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16.12.11

Tendências da fé, parte 3

« continuando da parte 2

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus” (A Girafa) – pgs. 66 a 70. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

O mundo árabe – incluindo os países muçulmanos das regiões central e sul da Ásia
O mundo árabe em geral apresenta uma cenário religioso uniforme, assim como os países muçulmanos de outras partes do mundo. Nos lugares onde o Islã reina, dificilmente há espaço para outras religiões, exceto alguns pequenos grupos tradicionais, como os cristãos cópticos no Egito, os cristãos armênios e zoroastrianos no Irã, os mandeístas no Iraque e os cristãos siríacos no Líbano.

A principal divisão no Islã é entre sunitas e xiitas, mas existem também grupos menores de longa e rica tradição. O Sufismo, por exemplo, a variação mística do Islã, conhecido pelas práticas religiosas extáticas como a dança dos dervixes e pela poesia, tende a ser mais tolerante em relação às outras religiões do que o Islã “normal”, que é, acima de tudo, totalmente baseado no Alcorão e se opõe à expressão religiosa pessoal dos sufistas [1]. O mesmo se aplica aos ismaelitas, que vivem na Síria e em outros tempos dominavam o mundo árabe, do Marrocos ao Iraque; o fato de que os judeus e os cristãos podem viver em paz na Síria e no Líbano se deve principalmente à tolerância dos ismaelitas.

As últimas décadas presenciaram um fortalecimento do fundamentalismo nos países muçulmanos. Com origem em países bem organizados, como o Egito e a Arábia Saudita, o movimento fundamentalista se espalhou para todos os cantos do mundo, principalmente para os países muçulmanos com governos centrais enfraquecidos, como o Afeganistão e o Iêmen, e para regiões com uma grande diáspora [2] muçulmana, como a Europa Ocidental. Dessa forma, existem cerca de 20 milhões de muçulmanos vivendo na Europa atualmente [3].

A principal característica dos vários países muçulmanos é que a religião está ganhando espaço nos assuntos políticos e judiciais. Essa tendência é chamada de “Islamitismo”. Em países como a Malásia e Indonésia, há partidos islamitas de linha dura que querem impor a lei islâmica a todos os habitantes do país, até a quem não for muçulmano. Na Indonésia, onde 90% das pessoas são muçulmanas, vários governos regionais aprovaram leis inspiradas na charia, incluindo condutas obrigatórias de vestimentas, testes de leitura do Alcorão para os alunos e casais que desejam se casar, além de grupos de combate a vícios estruturados de maneira vaga, inspirados naqueles da Arábia Saudita e no Afeganistão na era do Talibã. Em 2008, o governo da Indonésia aprovou uma lei antipornografia, cujas restrições referentes às vestimentas e expressão artística puniram grupos de não muçulmanos, banindo a cultura tradicional balinesa e prejudicando sua economia, que depende do turismo na ilha [de Bali] [4].

Índia
Tradicionalmente, a Índia é uma região onde a religião e a espiritualidade desabrocharam. Ao caminhar pelas ruas de Varanasi, em Nova Délhi, Bombaim, Amritsar ou Jaipur, pode-se sentir e ver religião em cada esquina, seja Hinduísmo, Islã, Budismo, Sikhismo, Jainismo ou Zoroastrismo. Por muito tempo, a Índia teve soberanos religiosos. Em aproximadamente 250 d.C., o Rei Ashoka, que era budista, governou o Império Máuria, que ocupava a região que hoje vai do Afeganistão a Bangladesh. Sob o domínio hindu, o subcontinente indiano foi governado por reis feudais locais, chamados de maharajas. Nos séculos 17 e 18, essa Grande Índia foi novamente unificada e governada por imperadores mongóis e muçulmanos. Em 1947, com a saída dos colonizadores britânicos, e região foi dividida em República da Índia (hindu), Bangladesh e Paquistão (muçulmanos). Os governos que se instalaram nesses três países foram explicitamente seculares, em uma tentativa de acalmar as tensões religiosas.

Na Índia, há uma minoria muçulmana tradicionalmente tranquila, tolerante e não ortodoxa. Porém, influenciados pelo movimento islamita internacional, que possui esconderijos no vizinho Paquistão, os conflitos entre os muçulmanos e hindus na Índia estão aumentando de novo. [...] Ao mesmo tempo, a religião predominante na Índia, o Hinduísmo, perdeu influência na vida da população por causa dos governos seculares.

