(Poemas de Jalal ud-Din Rumi. Refletidos do inglês para o português por Rafael Arrais)

***

Crédito da foto: Donna Wilding/First Light/Corbis

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17.8.12

Vinho, Luz e Silêncio

É uma sexta-feira à noite e estou mergulhado na poesia de Rumi. Por falta de livros em português, fui atrás de traduções de Rumi para o inglês. Após haver lido alguns poemas extraordinários, pensei: hoje à noite não vou jogar videogame, vou traduzir esses poemas de Rumi.

Vinho para se embriagar com o sagrado, alma aberta para refletir a Luz adiante, e Silêncio para que possamos escutar aos ecos da eternidade...


[Cada nota]

O conselho não ajuda aos amantes!
Eles não são do tipo de corrente d’água da montanha
que você possa represar.

Um intelectual não compreende
o que um embriagado está sentindo!

Não tente adivinhar
o que aqueles perdidos dentro do amor
farão a seguir!

Alguém no comando abdicaria de todo o seu poder,
se ele apanhasse uma lufada de almíscar do vinho
aberto no quarto onde os amantes
estão fazendo sabe lá o que!

Um deles tenta cavar um túnel através da montanha.
Outro foge das honrarias acadêmicas.
Enquanto outro ri do bigode dos famosos!

A vida congela se não abocanha um pedaço
deste bolo de amêndoa.

As estrelas vêm girando a cada noite,
aturdidas no amor.
Do contrário estariam hoje cansadas,
de todo este rodopio.
E diriam, “Até quando teremos de fazer isso!”

Deus pega a flauta de cana do mundo e sopra.
Cada nota é uma carência passando através de um de nós,
uma paixão, a dor de uma saudade.

Lembre dos lábios
onde o sopro se originou,
e deixe sua nota soar livre.
Não tente interrompê-la.
Seja a sua nota.
Eu lhe mostrarei como isso já basta.

Suba no telhado ao anoitecer
nesta cidade da alma.

Deixe que todos subam em seus telhados
e cantem suas notas!

Cantem alto!

***

[Com você aqui no meio]

Os amantes trabalham, de modo que quando corpo e alma
não mais estiverem juntos,
seu amor será livre.

Banhe-se na água da sabedoria, de modo que não tenha arrependimentos
de seu tempo neste mundo.

O amor é o núcleo vital da alma,
e de tudo o que vê, apenas o amor é infinito.

Sua não existência antes de seu nascimento
é o céu no leste.

Sua morte está no horizonte oeste
com você aqui no meio.

O caminho não leva nem ao leste nem ao oeste,
mas para dentro.

Bata suas asas de amor e as faça fortes.
Esqueça a ideia das escadas religiosas.
O amor é o telhado. Seus sentidos são calhas d’água.

Beba a chuva diretamente do telhado.
Calhas são facilmente quebradas
e por vezes precisam ser trocadas.

Recite este poema em seu peito.
Não se preocupe como ele soa
passando por sua boca.

Um corpo humano é um arco.
Respiração e linguagem são flechas.

Quando a aljava está gasta ou as flechas se acabaram,
não há nada mais para o arco realizar.

***

[O sonho que precisa ser interpretado]

Este lugar é um sonho.
Somente alguém adormecido o considera real.

A morte chega com o amanhecer,
e você acorda gargalhando
do que pensava ser sua aflição.

Mas existe uma diferença neste sonho.
Toda ação cruel e inconsciente
realizada na ilusão do mundo presente,
nada disso se esvai no despertar da morte.

Tudo isso persiste,
e precisa ser interpretado.

Todos os risos mesquinhos,
todo fugaz desejo sexual,
estes mantos rasgados de Josué,
transformam-se em lobos ferozes
que terás de enfrentar.

A retaliação que por vezes chega agora,
o repentino contra golpe,
é apenas brincadeira de criança,
comparado com os outros.

Aqui você sabe da circuncisão.
Lá é a castração total!

E este tempo cambaleante em que vivemos,
eis ao que ele se assemelha:

Um homem vai dormir na cidade em que sempre viveu, e ele sonha que está morando noutra cidade.
No sonho, ele não lembra mais da cidade onde seu corpo está adormecido na cama. Ele crê na realidade da cidade do sonho.

O mundo é este tipo de sonho.

A poeira de muitas cidades em ruínas
instala-se sobre nós como um cochilo,
mas somos mais antigos do que tais cidades.

Nós iniciamos como um mineral. Emergimos na vida vegetal
e então no estado animal, e depois no ser humano,
e sempre temos esquecido dos nossos estados anteriores,
exceto no início da primavera quando lembramos brevemente
sermos novamente verdes.

