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29.5.20

O mundo vai acabar

Neste vídeo vamos analisar o que significa, de fato, o chamado Apocalipse, e porque isso não tem nada a ver com fugir deste planeta numa nave espacial (ou numa carruagem angelical). Ao final, leio um trecho do Evangelho de Tomé (apócrifo).

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31.3.20

O Apocalipse do COVID-19 (parte final)

« continuando da parte 2


Há anos atrás, na minha época de faculdade, me chegou às mãos um livro chamado Projeto Evacuação Mundial, da autoria de um sujeito chamado Ergom. De início, ele se parece com uma ficção científica acerca de um futuro catastrófico, onde uma pequena parte da humanidade seria salva por naves de seres alienígenas. Poderia até ser uma leitura interessante, não fosse pelo fato do autor, e de quem havia me indicado o livro, acreditarem piamente que ele descrevia um futuro real.

Aqui vai uma sinopse bem resumida do enredo: Os tempos “são chegados”, uma “nova era” se aproxima e ela não trará a princípio boas notícias para nosso planeta. Grandes desastres naturais e guerras causadas pela ignorância humana vão transformar a Terra em um inferno. Porém, alguns “eleitos” e “iniciados nos mistérios do Comando Ashtar” serão selecionados para escaparam do desastre terreno na Nave-Mãe do Comandante Ashtar e outras naves de sua frota. Através desses seres “evoluídos espiritualmente” espera-se que a raça humana persista, e que possamos povoar outros mundos.

Antes que me perguntem, o Comandante Ashtar Sheran seria uma espécie de líder de povos alienígenas que teria por função garantir a boa manutenção e sobrevivência das raças conscientes da nossa galáxia. Ou algo assim, pois podem apostar que eu não pesquisei muito a fundo.

Em todo caso, o que me incomoda nessa história não é exatamente o fato de que ela dá por certo a existência de alienígenas inteligentes e organizações políticas interplanetárias, mas sim o fato dela recontar, usando nova roupagem, uma história muito antiga – aquela em que um pequeno grupo de eleitos é salvo de um mundo arruinado, e então encaminhados para alguma espécie de reino celeste de boa aventurança. Ou seja: um Apocalipse.

A retirada do véu
Como já foi dito, o termo “Apocalipse” vem de uma palavra grega que significa “revelação”. Sendo mais específico, o termo indica que esta revelação se dá pela “retirada do véu”, como se houvesse um véu ocultando alguma verdade, que é retirado, revelando-a.

Segundo diversas tradições religiosas, esse Apocalipse está intimamente associado a eventos que se darão no fim dos tempos. É algo tão tradicional que existe até um termo para o estudo de tais histórias: “escatologia”. Embora ela esteja usualmente associada às narrativas judaico-cristãs, também há a escatologia do zoroastrismo, do hinduísmo e até mesmo do budismo.

Tradicionalmente, a interpretação literal dessas histórias indica que o nosso mundo irá passar por um período de depravação e degradação moral nalgum futuro mais ou menos próximo, e que alguma espécie de divindade raivosa irá nos punir com pragas e catástrofes. No entanto, aqueles que se mantiverem “puros” e fieis aos preceitos da divindade serão poupados (ou “salvos”), para serem em seguida encaminhados a algum Céu. Aos que aqui sobrarem, restará os castigos do Inferno.

Ora, esta é uma ideia estranha para mim. Afinal, como poderiam os “puros”, os “espiritualmente elevados”, os “amorosos”, contentarem-se em fazer “sabe lá o quê” nalgum Céu, enquanto sabem que a maior parte dos seres humanos permaneceu em sofrimento num mundo infernal? Isto seria mais ou menos o mesmo que oferecer aos médicos que atuam nos rincões mais miseráveis da África (como a organização Médicos Sem Fronteiras) a grande oportunidade de viverem o resto da vida nalgum resort paradisíaco das Bahamas, com tudo pago. Eu posso estar enganado, mas creio que a grande maioria deles iria preferir permanecer exatamente onde estavam, ajudando a salvar vidas. O Céu pode esperar.

Pois a mim sempre pareceu óbvio que, enquanto há sofrimento e ranger de dentes em qualquer parte infernal da Criação, o Céu estará vazio. Ele seria no máximo um ponto de encontro ocasional para reuniões de anjos e arcanjos, pois o seu trabalho se daria justamente onde são mais necessários: no Inferno. Se um anjo é insensível ao sofrimento dos que padecem nos infernos, se não busca lhes ajudar e iluminar com seu amor celeste, então é porque em realidade nunca foi anjo.

Por outro lado, o reino celestial pode ter estado todo o tempo aqui no mundo, bem diante dos nossos olhos, e só nos faltou levantar o véu.

“Então serão a pobreza”
O Jesus descrito no Evangelho de Tomé, um dos evangelhos apócrifos (achados em jarros enterrados em Nag Hammadi – Egito – em 1945, mas que datam dos primórdios da era cristã) tinha uma visão muito distinta deste Reino celestial. Por exemplo, quando seus discípulos lhe perguntaram “quando viria o Reino”, esta foi a sua resposta:

Ele não virá somente por sua espera; não dirão: Ei-lo aqui! Ou ei-lo acolá!
O Reino do Pai está espalhado sobre a terra e os homens não o veem.

Ora, há muitos de nós que aguardam pelo fim dos tempos, pela volta do Cristo, pelas naves de Ashtar Sheran, como quem já está cansado deste mundo, como quem já não nutre nenhuma esperança na sua melhora, como quem prefere que tudo se acabe logo, para que possam ser salvos, supostamente, por algum julgador estranho que determinará quem deve passar o restante dos seus dias nalgum paraíso de ócio eterno, e quem deve ser deixado para trás.