O sistema de castas da Índia foi oficialmente abolido com a Constituição de 1947. Para os chamados dalits, os 16,2% da população indiana sem casta e considerados “intocáveis”, isso fez uma grande diferença. O governo indiano fornece aos dalits bolsas de estudo em universidades e depois os contratam como funcionários públicos [5]. Historicamente, como sua posição na classe social inferior foi automaticamente associada a ocupações consideradas impuras, os dalits trabalhavam principalmente como artesãos, limpando latrinas e canos de esgoto ou então varrendo ruas. Hoje, trabalham como engenheiros, médicos, advogados, arquitetos, gerentes, profissionais de TI e empresários de sucesso. Até o atual Presidente Pratibha Patil da Índia é descendente dos dalits.

Porém, o sistema de castas ainda predomina em grandes regiões rurais da Índia, apesar da política secular oficial do governo. Mas, em uma cultura global, com televisão em todos os vilarejos, as pessoas podem ver que existem outras formas de viver. Atualmente, muitos dalits de regiões rurais da Índia se convertem ao Marxismo ou Cristianismo em busca de emancipação.

China
A China tem uma história religiosa muito rica. Chang’an, a antiga capital chinesa durante a Dinastia Tang (618-907), era a cidade mais cosmopolita do mundo, com mais de 1 milhão de habitantes, e tolerância religiosa total. Como era o ponto final da Rota da Seda, a cidade atraía muitos estrangeiros, de localidades distantes, como Japão, Pérsia, Império Khmer e Bizâncio. Os mosteiros budistas ficavam ao lado dos santuários confucianos, os templos zoroastrianos próximos às igrejas cristãs nestorianas. As santidades taoistas e os altares nas residências eram utilizados para venerar os antepassados. Muitos dos imperadores eram budistas, outros eram confucianos e alguns eram ateus [6].

Depois de 1949, quando o Partido Comunista assumiu o controle do Império do Meio, a religião foi desencorajada porque, como Marx tinha dito: “a religião é como ópio para as pessoas”. Mas a religião nunca desapareceu por completo, pois os seguidores continuaram suas práticas silenciosamente com os altares montados em suas casas [7].

Depois que a China abriu sua Cortina de Bambu em 1979, a religião começou a ser tolerada novamente. Em 1982, a liberdade religiosa se tornou parte da Constituição da China; porém, essa tolerância ficou limitada a cinco religiões: Budismo, Taoísmo, Islã, Protestantismo e Catolicismo. As outras religiões ainda encontram repressão. O novo movimento religioso Falun Gong, baseado nas práticas qigong tradicionais, como tai chi e controle da respiração, mas que também enfatiza os conceitos morais e as virtudes como o pacifismo, cresceu rapidamente na década de 1990: as fontes do governo chinês indicam que havia 70 milhões de adeptos no país até o ano de 1998. O Partido Comunista começou a se sentir ameaçado por essa nova “seita” e baniu-a em 1999. Em 2001, esmagaram o Falun Gong, que o governo considerou algo inaceitável, depois que 10.000 membros do movimento foram a Pequim protestar por causa de seu ostracismo oficial. Entretanto, outras religiões seguem bem, contanto que não interfiram na política oficial [8].

[...] Uma das religiões que está claramente em alta na China é o Budismo. Tradicionalmente, era popular entre os pobres da China, simplesmente porque o Budismo prega a aceitação dos fardos mundanos e enfoca o esclarecimento pessoal e o futuro. Essa aceitação impede que os não religiosos se revoltem contra os religiosos e pode explicar a tolerância do Presidente Hu Jintao. A população rica da China tradicionalmente apresentava uma tendência maior ao Taoísmo, porque este enfoca o aqui e o agora, principalmente o viver em harmonia com o acúmulo de riquezas. Mas, atualmente, a população bem-sucedida da China apresenta uma tendência maior ao Budismo. Para os jovens estressados, é uma pausa nos conflitos e competições.

