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10.9.19

Do Xamanismo aos Vedas

Neste vídeo analisamos toda a estranheza dos primórdios da civilização indiana, e como o xamanismo migrou da contação de histórias para o registro escrito dos rituais mágicos e religiosos. Ao final também analiso a situação deplorável das comunidades indígenas no nosso país.

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22.2.15

É viável tornar o capitalismo sustentável?

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

[Raph] O capitalismo é o sistema econômico com hegemonia mundial. A despeito dos seus defensores e críticos, fato é que ele não irá embora tão cedo. Entretanto, já seria de grande ajuda se as multinacionais seguissem as regulamentações do próprio mercado. O monopólio, por exemplo, deveria ser algo a ser combatido, evitado ao máximo, e nas últimas décadas o que vem ocorrendo é exatamente o oposto: no Brasil, dez grandes companhias (entre elas Unilever, Nestlé e Coca-Cola) abocanham até 70% das compras de uma família nos supermercados, o que sobra é disputado por cerca de 500 empresas menores, regionais. Tal cenário parece ser muito mais benéfico para as multinacionais do que para a população em geral.
O grande mal do capitalismo moderno, no entanto, me parece ser o consumismo desenfreado. Se todos os africanos e indianos tivessem os mesmos padrões de consumo de um cidadão norte-americano, seria necessário mais de um planeta Terra para dar conta dos recursos naturais necessários para a produção de bens. Mesmo a China, teoricamente um sistema comunista, abraçou tal sistema com grande voracidade. Mas já sabemos que a conta não fecha, e a agenda da sustentabilidade se torna cada vez mais urgente. Diante disso, é viável tornar o capitalismo sustentável?

[Carvalho] Os grandes sistemas econômicos não possuem um conjunto exato e monolítico de regras. Semelhantemente ao que ocorre com as espécies biológicas, eles variam no tempo e no espaço, adaptando-se às circunstâncias – e também aos hábitos políticos, econômicos, sociais e culturais de cada época e de cada povo. O feudalismo europeu do século V, por exemplo, era muito diferente daquele que perdurou na Rússia até o século XX. Da mesma forma, o socialismo soviético não era idêntico ao chinês, nem ao cubano, e muito menos ao Venezuelano. E se mesmo tais sistemas, um sustentado por valores fortemente hierarquizantes, como a noção de direito divino dos reis, e o outro pela persistente obsessão de impor a igualdade material a qualquer custo, adaptaram-se às condições circundantes, porque não se adaptaria o capitalismo, fundado em valores que enfatizam a liberdade individual?

Portanto, sim, é possível transformar o capitalismo e torná-lo mais sustentável. Na verdade, se mais nações capitalistas realmente adotassem políticas econômicas liberais – em vez de políticas desenvolvimentistas, keynesianas, etc. – não haveria muito que se falar em tornar o capitalismo sustentável, pois, em tais condições, ele simplesmente tende a tornar-se sustentável, por meio de processos adaptativos mais ou menos espontâneos resultantes, não de intervenções e regulações estatais, mas dos comportamentos dos próprios indivíduos. E não digo isso com base em uma crença quase dogmática nos conceitos abstratos de “livre mercado” ou “mão invisível”, que os liberais e libertários frequentemente são acusados de possuir. Apenas me respaldo em evidências razoavelmente convincentes de que o liberalismo costuma ser mesmo mais eficiente e funcional que outras filosofias políticas quando se trata de questões econômicas, incluindo aí seus aspectos social e ecológico.

Na obra Free Market Environmentalism, por exemplo, os economistas Terry Anderson e Donald Leal apresentam uma série de exemplos em que soluções de mercado foram muito mais eficazes ao lidar com problemas ambientais do que as regulações estatais, e fazem uma brilhante análise das condições institucionais e políticas que permitiram que isso acontecesse. O ponto principal, inspirado em um famoso teorema do economista Ronald Coase, é que quando os direitos de propriedade são claramente definidos, as disputas sobre a justa utilização dos recursos naturais geralmente podem ser resolvidas nos âmbitos locais e de forma cooperativa.

São vários os estudos de caso apresentados no livro, envolvendo temas como: gestão de reservas minerais, parques naturais, mananciais de água e disposição do lixo, dentre outros. E em todos eles a lógica se repetiu: contanto que os direitos de propriedade fossem bem definidos e protegidos, as soluções de preservação ambiental emergiam naturalmente a partir dos conflitos entre os cidadãos. “A primeira premissa do Ambientalismo de Livre Mercado”, disse Terry Anderson em uma entrevista, “é de que ‘quanto maior a riqueza, maior a preservação’, no sentido que os mercados geram a riqueza que nos fornece meios de lidar com os problemas ambientais. Embora muitas pessoas pensem, de forma equivocada, que os mercados só geram consumismo e outras porcarias, são os mercados que produzem riqueza e, desse modo, ajudam o meio ambiente”.

De fato, apesar do ambientalismo anticapitalista dominante tentar sempre passar uma impressão contrária, países que decidem adotar políticas econômicas mais liberais tendem a melhorar seus indicadores ambientais de forma proporcional aos indicadores econômicos e sociais. Uma forma interessante de verificar isso é comparando a colocação dos países nos rankings dos índices de Liberdade Econômica, Performance Ambiental e Desenvolvimento Humano. A correlação entre eles é gritante. Se um país está entre os primeiros em um dos rankings, é muito provável, com raras exceções, que também esteja entre os primeiros nos outros dois, e vice-versa. Mesmo países com histórico de pobreza e dominação colonial – como Singapura, Lituânia, Hong Kong e Ruanda – conseguiram melhorias significativas depois de abraçarem o livre mercado.

Uma breve apreciação dos subcomponentes do índice de liberdade econômica, a propósito, nos permite compreender que em países como Brasil, México e China, com forte presença de multinacionais monopolistas, as instituições que poderiam garantir o verdadeiro livre mercado são muito enfraquecidas, ao passo que países como Noruega e Dinamarca – que fascinam os anticapitalistas de todas as estirpes – devem sua sustentabilidade econômica e ambiental a um capitalismo vigoroso e livre, apesar de seus estados inflados e não por causa deles.

É claro que não podemos tomar índices como referências definitivas do que quer que seja. As composições de todos eles sempre envolverão ao menos algum tipo de deficiência metodológica, assim como quaisquer outras tentativas de traduzir aspectos da realidade em números. Da mesma forma, não podemos crer que o livre mercado seja uma entidade miraculosa, capaz de resolver todos os problemas. O capitalismo possui mesmo contradições internas, de modo que ele tende a corromper a ordem moral e institucional que o gerou e o sustenta. Entretanto, o livre mercado ainda é a nossa melhor opção disponível, capaz de levar prosperidade econômica, social e, sim, ambiental, a um número de pessoas jamais imaginado em outras épocas. Por isso, antes de nos metermos a elogia-lo, criticá-lo, aprimorá-lo ou mesmo tentar substituí-lo, o primeiro passo talvez seja aprendermos a diferenciar bem o que ele realmente é do que ele não é, nem nunca foi.

[Teo] Como demonstrou o economista francês Thomas Piketty na sua obra O Capital no Século XXI, o capital tende a concentrar-se com o passar do tempo, isto é, produzir uma desigualdade cada vez maior em que poucos possuem grande parte da riqueza, enquanto a maior parte da população se encontra socialmente marginalizada. Isto aponta para a primeira parte da pergunta do Raph: antes de ser um mero mal ocasional do capitalismo, a acumulação de capital é estrutural a sua própria forma de organização. No entanto, a produção da desigualdade não é a única característica estrutural ao capitalismo, mas também o consumismo e a exploração dos recursos humanos e naturais. Isto faz com que toda tentativa de tornar o capitalismo sustentável tenha como destino o fracasso.

A subjetividade ocidental moderna, atravessada pela ideologia do capitalismo, marca-se pelo sempre mais (mais consumir, mais explorar, mais ganhar, mais prazer etc). Produz-se e consome-se cada vez mais novos produtos tecnológicos, roupas da nova tendência da moda, entre outros, de forma que nosso consumo e produção ultrapassa em muito o que é estimado como o suficiente. Na mesma medida em que cada vez mais exploramos os recursos naturais de forma a produzir nossos bens de consumo, o que consumimos, devido à condição intensa e fugaz da modernidade, rapidamente se torna lixo. Como não é a totalidade do nosso lixo que pode ser reciclado, consequentemente acumula-se um excedente cada vez maior de poluentes que não possuem um destino seguro. Afinal, por que consumimos tanto?

