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2.8.12

O senhor do destino

Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado (Gandalf em O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien).


Um dos maiores sábios da Antiguidade nasceu escravo, mas isso não o impediu de ter sido uma das almas mais livres do mundo. Epicteto nasceu em Hierápolis – na atual Turquia – em cerca de 55 d.C., e provavelmente foi levado ainda jovem para Roma, onde teve como mestre Epafródito, que por sua vez servia ao então imperador Nero. Tendo reconhecido a sabedoria e o potencial de seu escravo, Epafródito o declarou homem livre para seguir os ensinamentos de Musônio Rufo, filósofo estoico que o tomou como discípulo.

Epicteto foi manco desde a juventude, provavelmente devido ao reumatismo, mas foi com a razão e as ideias que caminhou muito além de seu professor no estoicismo, uma escola de filosofia helenística fundada em Atenas por Zenão de Cítio, no início do século III a.C. Os estoicos ensinavam que as emoções destrutivas resultavam de erros de julgamento, e que um sábio não deveria “se deixar abalar” por tais emoções.

Os estoicos se debruçavam na relação dinâmica entre o determinismo cósmico e a liberdade humana, defendendo a crença de que é virtuoso manter uma vontade que esteja de acordo com a natureza. Por causa disso, os estoicos apresentaram a sua filosofia como um modo de vida, e pensavam que a melhor indicação da filosofia de uma pessoa não era o que teria dito, mas sim como teria se comportado em vida.

Epicteto foi, junto com Sêneca, um dos estoicos tardios que defendiam que a virtude é suficiente para a felicidade. O sábio que nasceu escravo, entretanto, teve uma existência muito mais dura do que Sêneca, um intelectual nascido entre uma família nobre romana [1]. Sua fama, no entanto, se deveu sobretudo ao seu exemplo de vida. Como Sócrates e outros sábios antigos, jamais deixou nada escrito; foi graças a Ariano, um de seus discípulos, que nos chegou a modernidade as anotações de seus cursos: os Discursos (Diatribes) e o Manual (Enchiridion) de Epicteto, sendo o último apenas um resumo do primeiro.

Ao longo do tempo, a despeito de terem influenciado inúmeros grandes filósofos e religiosos posteriores, os estoicos também foram alvo de muitas críticas, usualmente por quem mal conheceu sua obra, ou a interpretou de forma apressada, ou ainda, como no caso de Nietzsche, que a transportou para um contexto inadequado, dentro do cristianismo...

Quando Epicteto falava em Zeus, o deus dos deuses, ou nos deuses como “um todo, um conjunto divino”, não se referia a Divindade da mesma forma que muitos religiosos de sua época, nem da mesma forma que a grande maioria dos cristãos que lhe foram posteriores. Sim, de fato Epicteto compreendia na Divindade uma substância, uma força única, mas daí a imaginar que ele via a Divindade como os cristãos veem a Deus é um passo muito grande, que talvez não se sustente:

“Este mundo é uma única cidade, a substância da qual ele é feito é una e, necessariamente, existe uma revolução periódica, os seres cedem lugar uns aos outros, uns se dissolvem enquanto outros aparecem, uns estão fixos e outros em movimento. Tudo está repleto de amigos, antes de tudo os deuses, em seguida os homens que a natureza uniu intimamente uns aos outros. Uns são dados a viver juntos, outros a se separar; é preciso regozijar-se por estar juntos, e não se afligir por dever se separar. O homem, além de sua grandeza natural e de sua faculdade de desprezar o que não depende da sua escolha, possui ainda esta propriedade de não criar raízes e de não estar amarrado à terra, mas de ir de um lugar a outro, seja pressionado pelas necessidades, seja simplesmente para poder contemplar.” (Discursos, III, 24)

O sábio estoico defendia o uso da razão acima das emoções destrutivas, que poderiam levar ao desespero e a angústia permanentes, mas não se deve imaginar que ele era contrário as emoções em geral, tanto pelo contrário! Para Epicteto, a existência era uma grande festa, uma grande oportunidade de se contemplar a grandiosidade da natureza, e de se caminhar, passo a passo, para cada vez mais próximo da Divindade. A razão na Antiguidade grega era muito mais o logos, uma razão conectada ao Cosmos, aos desígnios da natureza, a intuição e a experiência mística e religiosa, do que propriamente a razão fria e demasiadamente científica, conforme a maioria de nós a tem interpretado nos tempos modernos. O que os estoicos procuravam suprimir através de sua “medicina mental” eram as emoções destrutivas, e jamais as prazerosas.

