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11.11.24

Lançamento: Raízes do Estoicismo (os clássicos de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio)

As Edições Textos para Reflexão lançam o seu primeiro box de filosofia estoica.

O estoicismo ficou conhecido como a filosofia que ajuda as pessoas a atravessarem momentos de crise, mas em realidade vai muito além disso: ensina-nos a viver. Esta edição traz traduções comentadas das principais obras do estoicismo: dois dos mais celebrados textos de Sêneca, o Manual de Epicteto e as Meditações do imperador Marco Aurélio.

Este compilado com traduções de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

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» Leia a introdução da edição


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27.3.20

O Apocalipse do COVID-19 (parte 2)

« continuando da parte 1


Há quase dois mil anos o homem mais poderoso do mundo foi obrigado a passar a última década de sua vida isolado da sua cidade natal e da maior parte de seus amigos e familiares. Enquanto comandava de sua tenda militar as estratégias de defesa da fronteira norte do seu Império, nas suas parcas horas vagas ele se dedicava à escrita. Não um livro sobre a guerra, não uma história qualquer que talvez viesse a ser publicada e lhe conferisse alguma fama na posteridade. Não, o imperador não dava nenhum valor para aplausos e exaltações, o seu único objetivo era salvaguardar o seu Império – leia-se: o seu povo.

O seu livro era na realidade um bloco de anotações para si mesmo, ensinamentos que havia adquirido em vida, dos livros, dos mentores, da própria experiência de estar vivo. O seu objetivo era aconselhar a si mesmo, dia após dia, para que pudesse cumprir sua missão sem fraquejar ante a tristeza e o desespero da guerra.

Este homem era Marco Aurélio, Imperador de Roma (121– 180 d.C.), e o seu alicerce era a própria filosofia. Talvez ela ainda possa ser útil, dois mil anos depois:

A filosofia e a crise
Quando estava no colégio, eu nunca tive aula de filosofia. A filosofia não era sequer mencionada. Assim, por desconhecê-la totalmente, a minha opinião sobre ela era a mesma do cidadão comum: “algo difícil, que provavelmente não serviria para nada”.

Isso mudou quando, já adulto, encontrei um livro de Platão na estante do meu pai e comecei a ler. Fédon (ou Da alma) foi para mim mais do que uma história, mais do que um registro histórico de uma época remota, mais do que alguma espécie de ensinamento moral: aquele livro me demonstrou do que a filosofia, o amor genuíno ao saber, era realmente capaz. Aquelas páginas antigas podiam de fato me melhorar, e tornar a minha própria relação com a vida algo mais profundo. Não era mera questão de “autoajuda para momentos de dificuldade”, mas uma conexão genuína com os sofrimentos e os prazeres da existência, a vida e a morte, a dor da perda, a magnanimidade do amor. Aquele livro me ensinou a pensar, a pensar para melhor viver.

Marco Aurélio também conheceu Platão, e certamente leu o Fédon, mas foi no estoicismo que achou a base definitiva para ancorar sua alma. Essa corrente filosófica surgiu em Atenas (Grécia), já após Platão e Aristóteles, quando por volta do ano 301 a.C. um estrangeiro de origem fenícia chegou a cidade e passou a divulgar sua doutrina e atrair discípulos. Seu nome era Zenão de Cítio.

Ao contrário de muitos filósofos da época, Zenão preferia realizar suas palestras em locais públicos, sendo o seu ponto favorito uma espécie de “pórtico” (stoa, em grego) da cidade. Por conta da palavra stoa, a nova doutrina veio a ser conhecida como estoicismo. Zenão teve alguns discípulos que vieram a se tornar relativamente famosos, mas do ponto de vista histórico existiram três estoicos tardios, nascidos séculos após Zenão, que foram muito mais importantes que ele próprio: Sêneca, Epicteto e o próprio Marco Aurélio.

Sêneca (3 a.C. – 65 d.C.), a exemplo de Marco Aurélio, conseguiu ser bem sucedido na filosofia e na política, tendo alcançado o cargo de senador romano. Foi Epicteto (60 – 100 d.C.), entretanto, o grande exemplo seguido pelo imperador filósofo. Ao contrário dos outros dois expoentes do estoicismo, Epicteto teve origem humilde e foi escravo por boa parte da vida; mesmo assim tal fato não o impediu de ter sido um dos pensadores mais originais da história da filosofia, ao ponto da própria obra de Marco Aurélio ser mais uma espécie de comentário alongado de Epicteto do que algo propriamente original.