O espaço é curto para adentrar em todas as questões biológicas, psicológicas, sociológicas e filosóficas envolvidas. Pode-se dizer por alto que o ser humano, como um ser cultural, é essencialmente faltoso. Diferente do animal que tem a sua vida regulada por instintos pré-definidos biologicamente, a vida humana não tem nenhum destino a priori que não seja atravessado pela cultura, isto é, a subjetividade e o desenvolvimento histórico-social. Se essa falta em outros tempos pode ter sido preenchida pelos mais diversos significantes, em nossa sociedade pós-industrial capitalista é a ideologia do consumo que surge como discurso-mestre. Como afirma o psicanalista Antonio Quinet, o discurso capitalista produziu um sujeito animado pelo desejo capitalista, onde sua falta estrutural (falta-a-ser) é interpretada como falta-a-ter. Deste modo, acreditamos que no consumo poderemos adquirir aquele objeto imaginário que nos tornará mais felizes, belos, amados e desejados. Seja o novo iphone que todo mundo legal tem, a confortável casa de campo que sempre foi sonhada, o carro do ano para passear com a família no final de semana etc. O problema é que, ainda quando se adquire o objeto desejado, a falta permanece.

Consumir é mais do que simplesmente comprar um produto. Antes disto, deveríamos nos perguntar o que nos faz desejar o que desejamos. Por trás do nosso desejo pelos bens de consumo que nos são apresentados reside um horizonte histórico-cultural que sustenta que possuir um determinado objeto é importante, valorizado e que todos nós deveríamos desejá-lo. Não há nenhum tipo de crítica moral nisso, pois todos nós, devidos à nossa característica social, estamos sempre desejando objetos mediados socialmente. Ainda quando desejamos um objeto diferente do padrão hegemônico – digamos assim, alternativo – estamos visando atender certo padrão imaginário estabelecido num coletivo. Quero dizer, “não estar na moda” também é uma moda.

Consumir, neste sentido, é afirmar um estilo de vida. A publicidade sabe muito bem disto. Por este motivo, os comerciais costumam associar beber a “cerveja x” a conquistar a mulher do corpo socialmente valorizado, possuir o “carro y” a alcançar um determinado patamar social, geralmente um emprego, e por aí vai. Karl Marx já tinha percebido isto ao falar do fetiche da mercadoria: quando compramos um produto, estamos comprando muito mais que a materialidade daquela mercadoria. Estamos comprando a nossa própria fantasia de que ao adquirir determinado produto alcançaremos determinado status, certo grau da felicidade prometida, que não está propriamente nas qualidades materiais, mas no imaginário.

Com o fracasso da mercadoria desejada em oferecer a completude esperada, o sujeito se vê acreditando que no próximo produto que adquirir aí sim vai estar realmente sua felicidade. Não no iphone 5, mas no iphone 6, 7, 8... e assim pessoas vivem vidas inteiras. Isto deveria ser alvo de nossa crítica não por uma suposta moralidade espiritualizada, mas pelo fato de que esse modo de existência é causa de grande sofrimento mental para muita gente, e, além disso, vivemos num planeta de recursos finitos. Assim como a água de alguns estados brasileiros, outros recursos indispensáveis a nossa sobrevivência estão comprometidos devido a nossa exploração insaciável.

Para que o capitalismo funcione é necessário o constante consumo. Para que as indústrias operem, para que produtos sejam comercializados, e assim o capital continue rodando, girando a grande máquina do capital, as empresas possuem as mais distintas estratégias para que o consumo não reduza, desde a obsolescência perceptiva (a ideia de que seu iphone 5, ainda que perfeitamente funcional, será eventualmente para você indesejável visto que há produtos com aparência inovadora no mercado, mesmo que eles na verdade tenham apenas pequenas mudanças funcionais), à obsolescência programada (o fato de que as indústrias constroem produtos com vida útil cada vez menor, para darem defeito mais rápido, e que você tenha que comprar um novo produto delas: você deve lembrar que a geladeira da sua avó durou mais de 50 anos enquanto a sua não dura nem 5, né?).

Com a ascensão da consciência ecológica de que nosso planeta e nossa existência estão sendo destruídos pelas nossas próprias mãos, surgiu uma nova onda no pensamento ocidental: o ecocapitalismo. Sob a roupagem da sustentabilidade, esta visão propõe um modelo de desenvolvimento sustentável, em que a produção capitalista deveria se pautar idealmente por “soluções verdes”, equilibrando a busca por lucros com o investimento na natureza. Este talvez tenha sido o maior engodo que o capitalismo propôs nas últimas décadas.

A conscientização ocidental, não apenas em relação à ecologia, mas também em relação à pobreza, tem causado nas pessoas a sensação de que “algo deve ser feito”. Entretanto, antes desta sensação se situar como uma crítica ao capitalismo enquanto sistema intimamente implicado em tais males, o marketing corporativo tem se servido muito bem desta comoção. Por exemplo, empresas como Starbucks e McDonald’s afirmam destinar porcentagem das suas vendas para uma reconhecida instituição de caridade mundial. De acordo com o marketing das empresas, quando você está comprando um café ou um hambúrguer, você está fazendo algo mais que isso: você está comprando a experiência de ajudar alguém. Tal é a armadilha do capitalismo e das empresas que visam aumentar suas vendas ao se apoiarem na necessidade de redenção do consumidor, culpado diante do fato de que o sistema capitalista que ele alimenta é a causa de tantos males sociais.

Se as empresas têm publicamente afirmado nas últimas décadas seu interesse e comprometimento com o desenvolvimento sustentável, sabe-se que no capitalismo competitivo as empresas dependem da vantagem comparativa que consigam obter em relação a seus concorrentes, onde a legitimidade, a boa imagem corporativa e a maior visibilidade no mercado decorrente da adoção de programas de responsabilidade social são essenciais. Ser uma “empresa verde” é uma forma de angariar mais consumidores e, consequentemente, ganhar vantagem na competição do mercado. Aumentando a produção e venda, caímos no ponto contraditório: defendemos a tal “sustentabilidade” na mesma medida em que cada vez consumimos mais.

Ideias como “consumo consciente”, mesmo que bem intencionadas, são utópicas por diversos fatores, tais quais: 1) o consumidor nunca dispõe de informações suficientes sobre a procedência do que consome, ainda mais quando sabemos que a divulgação de informações é determinada pelo capital, que serve a interesses privados; 2) ainda quando dispõe de informação, o consumidor individualmente não tem poder de intervir na produção (este é o papel de entidades reguladoras para intervir em nome de interesses coletivos); 3) mesmo no ecocapitalismo, não é seguro contar com consumidores animados pelo desejo capitalista. Por exemplo, notícias como a de que a Apple tem condições de trabalho degradantes em suas fábricas não causam mudanças significativas em suas vendas.

Neste sentido, não há engano: o ecocapitalismo é o mesmo capitalismo, com todos seus males estruturais, mas transvestido com uma sustentabilidade de fechada apenas para aliviar nossa sensação de culpa. Se analisarmos seu funcionamento, veremos que sob uma roupagem de preocupação social, que raramente o consumidor pode fiscalizar (ou está interessado em fiscalizar), reside a exploração dos recursos naturais e humanos em função do potencial de lucro.

É neste sentido que o filósofo Slavoj Žižek concentra sua crítica social: na crença atual de que o capitalismo é um mal irremediável, que deveríamos aceitá-lo em seus termos, e que nos restaria apenas tentar torná-lo menos trágico, tentando conciliá-lo com vagas ideias como sustentabilidade. Se quisermos pensar num desenvolvimento verdadeiramente sustentável, precisamos estar dispostos a repensar o próprio capitalismo, encarar seus problemas estruturais. Isto é especialmente importante num tempo em que se critica muito a política e o Estado, mas não se percebe que existem empresas maiores que os países em que operam.

O governo é apenas um boneco de Judas, e os grandes empresários e banqueiros capitalistas, por terem a política em suas mãos, decidem muito mais o destino das coisas que aquele político que tanto se fala mal. A macropolítica apenas herda um viciado jogo de interesses estrutural ao próprio capitalismo. Neste sentido que se tornam vazios discursos como sustentabilidade ecológica no mercado, marcha contra a corrupção etc. Acontece que estamos lidando com problemas estruturais a nossa organização social, política e ideológica como se fosse questão de moralidade. Cabe questionar antes disso o que engendra essa moralidade duvidosa, pois culpamos pessoas e partidos, mas seguimos ufanistas das marcas de nossos carros ou gadgets, ingerindo substâncias duvidosas processadas com aparência de comida, vestindo e exibindo nossa vaidade ideológica.

