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14.12.11

Tendências da fé, parte 1

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus" (A Girafa) – pgs. 59 a 62. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

Glocalização é um novo fenômeno, um derivado da crescente globalização. Estamos constatando que as ideias universais e os processos envolvidos na globalização são interpretados e absorvidos de maneiras diferentes, conforme a perspectiva e a história de cada grupo regional, cultural e religioso – isto é, no nível local [1].

Europa e Rússia
O antigo continente europeu foi o lugar onde, após a Revolução Francesa, o Liberalismo, o Humanismo e o Ateísmo começaram a evoluir. Apesar do continente ainda ser predominantemente cristão, com a maioria dos católicos romanos no sul e os protestantes no norte, as sociedades europeias são atualmente caracterizadas pelo multiculturalismo, no qual há coexistência de religiões de todas as partes do mundo, principalmente nas áreas urbanas.

Desde a Segunda Guerra Mundial, o número de cristãos oficialmente afiliados a uma igreja reduziu-se na maior parte da Europa, o que foi interpretado por várias décadas como um sinal de secularização. Mas os cientistas sociais têm uma opinião diferente sobre esse fenômeno, e o chamam de desinstitucionalização.  Frederic Lenoir, editor do Le monde des religions, escreve: “Os indivíduos ultramodernos desconfiam das instituições religiosas [...] e não acreditam mais no futuro brilhante que a ciência e a política sugerem; entretanto, ainda assim deparam com grandes questões sobre sua origem, sofrimento e morte” [2].

E assim descobrimos que, quando questionados, a maioria dos europeus indica que ainda são religiosos ou espiritualmente interessados, mas menos apegados às instituições religiosas que outrora dominavam o continente. Muitos criam sua própria religião pessoal, com elementos do Cristianismo, Paganismo, religiões do Oriente etc. [3] Isso é o que chamamos de individualização da religião.

[...] Na Rússia e em alguns países do antigo Pacto de Varsóvia, a antiga Igreja Ortodoxa Oriental está passando por uma revitalização, mas 70 anos de regras comunistas seculares tiveram sua influência, e a igreja da Rússia não está tendo a mesma força que teve na época czarista [4]. Os membros ortodoxos da Igreja Ortodoxa Russa estão em grande parte inclinados ao nacionalismo político e chauvinismo, mas a maioria dos russos não é ortodoxa e pratica uma forma mais leve e tolerante do Cristianismo Ortodoxo Oriental.

A Igreja Ortodoxa Russa é muito respeitada tanto pelos seguidores quanto por não seguidores, que a veem como um símbolo do patrimônio e da cultura da Rússia. [...] De acordo com uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisa de Opinião Pública e publicada em 2007, 63% dos entrevistados consideram-se ortodoxos russos, 6% muçulmanos e menos de 1% budista, católico, protestante ou judeu. Porém, as taxas de natalidade na Rússia são muito baixas, exceto nos grupos muçulmanos do Cáucaso, então a porcentagem de muçulmanos na sociedade russa vai aumentar nas próximas décadas [5].

Assim como muitos outros países desenvolvidos, a Rússia está testemunhando uma expansão do Neopaganismo, principalmente nas cidades grandes, como Moscou e São Petesburgo. Os elementos xâmanicos pagãos são associados à mentalidade da Nova Era, à mitologia eslava e as figuras cristãs. O Paganismo Tradicional ainda predomina em áreas siberianas remotas – o termo xamã vem das culturas turco-mongólica e tungúsica, na Sibéria [6].

Os Estados Unidos
O secularismo é muitas vezes explicado como sendo o resultado dos altos níveis de prosperidade, mas os EUA contestam essa afirmação. De acordo com o teólogo e sociólogo norte-americano Peter Berger, a explicação está principalmente no passado. O Iluminismo Europeu foi anticlerical e antirreligioso em sua essência, e o Iluminismo Norte-Americano não. Os intelectuais seculares foram, em todo o caso, muito menos importantes na América. Na Europa, o Iluminismo foi visto como uma libertação da fé, ao passo que nos EUA significava que você tinha a liberdade de seguir a fé de sua escolha.