A própria essência do estoicismo foi de tal forma resumida no início do Manual de Epicteto, que poderíamos dizer que todo o restante pode ser desenrolado, como um fio, desta reflexão inicial:

“As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Enquanto Marco Aurélio impedia que invasões bárbaras devastassem o Império Romano a partir do norte, no restante dele o povo desfrutava de uma vida boa e pacífica, ao menos para os padrões da época. Foi com a morte do imperador que o Império iniciou a sua decadência, e jamais voltou a ser o que era.

Penso que tal ideia sirva como uma bela metáfora para o que se passa em nossa própria mente. Precisamos defendê-la dos maus pensamentos, que insistem em romper suas fronteiras. Precisamos estar a postos, em todos os momentos, para que saibamos o que é de fato nosso pensamento, e o que é influência externa; o que é de fato a nossa vontade genuína, a nossa essência, e o que é mera sedução de ideias estrangeiras; em suma: o que depende de nós, e o que não deveria nos afligir, pois está além da nossa decisão.

Marco Aurélio passou anos tendo de defender o Império da crise. Nós talvez tenhamos que nos aquartelar em casa somente por alguns meses. Nenhum de nós talvez tenha a resiliência do imperador, mas o que importa nesse tempo de crise é que saibamos que é sim possível olhar para dentro e reconhecer enfim quem nós somos de fato, isolados do mundo, perto da essência. Para tal a filosofia pode ser de grande ajuda.

DIA 1
Hoje resolvi estabelecer uma quarentena entre eu e o mundo. Que ela seja o mais duradoura possível, e que de agora em diante eu possa reconhecer o meu próprio pensamento.

Para que eu possa expressar no mundo quem eu realmente sou, e não quem eles gostariam que eu fosse. Para que minha fortaleza e meu templo estejam sempre aqui comigo, e não mais nalgum lugar lá fora. Para que eu chore, mas que sejam genuinamente as minhas lágrimas. Para que eu sorria, mas que seja por um sentimento de alegria verdadeira.

Daqui em diante, passo a passo, tentarei ser o imperador de mim mesmo. E o mundo continuará sendo o que tiver de ser...


» Na sequência, o Apocalipse.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (estátua de Marco Aurélio); [ao longo] Maxim Duzij/unsplash

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11.7.18

Os 10 melhores livros sagrados (Reflexões no YouTube)

Para comemorar o décimo episódio de REFLEXÕES, trago minha singela lista com os dez maiores, melhores e mais importantes livros sagrados da história da humanidade até aqui (na minha humilde opinião é claro). Desde o "Cosmos" de Sagan ao "Bhagavad Gita", iremos transitar por filosofia, religião, espiritualidade e ciência, sempre em busca da experiência com o Sagrado, ou Natureza, ou Substância, ou Tao... bem, você entendeu!

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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26.4.13

Lançamento: O manual para a vida

O manual para a vida

O mais novo lançamento das Edições Textos para Reflexão é um dos grandes textos do estoicismo e da antiguidade: O Enchiridion de Epicteto, o manual para a vida.

A tradução de Frater Sinésio, realizada a partir de versões em inglês, foi editada e comentada, aqui e ali, por Rafael Arrais, e lançada agora como um livro digital para o Amazon Kindle e o Kobo:

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***

Abaixo, segue um trecho do prefácio do livro:

Este é um livro de autoajuda?

Sabemos do costumeiro preconceito e descrédito do meio literário para com os livros de autoajuda. Porém isto também se deve, em grande parte, aos próprios escritores de autoajuda, que em sua maioria optam em seguir por “caminhos fáceis”, evitando tocar no cerne da questão – o autoconhecimento.

Se analisarmos os livros de autoajuda produzidos hoje no mundo, encontraremos basicamente duas categorias. Uma delas nos diz assim: “Tudo é possível! Basta desejar profundamente que irá conseguir!”; Já a outra se ocupa de nos consolar quando não temos sucesso em “conseguir tudo”, e nos sentimos um lixo.

Há, portanto, uma clara correlação entre uma sociedade que nos anuncia por todos os cantos da cidade que podemos conseguir tudo o que quisermos, a e existência da chamada baixa autoestima.

