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19.7.18

Há uma religião verdadeira?

Hoje estreia em nosso blog mais uma colunista. Com vocês, Wanju Duli:


“A grande diversidade de religiões que existe no mundo dá origem ao que, na filosofia da religião, costuma ser chamado de problema do pluralismo religioso. A existência de ampla diversidade religiosa em várias culturas inevitavelmente nos obriga a perguntar quais são as implicações dessa diversidade para a verdade da religião em geral. Será que o fato de haver uma variedade de religiões no mundo significa que, de alguma forma, uma religião é tão legítima quanto qualquer outra? Ou significa que nenhuma delas pode pretender ser a detentora da verdade?”

(Religião. Conceitos-chave em filosofia, por Brendan Sweetman)

Nessa postagem eu irei me basear essencialmente no referido livro. Algumas vezes eu irei resumir conceitos apresentados nele. Porém, em boa parte das vezes irei reproduzir parágrafos inteiros da obra (entre aspas), tendo como finalidade que o argumento seja apresentado de forma mais detalhada, uma vez que o autor é um filósofo que conhece o tema em profundidade.

Brendan Sweetman apresenta três visões possíveis para responder a pergunta “Há uma religião verdadeira?”. São elas: exclusivismo religioso, pluralismo religioso e inclusivismo religioso. Iremos analisar cada uma delas.

Exclusivismo Religioso

Essa é a visão de que o caminho correto para a salvação só pode ser encontrado em uma religião. A posição estreita sustenta que só uma determinada denominação pode alcançar a salvação. A posição ampla aponta que membros de uma religião específica (digamos, cristã, independente do tipo de cristianismo) será salva.

Os exclusivistas religiosos de hoje se opõem ao termo “exclusivismo”, sugerindo em vez disso o termo “particularismo” (mais neutro).

Os exclusivistas defendem que pode haver verdades profundas em outras religiões, mas que não se pode alcançar a salvação seguindo a religião errada.

Para eles, o trabalho missionário é muito importante. Afinal, estaria em jogo a alma eterna das pessoas.

Quais são os argumentos dos exclusivistas? Primeiro, eles defendem que é razoável acreditar em Deus, usando argumentos da teologia natural. Uma vez que Deus existe, seria razoável esperar que ele revele seus planos aos seres humanos. Assim, seria preciso investigar, na história, evidências dessa revelação. Seria feita a análise das várias candidatas à verdadeira revelação e a argumentação que uma delas seria superior às outras (incluindo análise textual, teologia moral, argumentos filosóficos, etc).

Eles defendem que, por uma simples questão de lógica, nem todas as religiões do mundo podem ser verdadeiras. Mesmo que exista alguma verdade em todas elas, ainda há contradições diretas, de modo que algumas dessas religiões devem estar erradas em determinadas questões. Poderia ser o caso de que todas estivessem erradas, mas mesmo assim uma delas poderia muito bem estar mais próxima da verdade do que as outras.

O exclusivista muitas vezes rejeita as críticas modernas ao exclusivismo, alegando que muitos estão intimidados pelo multiculturalismo e pelo politicamente correto, evitando fazer perguntas difíceis sobre pontos de vista diferentes, com medo de ofender os outros. Dessa forma, os críticos do exclusivismo evitariam uma exploração mais profunda sobre a questão.

Quais são os argumentos contra os exclusivistas? Uma objeção é que, embora a lógica por trás da posição exclusivista tenha sentido, não seria possível fazer um julgamento preciso e razoável sobre qual seria a religião mundial verdadeira. Há muitos aspectos obscuros sobre evidências históricas, datação de textos, relatos de testemunhas, etc.

Outra objeção é a de que muitos não veem dificuldade lógica nem teológica na visão de que Deus pode ter se revelado de diferentes maneiras em diferentes religiões. Os exclusivistas rejeitam essa visão porque não veem dificuldade para um Deus poderoso se revelar substancialmente da mesma maneira para culturas diferentes. Por que ele chegaria ao ponto de revelar mensagens diferentes?

Uma das razões mais fortes para se rejeitar o exclusivismo segundo seus críticos é que ele parece muito injusto para os membros das religiões equivocadas. E sobre os que não seguem a religião correta por nunca terem ouvido falar dela?