A popularidade crescente da fé reflete um desejo por um sentido na China, com muitas pessoas cada vez mais atraídas aos ensinamentos do Budismo de rejeição ao materialismo e ênfase na natureza da vida transitória. [...] O Islã também está crescendo na China. Tradicionalmente, há comunidades muçulmanas relativamente grandes nas principais cidades, a maioria da tribo Hui. No estremo ocidente da China, na Província de Xinjiang, os povos Uygur e Kirgyz acentuam suas razões islâmicas, em parte para proteger a cultura local e enfatizar sua tendência ao separatismo político.

[...] Uma outra religião que está bem na China é o Cristianismo. Os números oficiais mostram que a quantidade de cristãos aumentou de 14 milhões em 1997 para 21 milhões em 2006, mas esses dados excluem as igrejas nos lares e as igrejas clandestinas. Uma estimativa modesta diz que, em 2010, havia mais de 80 milhões de cristãos na China. As igrejas nos lares são particularmente populares, embora o governo tenha estabelecido um limite informal de 25 pessoas para cada “reunião religiosa não autorizada”.

Em seu livro O regresso de Deus, Micklethwait e Wooldridge sugerem que os chineses são atraídos ao Cristianismo porque cada cidade chinesa possui um clube ou rede de cristãos empresários e pessoas que querem se juntar ao clube dos bem-sucedidos. Os pesquisadores mencionam um depoimento de um convertido: “Na Europa, a igreja é velha. Aqui, é moderna. A religião é um sinal de ideais superiores e progresso. A riqueza espiritual e a riqueza material andam juntas. É por isso que vamos vencer” [9].

***

[1] Toda grande religião tem sua vertente mística e verdadeiramente esotérica. No Islã, o sufismo; No cristianismo, os gnósticos e martinistas; No judaísmo, a Cabala (kabbalah), etc. Como todos estes são geralmente mais religiosos que eclesiásticos, se preocupam muito mais em sua religação com Deus (religare) do que em ditar preceitos morais e/ou importunar os praticantes de outras religiões com tentativas de “evangelização forçada”; E tampouco se preocupam em participar de uma elite de “escolhidos por Deus”, pois que em todo o canto que olham veem a verdade: que só existe um Deus, e que ele preenche todo o Cosmos (incluindo nós mesmos).

[2] Comunidades religiosas provenientes de migrações.

[3] Kadafi uma vez chegou a admitir que o “plano muçulmano” era “conquistar” a Europa pelas altas taxas de natalidade. Como vimos, à juventude muçulmana realmente cresce em todo mundo, mas o resultado não foi muito favorável aos ditadores islâmicos...

[4] Uma charia no desfile de Carnaval carioca deveria afetar o turismo no Brasil de forma bem semelhante. Sorte que escapamos dessa.

[5] Nesse sentido, governos seculares foram uma grande benção para a Índia... Há que se ter equilíbrio e harmonia numa sociedade, e às vezes uma visão mais secular e pragmática é necessária ao progresso. O sistema de castas é a grande “chaga cármica” da Índia.

[6] Parecem fábulas, mas em momentos de nossa história, grandes metrópoles ecumênicas efetivamente existiram. Que a antiga Atenas, Chang’an, Al Andalus e a Nova Iorque do final do século 20 não sejam jamais esquecidas, como exemplos de como a humanidade pode conviver em liberdade e tolerância. Esperamos que o Brasil hospede uma dessas, em se consolidando como potência mundial.

[7] Quem compreende a reencarnação sabe que a religiosidade humana jamais desaparecerá, por mais que se exterminem todos os religiosos de um povo – enquanto existir seu povo, eles voltam, eles sempre voltam...

[8] O governo chinês finge que preza a liberdade e os direitos civis, e os governos do resto do mundo fingem que acreditam. Enquanto a balança comercial com a China lhes favorecer, para eles estará bom assim.

[9] Algo me diz que a “teologia da prosperidade” também fará muito sucesso lá do outro lado do globo. Para o deus do consumo, estará tudo muito bom.

***

Crédito das imagens: [topo] Reza/Webistan/Corbis (um dervixe dançando); [ao longo] Paul Howard/Demotix/Corbis (protesto pacífico de seguidores do Falun Gong, em frente a embaixada da China em Londres; eu optei por não mostrar imagens de torturas praticadas pelo governo chinês em praças públicas, mas está tudo no Google).