Antigamente uma pessoa pobre era chamada desafortunada. Hoje, criamos uma alcunha um tanto mais cruel: perdedora. Hoje os anúncios nos dizem que somos nós quem estamos no comando, e não os deuses. Se não temos sucesso, a culpa é nossa – perdemos.

Mas é aqui que entra a filosofia. A filosofia é a verdadeira autoajuda, o verdadeiro autoconhecimento, o verdadeiro amor ao saber.

Segundo Epicteto e os estoicos, devemos ter sempre em mente os infortúnios da vida, e o conhecimento de que há coisas que estão sob nosso controle, e outras que não estão. Somente assim saberemos que podemos sim perder, mas que não somos perdedores. E, da mesma forma, também saberemos que podemos sim ganhar, mas que não somos ganhadores.

Somente com este desapego aos anúncios da cidade grande é que teremos enfim o tempo e a disposição de olhar para dentro, e nos conhecer. Se isto é autoajuda? Certamente – autoajuda da melhor espécie!

Com vocês, o manual para a vida, o Enchiridion de Epicteto...


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21.4.13

Uma vida bem encenada

Lembre-se de que você é um ator numa peça teatral, e que o Autor escolheu a maneira que ela será encenada: se ele a desejar curta, ela será curta, se a desejar longa, ela será longa.

Se ele quer que você encene um homem pobre, você deve encenar o seu papel com todo o seu talento; da mesma maneira com um papel de aleijado ou de magistrado ou de um homem comum.

O que lhe compete na vida é encenar o papel que lhe foi dado, e bem; a escolha do elenco pertence ao Outro.

Enchiridion de Epicteto, XVII

***

Comentário
Este trecho pode ser mal interpretado. Repare que Epicteto se refere somente as coisas externas ao nosso controle: nascer pobre, ou aleijado, ou numa família nobre (o que, na época, lhe dava a chance de vir a ser um magistrado). Encenar o papel que nos foi conferido com todo o nosso talento significa, exatamente, não lamentar nossa sorte, mas nos dedicarmos somente ao que está sob nosso controle – ou seja, viver uma vida bem encenada.


O Enchiridion de Epicteto, o manual para a vida, será o próximo lançamento digital das Edições Textos para Reflexão. Aguardem que virá algo muito especial por aí...

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Crédito da foto: Gideon Mendel/In Pictures/Corbis (UK Music Festivals - The Green Man Festival)

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2.8.12

O senhor do destino

Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado (Gandalf em O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien).


Um dos maiores sábios da Antiguidade nasceu escravo, mas isso não o impediu de ter sido uma das almas mais livres do mundo. Epicteto nasceu em Hierápolis – na atual Turquia – em cerca de 55 d.C., e provavelmente foi levado ainda jovem para Roma, onde teve como mestre Epafródito, que por sua vez servia ao então imperador Nero. Tendo reconhecido a sabedoria e o potencial de seu escravo, Epafródito o declarou homem livre para seguir os ensinamentos de Musônio Rufo, filósofo estoico que o tomou como discípulo.

Epicteto foi manco desde a juventude, provavelmente devido ao reumatismo, mas foi com a razão e as ideias que caminhou muito além de seu professor no estoicismo, uma escola de filosofia helenística fundada em Atenas por Zenão de Cítio, no início do século III a.C. Os estoicos ensinavam que as emoções destrutivas resultavam de erros de julgamento, e que um sábio não deveria “se deixar abalar” por tais emoções.

Os estoicos se debruçavam na relação dinâmica entre o determinismo cósmico e a liberdade humana, defendendo a crença de que é virtuoso manter uma vontade que esteja de acordo com a natureza. Por causa disso, os estoicos apresentaram a sua filosofia como um modo de vida, e pensavam que a melhor indicação da filosofia de uma pessoa não era o que teria dito, mas sim como teria se comportado em vida.

Epicteto foi, junto com Sêneca, um dos estoicos tardios que defendiam que a virtude é suficiente para a felicidade. O sábio que nasceu escravo, entretanto, teve uma existência muito mais dura do que Sêneca, um intelectual nascido entre uma família nobre romana [1]. Sua fama, no entanto, se deveu sobretudo ao seu exemplo de vida. Como Sócrates e outros sábios antigos, jamais deixou nada escrito; foi graças a Ariano, um de seus discípulos, que nos chegou a modernidade as anotações de seus cursos: os Discursos (Diatribes) e o Manual (Enchiridion) de Epicteto, sendo o último apenas um resumo do primeiro.