“Muitos são os chamados, e poucos os escolhidos”. Eu penso que essa passagem do Novo Testamento tem sido mal interpretada há séculos: os escolhidos não serão aqueles que serão “salvos” na nave do Comandante Ashtar ou nas carruagens angélicas; mas, pelo contrário, os verdadeiros escolhidos são aqueles que já encontraram a divindade em si mesmos, e já estão trabalhando para erigir nesta terra um Novo Céu. Em suma, os escolhidos são aqueles que já criaram olhos para ver o Reino espalhado sobre a Terra.

O que muda quando todo o mundo entra em transe, quando as ruas esvaziam, as fábricas reduzem a produção, os bares fecham, e os transeuntes passam a transitar somente em si mesmos, confinados em seus lares? O que muda quando bilhões de pessoas têm a oportunidade de estarem todas ao mesmo tempo sós, sem poder consumir, apartadas momentaneamente da ânsia pela produtividade? O que muda quando o tempo já não é mais dinheiro, já não é mais uma corrida pela sobrevivência, mas um tempo de viver, de tratar, de curar?

Infelizmente nem todos têm o privilégio de poderem deixar de trabalhar pelo pão do dia seguinte enquanto vivem esta quarentena. Mas, para as dezenas de milhões de almas que podem parar e refletir sobre o que são e o que realmente desejam para suas vidas, quiçá pela primeira vez em décadas, talvez esta quarentena seja um Apocalipse, uma revelação, um desvelar, uma reconexão com o que elas em verdade são, em detrimento do que possuem ou deixam de possuir.

E o mundo, o mundo continuará sendo o mundo. Não é o mundo que muda, somos nós; e cabe a nós construir o Reino, um tijolo por vez...


Disse Jesus: Se aqueles que os guiam disserem, “Vejam, o Reino está no céu”, então os pássaros os precederão. Se lhe disserem, “Ele está no mar”, então os peixes os precederão.

Mas certamente o Reino está dentro, e também fora, de vocês mesmos. Se o reconhecerem, serão reconhecidos, e saberão que são filhos do Pai Vivo.

Mas se não o reconhecerem, então estarão na pobreza, serão a pobreza.

***

Crédito das imagens: [topo] Getty Images; [ao longo] Jesus (Joaquin Phoenix) no filme Maria Madalena (2018).

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3.1.17

Ainda não acabou

O Relógio do Apocalipse é um relógio simbólico mantido desde 1947 pelo comitê de diretores do Bulletin of the Atomic Scientists da Universidade de Chicago. Se trata de um alerta para a iminência de uma guerra nuclear de larga escala, o que potencialmente significaria o fim da civilização humana. Segundo a analogia, quanto mais próximo da meia-noite, mais próxima estaria a humanidade de um apocalipse nuclear. Os ponteiros iniciaram com 7 minutos para a meia-noite, e chegaram a estar à apenas 2 minutos, em 1953, quando EUA e URSS testaram novas armas nucleares a poucos meses de intervalo um do outro. Hoje, ele marca 3 minutos para o fim.

É irônico como foi justamente a ciência quem nos levou mais próximo de um Juízo Final, um Armagedom real para a humanidade. A despeito de milênios de mitos e lendas acerca do final dos tempos, que muitos racionalistas sempre caçoaram, coube justamente a mais racional das invenções da mente humana o poder de nos levar, de fato, a uma guerra final. Claro que a ciência por si só não tem culpa alguma, os culpados somos nós, os seres que vivem neste mundo e, muitas vezes, consciente ou inconscientemente, trabalham para a sua aniquilação.

A palavra “apocalipse”, do grego apokálypsis, significa literalmente algo como “a retirada do véu”, o que geralmente é compreendido como alguma espécie de revelação divina. No entanto, como o Livro da Revelação no Novo Testamento bíblico trata justamente de uma elaborada metáfora para alguma espécie de fim dos tempos, o termo Apocalipse também se tornou uma espécie de sinônimo para fim do mundo na cultura popular.

De fato, numa análise esotérica do significado essencial de uma revelação divina, temos duas possibilidades que fazem todo o sentido: o fim de uma era, para que outra se inicie, ou mesmo a morte de uma persona, para que outra mais espiritual e profunda surja deste processo. No entanto ocorre que, muitas vezes, tanto o Apocalipse bíblico quanto os de outras doutrinas religiosas é visto não como o fim de um processo para que outro se inicie, mas simplesmente como o final de todos os processos, de todo o sofrimento e de todo trabalho, geralmente para ser substituído por um julgamento sumário de alguma divindade, onde uns serão condenados a sofrer eternamente num Lago de Enxofre, enquanto outros serão conduzidos a uma espécie de Jardim de Ócio Eterno.

A despeito do absurdo lógico de ambas as opções (uma divindade amorosa que permitiria que suas criações fossem torturadas brutalmente ad aeternum; seres amorosos que conquistaram uma passagem para um Céu de Escolhidos, sendo lá felizes mesmo sabendo que há muitos de seus irmãos sofrendo), é mais ou menos nisso que muitos povos e culturas, principalmente no Ocidente e Oriente Médio, colocaram todas as suas fichas. Durante séculos e séculos, depois de Cristo, e até mesmo antes, tivemos muitos crentes aguardando ansiosamente pelo final dos tempos, alguns com temor no coração, e outros simplesmente ansiando pelo fim desta terra... Todos eles na expectativa do prometido julgamento dos bons e dos maus.