É assim que um jovem se volta para um professor.
É assim que um bebê se inclina para os seios,
sem saber do segredo de seu desejo,
inclinando-se instintivamente.

A humanidade vem sendo conduzida por um curso evolutivo,
através desta migração de inteligências,
e apesar de aparentemente estarmos adormecidos,
há uma vigília oculta
que direciona o sonho,

e isto eventualmente irá nos espantar de volta
para a verdade do que somos.


(Poemas de Jalal ud-Din Rumi. Refletidos do inglês para o português por Rafael Arrais)

***

Crédito da foto: Wildlifewatcher

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14.8.12

O chamado dos navegantes

Quando soou, o sinal foi inesperado:
“O que é isso, onde vai?”
“Tomar o barco, onde sou chamado.”
“Mas ainda é noite...”
“Verei o sol que nasce noutras terras.”
“Espere que irei contigo!”
E então, você sorriu e me disse, com os olhos refletindo a lua:
“Esta noite só viajam os convidados, meu amigo.”

Assim partiu o melhor homem que caminhou por nosso país
Sereno como a noite – majestoso como as estrelas;
Tomou o barco e foi conhecer outros reinos
E outras terras...
Navegava pelo oceano uma vez mais
Deixando meu coração assim, tão seco!
Com o sangue gotejando pelo chão
Formando já uma poça de solidão...

Num sonho, encontrei-o;
Estava ainda no barco, mas um corvo me levou até lá:
“Onde está morando agora?”
“No mar.”
“Mas como faço para falar contigo?”
“Sonhe.”
“Mas como posso saber se me lembrarei deste sonho?”
“Pinte um quadro, me disseram que nos ajuda a lembrar...”

Quando acordei, ainda sangrava – não me lembrava de quase nada;
Mas foi então que a imagem do quadro me veio à mente...
Na verdade, talvez nunca saiba ao certo
Se o que pintei foi o que se passou realmente
Mas usei meu sangue escorrido para tingir a vela vermelha
E com as lágrimas que me restaram, preenchi o mar...
Só então a ferida aberta estancou
A saudade que ainda paira pelo ar:
Esta foi o amor que ficou


raph’12

***

Crédito da foto: Westend61/Corbis

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6.8.12

O néctar de Shams

Quando eu voava exaurido por seu jardim,
Sorvendo todo néctar das flores ao redor,
Estava feliz, mas nem tanto assim...

“O que está te incomodando, amante da flor?” – você me perguntou.
“Uma saudade, uma dor.” – eu respondi.
“O que há nesse jardim para se ter saudade?”
“Tudo! As flores, o néctar, o cheiro de jasmim”...

Eu ansiava pela idade em que cresceria
Num pássaro maior, dono do céu, dono de mim;
Que poderia voar para bem longe de seu jardim.
Eu sabia que precisaria alçar voo,
Mas temia, mesmo assim...

“Eu irei encontrar néctar nas flores de outro país?”
“Todas as flores tem néctar.”
“Mas, e se não existirem flores noutro país?”
“Todos os países tem flores.”
“E porque tanta vida, porque tanto amor, o que você ganha em troca?”
“Amante da flor, lhe contarei meu segredo”...

E você me explicou que enquanto eu sorvia o doce de cada flor,
Suas pétalas espalhavam por meu pequeno corpo o pólen
Que iria fecundar outras flores, para que cada uma delas
Conhecesse em segredo o ingrediente do néctar
Umas das outras...

“Mas como se faz tal milagre?”
“Qual deles?”
“Ora, o da criação do pólen e do néctar, isso nunca termina?”

E você me explicou que desde muito cedo tudo coube aos pássaros,
Os amantes das flores, que por demais amarem seu néctar,
Distribuíam ao pólen por todos os cantos do jardim;
E que agora já era tarde,
Isso jamais teria um fim...

***

“Mas Shams, serei eu realmente um pássaro amante das flores?”
“Todo ser é o que sonha.”
“E o que é essa corda pendendo do meu pé?”
“O lembrete da realidade.”
“Mas, seria isso tudo real? Existe mesmo esse néctar infindável?”
“Você só vai saber se continuar voando, e distribuindo meu pólen pelo coração da realidade – mas voe em silêncio!”


raph’12

***

Crédito da foto: Frans Lemmens/www.franslemmens.com/Corbis

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4.7.12

A melodia

É como o lamento da flauta na floresta
Um tamborilar a ecoar pelo tempo
A persistente harmonia em tudo que nos resta
Quando nos voltamos para dentro

É como a calmaria antes da tempestade
No mar do ser: na praia de cada ilha
No céu: as estrelas em sua majestade
Cintilam na alma: “bem vinda, querida filha”

E então ela dança: cada movimento
É como a história de uma vida
A girar por este momento

Quantos passos de dança, quantas vidas e amores,
Compostas pela eterna melodia
A ecoar como um chamamento: “tenha esperança!”


raph’12

***

Crédito da imagem: Raghu Rai

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1.6.12

Reflexão

I.