Ao longo do tempo, a despeito de terem influenciado inúmeros grandes filósofos e religiosos posteriores, os estoicos também foram alvo de muitas críticas, usualmente por quem mal conheceu sua obra, ou a interpretou de forma apressada, ou ainda, como no caso de Nietzsche, que a transportou para um contexto inadequado, dentro do cristianismo...

Quando Epicteto falava em Zeus, o deus dos deuses, ou nos deuses como “um todo, um conjunto divino”, não se referia a Divindade da mesma forma que muitos religiosos de sua época, nem da mesma forma que a grande maioria dos cristãos que lhe foram posteriores. Sim, de fato Epicteto compreendia na Divindade uma substância, uma força única, mas daí a imaginar que ele via a Divindade como os cristãos veem a Deus é um passo muito grande, que talvez não se sustente:

“Este mundo é uma única cidade, a substância da qual ele é feito é una e, necessariamente, existe uma revolução periódica, os seres cedem lugar uns aos outros, uns se dissolvem enquanto outros aparecem, uns estão fixos e outros em movimento. Tudo está repleto de amigos, antes de tudo os deuses, em seguida os homens que a natureza uniu intimamente uns aos outros. Uns são dados a viver juntos, outros a se separar; é preciso regozijar-se por estar juntos, e não se afligir por dever se separar. O homem, além de sua grandeza natural e de sua faculdade de desprezar o que não depende da sua escolha, possui ainda esta propriedade de não criar raízes e de não estar amarrado à terra, mas de ir de um lugar a outro, seja pressionado pelas necessidades, seja simplesmente para poder contemplar.” (Discursos, III, 24)

O sábio estoico defendia o uso da razão acima das emoções destrutivas, que poderiam levar ao desespero e a angústia permanentes, mas não se deve imaginar que ele era contrário as emoções em geral, tanto pelo contrário! Para Epicteto, a existência era uma grande festa, uma grande oportunidade de se contemplar a grandiosidade da natureza, e de se caminhar, passo a passo, para cada vez mais próximo da Divindade. A razão na Antiguidade grega era muito mais o logos, uma razão conectada ao Cosmos, aos desígnios da natureza, a intuição e a experiência mística e religiosa, do que propriamente a razão fria e demasiadamente científica, conforme a maioria de nós a tem interpretado nos tempos modernos. O que os estoicos procuravam suprimir através de sua “medicina mental” eram as emoções destrutivas, e jamais as prazerosas.

De fato, a felicidade e o contentamento com a existência, a paz de espírito, eram os grandes objetivos a serem alcançados pelos estoicos – e isso não tinha nada a ver com “ir para o céu”. Para tais sábios, o céu se construiria no espírito de cada ser, quando devidamente conectado ao Cosmos. Mas, se por um lado alcançar tal conexão com a Divindade era o grande objetivo da vida, também era necessário compreender que a festa não deveria durar para sempre:

“A vida é como uma navegação. Quando o barco está atracado, e vais em busca de água, no teu caminho poderás também encontrar uma concha ou uma cebola, mas é preciso guardar o espírito direcionado para o barco e mirá-lo constantemente para ver se acaso o piloto não te chama, e se te chama, deixar tudo isso, para não ser arrastado a bordo como um animal. Assim, na vida, se no lugar da concha ou da cebola está uma mulher e um filho que te foram dados, nada te impeça. Mas, ao apelo do piloto, corre para o barco, deixando tudo para trás, sem retornar. E se és velho não te distancies muito do barco para não correres o risco de faltar à chamada.” (Manual, VII)

Longe de ser uma atitude covarde e passiva, como muitos têm interpretado apressadamente, a calma estoica perante os infortúnios da vida, e até mesmo perante o fim da vida, é antes de tudo uma grande lição de coragem. Epicteto não ignorava os infortúnios, a escravidão, e nem mesmo a morte, e viveu sempre com o espírito atento para a possibilidade do barco vir lhe buscar a qualquer momento (como de fato pode o ser para cada um de nós); mas foi exatamente por saber pesar os infortúnios e os benefícios, os prós e os contras da existência, e por ter percebido que os benefícios (mesmo há 2 mil anos atrás) ainda excediam em muito os infortúnios, que viveu sua vida em paz e tão feliz quanto era possível.