A isso os exclusivistas respondem com o argumento do “conhecimento intermediário de Deus” , conhecido como “molinismo”. Segundo essa visão, além do conhecimento passado, presente e futuro, Deus também tem um conhecimento intermediário e sabe o que você teria feito se tivessem sido apresentadas às opções certas em sua vida. Para muitos, essa é uma doutrina especulativa, incompatível com o livre-arbítrio humano.

Pluralismo Religioso

É a visão de que há muitos caminhos diferentes à salvação nas várias religiões e todas têm certa legitimidade. Um forte defensor dessa visão é John Hick, que foi fortemente influenciado pela metafísica de Kant.

Kant distinguiu o mundo numênico e o fenomênico, que é o mundo como ele é e como aparece a nós. Ele afirmou que só conhecemos o mundo fenomênico, que, embora se baseie no mundo numênico, é modificado de forma significativa no ato do conhecimento. A mente humana não poderia escapar a esses atos de alteração com o objetivo de conhecer o mundo tal como ele é.

Hick argumenta que a natureza da realidade de Deus ou Realidade Última equivale ao mundo numênico. Em sua perspectiva limitada, os humanos tentam descrever o numênico, o que daria origem às diferentes religiões. De acordo com Hick, nenhuma delas detém toda a verdade sobre o Real, porque isso é impossível, mas cada uma delas tem uma perspectiva legítima sobre o Real, e por isso nenhuma religião pode pretender ser mais verdadeira ou alegar ter o caminho verdadeiro para a salvação. Isso é verdade, Hick argumenta, mesmo quando as religiões se contradizem, pois cada religião estaria tão distante de uma descrição correta do Real que as diferenças seriam irrelevantes. Elas seriam mais bem descritas como “distorções”, já que representam uma verdade que estaria muito além da compreensão humana.

Para mostrar como isso funciona, Hick e muitos pluralistas apelam para a história dos cegos e do elefante. Sua visão se tornou atrativa a muitos e é motivada por várias ideias atrativas à mente moderna: a liberdade de cada um de escolher sua própria visão de mundo, a rejeição da verdade literal das reivindicações religiosas, o aumento do relativismo moral e o desejo de não ter uma postura de julgamento em relação aos outros.

No entanto, é uma visão que vem com sérios problemas. Ela recorre a uma epistemologia antirrealista, como a de Kant, ou a um ceticismo em relação à possibilidade de os seres humanos conseguirem conhecer a verdade sobre qualquer coisa em sua experiência. Embora tenha popularidade hoje, em várias disciplinas acadêmicas (e tenha penetrado na cultura popular), devido aos problemas dessa posição epistemológica muitos relutam em se comprometer com ela.

Segundo Brendan Sweetman:

“Um problema enfrentado pela visão kantiana é que ela parece contraditória, pois está dizendo, por um lado, que, como ilustra claramente o exemplo do elefante, não há perspectiva final a partir da qual possamos julgar qual religião mundial possa ser verdadeira. Por outro lado, o próprio Hick está assumindo uma perspectiva maior, pois nos apresenta uma descrição de como as coisas realmente são! Em outras palavras, Hick está dizendo que a mente humana não consegue escapar do mundo fenomenal para descrever o mundo numênico e, ainda assim, é capaz de nos apresentar uma descrição supostamente verdadeira da realidade (e não uma descrição modificada pela mente): a de que ela consiste dos mundos numênico e fenomênico e de uma relação específica entre eles. Isso é uma contradição no âmago de todas as teorias antirrealistas: a pessoa que propõe a teoria sempre consegue escapar das estruturas relativizantes e da mente cognoscente, das quais o autor defende que ninguém pode escapar! O pluralismo também flerta abertamente com o ceticismo em relação ao conhecimento, porque se baseia na visão de que não é possível examinar as religiões do mundo da forma defendida pelo exclusivista — para ver qual delas tem mais probabilidade de ser verdadeira. Vai mais longe, argumentando que as afirmações factuais diretas nas religiões mundiais são todas falsas, como a de que Jesus ressuscitou dos mortos ou de que o anjo apareceu a Maomé, e são mais bem entendidas como metáforas para expressar o Real. Portanto, a literalidade da maioria das afirmações religiosas — que está no centro de quase todas as religiões — teria de ser abandonada. Então, para um cristão pensar que Jesus era Deus e realmente ressuscitou dos mortos para salvar a humanidade e que devemos, portanto, orar a Deus, essas crenças não devem ser consideradas literalmente verdadeiras, de acordo com Hick, e sim ‘perspectivas’ sobre o Real, que é, em si, incognoscível. E o mesmo acontece com todas as religiões. É fácil ver como essa visão convida ao relativismo e ao ceticismo sobre a religião em geral, e seria difícil distinguir do ateísmo”.