E dificilmente os que creem nessas coisas veem a si mesmos como pertencentes aos não escolhidos, aos maus. Daí se tira que, muitas vezes, o seu desejo pelo Juízo Final parte muito mais do próprio julgamento que fazem dos seus irmãos do que genuinamente de um desejo de habitar o Jardim de Ócio pela eternidade, para fazer sabe-se lá o quê pelos milênios a perder de vista. Ou seja: pode ser preferível que o mundo acabe de fato, se com ele todos os gays que insistem em se beijar na rua e desafiar os mandamentos do Levítico sejam levados para o Inferno, ou se todos aqueles jovens metidos a besta que insistem em usar drogas ilícitas ardam nas forjas subterrâneas, ou se os políticos de um ou outro campo ideológico cumpram suas penas junto ao Tinhoso.

Claro, também há muitos que cansam de simplesmente esperar pela chagada de Cristo, e partem eles mesmos para provocar o seu próprio fim dos tempos, se radicalizando e chacinando os inocentes que encontram pela frente. Para nossa sorte, esse tipo de radical religioso ainda não dispõe de armas nucleares, somente das armas que as grandes empresas armamentistas dos países de primeiro mundo lhes vendem.

Neste baile da ignorância humana, é curioso pensar como, ao menos até aqui, as armas de destruição em massa talvez tenham freado uma nova e derradeira Guerra Mundial, ao contrário do que muitos poderiam imaginar. Explica-se: até o advento das armas nucleares, guerras destruíam cidades, e às vezes países inteiros, mas não podiam destruir a civilização humana como um todo. Hoje, uma guerra nucelar pode fazer justamente isso. Hoje, o Armagedom deixou de ser uma metáfora mitológica para se tornar uma possibilidade real. Hoje, aqueles que detém o poder de lançar ogivas nucleares sabem muito bem que, num cenário de guerra nuclear total, pressionar o botão vermelho será essencialmente um ato de suicídio.

Mas nem todo Apocalipse é um Apocalipse global. Há muitos povos e territórios da Terra que sofreram os seus próprios Juízos Finais. Desnecessário dizer que até hoje em dia eles estão em pleno processo, particularmente no Oriente Médio e arredores, ironicamente o grande berço das civilizações humanas.

Como narra um memorável anúncio dos Médicos Sem Fronteiras, “podemos ser violentos, insensíveis, cruéis, egoístas, indiferentes, mas só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano”. O MSF atua justamente para amenizar o Juízo Final alheio.

Voltando ao Apocalipse como revelação, como final de um estágio para o início de outro, recorro à história de vida de minha amiga Debora Noal, psicóloga do MSF, brasileira: pouco antes de ser convocada para a sua primeira missão humanitária no Haiti, há quase uma década, Debora morava numa cobertura de frente para uma praia paradisíaca de Aracaju, e tinha um emprego público na área médica.

Então, como ela mesma relatou numa reportagem da Época, “Pedi demissão, larguei tudo [...] Porque era uma missão de urgência. Entreguei o apartamento, deixei os móveis no meio do corredor porque não tinha condições de distribuir tudo rápido. O que não é possível carregar comigo é porque não é meu. E acho que, se você se apega a alguma coisa que é material, isso quer dizer que você está plantando sua raiz por uma estrutura material. Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser”. E após o Haiti, Debora foi ajudar mulheres brutalmente estupradas e infectados pelo vírus ebola em algumas missões humanitárias nos cantões mais afastados dos olhares da Grande Mídia, em plena África...

Como Debora estava tão preparada para substituir suas raízes terrestres por raízes aéreas, senão por um processo de Apocalipse pessoal? Senão por haver colocado sua própria vida mundana em segundo plano, e a Alma do Mundo, a alma e o coração de todos os seres, acima de tudo o mais? Não há Revelação maior do que este Amor que brotou aos borbotões do coração de minha amiga.

E, se ainda nos convém falar em mitologia, que a praia em Aracaju seja o Céu, que as periferias do Congo sejam o Inferno, e que Debora seja o Anjo... Tampouco existe mitologia mais bela, pois que trata exatamente da realidade, de como as coisas de fato o são. Pois só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano. E só quem pode salvar a própria vida é o próprio ser em si.

Assim sendo, sempre que se sentir abatido pelo peso deste mundo de chumbo, pense sobre os pensamentos que lhe vêm à mente, pense sobre de onde eles de fato surgiram, e para onde pretendem lhe levar. Há muitos que desejaram modificar o mundo inteiro, e terminaram por se regozijar com a promessa do Juízo Final, e assim perderam seu entusiasmo, e se deixaram afogar no charco dos hábitos moribundos... Mas há alguns, alguns de nós, que pensaram em mudar primeiro a si mesmos, e ser a própria mudança que desejam ver neste mundo.

Passo a passo, mudaremos a nós mesmos, a vizinhança e o mundo inteiro. Se a vida já não tem qualquer outro sentido, que tenha este. Afinal, a despeito da crença e do desejo de muitos, nossa história ainda não acabou... Gritem meus irmãos, gritem pela alma adentro: ainda não acabou!

***

Para encerrar, gostaria de descrever em maiores detalhes a autoria e o cenário das duas fotos que ilustram este artigo:

A primeira, no topo, é da Reuters e mostra uma multidão de refugiados (na grande maioria palestinos) do Campo de Yarmouk, em Damasco na Síria, em fevereiro de 2014. Eles estavam tão somente aguardando a distribuição de alimentos pela ONU. Em abril de 2015 este campo foi atacado e controlado pelo Estado Islâmico, mas foi recuperado pelo governo sírio alguns meses depois. Yarmouk está ativo há mais de meio século.