A maior lição dos estoicos sempre será esta que está muito bem descrita no início do seu Manual:

“As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Não deve ter sido a toa que Ariano iniciou suas anotações exatamente por esta – parece-me que esta foi à primeira lição que Epicteto aprendeu com seu professor, Musônio, e provavelmente a primeira que também passava adiante, ele mesmo, para seus discípulos. Mas o sábio que nasceu escravo não era apenas um teórico: sua própria vida foi sua maior obra, seu grande exemplo para posteridade. O desconhecido que nasceu escravo e, não obstante, através do logos, tornou-se senhor de si mesmo, e por consequência, senhor do próprio destino – um genuíno livre-pensador.


Não temo a morte. Peço a Deus que não me dê um dia a mais de vida se eu não puder me orgulhar desse dia (José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil, que travou uma luta de 13 anos contra o câncer, sempre atento ao chamado do piloto).

***

[1] Mas Sêneca, por sua vez, teve um final bem mais dramático, condenado injustamente ao suicídio (sem julgamento), pela acusação de ter tramado para o assassinato do imperador Nero – na morte, porém, provou que uma vida de filosofia não foi em vão, foi-se “de modo muito sereno”.

***

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo Epicteto e os Estoicos no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito das imagens: [topo] Macduff Everton/Science Faction/Corbis; [ao longo] Paul Edmondson/Corbis

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3.3.11

À espera da embarcação

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de uma das personagens, até então apenas "S.", agora Sofia)

(Sofia) Pois então eu lhe pergunto, O., e alguém escolhe morrer estando saudável?

(O.) Estando saudável tanto do físico quanto da mente quanto do espírito, acredito que ninguém escolha morrer...

(Sofia) Então, nosso amigo I. falou que um recém-nascido não teve tempo de escolher nada, recebeu a dádiva da vida e juntamente com ela uma família, um corpo e um local de nascimento no planeta. Eu vou procurar estender a questão...
Ora, enquanto uns nascem com corpo perfeitamente saudável, em famílias ricas e em nações desenvolvidas, outros nascem com sérias deficiências como o câncer, em famílias pobres ou às vezes sem família alguma, e nas regiões mais miseráveis do planeta. Podemos crer que a partir de então, apesar da sorte ou azar no nascimento, tais crianças passarão a depender única e exclusivamente de suas próprias escolhas para seguir numa vida feliz e produtiva, ou numa vida infeliz e trágica... Mas na verdade não é bem assim, pois não temos nem nunca tivemos controle total sobre o nosso destino, sobre todos os eventos que ocorrem a nossa volta. E, mais fundamentalmente, tampouco temos controle sobre como e quando iremos morrer.
Toda essa falta de opções, todo esse lado aparentemente sombrio da existência obviamente já têm sido tema de discussões filosóficas há muito tempo. Eu gostaria de trazer a vocês o pensamento estóico e sua solução para esse tipo de aflição existencial.
Epicteto talvez tenha sido o maior exemplo de como um grego pôde ser bem sucedido na vida apesar das adversidades: nasceu escravo [1] e viveu a maior parte da vida em Roma tendo como seu “proprietário” um dos mais cruéis secretários do imperador Nero. Apesar disso, através da própria sabedoria, soube lidar com as adversidades e aprofundar o estoicismo entre seus inúmeros seguidores, já que terminou a vida como homem livre, devido ao reluzir de seus ensinamentos sobre a mente dos homens de sua época.
Diga-me, O., se ninguém saudável escolherá morrer, por outro lado, alguém pode saber quando e como irá partir desta vida?

(O.) Há alguns que pressentem a morte chegando, mas creio eu que ninguém tem a certeza absoluta do dia e hora da própria morte, tampouco como exatamente irá morrer...

(Sofia) Sendo a morte, portanto, uma viagem para alguma outra existência – ou para existência alguma –, poderíamos tomá-la metaforicamente como uma embarcação que devemos um dia tomar nalgum porto, mas que não temos como saber exatamente o dia nem a hora de sua chegada?

(O.) Acredito que seja uma boa metáfora.

(Sofia) Portanto, não sabendo a hora exata da viagem, mas sem termos tampouco como descobri-la, você diria que faz algum sentido nos preocuparmos com ela enquanto aqui estamos?

(O.) Acredito eu que não, mas as pessoas se angustiam com o desconhecido, com o fato de não saberem nem quando e nem para onde irão viajar...

(Sofia) Mas, supondo que não temos mesmo como saber disso com exatidão, não seria mais sábio nos abstermos dessa angústia e preocupação?