Um fato crucial que explica o fato de a Europa (Ocidental) secular e a América religiosa terem se distanciado é o desenvolvimento divergente que aconteceu em ambos no século 19. Nos EUA, a dinâmica social foi controlada por todos os tipos de movimento religiosos dissidentes, ao passo que na Europa, o controle ficou nas mãos do movimento trabalhista. Os EUA também eram um país de imigração que recebia muitos refugiados religiosos e onde igrejas exerciam um papel importante de emancipação. Isso significava que a religião era vista de formas bem diferentes nos EUA e na Europa.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Rsearch Center e publicada em 2007, 78,5% dos norte-americanos se consideram cristãos, sendo 51,3% protestantes e 23,9% católicos romanos. O segundo maior grupo é aquele dos “não afiliados”, incluindo agnósticos e ateus, que correspondiam a 16,1% em 2007. A religião nos Estados Unidos não é apenas notável por seu alto nível de aderência se comparada a outros países desenvolvidos, mas também por sua diversidade. Uma das razões é que os imigrantes se atêm ao seu passado religioso e introduzem novas igrejas no país.

Em uma pesquisa de abrangência nacional publicada em 2006, pesquisadores da Universidade de Minnesota descobriram que, apesar da crescente aceitação da diversidade religiosa, havia uma suspeita em relação aos ateus por parte de outros norte-americanos, que os classificavam abaixo dos muçulmanos, recentes imigrantes e outros grupos menores quanto ao “compartilhamento de sua visão sobre a sociedade norte-americana” [7]. Além disso, eles associavam ateus a atributos indesejáveis, como comportamento criminoso, materialismo e elitismo cultural.

Entretanto, o número de norte-americanos que se consideraram não afiliados aumentou de 14,3 milhões em 1990 para 34,2 milhões em 2008, o maior aumento entre todas as “denominações” norte-americanas [8]. Isso não significa necessariamente que os norte-americanos em geral estão ficando menos religiosos; na verdade, os religiosos estão ficando mais ligados às suas crenças. Nos EUA, a mídia e o comércio exercem um papel importante na disseminação de religião e da ética religiosa.

» Na continuação, tendências da América Latina e África.

***

[1] Um curioso exemplo da glocalização da religião são os vários artesanatos do presépio do natal católico, de acordo com a região do globo. Eu recentemente vi um presépio onde os reis magos eram nitidamente andinos, inclusive com roupas de região do Peru.

[2] Há uma espécie de raciocínio “8 ou 80” entre alguns anti-teístas que supõe que qualquer um que não seja filiado há uma igreja, ou que não se declare um “religioso praticante”, seja automaticamente ateu. De certa forma eles têm razão, se considerarmos o ateísmo em sua origem antiga, como uma contestação das doutrinas eclesiásticas oficias... Mas não quer dizer que não creiam mais em Deus, e muito menos que não pratiquem a espiritualidade há seu próprio modo.
Enfim, o Barão de Telve (F.P.) talvez tenha resumido melhor a questão: “Não posso aceitar Jeová, nem a humanidade. Cristo e o progresso são para mim mitos do mesmo mundo. Não creio na Virgem Maria nem na eletricidade.”

[3] Por isso que sempre digo: minha religião é meu pensamento. Para os que consideram isso um egocentrismo, respondo prontamente: Deus é nosso amor. E como poderia ser de outra forma?

[4] Um dos tantos erros graves do comunismo e secularismo conforme praticado na Rússia, como em outros locais do globo, foi pretender eliminar a religião da vida das pessoas, quase como se fosse uma espécie de “ópio para o povo”; Quando ela é muito, muito mais do que uma generalização apressada ad absurdum.

[5] É quase unanimidade entre os pesquisadores da área que o Islã ultrapassará o Cristianismo como um todo em uma ou duas décadas, conforme já ultrapassou o número de católicos no mundo (porém devemos lembrar que o próprio Islã é dividido em vertentes, como os sunitas e xiitas). Como seu crescimento se dá sustentado em altas taxas de natalidade, também será a religião com maior número de jovens do globo (se é que já não é hoje).

[6] O Xamanismo é o exemplo mais antigo da glocalização religiosa no mundo, pois surgiu, sabe-se lá como, em inúmeros pontos do globo, ainda na transição da pré-história para a era atual; Sendo ainda hoje praticado de forma muito parecida por inúmeros povos, primitivos e modernos, em todo o mundo. Claro que, entre os indígenas, o xamã é em realidade o pajé, e assim por diante – mas todos esses termos têm essencialmente o mesmo significado.

[7] Seria tão bom se não houvesse esse deus-barreira se interpondo entre crentes e descrentes. Muito melhor incluir um Deus Cósmico em seu lugar, um Deus que é, sobretudo, amor e conexão. Mas para isso ainda faltará uma “abertura de consciência” mais abrangente no mundo, a glocalização do amor.

[8] Ação e reação, diriam alguns...

***

Crédito das imagens: [topo] Andrej Rublev/Corbis (Arcanjo Miguel); [ao longo] Creation Museum (Adão e Eva).

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