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15.12.11

Tendências da fé, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus” (A Girafa) – pgs. 62 a 65. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

América Latina
Originalmente, antes de os conquistadores espanhóis e outros europeus colonizarem o continente, a América Latina era dominada por religiões indígenas, algumas delas bem pequenas e locais, e outras maiores, como as religiões dos povos Maias e Astecas. Os europeus trouxeram o Cristianismo para o continente [1] e depois outras influências religiosas foram introduzidas, por exemplo, a tradição Yorubá, que foi trazida com os escravos importados da África.

Nas décadas de 1970 e 1980, a América Latina presenciou o nascimento e o crescimento da chamada Teologia da Libertação, um movimento dentro do Cristianismo que interpreta a Bíblia em termos de libertação da injustiça política, econômica e social. Tornou-se popular principalmente na Igreja Católica Romana, mas depois virou um movimento interdenominacional. Os padres se tornaram politizados, em uma tentativa de emancipar e elevar as massas, empregando palavras como “luta de classe” em seus sermões e reunindo seus seguidores em megaigrejas e práticas ao ar livre.

No início, a Igreja Católica via esse movimento como uma renovação da mensagem de Cristo, mas quando a Teologia da Libertação ficou mais marxista, o Vaticano reagiu, excomungando alguns de seus porta-vozes mais importantes [2]. Quando, na década de 1990, o neoliberalismo assumiu o cenário mundial e o Marxismo foi de repente visto como ultrapassado, a Teologia da Libertação perdeu grande parte de sua influência.

Desde então, a função da emancipação da Teologia da Libertação foi assumida pelo Cristianismo Evangélico e pelas Igrejas Carismáticas. Essas igrejas (por exemplo, a Igreja Pentecostal), não enfatizam a luta de classe e a emancipação de classe, mas se concentram na capacitação e na realização pessoais. Essas igrejas não são hierárquicas, como a Igreja Católica, e portanto “praticam o que pregam” – uma estratégia convincente [3].

Durante a sua história, a maioria dos países da América Latina recebeu novos grupos de imigrantes, o que resultou em um tipo de sociedade multicultural na qual as pessoas tendem a tolerar mais outras religiões. Por exemplo, o Suriname, onde nasceu um dos autores deste livro, é um país cuja população inclui descendentes de colonizadores brancos, escravos negros, trabalhadores indianos e indonésios, refugiados judeus e comerciantes chineses, entre outros. Esses grupos realizaram casamentos entre si, mas as religiões originais dos respectivos grupos ainda existem em Paramaribo, a capital do país. De fato, a mesquita e a sinagoga estão localizadas uma ao lado da outra e não há conflitos religiosos. O Oriente Médio deveria considerar essa tolerância como exemplo! [4]

Um outro fenômeno que pode ser visto com frequência no Suriname é que tanto os cristãos quanto os judeus e hindus recorrem ao Winti, tradição afro-surinamesa ligada ao Candomblé, Vudu e Santeria, à procura de cura ou magia, quando sua religião principal não oferece uma solução forte o suficiente para o seu problema [5]. A cultura latino-americana e os “novos países”, como o Brasil, que ainda atraem muitos migrantes, mostram hoje um caminho com tendência à tolerância religiosa e às práticas espirituais híbridas. Em um mundo que está cada vez mais multicultural, esses modelos podem ser vistos como “o futuro de Deus” [6].

Como o Cristianismo foi a religião dos colonizadores que dominaram a América, ele se tornou a fé principal; Porém, elementos e influências indígenas ancestrais e locais foram integrados e formaram-se novos rituais e práticas. Mais recentemente, com o fortalecimento da autoconfiança e do orgulho dos povos nativos da América Latina, a cultura, incluindo suas religiões e costumes éticos originais, ganhou mais destaque novamente. Na Bolívia, por exemplo, nas áreas montanhosas onde as leis modernas nunca tiveram muita influência, os antigos costumes nativos de praticar justiça estão sendo utilizados novamente, em um processo de descolonização do sistema legal. Entretanto, isso realmente significa que, quando alguém é pego roubando em um vilarejo na região montanhosa da Bolívia, o gatuno corre o risco de ser açoitado no local pelas pessoas ao redor.