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» Ver todos os posts desta série

Crédito da imagem: Convergence Alimentaire (pode-se considerar a Kraft Foods e a Mondelez International como sendo a mesma empresa...)

O debate continua nos comentários, não deixem de acompanhar.

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30.8.13

Um gesto verde

O Gesto Verde é uma iniciativa ecológica da Bonial International Group, que por sua vez parece ser um serviço interessante que ajuda a encaminhar ofertas de comerciantes aos consumidores locais de cada região.

Segundo o que eles dizem, se um blog fizer um pequeno post sobre a iniciativa de "neutralizar o meu CO² produzido" e inserir na coluna lateral o selo da campanha, eles irão plantar uma árvore para auxiliar a neutralizar o CO² que um blog produz todo ano.

Você pode estar se perguntando quanto CO² um blog produz exatamente, e realmente existe um estudo sobre o tema, realizado por um ambientalista e físico da Harvard University. Segundo o Dr. Alexander Wissner-Gross, um internauta produz, em média, cerca de 0,02 gramas de CO² por exibição de página. Considerando que um blog geralmente recebe em torno de 15.000 visitas por mês, isso resulta em 3,6 kg de CO² emitidos por ano. Este total é gerado principalmente pelo grande consumo de energia, devido à refrigeração necessária para o funcionamento de computadores e servidores.

Portanto, me pareceu um gesto genuíno. Só espero que plantem mesmo a minha árvore (*)

Gesto Verde

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(*) Eles entraram em contato novamente me informando que assim que 500 blogs aderirem a campanha, eles irão plantar 500 árvores e nos enviar maiores informações sobre o processo e o local do plantio.

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31.5.13

As mãos sujas de plástico podem ser limpas

Ocean Cleanup Array

Há alguns anos postei aqui no blog um vídeo do Fantástico sobre o chamado "Lixão do Pacífico", uma imensa ilha de plástico e outros detritos leves formada pela circulação das correntes marítimas. Era um alerta sobretudo para nós mesmos, e por isso achei por bem intitular o post "As mãos sujas de plástico"... De fato, uma notícia desanimadora, mas que precisava ser dada. Pensemos em quanto plástico usamos e descartamos todos os dias, e até algum tempo atrás nenhum plástico produzido no mundo era biodegradável; e mesmo nos dias atuais, devido ao custo um pouco mais elevado, o plástico biodegradável ainda está muito longe de se tornar a norma. Além disso tudo, ficava difícil imaginar que o "Lixão do Pacífico" poderia um dia deixar de existir. Pelo contrário, a tendência seria aumentar cada vez mais e mais, com grande dano para o meio ambiente e sobretudo para a fauna marinha e as aves, que usualmente confundem os pequenos detritos plásticos com alimento, e acabam se envenenando...

Mas isto foi até hoje. Hoje conheci Boyan Slat, um jovem holandês estudante de engenharia. Ele desenvolveu o projeto de uma máquina que seria capaz de retirar mais de 7 milhões de toneladas de plástico dos oceanos. O invento se chama Ocean Cleanup Array, e se trata de uma estrutura (parecida com uma arraia marinha) que se comporta como um gigantesco filtro. Ela seria posicionada em pontos estratégicos dos oceanos, onde há maior concentração de lixo, e seria capaz de recolher todo o material flutuante levado pelas correntes do próprio oceano. Após isso uma equipe recolheria o material coletado e separaria a vida marinha do plástico. Como o lixo recolhido ainda fica em contato com a água, a fauna oceânica ficaria segura, mesmo sendo recolhida. O plástico “limpo” restante seria encaminhado a reciclagem.

De acordo com Boyan, seu invento seria capaz de limpar os oceanos em um período de 5 anos, tornando os mares completamente livres dos plásticos flutuantes e eliminando a ilha de lixo presente no Oceano Pacífico. Mas o mais impressionante de tudo é que a venda do plástico recolhido dos oceanos e reciclado traria um lucro maior do que o gasto com a implementação e manutenção do projeto. Noutras palavras, o projeto de Boyan não somente pode limpar boa parte do oceano, salvando milhares de animais, como ainda seria rentável!

Então, é com alegria que agora posso lhes dizer que as mãos sujas de plástico podem ser limpas. Basta vontade para mudar. Se vale a pena manter alguma esperança? "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena"...

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Veja o estudante explicando como funciona o seu invento no TEDxDelft (para ver as legendas em português, clique no botão "Legendas" na barra inferior e selecione a opção "Português (Brasil)"):

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Crédito da imagem: Ocean Cleanup Array (Divulgação)

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10.3.13

Hangout Gnóstico: Sagrado Feminino

Acabei de participar de um hangout [1] ministrado por Giordano Cimadon, um dos palestrantes do III Simpósio de Hermetismo (foi lá que o conheci), e também coordenador da Sociedade Gnóstica Internacional.

O bate papo se inicia pela análise do artigo Branca de Neve e o Resgate do Feminino, feita pela própria autora, Olívia Braschi, que também participa do hangout conosco. Depois enveredamos por muitos outros assuntos, incluindo a queda e o ressurgimento da Deusa Mãe, a ecologia, os deuses andróginos, o machismo e a espiritualidade em geral. Eu participo, sobretudo, trazendo ideias que já haviam sido expostas aqui no blog, no conto da série Cotidianos, intitulado Condutoras.

Trata-se, enfim, de cerca de 1h30m de bate papo amigável e familiar (a mãe e a esposa do Giordano também participam), com o intuito de melhorar a vizinhança...

Obs: Parece que no futuro ainda teremos um Hangout Gnóstico onde o tema será meu livro, Ad infinitum... Embora já fale um pouco dele neste, particularmente da personagem Sophia.

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[1] Bate papo por vídeo feito através do Google+, e que gera uma gravação no YouTube que não pode ser editada. Portanto não há cortes e ninguém teve muito tempo para pensar antes de falar :)

Crédito da imagem: Anônimo (Andrômeda)

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17.2.13

Como peixes presos no vento

Alguns leitores do meu livro (Ad infinitum) me disseram que ele lembra, ao menos na estrutura (um diálogo entre quatro personagens acerca "de quase tudo"), a um filme de 1990, que aparentemente nunca foi lançado em DVD: O ponto de mutação (Mindwalk), dirigido por Bernt Capra, e baseado na obra homônima do seu irmão, Fritjof Capra, também escritor de outro livro bastante conhecido, O Tao da física.

Até pouco tempo atrás, nunca tinha ouvido falar do filme, e havia apenas folheado os livros de Capra em livrarias, sempre os deixando para ler nalgum outro momento (talvez agora venha a lê-los mais em breve)... Hoje, finalmente, vi o filme de que falavam, e me senti imensamente honrado por haverem associado meu livro a ele. No filme há uma conversa entre três personagens: uma cientista norueguesa, Sonia Hoffman (interpretada por Liv Ullmann); um político americano e ex-candidato presidencial , Jack Edwards (interpretado por Sam Waterston); e o poeta Thomas Harriman (interpretado por John Heard), também um ex-redator de discursos políticos. Todo o filme gira em torno do diálogo desses três personagens, enquanto caminham ao redor de Mont Saint Michel, na França (um cenário belíssimo).

O filme serve como uma introdução à teoria de sistemas e pensamento sistêmico [1], enquanto alguns insights sobre modernas teorias físicas, tais como a mecânica quântica e física de partículas também são dados. O que o torna ainda mais extraordinário para os contempladores em geral é, no entanto, o uso que o filme faz da poesia, principalmente através de Thomas, que chega a recitar um poema inteiro de Pablo Neruda [2], num dos grandes momentos da narrativa. No fim, quem sabe (esta foi apenas minha interpretação), não somos como os relógios do cartesianismo, mas tampouco podemos ser reduzidos as teorias de sistemas - somos, enfim, transcendentes: somos poemas vivos!