“Os pluralistas, muitas vezes, respondem a essas críticas dizendo que, na religião, o que importa não é tanto em que você acredita, mas como vive, ou, nas palavras de Hick, o que importa é que a religião possa transformar a vida de uma pessoa, de autocentrada a centrada em Deus. Se você seguir o código moral correto em sua vida, vai encontrar a graça aos olhos de Deus, independentemente de suas crenças metafísicas, teológicas e doutrinárias (e por isso essa abordagem pluralista também teria espaço para secularistas e ateus). Essa é uma visão pela qual mesmo quem não é pluralista tem alguma simpatia, mas parece que seria necessário que soubéssemos qual é a maneira certa de viver (isto é, que saibamos o que significa ter uma vida centrada em Deus). Contudo, parece que para isso teríamos que ser capazes de fazer duas coisas que os pluralistas acreditam não poder ser feitas. Primeiro, teríamos que conseguir julgar as várias religiões de acordo com seus códigos morais, mas, se pudermos fazer isso com os códigos morais delas, por que não poderíamos fazer o mesmo com suas características teológicas, sociológicas e históricas? Em segundo lugar, de modo mais geral, teria de ser possível saber qual é a verdade objetiva na moralidade e, se pudermos conhecer a verdade objetiva na moralidade, por que não podemos conhecê-la em outras áreas do conhecimento, como história, teologia e descrições da revelação?”

“O pluralismo, em suma, é ‘exclusivista’ à sua maneira, no sentido de que o pluralista quer que o exclusivista e o inclusivista aceitem a sua visão como verdadeira, e não apenas em geral, mas também em relação ao que está envolvido em viver uma vida centrada em Deus. O pluralista acredita que tem a resposta correta a isso e que as outras respostas estão incorretas. Em outras palavras, na história do elefante, o pluralista é o homem com visão, que consegue ver o quadro inteiro, incluindo a natureza do Real (o elefante), mas todos os outros são cegos! Se não fosse esse o caso, o pluralista não poderia saber que as descrições do Real apresentadas pelos cegos eram distorções inadequadas. Esses problemas são graves para o pluralismo e tem levado muitos a propor um meio-termo entre exclusivismo e pluralismo”

Inclusivismo Religioso

“Muitos consideram graves os problemas identificados tanto no exclusivismo quanto no pluralismo e, assim, gravitam em torno de uma visão que nos permita dizer tanto que a salvação pode ser alcançada em muitas religiões diferentes, mas que, no entanto, nem todas as religiões podem ser verdadeiras. Ainda pode haver apenas uma religião verdadeira. Essa visão é conhecida como inclusivismo religioso. Os inclusivistas afirmam que há apenas uma visão verdadeira de como a salvação pode ser alcançada, mas que pessoas de diferentes religiões podem ser salvas por causa da natureza dessa visão da salvação. Por exemplo, um inclusivista cristão acreditaria que a morte e ressurreição de Jesus Cristo tornam a salvação possível, não apenas para os cristãos, mas também para os membros de outras religiões. Isso é verdadeiro mesmo se os membros das outras religiões não reconhecerem Jesus ou o cristianismo: é verdade mesmo se eles acharem que Jesus não foi Deus ou que as principais afirmações do cristianismo são falsas. O teólogo católico Karl Rahner (1904–1984) e o filósofo católico Jacques Maritain (1882–1973) tinham, ambos, essa concepção”.

“O inclusivismo é atrativo para a mente moderna, porque parece preservar os pontos fortes das outras visões, evitando as suas fragilidades, mas não está isento de críticas”.