No Brasil, o uso de plantas psicoativas em rituais religiosos está se tornando mais comum nas tribos indígenas novamente, não apenas na região da Amazônia, mas também nas grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo [7]. No México, a adoração de La Santa Muerte (A Santa Morte) é o movimento religioso que mais cresce atualmente, com cerca de 10 milhões de seguidores. Obviamente, há um “Anjo da Morte” na tradição cristã, mas La Santa Muerte da Igreja Apostólica Tradicional do México provavelmente se refere ao deus asteca do submundo, Mictlanteuchitili [8]. Em todos os cantos da América do Sul, estão sendo reintroduzidos elementos das religiões e éticas pré-coloniais.

África
A história da África pode ser comparada a história da América Latina, exceto pelo fato de       que os conquistadores trouxeram ao continente não apenas o Cristianismo, como também o Islã. Uma linha que vai se Serra Leoa na parte ocidental, passa pela Nigéria e pelo Sudão e segue até a região do Vale do Rift na Etiópia, divide os muçulmanos no norte dos cristãos no sul. A região da África quê se parece com um chifre e as áreas costeiras do Quênia e Tanzânia são dos muçulmanos novamente.

No período em que os conquistadores muçulmanos e os colonizadores europeus foram para a África, havia muitas religiões tribais no continente. Algumas delas eram animistas, como a do povo San ao sul, mas a maioria das religiões africanas era teísta. Muitas vezes o deus criador supremo sequer era venerado, e sim os deuses e espíritos inferiores [9]. Em muitas religiões africanas, principalmente entre os sudaneses, surgiu uma tradição de soberania ou chefia sagrada, na qual a posição do rei ou chefe era justificada pela lei divina. A religião egípcia clássica também tornou o seu faraó um ser divino, uma característica influenciada pelas culturas sudanesas.

Algumas religiões africanas possuem mais de um deus, por exemplo, a religião Yorubá da Nigéria e de Benim, cujos deuses são chamados de orixás. Essas divindades representam energias fundamentais, atitudes ou formas de abordar a vida, e nos séculos 17 e 18, foram trazidas para a América Latina com os escravos, onde ainda formam o panteão de religiões latino-africanas, como a Umbanda e o Candomblé (no Brasil), Vodu (no Haiti), Winti (no Suriname) e Santeria (em Cuba).

Quando os árabes e os europeus conquistaram a África, as antigas religiões perderam força e foram substituídas pelo Islã e Cristianismo. A única exceção foi à Etiópia, que tem a tradição do Cristianismo Cóptico, que volta aos tempos bíblicos [10]. [...] Atualmente, a África está na linha de frente da luta entre o Cristianismo e o Islã. Essa luta se intensificou recentemente, com argumentos mais fortes para encorajar a conversão de ambos os lados, com ódio renovado e batalhas sangrentas em países como o Sudão e a Nigéria [11].

Assim como na América Latina, o Cristianismo Evangélico e o Pentecostalismo crescem na África. Uma das razões dessa popularização pode ser a prática religiosa de entrar em transe ao realizar um ato religioso, adotada por quase todas as religiões originais africanas, que se encaixa bem nas práticas “extáticas” dessas igrejas cristãs. Uma outra explicação é que a Igreja Pentecostal pode servir como um veículo para que os membros das classes mais inferiores se libertem, não por meio de uma revolução socioeconômica como a Teologia da Libertação prega, mas pela integração em um movimento religioso que oferece grande mobilidade social interna. Os ideais sociais embutidos no Pentecostalismo incentivam que o pobre rejeite a vida de maus hábitos e excessos e favoreça a economia e a responsabilidade, principalmente em relação á vida em família.

» Na continuação, tendências do mundo árabe, Índia e China.

***

[1] Talvez fosse melhor dizer: forçaram o cristianismo goela abaixo dos nativos, isto é, dos que sobreviveram as chacinas...

[2] Por isso que a religião é livre, e a igreja não. Resta saber de onde tiraram a ideia de que Jesus fundou uma igreja...

[3] Obviamente que algumas delas na prática são hierárquicas, pois têm uma “cúpula de liderança” claramente definida. Acredito que não preciso nem dizem quais são, basta ligar a TV aberta na madrugada para assistir a vários dos “chefes de igrejas” discursando, de acordo com o canal sintonizado.