Com vocês, o filme completo, no YouTube:

***

[1] Conforme Sonia explica ao longo do filme: "Um pensador de sistemas veria a vida da árvore somente em relação à vida de toda a floresta. Ele veria a árvore como o habitat de pássaros, o lar de insetos. Já se você tentar entender a árvore como algo isolado, ficaria intrigado com os milhões de frutos que produz na vida, pois só uma ou duas árvores resultarão deles. Mas se você vir a árvore como um membro de um sistema vivo maior, tal abundância de frutos fará sentido, pois centenas de animais e aves sobreviverão graças a eles. Interdependência. E a árvore também não sobrevive sozinha. Para tirar água do solo, precisa dos fungos que crescem na raiz e o fungo precisa da raiz e a raiz precisa do fungo. Se um morrer, o outro morre também. Há milhões de relações como esta no mundo, cada uma envolvendo uma interdependência. A teoria dos sistemas reconhece esta teoria das relações como a essência de todas as coisas vivas". Isto é, uma defesa profunda da ecologia, ainda em 1990...

[2] Peixe Preso Dentro do Vento:

Tu perguntas
o que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
'Quem as algas apertam em seu abraço...', perguntas
'mais firme que uma hora e um mar certos?' Eu sei.
Perguntas sobre a presa branca do narval
e eu respondo contando como o unicórnio do mar,
arpoado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias,
é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue
tornou a pedra dura e lisa, encheu a água-viva de luz,
desfez o seu nó, soltou seus fios musicais
de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude
do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando a estrela sem fim
e em minha rede, durante a noite, acordo nu.
A única coisa capturada é um peixe preso dentro do vento.

(Pablo Neruda)

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Vejam também:

» Reflexões sobre o materialismo

» Monismos e dualismos

» Onde está o seu deus?

Crédito da imagem: Divulgação

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21.12.12

Um adendo ao fim do tempo

Em Maio de 2011 publiquei no blog a série Reflexões sobre o tempo, e na última parte, O fim do tempo, falei sobre o apocalipse dos rapanui, povo da ilha da Páscoa, famoso por seus gigantes de pedra, os moais.

Para meu comentário acerca do fim da cultura rapanui, me baseei num artigo chamado As testemunhas de pedra, que havia sido publicado numa especial da revista Superinteressante sobre o fim do mundo. Aquele artigo trazia a versão mais aceita, até hoje, acerca do que ocorreu aos rapanui. Segundo esta versão, resumidamente, a construção dos moais se tornou cada vez mais dispendiosa, pois cada um dos clãs da ilha desejava mostrar para o outro que era capaz de construir o moai mais alto e pesado. Ainda segundo esta versão, para transportar seus gigantes de rocha vulcânica, os rapanui empregavam trilhos, trenós e alavancas de madeira. Ora, esta madeira era extraída da própria ilha, e precisamente isto teria sido a razão principal do colapso ecológico de Páscoa: extração predatória excessiva da madeira, para construção de monumentos religiosos, até o ponto onde a natureza não podia mais se regenerar.

Esta versão é particularmente atraente num mundo acadêmico com tendências seculares e ecológicas, por duas razões principais: (a) Demonstra como um disputa religiosa entre clãs rivais levou ao colapso de um povo (Moral da história: religião é veneno!); e (b) Demonstra como a extração predatória de árvores levou ao colapso ecológico do meio ambiente da ilha (Moral da história: Desmatar nos levará a extinção!). Mas será que esta versão, apesar de ser de longe a mais conhecida e aceita, corresponde a história real do que ocorreu em Páscoa?

O que sabemos, ou melhor, não sabemos, acerca dos rapanui, se deve precisamente ao fato de a colonização européia haver terminado de extinguir uma cultura já decadente. A única coisa que sabemos com boa dose de convicção é que quem terminou de extinguir os rapanui foram as doenças e "evangelização" europeias. Não sobrou um registro escrito do povo rapanui, tudo que sabemos sobre eles vem do estudo dos vestígios deixados em Páscoa: os moais e outras pequenas esculturas religiosas (como os moais kavakava, que mostravam seres com olheiras profundas e costelas sempre a mostra, características de um povo que passava fome, que foram talhados já na fase decadente dos rapanui).

Na metade de 2012, a National geographic lançou um programa especial sobre os moais de Páscoa, trazendo uma teoria, relativamente convincente, que demonstra que os moais podem ter "caminhado" até o local onde hoje se encontram sem o uso de madeira, mas apenas de cordas presas as suas cabeças, e uma engenhosa brincadeira de "puxa puxa" realizada por algumas dúzias de rapanui musculosos. Embora não necessariamente esta teoria de transporte dos moais dê conta de como foram transportados os moais maiores [1], ela lança luz a possibilidade de que não fora a extração de madeira, afinal, que ocasionou o colapso ecológico da ilha.

Mais para o final do ano de 2012, uma outra reportagem sobre o apocalipse rapanui, com embasamento científico bem maior, foi publicada na Scientific American. Em O colapso dos rapanui, Terry L. Hunt demonstra como análises mais profundas dos vestígios da fauna e flora de Páscoa revelam que a causa do apocalipse pode muito bem ter sido algo antes impensável - uma explosão demográfica descontrolada de roedores:

Durante milhares de anos, a maior parte de Páscoa esteve coberta de palmeiras. Registros de pólen mostram que a Jubaea se estabeleceu lá há pelo menos 35 mil anos e sobreviveu a várias mudanças climáticas e ambientais. Mas, na época em que Roggeveen chegou, em 1722, a maior parte da floresta havia desaparecido. Não se trata de uma observação nova o fato de que virtualmente todas as cascas de sementes de palmeira encontradas em cavernas ou escavações arqueológicas de Páscoa mostram sinais de terem sido roídas por ratos, mas o impacto desses ratos no destino da ilha pode ter sido subestimado. Evidências de outros locais no Pacífico revelam que com freqüência esses animais contribuíram para o desmatamento, e eles podem muito bem ter tido um papel importante na degradação ambiental da ilha dos rapanui.

Ora, na posse dessas informações, podemos considerar que: (a) Não necessariamente o homem é a causa direta de desastres ambientais, pois muitas vezes são outras espécies, quando vivem sem preadores por perto e podem se procriar aceleradamente, as causadoras dos desastres. Entretanto, os ratos não chegaram em Páscoa nadando, vieram em navios e barcos humanos. Isso demonstra o quanto o estudo sistemático da natureza é tão importante quanto a ecologia e sustentabilidade: há, certamente, muita coisa que ainda não sabemos; e, finalmente (b) Não necessariamente houve alguma disputa religiosa entre os clãs rapanui. Não necessariamente a religião é veneno. O veneno está na ignorância, e na falta de religiosidade, mas não na religião.

Isto tudo invalida minha crítica as disputas religiosas feitas no artigo? Em relação ao exemplo dos rapanui, certamente (devemos desculpas aos sacerdotes de Páscoa); Já em relação as disputas religiosas que vemos pelo mundo afora, não - neste caso, a crítica continua válida. Se em Páscoa o que ocorreu foi apenas um colapso ecológico que, provavelmente, tenha sido atribuído pelos sacerdotes rapanui a alguma "punição divina" (enquanto a culpa pode ter sido dos ratos), em muitas outras partes do mundo, e da história humana, o que vemos são "guerras santas", e gente matando em nome de algum deus estranho, e outros anunciando um fim do mundo sempre iminente, talvez por ansiarem chegar nalgum céu de ociosidade eterna, para fazer "sabe-se lá o que"... Enfim, pelo que nós, espiritualistas, sabemos, o problema não é necessariamente a religião, mas o dogma, o pensamento represado, incapaz de ver os ratos que devoram nossa própria alma, nos afastando de Deus. O Deus que existe em nossa mente, e por toda a natureza a volta, e por tudo o que há.

***

[1] A National geographic fez demonstrações de transporte de moais pequenos, mas grande parte dos moais é bem maior. Muitos não sabem, por exemplo, que boa parte de seus "corpos" está enterrada abaixo da terra, e que vemos somente a parte superior das esculturas (ver imagem que ilustra este artigo).

Obs: Agradeço a quem me enviou o link do artigo da Scientific American nos comentários da série de artigos sobre o tempo, quando esta foi publicada no Portal TdC (quem enviou pediu para o comentário não ser publicado).

Crédito da imagem: Anônimo/Desconhecido (moais da ilha de Páscoa)

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3.9.12

Eu Maior: novas entrevistas

O documentário Eu Maior ainda não foi lançado, mas está em pós-produção e esperamos que saia ainda este ano. Entretanto, outro dia voltei lá e descobri mais 5 trechos de entrevistas com mentes incríveis. Aproveitem a degustação:

Mário Sérgio Cortella é filósofo e doutor em Educação pela PUC de São Paulo, onde é professor-titular do Departamento de Fundamentos da Educação e da Pós-Graduação em Educação. É para mim o maior filósofo brasileiro vivo.