Os exclusivistas rejeitam a ideia de que não podemos investigar quais religiões do mundo provavelmente sejam verdadeiras. Também não concordam em afirmar que não há necessidade de conexão real ou essencial entre a doutrina e as crenças teológicas da religião e as suas crenças morais (como se as crenças teológicas e doutrinárias fossem falsas, mas as morais não fossem afetadas). Essa posição seria negativa para o ponto de vista lógico e enfraqueceria a posição geral da religião no debate com o secularismo, principalmente na política.

Os pluralistas, por outro lado, também não são entusiastas do inclusivismo, porque têm problemas com a ideia de que podemos descobrir qual religião é verdadeira, o que é preciso fazer para quem quer ser inclusivista. Mas reconhecem seu valor pragmático, tornando o debate de qual religião é verdadeira menos premente e menos polêmico.

Conforme Brendan Sweetman:

“Outra dificuldade para o inclusivita é que, para dizer que as pessoas de outras religiões podem ser salvas, deve-se apresentar alguma visão do que é a salvação para que a visão inclusivista tenha qualquer conteúdo e não continue a ser uma abstração vaga e impraticável. Isso vai envolver tanto uma visão teológica de salvação quanto alguma visão da vida moral correta que é necessário para a salvação. Também exigirá um argumento de que não é preciso acreditar na visão teológica para ser salvo, que viver moralmente é o suficiente, e que Deus é revelado de forma imperfeita em várias tradições religiosas. Mesmo se não pudermos chegar a um acordo sobre a visão teológica, a visão sobre a maneira correta de viver parece ser urgente, ou cairíamos rapidamente no relativismo moral”

“Concluindo, não nos esqueçamos de que todas as visões que abordamos exigem algum trabalho missionário, porque os seus defensores precisam converter os outros ao que consideram a posição correta sobre a questão da diversidade religiosa, e, como vimos, essa tarefa parece exigir que se saiba o que é verdade em matéria religiosa, pelo menos em algum nível. Essa última questão ilustra mais uma vez porque o problema do pluralismo religioso é um assunto fascinante, mas complexo, para as várias religiões do mundo moderno”.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito das imagens: [topo] Android Jones; [ao longo] wikimedia.org

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17.7.18

Odin está voltando (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre a volta do paganismo nórdico na Islândia, terra da "Edda Poética" e de Odin, o rei xamã, que também já foi andarilho e as vezes faz até bico de Papai Noel ou de mago em filmes do "Senhor dos Anéis". Através deste deus riquíssimo em simbologia, vamos compreender melhor do que diabos se trata um mito: algo que não existe, mas existe sempre!

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13.7.18

Pensamento e linguagem

É possível haver pensamento sem linguagem?

Filósofos como Platão, Descartes, Kant e Henri Bergson acham que a linguagem é a manifestação de algo “superior”, como o intelecto, as ideias, a mente, a subjetividade ou, simplesmente, a razão.

Outros, como Charles Peirce, John Dewey, Wittgenstein e Habermas, em geral os linguistas e os estruturalistas, consideram que as capacidades de raciocínio, pensamento, recordação, memória e associação, enfim, o que se rotula como “mental”, dependem do aprendizado de signos, de apreensão e interpretação de imagens e símbolos.

Eu vou tentar aqui resolver essa pendenga histórica da filosofia sem citar filósofos (exceto Descartes, pois será necessário), apelando somente para o senso lógico de vocês. Pode parecer um assunto complexo a primeira vista, destinado a ser debatido “somente pelos grandes pensadores”, mas eu acho justamente o oposto: creio que qualquer um de nós com um pouco de bom senso, e sendo encaminhado passo a passo por certos conceitos, é capaz de perceber por si mesmo, de uma vez por todas, se há pensamento sem linguagem.