A segunda, ao longo do texto do artigo, é de um jovem fotógrafo da Faixa de Gaza, Emad Nassar, e foi tirada em junho de 2015. Ela mostra um pai palestino dando banho na filha e na sobrinha, no pouco que restou inteiro de seu apartamento em Gaza. A Faixa de Gaza é um dos territórios mais densamente povoados do mundo, e vive um Apocalipse permanente há muitas décadas.

O que cada uma das fotos têm a ver com o meu artigo, deixo que cada um de vocês interprete e sinta por si só...


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21.12.12

Um adendo ao fim do tempo

Em Maio de 2011 publiquei no blog a série Reflexões sobre o tempo, e na última parte, O fim do tempo, falei sobre o apocalipse dos rapanui, povo da ilha da Páscoa, famoso por seus gigantes de pedra, os moais.

Para meu comentário acerca do fim da cultura rapanui, me baseei num artigo chamado As testemunhas de pedra, que havia sido publicado numa especial da revista Superinteressante sobre o fim do mundo. Aquele artigo trazia a versão mais aceita, até hoje, acerca do que ocorreu aos rapanui. Segundo esta versão, resumidamente, a construção dos moais se tornou cada vez mais dispendiosa, pois cada um dos clãs da ilha desejava mostrar para o outro que era capaz de construir o moai mais alto e pesado. Ainda segundo esta versão, para transportar seus gigantes de rocha vulcânica, os rapanui empregavam trilhos, trenós e alavancas de madeira. Ora, esta madeira era extraída da própria ilha, e precisamente isto teria sido a razão principal do colapso ecológico de Páscoa: extração predatória excessiva da madeira, para construção de monumentos religiosos, até o ponto onde a natureza não podia mais se regenerar.

Esta versão é particularmente atraente num mundo acadêmico com tendências seculares e ecológicas, por duas razões principais: (a) Demonstra como um disputa religiosa entre clãs rivais levou ao colapso de um povo (Moral da história: religião é veneno!); e (b) Demonstra como a extração predatória de árvores levou ao colapso ecológico do meio ambiente da ilha (Moral da história: Desmatar nos levará a extinção!). Mas será que esta versão, apesar de ser de longe a mais conhecida e aceita, corresponde a história real do que ocorreu em Páscoa?

O que sabemos, ou melhor, não sabemos, acerca dos rapanui, se deve precisamente ao fato de a colonização européia haver terminado de extinguir uma cultura já decadente. A única coisa que sabemos com boa dose de convicção é que quem terminou de extinguir os rapanui foram as doenças e "evangelização" europeias. Não sobrou um registro escrito do povo rapanui, tudo que sabemos sobre eles vem do estudo dos vestígios deixados em Páscoa: os moais e outras pequenas esculturas religiosas (como os moais kavakava, que mostravam seres com olheiras profundas e costelas sempre a mostra, características de um povo que passava fome, que foram talhados já na fase decadente dos rapanui).

Na metade de 2012, a National geographic lançou um programa especial sobre os moais de Páscoa, trazendo uma teoria, relativamente convincente, que demonstra que os moais podem ter "caminhado" até o local onde hoje se encontram sem o uso de madeira, mas apenas de cordas presas as suas cabeças, e uma engenhosa brincadeira de "puxa puxa" realizada por algumas dúzias de rapanui musculosos. Embora não necessariamente esta teoria de transporte dos moais dê conta de como foram transportados os moais maiores [1], ela lança luz a possibilidade de que não fora a extração de madeira, afinal, que ocasionou o colapso ecológico da ilha.

Mais para o final do ano de 2012, uma outra reportagem sobre o apocalipse rapanui, com embasamento científico bem maior, foi publicada na Scientific American. Em O colapso dos rapanui, Terry L. Hunt demonstra como análises mais profundas dos vestígios da fauna e flora de Páscoa revelam que a causa do apocalipse pode muito bem ter sido algo antes impensável - uma explosão demográfica descontrolada de roedores:

Durante milhares de anos, a maior parte de Páscoa esteve coberta de palmeiras. Registros de pólen mostram que a Jubaea se estabeleceu lá há pelo menos 35 mil anos e sobreviveu a várias mudanças climáticas e ambientais. Mas, na época em que Roggeveen chegou, em 1722, a maior parte da floresta havia desaparecido. Não se trata de uma observação nova o fato de que virtualmente todas as cascas de sementes de palmeira encontradas em cavernas ou escavações arqueológicas de Páscoa mostram sinais de terem sido roídas por ratos, mas o impacto desses ratos no destino da ilha pode ter sido subestimado. Evidências de outros locais no Pacífico revelam que com freqüência esses animais contribuíram para o desmatamento, e eles podem muito bem ter tido um papel importante na degradação ambiental da ilha dos rapanui.

Ora, na posse dessas informações, podemos considerar que: (a) Não necessariamente o homem é a causa direta de desastres ambientais, pois muitas vezes são outras espécies, quando vivem sem preadores por perto e podem se procriar aceleradamente, as causadoras dos desastres. Entretanto, os ratos não chegaram em Páscoa nadando, vieram em navios e barcos humanos. Isso demonstra o quanto o estudo sistemático da natureza é tão importante quanto a ecologia e sustentabilidade: há, certamente, muita coisa que ainda não sabemos; e, finalmente (b) Não necessariamente houve alguma disputa religiosa entre os clãs rapanui. Não necessariamente a religião é veneno. O veneno está na ignorância, e na falta de religiosidade, mas não na religião.