Ari Raynsford é Doutor em Engenharia Nuclear e Mestre em Engenharia Mecânica pelo MIT (EUA), e Engenheiro Naval pela Escola Politécnica da USP. Estuda o Modelo Integral do filósofo americano Ken Wilber há vinte anos e trabalha há dez na sua divulgação.


» Ver entrevista com Rubem Alves

Rubem Alves é educador, poeta, filósofo, psicanalista, cronista, ensaísta, teólogo e acadêmico. Sua obra explora a essência do homem e a alma do ser, servindo de contraponto à visão do homem globalizado que busca satisfazer desejos e vive além de suas reais necessidades.

» Ver entrevista com Marcelo Gleiser

Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia no Dartmouth College (EUA). Há 13 anos escreve uma coluna para a Folha de S. Paulo. Sua paixão pela ciência e a capacidade de explicar questões complexas de forma acessível para o público leigo são características marcantes em seus livros de divulgação científica.

» Ver entrevista com Marina Silva

Nascida em Rio Branco, Marina Silva é uma ambientalista, historiadora, pedagoga e política brasileira. Em quase 30 anos de vida pública, ganhou reconhecimento dentro e fora do país pela defesa da ética, da valorização dos recursos naturais e do desenvolvimento sustentável.

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» Veja mais entrevistas no site do Eu Maior

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13.6.12

Arquivo Especial: Rio+20

Faz algum tempo que planejava lançar uma série especial com links para posts do arquivo do blog, afinal já estamos por aqui desde Novembro de 2006. Agora, com este evento tão importante ocorrendo no Brasil, a Rio+20, pensei que seria bom inciar a série Arquivo Especial com os melhores posts da história do Textos para Reflexão acerca deste tema tão essencial para o nosso futuro: Ecologia e Sustentabilidade.

Artigos:

Ferida aberta 16.06.10
Neste artigo falamos sobre como grandes países europeus disputam judicialmente a posse de um pequeno rochedo perdido entre a Islândia e a Irlanda, o que demonstra claramente como os governantes são capazes de agir rapidamente quando a posse do petróleo, o ouro negro, está em jogo. Citamos a sabedoria do Chefe Seattle que, ainda em meados do século XIX, indagou ao então presidente americano: "Mas como se pode comprar o céu ou a terra? Esta ideia é estranha para nós". Ao final, demonstramos como a exploração desse mesmo petróleo, em águas profundas, ainda é realizada com pouquíssima preocupação aos danos ambientais potenciais desse tipo de atividade, conforme o trágico exemplo da Britsh Petroleum (BP) no Golfo do México.

A outra margem 30.11.10
Neste artigo falamos da história da Divisão Militar da Guarda Real da Polícia da Corte, que deu origem a atual Polícia Militar. No meio do caminho, procuramos demonstrar como a separação entre ricos e pobres favoreceu o surgimento das favelas em grandes cidades, particularmente no Rio de Janeiro. Neste processo histórico, no qual a polícia muitas vezes participou de forma truculenta e inteiramente parcial (a favor dos ricos), podemos tirar as lições necessárias para construir uma sociedade mais igualitária e organizada no futuro.

Sejamos como os girassóis 25.03.11
Este artigo é parte da série "O fogo de Prometeu", sobre a energia nuclear, mas fala de fontes de energia limpas e sustentáveis, porém mais seguras do que a energia nuclear. Damos um enfoque principal as possibilidades de enorme potencial do uso da energia solar para as matrizes energéticas do futuro.

Interregno de eras 05.06.12
Neste artigo falamos da crise financeira e moral da modernidade, e comparamos dois eventos recentes na Inglaterra: o jubileu de diamante da Rainha Elizabeth II, que comemora 60 anos no poder, e as manifestações do final de 2011 nos bairros de baixa renda de Londres e outras cidades inglesas onde, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, "consumidores desqualificados que foram criados numa sociedade de consumo" se reovoltaram e saquearam lojas e mercados. Como uma mesma sociedade pode reclamar da época de austeridade fiscal e, ao mesmo tempo, apoiar a manutenção de uma monarquia vivendo em luxo permanente? É o que tentamos responder...

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Contos:

O sexto deus 30.04.09
Um conto sobre um pequeno planeta imaginário, com seus habitantes divinos, e sobre o que ocorre quando o ouro acaba e seu sistema econômico, e de vida, precisa ser repensado.

O sétimo deus 03.03.12
Partindo do conto anterior, este conto (que foi baseado em comentários de leitores) procura demonstrar como uma crise abre oportunidades para que um novo mundo, um mundo melhor, possa surgir.

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Vídeos e documentários:

As mãos sujas de plástico 08.06.09
Esta breve reportagem do Fantástico, da TV Globo, demonstra claramente como a alta produção de plástico, particularmente sacolas descartáveis, é extremamente prejudicial para o meio ambiente. Entre a Califórnia e o Havaí, uma monstruosa ilha de plástico se avoluma no oceano: o Lixão do Pacífico.

Nosso planeta, nossa casa 08.07.09
De todos os recentes documentários acerca da situação precária do meio ambiente global, Home é talvez o mais extraordinário. Nele há um breve histórico que remonta as origens da vida no planeta, e demonstra de forma contundente, com belíssimas (e as vezes assustadoras) imagens aéreas, como a natureza é o nosso maior bem. Ao final, mesmo após tantas exposições angustiantes, há a mensagem acalentadora: "é muito tarde para ser pessimista". O mundo ainda gira!

Ainda é tempo 26.04.2010
Neste belo depoimento ao programa Café Filosófico, da TV Cultura, o cientista Carlos Nobre nos faz um alerta contundente: "A destruição do que não existia – de valores apenas virtuais, sem base real – pode ser a oportunidade de mudarmos de rumo econômico e impedirmos a destruição do que realmente existe: a natureza, o mundo, o planeta. O Brasil se tornou uma potência agrícola, isso não é original. Mas ele tem a chance de ser a primeira potência ambiental do planeta – e de comandar uma mudança de civilização".

Enquanto isso, na ECO 92... 18.08.11
Neste post trazemos a oratória já histórica da jovem canadense Severn Cullis-Suzuki durante a ECO92, no vídeo que ficou conhecido como "a garota que calou o mundo por 6 minutos". Se você ainda não viu, veja... Ao final falamos sobre como anda a vida dela décadas depois (ela é ativista ambiental e estará presente na Rio+20).

Ainda há esperança... 07.03.12
Um vídeo amador filmado nas praias de Arraial do Cabo, cidade turística próxima ao Rio de Janeiro, demonstra como ainda há motivos para termos orgulho da humanidade.

A lâmpada centenária 31.05.12
Neste post trazemos dois vídeos distintos. No primeiro, temos um exemplo perfeito de todos os clichês da publicidade moderna, numa sociedade educada para o consumo. No segundo, um documentário espanhol acerca de como muitos bens "duráveis" foram cuidadosamente elaborados para "quebrar" após algum tempo de uso, nos surpreendemos com o fato de que há uma lâmpada num corpo de bombeiros da Califórnia que está ligada há mais de um século! Acredite se quiser... Não é possível falar em sustentabilidade sem abordar o problema da obsolência programada, sobretudo em nossa sociedade cada vez mais consumista.

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Crédito da imagem: Divulgação (Rio+20)

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12.6.12

Francisco Play

» Parte da série: Play a myth

Se houveram aqueles que souberam falar diretamente ao reino da alma, caminharam no mundo também alguns raros seres que adentraram o reino do mito, e dissolveram seus egos num oceano de bem-aventurança. Embora fossem ainda eles mesmos, eram também um portal vivo para o Infinito, habitados pelos mais belos deuses que a mente humana foi capaz de identificar. Estes são os que falam em nome do amor: os santos...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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» Saiba mais sobre Francisco

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Crédito da imagem: Google Image Search

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5.6.12

Interregno de eras

Há séculos o rio Tâmisa não era atravessado por uma procissão de barcos tão bela e luxuosa. Por quase todos os prédios no percurso, os súditos da rainha exibiam, orgulhosos, a bandeira da Inglaterra nas sacadas. Em seu barco real, cercada da família e em pé na maior parte do trajeto, Elizabeth II retribuía com pequenos acenos a todos que se acotovelavam as margens para celebrar o jubileu de diamante de seu reinado (em 2012): 6 décadas como rainha da Inglaterra, governante suprema da Igreja Anglicana, e comandante-em-chefe das Forças Armadas do Reino Unido.