Por muito tempo busquei o amor
Por muito tempo dele procurei
Nos recândidos do mundo
Perguntando a mim mesmo
De algo que jamais saberei

Agora, em silêncio profundo
Basta-me saber da lei:
Quero é ser o amor
Como a abelha é parte da colméia
Quero é viver o amor
Como só tu o soube
Ò rabi da Galileia

II.

Eis me aqui neste templo mental
Cercado de anjos e velhos pretos
Dançando ao toque
Do tambor ancestral...

Agora, em silêncio profundo
Basta-me imaginar ao sol
A iluminar divina cachoeira
– Um longo rio a desaguar
No mais belo jardim

Quem lá esteve, sabe que é assim:
O Éden não foi, nem será...
Em nossa volta
Na mente plena de paz
Tudo apenas é

III.

Por muito tempo busquei a luz
E, partindo de mim
Tal qual raio, a projetar
Até que um ser alado
Das falanges de muitas eras atrás
Ensinou-me a evocar
A pirâmide branca
De cume dourado...

Como o ótico de Haia
Vi a luz em reflexão
Dos confins do Cosmos
Até este nosso mundo
– Charco de solidão

IV.

Eis me aqui envolto em rede
De luz eterna
Tecida entre dois planos
Tão próximos
Tão distantes...

Eis o que sei por ora:
O amor está dentro
O amor é um fio
Mas a luz vem de fora

Agora, em silêncio profundo
A cangoma ainda toca...
Da outra ponta do mundo
Um fio é puxado
E todos os anjos
E pretos velhos
E todos os rabis
E neófitos
E todos os pensamentos em reflexão
Pendem
Na sua direção
– Quer compreendam
Quer não...


raph’12’A.’.A.’.

***

Crédito da imagem: James Turrell

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30.5.12

Pequeno pássaro

Então desejas elevar-te ao patamar dos santos
E habitar com tua alma ao topo da colina
Acima do pântano dos prantos
E sorrir ao Sol que te ilumina?

Mas, que sabes tu de tal caminho,
Senão o que tem lido nessas palavras
Em desalinho?

Essa tal magia
Essa tal linguagem que procuravas
Não está lá fora atrás do horizonte
Mas antes no próprio ninho
De teu ser:
A alma é a fonte

Ela é pássaro que voou
Para longe de teus próprios pensamentos
Quando estes a afugentaram...

A cada olhar postado em julgamento,
Ela voou
A cada olhar desviado em indiferença,
Ela voou
A cada olhar cheio de desejos desenfreados,
Ela voou...
Tudo o que pensou – foi tudo o que ela viu

Agora, olha para ti:
O homem no espelho d’água
O ser perdido
Na busca de ser achado...

E fazer do pântano a fonte cristalina:
Do negrume do fundo
O calcário a refletir o Infinito
Em cada gota do mundo

Como poderias haver avançado em tal caminho
Se o pequeno pássaro,
O tesouro mais precioso,
Era afugentado sem que percebesses?

Chama agora o pássaro de volta:
Assobia para a alegria do ser
E põe-te na escolta
De tua própria alma...
Sim! Faça-a grandiosa,
Ensina-a a voar adentro,
Para que valha a pena caminhar...


(silêncio)

Shhh...
Ouve agora
O pássaro a piar?
Dá, então, o primeiro passo...
Vai, e voa!
Voa alto pelo ar...
Até a colina
Até o horizonte
Até que consigas finalmente
Se reencontrar...


raph’12’A.’.A.’.

***

Crédito da imagem: Tomas Rodriguez/Corbis

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29.5.12

Os dois mundos de Rumi

Jalal ud-Din Rumi, grande poeta e místico sufi, fundador da primeira escola dos dervixes rodopiantes, viveu entre dois mundos. Rumi fora um grande teólogo e mestre espiritual persa, seguindo a tradição de seu pai, mas foi como o Revelador da Religião (“Jalal ud-Din”), que tornou-se grandioso...