Isto tudo invalida minha crítica as disputas religiosas feitas no artigo? Em relação ao exemplo dos rapanui, certamente (devemos desculpas aos sacerdotes de Páscoa); Já em relação as disputas religiosas que vemos pelo mundo afora, não - neste caso, a crítica continua válida. Se em Páscoa o que ocorreu foi apenas um colapso ecológico que, provavelmente, tenha sido atribuído pelos sacerdotes rapanui a alguma "punição divina" (enquanto a culpa pode ter sido dos ratos), em muitas outras partes do mundo, e da história humana, o que vemos são "guerras santas", e gente matando em nome de algum deus estranho, e outros anunciando um fim do mundo sempre iminente, talvez por ansiarem chegar nalgum céu de ociosidade eterna, para fazer "sabe-se lá o que"... Enfim, pelo que nós, espiritualistas, sabemos, o problema não é necessariamente a religião, mas o dogma, o pensamento represado, incapaz de ver os ratos que devoram nossa própria alma, nos afastando de Deus. O Deus que existe em nossa mente, e por toda a natureza a volta, e por tudo o que há.

***

[1] A National geographic fez demonstrações de transporte de moais pequenos, mas grande parte dos moais é bem maior. Muitos não sabem, por exemplo, que boa parte de seus "corpos" está enterrada abaixo da terra, e que vemos somente a parte superior das esculturas (ver imagem que ilustra este artigo).

Obs: Agradeço a quem me enviou o link do artigo da Scientific American nos comentários da série de artigos sobre o tempo, quando esta foi publicada no Portal TdC (quem enviou pediu para o comentário não ser publicado).

Crédito da imagem: Anônimo/Desconhecido (moais da ilha de Páscoa)

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12.12.12

12.12.12

Para qualquer espiritualista dedicado, o fim do mundo, seja quando for, tem tanta relevância quanto uma noite de sono. Todos os dias nos despedimos deste mundo, viajamos brevemente por outro e, se for o caso deste mundo continuar existindo, retornamos: é manhã, e os raios de sol são novos, diferentes dos da manhã anterior. Todos os dias este mundo, e todas as substâncias, se renovam.

Se termina um calendário (Maia ou ainda mais antigo), o que isto significa é que um outro calendário se inicia. O que um calendário marca é um ciclo, e ciclos se renovam ad infinitum. Não é culpa dos Maias todo este pânico do fim dos tempos... Isto sempre existiu, e sempre interessou a certos grupos sua divulgação. Dizem que nos EUA a "indústria do apocalipse", por exemplo, já é um negócio relevante para o PIB de certas regiões.

Mas mesmo entre os espiritualistas que compreendem que o mundo se renova, e que um novo mundo só se inicia após a morte do antigo (assim como os dias e noites), há certos equívocos incompatíveis com reflexões um pouco mais aprofundadas...

Muitos esperam por "portais" de renovação espiritual, como se fossem pílulas de vitamina para "uma evolução espiritual instantânea" - é o fastfood da alma. Dizem que um portal se abriu, ou abrirá, hoje, 12/12/12. E daí?

Jesus já dizia, no Evangelho de Tomé, que o Reino de Deus se encontra espalhado pela Terra, mas os homens não o percebem... Todos os cantos para onde queira olhar, queira ouvir, queira sentir: todos são portais para um conhecimento que sempre esteve dentro de sua própria alma. Basta abrir o portal da alma. O Éden não foi nem será, é. Se não fosse assim, se Deus já não estivesse nos encharcando por todos os lados, de que outra forma seria?

É como dizia Tolstói, "muitos pensam em mudar o mundo, poucos pensam em mudar a si mesmos"... Todos querem ser santos, iluminados, atravessadores de portais, profetas do apocalipse. Muitos se encaminham para fora. Muitos desistiram deste mundo e anseiam pelo fim. Muitos esperam a nave mãe de alguma raça alienígena, ou que algum novo Noé apareça e os aceite em sua arca... Mas, eu lhes pergunto: e quem quer ficar? Quem quer mudar a si mesmo, e assim, um pensamento de cada vez, mudar este mundo?

Nossa mente pode nos fazer um ser iluminado, ou uma fera. Se queremos fazer deste mundo um céu, é aqui e agora que o caminho começa. Os portais sempre estiveram abertos, para aqueles que tem olhos para ver, e vontade para seguir neste caminho.

E, se for loucura seguir caminhando sem saber exatamente onde a estrada vai desaguar, não importa: faça desta loucura uma luz!

***

Crédito da imagem: Divulgação (Itsukushima Shrine)

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25.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 3

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Igne Natura Renovatur Integra (INRI) - Pelo Fogo a Natureza se Renova Inteiramente.

O fim do tempo

De tempos em tempos acontece, e nem precisa ser uma “data cheia”, como o ano 1.000 ou o 2.000 (esquecem-se de que o milênio novo se iniciou em 1.001 e 2.001, respectivamente), a última data “prevista” foi 21/05/2011, precisamente às 18h do horário local de cada país do mundo... Segundo o pastor protestante Harold Camping, os bons seriam arrebatados aos céus de acordo com seu respectivo fuso-horário: na Nova Zelândia teriam a oportunidade de se aventurar aos céus mais cedo, na ilha de Samoa seriam alguns dos últimos, já que o governo ainda não efetuou a troca de fuso-horário.

E para quem os portões do céu não se abrissem, restaria o inferno na Terra até 21/10/2011, data em que um deus colérico poria fim não somente ao planeta, mas a toda criação – o fim do Cosmos, o fim de todo o espaço-tempo!