Um pequeno grupo protestava pacificamente com cartazes de mensagens contra a monarquia. “Não tenho nada pessoal contra a rainha. É mais uma questão moral de ter uma chefe de Estado não eleita em pleno século 21” – explicou-se um manifestante. Outro alegava questões mais econômicas do que políticas: “A ideia de celebrar a vida de luxo da rainha me faz passar mal; muitos lembraram que essas celebrações estão acontecendo num momento de austeridade (em toda Europa), em que muitos estão perdendo seus empregos”... Estranho de se pensar: ainda assim, a grande maioria dos britânicos apoia a permanência da monarquia, exatamente como é hoje, e assim como já o é há muitos séculos.

Mais estranho ainda se lembrarmos que, há poucos meses, no final de 2011, Londres foi sacudida por uma série de manifestações populares em bairros de baixa renda. Jovens desempregados e desiludidos atacaram grandes lojas e mercados, saqueando boa parte das mercadorias, e tocando fogo nas demais... O polonês Zygmunt Bauman, que vive na Inglaterra há anos, sendo para muitos um dos maiores sociólogos vivos, foi quem primeiro levantou a grande questão que podia ser lida nas entrelinhas daqueles dias caóticos: Aquela não era uma primavera londrina, e tampouco os manifestantes tinham claras reivindicações políticas a fazer. Tratava-se simplesmente de um ato de revolta, de revanche, dos “consumidores desqualificados que foram criados numa sociedade de consumo”. Aquilo que desejavam, os tênis e roupas de grife, era o mesmo que, ao mesmo tempo, amavam e odiavam – tanto que colocaram fogo em parte do que poderia ter sido saqueado.

Essa complexa dualidade, de amor e ódio em relação ao objeto de consumo, pode ser, senão vista, ao menos intuída, por todo o mundo moderno ocidental, e particularmente na Europa. Os governantes que, em meio à crise econômica, recomendam o ajuste fiscal dos países em débito – incluindo pesadas reduções de salários –, são os mesmos que, por outro lado, continuam a estimular e tentar manter vivo a todo custo um sistema já decadente de consumo desenfreado, onde é dito a todos e há todo momento, em propagandas que só faltam pular por debaixo do tapete da porta de nossa casa: “Compre, consuma, aproveite enquanto é tempo! Seja feliz com um novo smartphone, um carro zero, uma TV com 10 polegadas a mais... Mas não se esqueça de continuar comprando, pois coisas novas são lançadas há todo momento, e se você parar de comprar, já sabe – a economia esfria, e é capaz de você perder o seu emprego!”.

Ora, é óbvio que as pessoas não conseguem consumir tanto quando as propagandas incitam, e exatamente por isso que foi criado o crédito bancário, que é obviamente a melhor coisa que os bancos inventaram desde as Cruzadas [1]: emprestar dinheiro que as pessoas não têm, para que elas comprem o que não precisam; mas, não obstante, dinheiro este que serão obrigadas a pagar de volta, com juros. Ah! Os juros! O que os bancos fariam sem inventar crédito, e ganhar dinheiro de volta por algo que foi emprestado, mas que, em realidade, sequer existe, sequer têm permanência – todo valor do dinheiro impresso é, afinal, um construto da fé. Afinal, não sei se sabem, mas as leis que requeriam que existisse lastro material em ouro (ou outros valores) para os belos papéis coloridos já deixaram de ser usadas há décadas... Nosso sistema econômico: uma grande bolsa de crenças, onde especuladores podem ser confundidos com pastores.

Este dinheiro de valor impermanente é apenas mais um dos fatores que compõe o que Bauman intitulou modernidade líquida: onde todos os valores morais, todas as antigas tradições, entraram numa ebulição, numa mistura complexa e sempre fluida, em constante mudança, de onde é cada vez mais difícil extrairmos algum significado. Tempo é dinheiro e, como é exatamente o dinheiro que nos garante o consumo, vivemos correndo, “economizando” tempo em fast-foods, em relações amorosas superficiais, em relações familiares cada vez mais desconexas, já que não há mais muito tempo nem para os jantares em família... Com todo esse precioso tempo que foi “economizado”, nos sobra então o tempo que precisávamos para ir nalgum shopping center consumir.

E é bom que sejamos felizes nestes breves momentos de consumo, pois será nossa única chance de termos alguma felicidade... Ou, pelo menos é para essa vida que fomos educados na modernidade, e basta ligar qualquer televisão no horário nobre para verificar. Nas grandes agências de propaganda e marketing, especialistas que passaram anos e anos nas melhores escolas e universidades realizam o seu brainstorm diário exatamente para que a nossa mente não desgrude os pensamentos da vitrine mais vistosa. A culpa não é dos publicitários: eles estão apenas realizando o que foram educados para fazer; eu diria até que alguns deles foram muito bem educados para nos convencer de quase qualquer coisa... Estamos na desvantagem, e nosso pensamento foi aprisionado nalgum outdoor pelo caminho.

Mas foi somente nos últimos anos, onde se levantaram as bandeiras da ecologia e da sustentabilidade, que as pessoas, todas as pessoas (embora algumas finjam não saber), passaram a perceber que a conta da economia de consumo em crescimento exponencial não irá fechar com um planeta, um meio ambiente, de recursos naturais finitos. Se tudo o que consumimos, e principalmente o combustível envolvido na produção e distribuição dos bens, tivesse uma taxação sobre “recurso finito”, e não fosse tratado como algo fabricado a partir de materiais infinitos, provavelmente viajaríamos bem menos de avião, comeríamos muito menos frutas vindas da Ásia, ou queijos vindos da Europa.

Dessa forma, a sociedade de consumo, perdida na fluidez de uma vida sem significado, sabe muito bem que o mesmo objeto de consumo que hoje deseja, depois vira lixo, muitas vezes não tratado, não reciclável. E, sem reciclar o que é finito, para ser reutilizado, um dia a conta chegará... Bem, segundo Bauman, as gerações atuais, com seu sistema de crédito e consumo, nada mais fazem do que hipotecar o futuro. Estamos, dessa forma, comendo em restaurantes luxuosos e deixando a conta para que nossos netos e bisnetos paguem, literalmente. Sob esse ponto de vista, é mesmo bom que haja uma grande crise no horizonte.

E, quanto a monarquia inglesa, ela nada mais é do que uma âncora fincada no passado. Uma mitologia, um significado, uma narrativa da pátria, do “ser inglês”, que ainda traz sentido à vida britânica. Se os ingleses estão dispostos a continuar financiando os rituais de sua realeza? Enquanto não chegar uma nova era, certamente – para eles, é uma pechincha. E, afinal, o dinheiro não existe enquanto valor por si só, o que existe á uma crença nos valores que povoam nosso pensamento. Melhor comemorar a longa vida da rainha do que a curta vida do seu smartphone.

Ainda assim, um dia, mesmo a rainha cairá... Mas, e o que virá nesse interregno de eras, onde os sistemas e os reis antigos caem, mas os novos não se erguem, sequer foram ainda inventados? Isso, nem mesmo Bauman foi capaz de nos dizer...

Entrevista com Zygmunt Bauman no programa Milênio, da Globo News. Vinte e poucos minutos altamente recomendados.

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[1] Devido ao pouco espaço, estou trazendo alguns conceitos de forma superficial. Para se aprofundar melhor em alguns dos assuntos tratados neste artigo, recomendo consultarem alguns outros posts: A história do ouro; Padrão-fé; O dinheiro que não existe; A lâmpada centenária; Nosso planeta, nossa casa; e finalmente Onde está o seu deus?

Crédito das imagens: [topo] AFP (Elizabeth II conversa com o decano David Ison ao deixar a Catedral de St. Paul); [ao longo] Anônimo.

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31.5.12

A lâmpada centenária

O comercial acima tem, talvez, o conjunto dos clichês mais utilizados pela publicidade atual para que um homem troque de carro. Mas não vou falar aqui das aeromoças de rosa dando o "sinal de ok", nem sobre como o sujeito parece "deixar de existir" enquanto não tem um carro adequado: o que quero destacar é que o consumidor já tinha um carro, provavelmente não tão antigo assim, mas é incentivado a comprar um novo.

Na época atual, onde todos parecem seguir o deus do consumo, trocar de carro a cada 1-2 anos, e de celular a cada 6-12 meses, parece ser algo não apenas perfeitamente natural, como enormemente incentivado por todo tipo de propaganda... Engraçado que todos enalteçam os benefícios de se estar sempre "atualizado", com um carro zero, um widget "de ponta", e ainda falem em sustentabilidade, em ecologia, em um "mundo verde"...