[4] Se fosse viável retirar todos os atuais moradores das zonas de conflito no Oriente Médio e os realocar, por exemplo, nas planícies da Austrália, é bem provável que os conflitos diminuiriam em muito. Às vezes, a “terra santa” é mais um fardo do que uma benção.

[5] As grandes religiões têm muito o quê aprender, em termos de tolerância e ecumenismo, com as tradições religiosas africanas – que, em sua maioria, são bem mais antigas; pelo menos anteriores ao cristianismo e ao islamismo. Também são religiões “sem igreja”, que podem ser praticadas ao ar livre, numa montanha, numa planície, como era o cristianismo primitivo (basicamente, o gnosticismo).

[6] E, talvez, o ditado popular “Deus é brasileiro” acabe fazendo todo o sentido – no futuro...

[7] No caso, os autores estão se referindo principalmente ao Santo Daime.

[8] A Igreja Católica se encontra num grande dilema no México: permitir que o catolicismo local se “misture” com práticas religiosas indígenas antigas, ou perder fiéis para as igrejas evangélicas, em franco crescimento no país – particularmente nas zonas mais pobres.

[9] Acredita-se que o monoteísmo surgiu com o judaísmo, mas se considerarmos que os mitos de doutrinas religiosas ancestrais já compreendiam um “deus criador supremo”, e “deuses secundários inferiores”, pode-se dizer que toda religião teísta já nasceu monoteísta (exceto por algumas poucas que consideravam dois deuses supremos antagônicos, “o bem contra o mal”). Podemos também nos lembrar do estoico Epicteto, que se referia a Zeus como “Deus dos deuses”.
No caso do catolicismo, por exemplo, os anjos e santos vieram preencher a lacuna dos “deuses secundários”. Daí a facilidade com que os escravos africanos que chegaram ao Brasil “adotaram” a religião: cada santo correspondendo a um orixá, muito simples!

[10] O que também inspirou o surgimento de uma curiosa religião jamaicana.

[11] Tudo isso, como sempre, parcamente anunciado pela mídia global. O mundo praticamente ignora as regiões africanas onde não há progresso nem petróleo. E pensar que todos viemos de lá...

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Crédito das imagens: [topo] Axel Koester/Corbis (o culto de La Santa Muerte); [ao longo] Ulysses de Castro (orixás do Dique do Tororó, em Salvador).

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14.12.11

Tendências da fé, parte 1

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus" (A Girafa) – pgs. 59 a 62. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

Glocalização é um novo fenômeno, um derivado da crescente globalização. Estamos constatando que as ideias universais e os processos envolvidos na globalização são interpretados e absorvidos de maneiras diferentes, conforme a perspectiva e a história de cada grupo regional, cultural e religioso – isto é, no nível local [1].

Europa e Rússia
O antigo continente europeu foi o lugar onde, após a Revolução Francesa, o Liberalismo, o Humanismo e o Ateísmo começaram a evoluir. Apesar do continente ainda ser predominantemente cristão, com a maioria dos católicos romanos no sul e os protestantes no norte, as sociedades europeias são atualmente caracterizadas pelo multiculturalismo, no qual há coexistência de religiões de todas as partes do mundo, principalmente nas áreas urbanas.

Desde a Segunda Guerra Mundial, o número de cristãos oficialmente afiliados a uma igreja reduziu-se na maior parte da Europa, o que foi interpretado por várias décadas como um sinal de secularização. Mas os cientistas sociais têm uma opinião diferente sobre esse fenômeno, e o chamam de desinstitucionalização.  Frederic Lenoir, editor do Le monde des religions, escreve: “Os indivíduos ultramodernos desconfiam das instituições religiosas [...] e não acreditam mais no futuro brilhante que a ciência e a política sugerem; entretanto, ainda assim deparam com grandes questões sobre sua origem, sofrimento e morte” [2].

E assim descobrimos que, quando questionados, a maioria dos europeus indica que ainda são religiosos ou espiritualmente interessados, mas menos apegados às instituições religiosas que outrora dominavam o continente. Muitos criam sua própria religião pessoal, com elementos do Cristianismo, Paganismo, religiões do Oriente etc. [3] Isso é o que chamamos de individualização da religião.