Não é a primeira vez que Camping foi ridicularizado por uma previsão errada do fim do mundo. Ele chegou a escrever um livro sobre como o arrebatamento ocorreria em 1994, e já estava errado desde aquela época. Interessante como eles parecem não se importar... O ocultista (e ultimamente, especialista em desmistificar lendas do fim dos tempos, como a baseada no calendário maia) Marcelo Del Debbio costuma dizer que não tem coisa mais inútil do que se prever o fim do mundo – se o sujeito errar, será ridicularizado; se acertar, não restará ninguém para lhe dar atenção (há não ser aqueles poucos que conseguirem se encontrar no céu, supondo que quem previu não tenha cometido o pecado da falsidade em previsões anteriores).

Saibam que a previsão de Camping nem de longe soa tão absurda quanto a que Charles Russell realizou para 1914, e sobre a qual as Testemunhas de Jeová depositaram toda sua fé... O absurdo não é por ter se equivocado, mas porque existem Testemunhas que creem que o mundo acabou em 1914. O que vivenciamos hoje é uma espécie de sonho, uma ilusão que nos impede de perceber que o mundo já acabou. Sim, não faz sentido, mas e daí?

Um dia recebi em minha caixa de correio uma carta de uma Testemunha me convidando para visitar uma de suas igrejas. A carta era muito amável, mas o que realmente me surpreendeu é que foi escrita a mão! Fiquei imaginando quantas cartas aquela senhora escreveria toda semana, de próprio punho, provavelmente para serem descartadas antes mesmo de terem sido lidas... Os religiosos gostam de se sacrificar por suas causas, e que maior sacrifício, que maior evento divino, cósmico, que o próprio fim dos tempos?

Quando, em 1722, o explorador holandês Jakob Roggeveen alcançou, num domingo de Páscoa, aquela distinta ilha isolada do resto do mundo por muitos quilômetros de oceano, encontrou apenas alguns nativos miseráveis, com barcos de pesca precários, numa terra árida... Mas viu também os gigantes de pedra, os moais de formas humanas, que chegavam a ter até 10m e em torno de 270 toneladas. Como aquele povo miserável conseguira erguer tamanhas maravilhas?

Os moais da ilha da Páscoa nada mais eram que a testemunha de um pequeno fim do mundo local... Se hoje o cenário da ilha é desolador, fósseis encontrados na lava vulcânica de Terevaka, um deus vulcão, revelam que a ilha chegou a abrigar a maior espécie de palmeira do mundo e uma floresta tropical com mais de 21 espécies de grandes árvores. Essa foi a grande fonte de matéria prima da civilização dos Rapanui em seu apogeu.

Nessa época, entre 1400 e 1600, a sociedade se dividia em 12 clãs. Eles compartilhavam pacificamente os recursos naturais da ilha. A competição se resumia à fabricação dos moais, a partir das rochas vulcânicas. Eles representavam membros mortos das elites dos clãs. Ao longo da história da ilha, o tamanho dos moais foi aumentando, o que sugere um acirramento na competição ente os clãs ou um maior apelo aos deuses. As árvores da ilha precisavam ser derrubadas para a construção de trenós, trilhos e alavancas para a construção dos moais (além, é claro, para as canoas de pesca e residências). Infelizmente, para os Rapanui, a natureza tinha um limite...

O desmatamento desenfreado teve impactos profundos na ilha. As poucas aves marinhas que não foram extintas pela caça predatória dos Rapanui ou dos ratos, migraram. Erosões no solo dificultavam o plantio. Em 1500, já não haviam mais árvores para a construção de canoas, e então a pesca de peixes grandes desapareceu. Por volta de 1680, explodiram guerras civis, e os clãs começaram a derrubar as estátuas dos rivais (Roggeveen já encontrou a maior parte delas no chão). Nobres e sacerdotes das elites já não conseguiam justificar seus status junto aos deuses, e foram eliminados por uma milícia que assumiu o poder na ilha.

Os novos donos da ilha adotaram um deus menor do antigo panteão e começaram a desenhar homens-pássaros e genitais femininos nos antigos moais, representando a nova divindade. Faminta, a sociedade se degradou até o canibalismo – muitos foram morar em cavernas. Em 1700, 70% da população de Páscoa havia desaparecido. No lugar dos imensos moais, escultores agora faziam pequenas estátuas (os moais kavakava) que mostram pessoas famintas, com o rosto fundo e as costelas à mostra.

Após a chegada de Roggeveen, vieram às epidemias de doenças europeias, os sequestros de insulares para trabalhar como escravos no Peru, e em 1864, com a vinda dos missionários católicos, o que restava da tradição oral dos antigos Rapanui foi perdido. Em 1872, restavam 111 habitantes de um povo que um dia, estimasse, contou 15 mil pessoas. Os moais, restaurados, são a testemunha petrificada do fim do tempo de um povo – na maior parte, causado por ele mesmo [1].

Teriam os sacerdotes Rapanui previsto um fim do mundo? Nesse caso, teriam eles acreditado que o fim da ilha da Páscoa significava o fim de toda a criação? Teria sido a construção de moais cada vez maiores uma tentativa desesperada de barganhar com os deuses em troca de alguma espécie de salvação, de arrebatamento dos “puros” aos céus?

O tempo e o espaço da ilha da Páscoa soa assustadoramente como um espaço-tempo contido, uma bolha temporal, de nossa civilização como um todo... Em nossa ignorância, em nossas desavenças, cremos que deuses virão para salvar somente um pequeno grupo, uma pequena elite, “preparada” para a salvação. Para estes, estranhamente, o fim dos tempos não é uma coisa ruim. O fim de toda a vida no Cosmos se justificaria se, em troca dessa catástrofe, alguns poucos se encontrassem com algum deus estranho nos céus, para fazer “não se sabe o que”.