Ora, tudo o que é consumido deve ser descartado, deve virar lixo. Até aí tudo bem, contanto que o lixo possa ser reciclado, ou que não se avolume tão depressa assim. O nosso problema é, portanto, um modelo econômico que foi planejado para ser o exato oposto da sustentabilidade: é difícil mudar tal paradigma quando as mesmas grandes empresas que ditam a economia mundial, e se dizem favoráveis a sustentabilidade, muitas vezes continuam investindo pesado na prática da obsolescência programada.

Por exemplo, a lógica da indústria de computadores é semelhante à das montadoras de carros. Ambas lançam novos produtos para nos fazer descartar os antigos. Essa estratégia foi criada na década de 1920 por Alfred Sloan, então presidente da General Motors. Sloan decidiu seduzir os consumidores para que trocassem de carro com frequência, apelando para a mudança anual de modelos, cores e acessórios. Bill Gates, o fundador da Microsoft, adotou a mesma fórmula nas atualizações do Windows, e o fabricante de chips Intel usa o mesmo procedimento para lançar seus chips. Não é à toa que o livro de cabeceira de Gates é a autobiografia de Sloan.

Você pode achar que isso é perfeitamente comum e corriqueiro, que faz parte da economia industrial e etc. De certa forma, terá total razão, mas a grande questão é que, de tão seduzidos pelas maravilhas das novas tecnologias, muitas vezes esquecemos que elas não são tão "de ponta" assim... Se já são maravilhosas, poderiam ser ainda muito mais, poderiam mesmo durar anos, décadas, e quem sabe até, séculos...

Em Livermore, na Califórnia, um corpo de bombeiros possuí uma lâmpada que está acesa já há mais de um século. Difícil de acreditar? O Cartel Phoebus, fundado em 1924 por empresas como General Eletric, Philips e Osram (todas ainda existentes), determinou que todas as grandes produtoras de lâmpadas elétricas propositadamente reduzissem seu tempo de duração para 1.000 horas. E, até hoje, isso não mudou muito... Você acha que tem mesmo tanta tecnologia em casa? A lâmpada centenária de Livermore talvez lhe faça mudar de paradigma:

Comprar, descartar, comprar. Documentário espanhol (legendado) sobre a história da obsolência programada, com cerca de 52min. de duração.

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» Veja também: os 10 grandes deuses do Supermercado

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26.4.12

Um efeito estranho, parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 181 a 184. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Alguns afirmam que o efeito placebo é mítico, que só se aplica a crédulos, ou até que usá-lo é antiético [1]. Que tal isso? Os mitos populares sobre placebos incluem as ideias de que funcionam apenas durante três meses, ou que só determinado tipo de personalidade reage a eles. Não há limite específico algum para a maioria dos efeitos placebo, nem de “paciente que reage a placebo”.

Mas, acima de tudo, o efeito placebo tem sido uma dificuldade e um problema para estudos sobre [novas] drogas [...]. O jornalista científico Alun Anderson sugere: “Confiança e crença são muitas vezes vistas como negativas na ciência, e descarta-se o efeito placebo como uma espécie de ‘fraude’, porque depende da crença do paciente. Mas a verdadeira maravilha é que a fé pode funcionar”. Anderson identificou uma questão chave. Uma materialista talvez ache que o efeito placebo é uma espécie de fraude exatamente porque indica que a mente pode mudar o corpo [2].

Em consequência, as explicações materialistas do efeito placebo muitas vezes são incoerentes. Por exemplo, quando descrito como a maneira pela qual “o cérebro manipula a si mesmo” [3]. Como vimos, o efeito placebo é de fato disparado pelo estado mental do paciente. Em outras palavras, depende inteiramente do estado de crença dele. Um processo inconsciente iniciado pelo cérebro para manipular a si mesmo (ou qualquer outra parte do corpo) é um processo de cura natural, não o efeito placebo. Por exemplo, houvesse o cérebro dos pacientes que sofrem de doença de Parkinson conseguido manipular a si mesmo e assim curar-se, não se exigiria tratamento algum, placebo, farmacêutico, cirurgia simulada ou real [4].

[...] Desde que começaram os estudos controlados do placebo, uma questão econômica fundamental confundiu o estudo do verdadeiro papel de seu efeito na manutenção da saúde. Não se pode patentear a marca esperança. Se um dado remédio “não age melhor que o placebo”, é uma má notícia para os fabricantes desse medicamente, mesmo que 85% do grupo de controle e 85% do grupo experimental melhorem [5]. A opinião atual de que os estudos mentais são importantes, mas as drogas são poderosas, obstruiu o estudo correto do efeito placebo.

Grande parte de medicina pré-científica dependia do efeito placebo. O fato de esse efeito tantas vezes funcionar ajuda a entender porque muitas pessoas mais tradicionais relutam em abandonar a medicação pré-científica, apesar de suas doutrinas questionáveis e, muitas vezes, perigosas. Lamentavelmente, os clínicos pré-científicos com frequência atribuem seu poder às doutrinas que abraçaram, quando, na verdade, deveriam atribuí-lo aos efeitos que aprenderam por experiência e erro [6]. A pesquisa médica científica começa a ajudar a resolver o dilema aceitando a natureza mental do efeito placebo. Pode-se estudá-lo como um efeito autêntico e, com o poder direcionado, talvez até aumentado, o que é muito mais produtivo do que se continuássemos a tratá-lo apenas como uma chateação.

O perfeito entendimento do efeito placebo também pode evitar algumas óbvias polêmicas atuais. Por exemplo, talvez fosse mais fácil resolver as questões éticas que cercam o uso de células-tronco embrionárias no tratamento da doença de Parkinson se os efeitos placebos explicassem a maior parte do seu valor atribuído. De modo semelhante, tratamentos polêmicos em algumas partes do mundo envolvem as partes do corpo de espécies em risco de extinção. Esses tratamentos devem quase todo seu efeito à crença do paciente na eficácia do tratamento exótico. Uma clara demonstração desse fato pode ajudar nos esforços de conservação [7].

Como vimos, muitas aplicações clínicas fluem de uma visão não materialista da neurociência. Quando tratamos a mente como capaz de mudar o cérebro, podemos tratar doenças cujo tratamento antes era difícil ou impossível. Mas também precisamos de um modelo de como a mente age no cérebro.

» A seguir, o que se especula sobre a interação da mente com o cérebro...

***

[1] Este post é centrado no efeito placebo, um fenômeno muito conhecido e descrito pela medicina (inclusive a medicina dita convencional), mas que na prática é tão pouco compreendido quanto a própria mente humana, a grande catalisadora desse tipo de efeito (pelo que se acredita). Para saber mais, consulte este meu artigo: Placebo-nocebo.

[2] Para os materialistas eliminativos é consideravelmente mais complexo: se, como eles sugerem, a mente é apenas uma ilusão persistente, como exatamente ela muda o corpo?

[3] Jon-Kar Jubieta disse assim numa reunião sobre o efeito placebo, realizada pela Sociedade de Neurociência americana, em 2005: “Essas descobertas podem ter tremendo impacto na medicina, além de ajudar-nos a entender como o cérebro manipula a si mesmo”.

[4] O que ele está querendo dizer, e muitas vezes é mal compreendido, é que o efeito placebo não ocorre naturalmente, e sim como parte de um tratamento. É óbvio que, tal qual já dizia Hipócrates, “são nossas forças naturais que curam nossas doenças”, e nesse sentido a saúde sempre surgirá onde a doença não mais se faz presente. Mas, por outro lado, existe uma série de tratamentos não convencionais, associados pela medicina tradicional ao efeito placebo (ex: acupuntura, cirurgias espirituais, florais, reiki, etc.), que parecem efetivamente auxiliar na catalisação do efeito, de modo que, sem eles, o efeito não ocorreria, ou não ocorreria com a mesma eficiência.

[5] Ultimamente não é mais nenhuma novidade no ramo dos remédios para depressão que, conforme inúmeras pesquisas vêm demonstrando, na grande maioria dos casos eles não tenham nenhum efeito consideravelmente maior do que o “puro” efeito placebo, excluindo-se os casos de depressão severa, que têm medicamentos bastante específicos (e, nesses casos, sim, funcionam melhor do que placebos). A despeito disso, existem muitas pessoas no mundo desenvolvido que sofrem de depressão não severa, e compram mensalmente remédios caros que, na realidade, efetivamente funcionam tanto quanto pílulas de farinha.
Sobre o assunto, ver, por exemplo: revista Mente e cérebro (Scientific American/Duetto) nº226 – Antidepressivos são mesmo eficazes? (que foi matéria de capa); e revista Galileu (Globo) nº247 – Antidepressivos funcionam? Veja também esta entrevista com o psicólogo Irving Kirsch.