De fato, a felicidade e o contentamento com a existência, a paz de espírito, eram os grandes objetivos a serem alcançados pelos estoicos – e isso não tinha nada a ver com “ir para o céu”. Para tais sábios, o céu se construiria no espírito de cada ser, quando devidamente conectado ao Cosmos. Mas, se por um lado alcançar tal conexão com a Divindade era o grande objetivo da vida, também era necessário compreender que a festa não deveria durar para sempre:

“A vida é como uma navegação. Quando o barco está atracado, e vais em busca de água, no teu caminho poderás também encontrar uma concha ou uma cebola, mas é preciso guardar o espírito direcionado para o barco e mirá-lo constantemente para ver se acaso o piloto não te chama, e se te chama, deixar tudo isso, para não ser arrastado a bordo como um animal. Assim, na vida, se no lugar da concha ou da cebola está uma mulher e um filho que te foram dados, nada te impeça. Mas, ao apelo do piloto, corre para o barco, deixando tudo para trás, sem retornar. E se és velho não te distancies muito do barco para não correres o risco de faltar à chamada.” (Manual, VII)

Longe de ser uma atitude covarde e passiva, como muitos têm interpretado apressadamente, a calma estoica perante os infortúnios da vida, e até mesmo perante o fim da vida, é antes de tudo uma grande lição de coragem. Epicteto não ignorava os infortúnios, a escravidão, e nem mesmo a morte, e viveu sempre com o espírito atento para a possibilidade do barco vir lhe buscar a qualquer momento (como de fato pode o ser para cada um de nós); mas foi exatamente por saber pesar os infortúnios e os benefícios, os prós e os contras da existência, e por ter percebido que os benefícios (mesmo há 2 mil anos atrás) ainda excediam em muito os infortúnios, que viveu sua vida em paz e tão feliz quanto era possível.

A maior lição dos estoicos sempre será esta que está muito bem descrita no início do seu Manual:

“As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Não deve ter sido a toa que Ariano iniciou suas anotações exatamente por esta – parece-me que esta foi à primeira lição que Epicteto aprendeu com seu professor, Musônio, e provavelmente a primeira que também passava adiante, ele mesmo, para seus discípulos. Mas o sábio que nasceu escravo não era apenas um teórico: sua própria vida foi sua maior obra, seu grande exemplo para posteridade. O desconhecido que nasceu escravo e, não obstante, através do logos, tornou-se senhor de si mesmo, e por consequência, senhor do próprio destino – um genuíno livre-pensador.


Não temo a morte. Peço a Deus que não me dê um dia a mais de vida se eu não puder me orgulhar desse dia (José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil, que travou uma luta de 13 anos contra o câncer, sempre atento ao chamado do piloto).

***

[1] Mas Sêneca, por sua vez, teve um final bem mais dramático, condenado injustamente ao suicídio (sem julgamento), pela acusação de ter tramado para o assassinato do imperador Nero – na morte, porém, provou que uma vida de filosofia não foi em vão, foi-se “de modo muito sereno”.

***

Crédito das imagens: [topo] Macduff Everton/Science Faction/Corbis; [ao longo] Paul Edmondson/Corbis

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2 comentários:

Blogger Yara Morais disse...

Excelente Raph!!
A incessante busca por sermos senhores de nós mesmos, de nosso destino. Que desejo maior poderá haver em nós, a não ser a libertação destas amarras que nos escravizam na forma da opinião da sociedade, da hipocrisia, e até nosso próprio julgamento, nossas idéias pré concebidas, limitantes...
Que sonho! Uma vida mais livre, com menos angústia...um dia chegamos lá!!=)
Bjo

6/8/12 17:33  
Blogger raph disse...

Um passo de cada vez, um pensamento por vez :)

Bjs!
raph

6/8/12 19:48  

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