Então, vamos lá! A primeira coisa que precisaremos fazer é definir o que é exatamente pensamento e linguagem. Vamos começar pelo pensamento:

Etimologicamente, pensar significa avaliar o peso ou as características de alguma coisa. Em sentido amplo, podemos dizer que o pensamento tem como missão tornar-se o avaliador da realidade. Por exemplo, você pode ver três maçãs em cima de uma mesa, e ao comparar umas com as outras, poderá dizer qual é grande e qual é pequena. Qual é a menor de todas, qual a maior de todas, e qual a que é maior do que uma e menor do que a outra. Isso, é claro, considerando que elas tenham dimensões claramente díspares ao olho nu. Maçãs muito parecidas em tamanho serão classificadas pelo pensamento como iguais, seria necessária a ajuda de uma lente de aumento ou de alguma medição científica para determinarmos com exatidão plena qual a maior e qual a menor. Ainda assim, “maior” e “menor” farão parte de conceitos interpretados pelo pensamento.

Se formos nos limitar ao conceito do parágrafo acima, parece claro que seria impossível pensar sem usar linguagem, uma vez que estaríamos sempre avaliando alguma coisa, gerando uma intepretação clara e evidente a partir de uma observação da mente. Ocorre que o pensamento não é só isso, ou pelo menos foi assim que o definiu Descartes (e esta é a última vez que citarei um filósofo nesse artigo):

A essência do homem é pensar. (Por isso eu dizia): “Sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma e que ignora muitas coisas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente”. (Logo quem pensa é consciente de sua existência): “penso, logo existo”.

Ora, pelo que foi dito acima, “penso, logo existo” seria tão válido quanto “imagino, logo existo”; ou “duvido, logo existo”; ou até mesmo “sinto, logo existo”. Nesse sentido chegamos à conclusão de que pensar não é somente o ato racional de se avaliar os objetos e elementos que percebemos em nossa mente, como também imaginar novos elementos, e até mesmo ter experiências misteriosas, como sentir dor ou amar apaixonadamente. Pois bem, agora vai faltar definirmos o que diabos é a linguagem...

Linguagem é geralmente definida como a capacidade especificamente humana para aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação. O estudo científico da linguagem, em qualquer um de seus sentidos, é chamado linguística. Os códigos e outros sistemas de comunicação construídos artificialmente, como aqueles usados ​​para programação de computadores, também podem ser chamados de linguagens – a linguagem, nesse sentido, é um sistema de sinais para codificação e decodificação de informações (guardem esse termo, “informação”).

De acordo com muitos estudiosos, a linguagem pode ter se originado quando os primeiros hominídeos começaram a cooperar, adaptando sistemas anteriores de comunicação baseados em gestos e sinais, compartilhando assim intencionalidade. Nessa linha, o desenvolvimento da linguagem pode ter coincidido com o aumento do volume do cérebro, e muitos linguistas acreditam que as estruturas da linguagem evoluíram a fim de servir a funções comunicativas e cognitivas específicas.

A linguagem, como o próprio termo parece indicar claramente, está diretamente relacionada à linguística, a capacidade exclusivamente humana de se interpretar símbolos e compartilhar informações por meio deles, como pela leitura e escrita de alfabetos, ou simplesmente pela vocalização de palavras e conceitos através da fala. Quem defende essa tese dirá que um papagaio pode até repetir o que um ser humano fala, mas não compreende aquilo que repete. Mas, será mesmo que os animais não possuem linguagem?

Bem, eu poderia citar a gorila Koko, por exemplo, que chegou a aprender mais de mil palavras e sinais, e conseguiu se comunicar claramente, embora de forma bem rudimentar, com pesquisadores. Mas ao invés disso vou trazer abaixo um vídeo gravado no Dolphin Quest Oahu, em Honolulu no Havaí, onde peixes treinados são capazes de reconhecer figuras geométricas (símbolos), e assim conseguir alguma comida em troca:

Seriam tais peixes capazes de compreender códigos simples? Seria a gorila Koko um exemplo vivo do surgimento da capacidade de interpretação de linguagem humana entre os animais? Isto vocês que devem definir, pois a maioria dos especialistas parece ter a certeza de que animais não compreendem linguagem.

Mas, para arrematar, precisaremos voltar a Descartes (ops, trouxe um maldito filósofo outra vez, me desculpem)...

Vocês se lembram que ele definiu o pensamento como algo que se imagina e que se sente, não é mesmo (está alguns parágrafos acima, caso queiram reler)? Pois bem, então imagine que você está imensamente apaixonado por alguém, como exatamente você vai explicar o seu sentimento em linguagem, em códigos simbólicos, em palavras escritas ou vocalizadas? Parece problemático, não?