A história dos Rapanui, entretanto, nos traz lições de como tudo poderia ter sido diferente... Prosperaram por séculos dividindo de forma harmônica os recursos da natureza ao seu alcance. Foi o desejo de competição, de parecer “mais especial” perante aos deuses, que fez com que se arriscassem a ir além dos limites de seu ecossistema, apenas para erguer estátuas de pedra. Erguidas não para os deuses, mas para eles próprios, para que o clã ao lado se sentisse inferiorizado.

E o que tem sido a história de nosso tempo, e de nossas igrejas, senão um reflexo do tempo de Páscoa em maior escala? Senão uma tentativa desesperada para fazer os infiéis, os escolhidos dos “outros deuses”, se sentirem inferiorizados perante as conquistas e a “verdade” de suas próprias igrejas?

Houvessem eles lido nas entrelinhas da natureza, houvessem eles se apercebido que vivemos numa pequena ilha cercada de infinito por todos os lados, saberiam que todo o tempo do mundo se resume ao momento em que o ser se encara, face a face com Deus, com o Cosmos, com a substância que permeia todo o tecido do espaço-tempo... Esse momento é eterno, e se faz na consciência, no paradoxo da mente que sabe de cada momento de sua ascensão, mas ainda assim os encena com maestria, passo a passo, rumo ao que quer que seja que os gigantes de pedra estão a observar – mas não houve tempo para nos contar.


Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de edificar, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de saltar de alegria, tempo de espalhar pedras e tempo de juntar pedras, tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar, tempo de buscar e tempo de perder, tempo de guardar e tempo de deitar fora, tempo de rasgar e tempo de coser, tempo de estar calado e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz (Eclesiastes 3:1-5).

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[1] Ver o artigo “As testemunhas de pedra”, de Pedro Pracchia, na edição especial da Superinteressante sobre “O fim do mundo” (Maio/2011). Porém, esta teoria pode estar errada, conforme explico no adendo a este artigo.

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Crédito das imagens: [topo] Gary Sean Burrows; [ao longo] Micheal Kenna (Silent World).

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5.5.09

2012: Nova data marcada

Os céticos sempre reclamam que as revelações do fim dos tempos nunca estabelecem uma data marcada. Já outros defendem que o fato de várias civilizações no mundo terem apresentado narrações apocalípticas sugere que estas têm uma origem comum e ancestral (supostamente revelada ao homem por um ser dotado de inteligência superior, entre outras teorias) que foi sendo deturpada pela transmissão oral. Esta visão assume, por vezes, um carácter ecológico, ao propor que a mensagem do apocalipse se refere à capacidade que o homem civilizado tem para destruir o mundo.

A literatura apocalíptica tem uma importância considerável na história da tradição judaico-cristã-islâmica, ao veicular crenças como a ressurreição dos mortos, o dia do Juízo Final, o céu, o inferno e outras que são ali referidas de forma mais ou menos explícita. O Apocalipse de João, último livro da Bíblia, apresenta a previsão para o fim dos tempos, numa forma de escrita que ironicamente lembra em muito a mitologia pagã. A maior parte do livro é escrita em linguagem simbólica, e, por isso, dá margem a diversas interpretações pelos diversos segmentos cristãos.

Em 130 d.C. Justino, o Mártir acreditava que Deus estaria a atrasar o fim do mundo porque desejava que o Cristianismo se tornasse uma religião mundial. Por volta do Século III a maioria dos professos cristãos acreditava que o fim dos tempos ocorreria depois de suas mortes. Em 250 d.C. Cipriano, Bispo de Cartago, escreveu que os pecados dos cristãos eram um prelúdio e prova de que o fim dos tempos estava próximo. Alguns, recorrendo às Tradições Judaicas, fixaram o fim das eras na Sexta Idade do Mundo. Usando este sistema, o fim foi anunciado para 202 d.C. mas, quando esta data passou, foi fixada uma nova data. Na época de Clóvis I, considerado o fundador da França e que se converteu ao catolicismo após ser entronizado como rei em 481 d.C., alguns escritores católicos haviam apresentado a idéia de que o ano 500 d.C marcaria o fim do mundo. Depois de 500 d.C., a importância e a expectativa da vinda do fim do mundo ou das eras como parte dos fundamentos do Cristianismo foi marginalizada e gradualmente abandonada. Apesar disso, surgiu um temporário reavivamento dos temores relacionados com o fim dos tempos com a aproximação do milésimo ano do nascimento de Cristo. Muitos acreditavam na iminência do fim do mundo ao se aproximar o ano 1000... Pode-se perceber aqui um padrão. De fato, há relatos de comoção popular ante a iminência do fim dos tempos em praticamente todo final de século desde a época de Jesus. Mais recentemente, a última promessa que tivemos de um "grande desastre mundial" foi chamada de Bug do milênio, e apesar de ter sua base em argumentos lógicos, acabou não passando de mais uma previsão que não se cumpriu (o bug foi praticamente inofensivo).

Os céticos poderiam então pensar que estavam livres desse tipo de previsão por praticamente mais um século, mas não foi o que ocorreu. A última "moda" em apocalipse se chama "2012":

Em diversas culturas ancestrais o ano de 2012 é marcado nos calendários como o “apocalipse”, o “fim do mundo”, “o juízo final”, “o fim de um ciclo” e, nos mais otimistas, “o ano em que esta era terminará e outra, melhor, será iniciada”. Maias, Egípcios, Celtas, Hopis, Nostradamus e diversos profetas, Chineses e Budistas, WebBots, Cientistas e Religiosos das mais diferentes crenças afirmam que algo extraordinário ocorrerá em nosso planeta em 2012 (ou antes). Nunca antes uma data foi tão importante para muitas culturas, para muitas religiões, cientistas e governos.