(O.) Certamente. Eis o motivo porque os sábios são tão poucos!

(Sofia) Mas não importa se são poucos, o que importa é que sua mensagem chegou até nós... Ao que me parece, este sábio escravo estóico sempre soube que sua liberdade estava assegurada em sua consciência, apesar de tudo.
Ou seja, as adversidades sempre existiram e sempre existirão, e a morte sempre será esta embarcação que um dia iremos tomar. Sabe-se lá para onde, sabe-se lá quando, mas iremos...
E em nossas vidas, à espera da embarcação, temos sempre tal liberdade de escolha em nossa consciência: ou nos angustiarmos com a morte, a maior das adversidades, ou simplesmente nos abstermos da preocupação com tudo aquilo que não nos é dado escolher.
Sob nosso controle, dentro do que nos é dado escolher, estão nossas opiniões, crenças, aspirações, desejos a as coisas que nos causam repulsa ou nos desagradam. Essas áreas são justificadamente da nossa conta porque estão sujeitas à nossa influência direta. Temos sempre a possibilidade de escolha quando se trata do conteúdo e da natureza de nossa vida interior.
Fora de nosso controle, entretanto, estão coisas como o tipo de corpo que temos, se nascemos ricos ou se tiramos a sorte grande e enriquecemos de repente, a maneira como somos vistos pelos outros ou qual é a nossa posição e status na sociedade, assim como tudo que se refere à morte. Devemos lembrar que estas coisas são externas e, portanto, não dependem de nós. Tentar controlar ou mudar o que não podemos só resulta em aflição e angústia.
As coisas sob o nosso poder estão naturalmente à nossa disposição, em nossa consciência, livres de qualquer restrição ou impedimento. As que não estão, porém, são frágeis, sujeitas à dependência, ou determinadas pelos caprichos ou ações dos outros. Ter a pretensão de controlar as opiniões e pensamentos alheios, as forças da natureza ou mesmo o tempo em que devemos tomar a embarcação só nos trará decepções e angústias desnecessárias. No fim, portanto, nossas escolhas são mesmo limitadas, mas não deveria haver nenhum bom motivo para nos afligirmos com isso... Muito pelo contrário, deveria ser motivo de alívio saber que existem muitas coisas que não estão nem nunca estarão sob nosso controle, que a natureza cuida de si mesma e que nessa existência muitas vezes somos mais espectadores do que diretores.
Dessa forma, com a sabedoria estóica, podemos viver focados nas preocupações certas – aquelas que podemos efetivamente controlar –, e sempre preparados para tomar a embarcação para a morte, seja quando e como ela eventualmente ancorar em nosso porto.
O que você acha dessa visão, O.?

(O.) Eu acho esplêndida, de fato algo que deveria ser ensinado a todas as pessoas, para que ao menos elas se dêem conta de que não devemos nos apegar tanto aos eventos fortuitos nem nos afligir tanto com as dificuldades no caminho, pois tanto um quanto outro muitas vezes estão além de nossa escolha e vão ocorrer independente do que façamos.

(P.) Também me agrada muito a visão estóica. No entanto, estamos falando essencialmente de filosofia [o debate anterior a exposição de Sofia se focava na justiça divina]...

(Sofia) Na verdade a filosofia estóica, e particularmente a de Epicteto, se confunde com a religião. Dentre as referências à deusa Fortuna e a um Zeus que era o Deus dos deuses, temos um misto de monoteísmo com uma profunda elaboração filosófica da aleatoriedade da existência. De fato, eu pessoalmente não vejo religião, filosofia e nem mesmo a ciência como campos hermeticamente separados um do outro, mas talvez isso ainda seja um outro debate...

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Apesar de sua condição, conseguiu assistir as preleções do famoso estóico Gaio Musônio Rufo. De sua obra se conservam o Enchyridion, o "manual de Epicteto", e alguns discursos editados por seu discípulo Flavio Arriano.
Como viver uma vida plena, uma vida feliz? Como ser uma pessoa com boas qualidades morais? Responder a estas duas perguntas fundamentais foi à única paixão de Epicteto. Embora suas obras sejam menos conhecidas hoje em função do declínio do ensino da cultura clássica, tiveram enorme influência sobre as idéias dos principais pensadores da arte de viver durante quase dois mil anos.

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Crédito da foto: Joaquín Vicente

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