[...] Na Rússia e em alguns países do antigo Pacto de Varsóvia, a antiga Igreja Ortodoxa Oriental está passando por uma revitalização, mas 70 anos de regras comunistas seculares tiveram sua influência, e a igreja da Rússia não está tendo a mesma força que teve na época czarista [4]. Os membros ortodoxos da Igreja Ortodoxa Russa estão em grande parte inclinados ao nacionalismo político e chauvinismo, mas a maioria dos russos não é ortodoxa e pratica uma forma mais leve e tolerante do Cristianismo Ortodoxo Oriental.

A Igreja Ortodoxa Russa é muito respeitada tanto pelos seguidores quanto por não seguidores, que a veem como um símbolo do patrimônio e da cultura da Rússia. [...] De acordo com uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisa de Opinião Pública e publicada em 2007, 63% dos entrevistados consideram-se ortodoxos russos, 6% muçulmanos e menos de 1% budista, católico, protestante ou judeu. Porém, as taxas de natalidade na Rússia são muito baixas, exceto nos grupos muçulmanos do Cáucaso, então a porcentagem de muçulmanos na sociedade russa vai aumentar nas próximas décadas [5].

Assim como muitos outros países desenvolvidos, a Rússia está testemunhando uma expansão do Neopaganismo, principalmente nas cidades grandes, como Moscou e São Petesburgo. Os elementos xâmanicos pagãos são associados à mentalidade da Nova Era, à mitologia eslava e as figuras cristãs. O Paganismo Tradicional ainda predomina em áreas siberianas remotas – o termo xamã vem das culturas turco-mongólica e tungúsica, na Sibéria [6].

Os Estados Unidos
O secularismo é muitas vezes explicado como sendo o resultado dos altos níveis de prosperidade, mas os EUA contestam essa afirmação. De acordo com o teólogo e sociólogo norte-americano Peter Berger, a explicação está principalmente no passado. O Iluminismo Europeu foi anticlerical e antirreligioso em sua essência, e o Iluminismo Norte-Americano não. Os intelectuais seculares foram, em todo o caso, muito menos importantes na América. Na Europa, o Iluminismo foi visto como uma libertação da fé, ao passo que nos EUA significava que você tinha a liberdade de seguir a fé de sua escolha.

Um fato crucial que explica o fato de a Europa (Ocidental) secular e a América religiosa terem se distanciado é o desenvolvimento divergente que aconteceu em ambos no século 19. Nos EUA, a dinâmica social foi controlada por todos os tipos de movimento religiosos dissidentes, ao passo que na Europa, o controle ficou nas mãos do movimento trabalhista. Os EUA também eram um país de imigração que recebia muitos refugiados religiosos e onde igrejas exerciam um papel importante de emancipação. Isso significava que a religião era vista de formas bem diferentes nos EUA e na Europa.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Rsearch Center e publicada em 2007, 78,5% dos norte-americanos se consideram cristãos, sendo 51,3% protestantes e 23,9% católicos romanos. O segundo maior grupo é aquele dos “não afiliados”, incluindo agnósticos e ateus, que correspondiam a 16,1% em 2007. A religião nos Estados Unidos não é apenas notável por seu alto nível de aderência se comparada a outros países desenvolvidos, mas também por sua diversidade. Uma das razões é que os imigrantes se atêm ao seu passado religioso e introduzem novas igrejas no país.

Em uma pesquisa de abrangência nacional publicada em 2006, pesquisadores da Universidade de Minnesota descobriram que, apesar da crescente aceitação da diversidade religiosa, havia uma suspeita em relação aos ateus por parte de outros norte-americanos, que os classificavam abaixo dos muçulmanos, recentes imigrantes e outros grupos menores quanto ao “compartilhamento de sua visão sobre a sociedade norte-americana” [7]. Além disso, eles associavam ateus a atributos indesejáveis, como comportamento criminoso, materialismo e elitismo cultural.

Entretanto, o número de norte-americanos que se consideraram não afiliados aumentou de 14,3 milhões em 1990 para 34,2 milhões em 2008, o maior aumento entre todas as “denominações” norte-americanas [8]. Isso não significa necessariamente que os norte-americanos em geral estão ficando menos religiosos; na verdade, os religiosos estão ficando mais ligados às suas crenças. Nos EUA, a mídia e o comércio exercem um papel importante na disseminação de religião e da ética religiosa.

» Na continuação, tendências da América Latina e África.