Na cosmologia Maia, há 5 grandes ciclos, cada um com cerca de 5.125 anos. Quatro já passaram. " Os 4 ciclos anteriores terminaram em destruição. A profecia maia do juízo final refere-se ao último dia do 5º ciclo, ou seja, 21 de dezembro de 2012." diz Steven Alten. Portanto o 5 e atual ciclo também terminará em destruição. O que irá desencadeá-la? A resposta pode estar em um raro fenômeno cósmico que os maias previram a mais de 2.000 anos. "A profecia maia para 2012 baseia-se em um alinhamento astronômico. Em dezembro de 2012, o sol do solstício vai se alinhar com o centro de nossa galáxia. É um raro alinhamento cósmico. Acontece uma vez a cada 26.000 anos" diz John Major Jenkins, autor do livro Maya Cosmogenese 2012.

A cada 26.000 anos o sol se alinha com o centro da Via Láctea. Ao mesmo tempo ocorre outro raro fenômeno astrológico, uma mudança do eixo da terra em relação a esfera celeste. O fenômeno se chama Precessão. A data exata disto tudo é 21 de dezembro de 2012. "A Terra oscila lentamente sobre seu eixo mudando nossa orientação angular em relação a galáxia. Uma precessão completa leva 26.000 anos." diz John Major Jenkins.

O texto dos últimos três parágrafos (destacados em itálico) foi retirado do site porque2012.com, que tem uma extensiva quantidade de informações acerca do assunto. Veja a continuação do texto aqui.


Pois bem, então temos uma nova data marcada para o fim dos tempos... E dessa vez vem "respaldada" por diversas profecias e, mais especificamente, pelo que previu o calendário maia. Não quero aqui discutir a relevância de tais previsões, quero entrar em uma área mais profunda de análise: será que por "apocalipse" devemos entender realmente um "fim do mundo", ou mesmo uma mudança brusca e radical em nosso sistema de existência?

Muitos católicos rejeitam a idéia do "fim do mundo", sendo que para eles, a expressão apenas indica um estado de mudança das atuais condições do mundo para condições novas, tal como o mundo já teria sofrido outras metamorfoses no passado. Interpretam a passagem do Evangelho de João, no capítulo 14, versículo 12: "Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai." como um sinal de constante desenvolvimento e aperfeiçoamento infinito do homem.

Se os católicos moderados são perfeitamente capazes de compreender que a Bíblia, e especificamente o Apocalipse, são livros em sua maior parte escritos em linguagem simbólica, cheios de metáforas comuns a tantos tratados espirituais da humanidade, porque temos a necessidade de criar tanta comoção em torno de um fim do mundo literal, sempre que uma data em específico se aproxima? Seria porque alguns de nós estão cansados do mundo? Seria porque esperamos que "Deus desça e mude o mundo para nós"?

Dentro das teorias espiritualistas reencarnacionistas, temos a distinta idéia de que os seres espirituais vem e vão deste mundo, como gostas de chuva que caem e depois evaporam de volta aos céus. Segundo esse preceito, é necessário que os seres espirituais vivam inúmeras vidas, interpretem inúmeros papéis de si mesmos, para que apurem lentamente sua moral, seu amor e seu conhecimento. A palavra de ordem, nesse caso, se chama gradualmente: nada no universo ou na natureza opera de maneira brusca, radical, do dia para a noite. Assim como foram necessários milhões de anos para a formação da vida na Terra, não foi do dia para a noite que os seres se tornaram conscientes, e não será do dia para a noite que uma nova era de moral, amor e sabedoria se estabelecerá pela Terra.

Sob esse ponto de vista, de certa forma "2012", ou a chamada Nova Era, iniciaram-se a muito tempo, provavelmente na Revolução Francesa. Ou acaso achamos que os princípios universais, que a liberdade, a igualdade e a fraternidade (da frase de Russeau) estão desde aquela época instaurados no mundo? Claro que não... A evolução moral da humanidade opera lentamente, a passos de tartaruga talvez, mas sempre à frente. Analisando dessa forma abrangente, talvez não tenhamos a expectativa de um fim do mundo repentino e, quem sabe, mais "excitante"... Mas nossa análise moderada talvez se aproxime muito mais da realidade, do que afinal observamos na natureza e no avanço das sociedades.

Existiram decerto civilizações que "sumiram do mapa" de forma brusca. Mas não podemos dizer que isso foi obra do acaso ou da natureza: isso foi antes de tudo obra da ignorância do próprio homem, que sempre exterminou a si mesmo nesse mundo, em busca de riquezas ou de satisfazer teologias tolas... No entanto hoje estamos globalizados. Hoje somos forçados a ver o mundo de forma abrangente. Não podemos mais aceitar que o fim do mundo previsto para um povo será o fim dos tempos de todos nós. Assim como não podemos mais aceitar que Deus traga revelações apenas para um povo, e não para todos nós que aqui estamos. Deixemos a natureza seguir o seu curso. O nosso "fim do mundo" sempre decorreu de nossa ignorância da natureza e da teia que encadeia todos os acontecimentos, não apenas aqui, mas em todas as moradas do universo.

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O início do artigo contém textos retirados diretamente da Wikipedia.

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Crédito da foto: reinaldo_sjc

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