[6] Em outras palavras, o Dr. Beauregard não está nem um pouco interessado em explicações vagas para curas espirituais, como “Deus te curou” ou “o espírito da Senhora de Branco veio e te abençoou” – para ele, tais explicações são tão inúteis quanto a materialista (ver nota nº3 acima).

[7] Vamos citar um exemplo bem claro: chifres de rinoceronte são apreciados no Oriente como afrodisíacos, causando sua caça e risco de extinção (pois a carne não é sequer aproveitada). Ora, o chifre em pó conterá grandes quantidades de cálcio e fósforo, o que pode realmente aumentar o vigor de pessoas com deficiência desses minerais. Na posse desse conhecimento, algum antigo consumidor de chifres de rinoceronte em pó poderá, portanto, comprar vitaminas com cálcio e fósforo no lugar, auxiliando na preservação da espécie. Este é um caso onde já se tem uma boa ideia do que ocorre, mas muitos outros ainda caem na zona “nebulosa” do efeito placebo, e ainda não são compreendidos.

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Crédito da foto: Jed Share and Kaoru/Corbis (banca com venda de ervas e afrodisíacos em geral, no Marrocos)

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9.2.12

3 chimpanzés

Incrustados no meio da África vivem os animais que mais se assemelham aos seres humanos em termos genéticos. Compartilhamos aproximadamente 98 a 99% de seu DNA, e ainda assim somos muito distintos, principalmente devido as formidáveis capacidades do órgão que trazemos dentro da cabeça. Mas, será que somos tão diferentes assim?

Os chimpanzés se separaram do tronco evolutivo de nosso misterioso ancestral comum por volta de 4 a 7 milhões de anos atrás, talvez até mais. São animais que costumam andar pelo solo, embora ainda usando as mãos como apoio, e se alimentam, sobretudo, de frutas, folhas, sementes e pequenos animais que cruzam seu caminho. Durante os dias, nas planícies africanas, podem ser vistos nos galhos das árvores, aproveitando a sombra e mordiscando frutas... Como nós, são animais sociais, que vivem em grupos de apenas uns 5 até mais de 100 indivíduos. Aparentemente possuem culturas diferentes, dependendo da região em que habitam, e são capazes de ensinar técnicas rudimentares de uma geração a outra: uso de gravetos para extração de cupins de um cupinzeiro; uso e fabricação de pedras específicas, usadas como ferramenta para quebrarem sementes e frutos; e até mesmo ferramentas adaptadas para caça de pequenos mamíferos, algo bem mais raro.

Olhar os chimpanzés pode às vezes parecer uma experiência que transcende nossa espécie e nosso tempo: de certa forma, olhamos para aquilo que fomos, ou algo muito próximo, há milhões de anos atrás. Por exemplo, às fêmeas chimpanzés possuem hábitos mais solitários, passando a maior parte do tempo sozinhas. Nesses grupos, os machos dominantes exercem seu poder através de pura agressividade, sobre as fêmeas e os outros machos mais jovens ou fracos. Nesse sentido, a vida sexual dos chimpanzés não difere tanto assim da de outros primatas, como os gorilas, e nesse ponto o ser humano parece se distinguir totalmente: afinal, fazemos sexo não apenas para procriação, mas também e, principalmente, por prazer, e por amor...

Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.

Estudiosos como o antropólogo Richard Wrangham – autor de Demoniac males [1] – especulam que isso ocorreu pelo fato de, entre os bonobos, os vínculos mais duráveis se estabelecem entre as fêmeas, que passam grande parte do tempo em atividades sociais ou em brincadeiras sexuais. Wrangham acredita que essa organização social é resultado do tipo de alimentação desses macacos, que se adaptaram a comer frutos e pequenos animais, como os chimpanzés, além de folhas e raízes, como os gorilas. A facilidade de obter alimentos desestimulou o desenvolvimento da agressividade dos machos, mas incentivou as alianças entre as fêmeas. Essas alianças acabam resultando em mais poder para quem as estabelece.

Mas a “sociedade matriarcal dos bonobos” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, às fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualismo light. As atividades eróticas dos bonobos compreendem ainda sexo oral, masturbação mútua e beijos de língua.

Um dos “inconvenientes” da sociedade dos bonobos é que incestos e pedofilia são relativamente comuns... Isso parece ter sido motivo suficiente para muitos ditos cristãos demonizarem a espécie inteira, como se outras espécies também não praticassem incesto e pedofilia (e coisas muito piores). Na verdade, o problema com os bonobos é que eles fazem sexo, muito sexo, e nisso lembram a nós mesmos. Como sabemos, por muitos séculos, principalmente na Idade Média, o sexo foi considerado sujo, condenado e sentenciado as trevas... Mesmos nos dias atuais, em que o ímpeto sexual humano parece explodir de forma descontrolada, como rio há muito tempo represado, que finalmente rompe a represa, ainda há muita gente “conservadora e religiosa”, que abomina a visão de uma sociedade humana se parecendo com uma sociedade de bonobos.

Mas, será que temos lembrado mais os bonobos ou os chimpanzés? É preciso lembrar que para os bonobos o sexo é um elemento central de redução da agressividade nas relações entre os indivíduos. Embora já tenham sido registrados casos até mesmo de canibalismo entre os bonobos, estes são raríssimos – os bonobos, quando comparados aos chimpanzés, seriam uma sociedade de gandhis e madres teresas, ao menos no quesito agressividade. Nós, humanos, entretanto, temos sido ainda mais agressivos que os chimpanzés, com nossa própria espécie, com as outras, e com o meio ambiente como um todo.

Alguns nos chamam de “terceiro chimpanzé” [2], mas é óbvio que, ao mesmo tempo em que estamos conectados a todas as outras espécies na árvore da vida, temos uma diferença imensa de todas elas: a consciência humana, única em sua racionalidade e espiritualidade. Os chimpanzés fazem parte dos poucos animais que conseguem se reconhecer no espelho, e sob muitos aspectos parecem mesmo conosco, mas foi exatamente a nossa imensa inteligência que possibilitou que, dentre outras coisas, destruíssemos seu habitat natural até que entrassem na lista de espécies ameaçadas de extinção, da qual dificilmente sairão um dia... Não, nós não temos sido primatas promíscuos, que fazem sexo a torto e a direito, nós temos sido algo muito pior do que isso: primatas dominantes sedentos por territórios e recursos naturais, que não expulsam os outros primatas de seus territórios natais com grunhidos e intimidação, mas com fogo, pólvora, bombas e estranhas doutrinas religiosas.

O sexo humano pode sim se desencaminhar para a promiscuidade total, a pedofilia e outras bizarrices, mas ainda assim, na “escala de escuridão” em que os ditos cristãos o colocaram, ainda está muito, muito mais próximo da luz do que a agressividade, a intolerância e o fanatismo. Não foram os bonobos quem enviaram bombas atômicas para cidades de nações rendidas, ou adolescentes com bombas na cintura para se explodirem em mercados e praças públicas, não foram nem mesmo os chimpanzés – foram nós, os humanos.

Porém, ainda assim é tarde para ser pessimista: enquanto este mundo tem girado em torno de uma pedra ardente, de alguma forma as consciências dos homo sapiens tem despertado, uma a uma, e se dado conta de que estamos aqui não para sobreviver e domesticar a Natureza, mas, pelo contrário: para viver, e exaltar esta mesma força da vida que nos deu os chimpanzés e os bonobos, e todos os outros seres desta Terra, não através de um decreto divino, mas através de um mecanismo divino que tem evoluído ao longo das eras nas formas mais belas e surpreendentes; e do qual é o sexo, não a agressividade, o grande motor.


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[1] Apenas um título infeliz (“Machos demoníacos”) para um livro onde ele e o jornalista Dale Peterson discutem as semelhanças e diferenças entre chimpanzés, bonobos e seres humanos.

[2] Numa alusão aos outros dois chimpanzés: o chimapanzé-comum (Pan troglodytes) e o bonobo (Pan paniscus).

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» Veja também: 3 chimpanzés: um complemento

Crédito da foto: Fiona Rogers/Corbis (nem queira saber...)

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