***

[1] Um curioso exemplo da glocalização da religião são os vários artesanatos do presépio do natal católico, de acordo com a região do globo. Eu recentemente vi um presépio onde os reis magos eram nitidamente andinos, inclusive com roupas de região do Peru.

[2] Há uma espécie de raciocínio “8 ou 80” entre alguns anti-teístas que supõe que qualquer um que não seja filiado há uma igreja, ou que não se declare um “religioso praticante”, seja automaticamente ateu. De certa forma eles têm razão, se considerarmos o ateísmo em sua origem antiga, como uma contestação das doutrinas eclesiásticas oficias... Mas não quer dizer que não creiam mais em Deus, e muito menos que não pratiquem a espiritualidade há seu próprio modo.
Enfim, o Barão de Telve (F.P.) talvez tenha resumido melhor a questão: “Não posso aceitar Jeová, nem a humanidade. Cristo e o progresso são para mim mitos do mesmo mundo. Não creio na Virgem Maria nem na eletricidade.”

[3] Por isso que sempre digo: minha religião é meu pensamento. Para os que consideram isso um egocentrismo, respondo prontamente: Deus é nosso amor. E como poderia ser de outra forma?

[4] Um dos tantos erros graves do comunismo e secularismo conforme praticado na Rússia, como em outros locais do globo, foi pretender eliminar a religião da vida das pessoas, quase como se fosse uma espécie de “ópio para o povo”; Quando ela é muito, muito mais do que uma generalização apressada ad absurdum.

[5] É quase unanimidade entre os pesquisadores da área que o Islã ultrapassará o Cristianismo como um todo em uma ou duas décadas, conforme já ultrapassou o número de católicos no mundo (porém devemos lembrar que o próprio Islã é dividido em vertentes, como os sunitas e xiitas). Como seu crescimento se dá sustentado em altas taxas de natalidade, também será a religião com maior número de jovens do globo (se é que já não é hoje).

[6] O Xamanismo é o exemplo mais antigo da glocalização religiosa no mundo, pois surgiu, sabe-se lá como, em inúmeros pontos do globo, ainda na transição da pré-história para a era atual; Sendo ainda hoje praticado de forma muito parecida por inúmeros povos, primitivos e modernos, em todo o mundo. Claro que, entre os indígenas, o xamã é em realidade o pajé, e assim por diante – mas todos esses termos têm essencialmente o mesmo significado.

[7] Seria tão bom se não houvesse esse deus-barreira se interpondo entre crentes e descrentes. Muito melhor incluir um Deus Cósmico em seu lugar, um Deus que é, sobretudo, amor e conexão. Mas para isso ainda faltará uma “abertura de consciência” mais abrangente no mundo, a glocalização do amor.

[8] Ação e reação, diriam alguns...

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Crédito das imagens: [topo] Andrej Rublev/Corbis (Arcanjo Miguel); [ao longo] Creation Museum (Adão e Eva).

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25.11.11

O futuro de Deus

Quem acompanha a página do blog no Facebook pode já ter ouvido falar deste livro, mas achei por bem lhes trazer este resumo em vídeo de seu conteúdo, pois que em breve postarei alguns trechos dele aqui no blog, conforme faço na divulgação de outros livros.

Caso queiram se adiantar, podem comprar logo o livro. Pois se gostam do que há neste blog, dificilmente não irão se deliciar com a "futurologia" de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda, que, por conhecerem demais o mundo atual, em todas as suas nuances políticas, econômicas e espirituais, têm uma capacidade quase sobrenatural de prever as tendências (e megatendências) futuras da religião mundial...

Com vocês, o futuro:

O futuro de Deus apresenta sete tendências principais que vão influenciar a nossa vida religiosa e espiritual. Dentre elas estão a tendência à individualização da religião e um cenário multiforme; novas ortodoxias e politização da religião; comercialização da religião e a midiatização de Deus; tendência à ascensão do Deus Verde; a combinação de doutrinas e rituais religiosos de forma pacífica; desenvolvimento de uma consciência mais elevada; nações multiculturais formadas por imigrantes, como os Estados Unidos e o Brasil, que liderarão a renovação da religião com, por exemplo, o surgimento de crenças sincréticas, entre outras tendências analisadas globalmente pelos autores. Publicado no Brasil por A Girafa.


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