O que Rumi revelava e refletia, tal qual a lua reflete aos raios do sol, era a sabedoria de Shams ud-Din de Tabriz, o Sol da Religião (“Shams ud-Din”): místico “errante” no estilo dos mitos acerca de Lao Tsé, que vagava pela Pérsia e, tendo convivido com Rumi por dois longos momentos, tornou-se para sempre o seu amado, no real sentido do “ser amado”.

Shams nada escreveu – foi Rumi quem escreveu por ele, quem refletiu sua luz... Quando foi privado pela segunda vez da companhia de Shams (na primeira ele havia se exilado por vontade própria, na segunda foi assassinado por discípulos ortodoxos de Rumi), o grande dervixe passou a dançar e compor poemas melódicos continuamente [1], conforme descreveu seu filho (Sultan Walad):

Noite e dia, em êxtase ele dançava, na terra girava como giram os céus. Rumo as estrelas lançava seus gritos e não havia quem não os escutasse. Aos músicos provia ouro e prata, e tudo mais de seu entregava. Nem por um instante ficava sem música e sem transe, nem por um momento descansava.

Houve protestos, no mundo inteiro ressoava o tumulto. A todos surpreendia que o grande sacerdote do Islam, tornado senhor dos dois universos, vivesse agora delirando como um louco, dentro e fora de casa. Por sua causa, da religião e da fé o povo se afastara; e ele, enlouquecido de amor.

Os que antes recitavam a palavra de Deus agora cantavam versos e partiam com os músicos... [2]

Com Rumi, e toda a dor da perda de seu sol amado, fincou-se neste mundo as bases do grande misticismo sufi, e também das danças dervixes, onde os místicos rodopiam em torno de um centro imaginário, da mesma forma que os planetas rodopiam em torno do sol.

José Jorge de Carvalho, tradutor das poesias de Rumi para o português, nos faz um alerta: “É importante que o leitor faça ideia do que seja um gazal [3] de Rumi para avaliar o que perde ao ler a presente tradução, ao tempo de poder valorizar, esperamos, o quanto ainda pode receber de significado e fruição poética. Em qualquer tradução de um gazal persa para uma língua ocidental, sacrifica-se muito esteticamente: a sonoridade, o ritmo do verso, as várias formas de rima, as aliterações, os jogos de palavras.” [2]

O que se segue, portanto, é o que sobrou da luz de sol refletida pela lua de Rumi; e que, ainda assim, delineia com espantosa exatidão os dois mundos em que o grande sufi viveu, ao menos a quem tem olhos para os ver... Estes são dois poemas de Rumi, e cada um nos traz um de seus mundos:

[A evolução da forma]

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti? [4]

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torne mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman. [5]

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre “Um” com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

***

[O mundo além das palavras]

Dentro deste mundo há outro mundo
impermeável às palavras.
Nele, nem a vida teme a morte,
nem a primavera dá lugar ao outono.

Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes,
até mesmo as rochas e árvores exalam poesia.
Aqui, a coruja transforma-se em pavão,
o lobo, em belo pastor.

Para mudar a paisagem,
basta mudar o que sentes;
E se queres passear por esses lugares,
basta expressar o desejo.

Fixa o olhar no deserto de espinhos.
– Já é agora um jardim florido!
Vês aquele bloco de pedra no chão?
– Já se move e dele surge a mina de rubis!

Lava tuas mãos e teu rosto
nas águas deste lugar,
que aqui te preparam um fausto banquete.
Aqui, todo o ser gera um anjo;
e quando me veem subindo aos céus
os cadáveres retornam à vida.

Decerto vistes as árvores crescendo da terra,
mas quem há de ter visto o nascimento do Paraíso?
Viste também as águas dos mares e dos rios,
mas quem há de ter visto nascer
de uma única gota d’água
uma centúria de guerreiros?

Quem haveria de imaginar essa morada,
esse céu, esse jardim do paraíso?
Tu, que lês este poema, traduze-o.
Diz a todos o que aprendeste
sobre este lugar. [2]


***

[1] Os poemas de Rumi em homenagem a Shams em sua maioria foram concebidos em transe (dança dervixe) e transcritos quase instantaneamente por seus discípulos, ou ditados deliberadamente a outrem.

[2] Trechos retirados de Poemas Místicos – Divan de Shams de Tabriz, de Jalal ud-Din Rumi. Publicado no Brasil pela Attar Editorial.

[3] Estrutura poética, tal qual, de forma aproximada, como um soneto para a poesia do Ocidente.

[4] Lembrando que isto foi dito em pleno século XIII, em meio ao islamismo.

[5] Na simbologia persa, estava associado ao Oceano Divino.

Crédito da imagem: Unveil The Sun

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