E não precisamos nos referir a nada tão misterioso e transcendente como o “sentir amor”, ou ainda o “sentir dor”, ou mesmo o “adorar a Deus” ou “se assombrar com a Natureza”, podemos ter o mesmo tipo de problema ao observar aquelas mesmas maçãs em cima da mesa, e tentar explicar como exatamente percebemos “a vermelhidão do vermelho” em suas cascas. Pois que, no fundo, as palavras são tão somente cascas de sentimento, incapazes de abarcar completamente o sentimento e a imaginação humana (não a toa há um ditado popular que diz: uma imagem vale mais do que mil palavras).

Se um cientista, um linguista, quiçá um filósofo especialista em linguagem, fosse capaz de definir o amor em palavras, a poesia seria então ciência ou filosofia, e não arte.

Dessa forma, me parece que é claro que, dadas as definições usuais para “pensamento” e “linguagem”, que o pensamento precede a linguagem: enquanto esta é o fruto, aquele é a semente. E não só isso: há pensamentos que jamais conseguirão ser expressos claramente ou inteiramente em linguagem, há horizontes da mente humana intransponíveis, que jamais poderão ser comunicados inteiramente tanto aos demais, como a própria mente que “pensa, logo existe”.

Se, no entanto, consideramos a linguagem como um processo que lida com qualquer tipo de informação mental, não somente as humanas, ou as capazes de serem codificadas e decodificadas em linguagem humana, então seria melhor dizer que é impossível haver pensamento sem informação (e não sem linguagem)!

Informação, etimologicamente significa “dar forma a mente”. Me parece que os antigos, portanto, já tinham todo o mistério resolvido lá atrás: o pensamento dá forma a mente, mas não necessariamente uma forma unicamente racional, exprimível em linguagem humana. Muitas vezes, pensar é dar forma ao amor, dar forma ao medo, dar forma ao assombro perante o mistério da vida. Existimos, enfim, não somente porque sabemos que uma maçã é maior do que outra, mas essencialmente porque percebemos o vermelho, e não há outro instrumento na Natureza capaz de fazer o mesmo: interpretar o mundo, e não somente computar informações em linguagem.

Enfim, somos seres e não robôs. Se isto é algo “superior” ou “divino”, vai da crença de cada um. Mas não podemos ignorar os fatos, não podemos fingir que somos coisas pensantes, pois não há “coisa pensante”.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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11.7.18

Os 10 melhores livros sagrados (Reflexões no YouTube)

Para comemorar o décimo episódio de REFLEXÕES, trago minha singela lista com os dez maiores, melhores e mais importantes livros sagrados da história da humanidade até aqui (na minha humilde opinião é claro). Desde o "Cosmos" de Sagan ao "Bhagavad Gita", iremos transitar por filosofia, religião, espiritualidade e ciência, sempre em busca da experiência com o Sagrado, ou Natureza, ou Substância, ou Tao... bem, você entendeu!

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6.7.18

Lançamento: O Livro da Reflexão, vol.4: A medida de todas as coisas

As Edições Textos para Reflexão trazem mais um presente a todos os fiéis leitores deste blog, assim como a todos que um dia também virão refletir conosco. Afinal, a luz foi criada para ser refletida!

"Textos para Reflexão é um blog que fala sobre filosofia, ciência e espiritualidade. Este é o quarto e último volume da série O Livro da Reflexão, que pretende ser uma coletânea dos melhores textos do blog. Nesta edição pretendo abordar a filosofia e algumas das questões do nosso mundo atual, todas temas recorrentes em minhas reflexões."

Um livro digital disponível para download gratuito em diversos formatos:

Baixar grátis (ePub) Baixar grátis (mobi) Baixar grátis (pdf) Ver no Scribd (pdf) Baixar grátis (Amazon Kindle) Baixar grátis (Kobo) Comprar versão impressa

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» Baixar outros volumes do Livro da Reflexão


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3.7.18

Poesia e desassossego, com Fernando Pessoa (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo convido meu grande amigo, o poeta português Fernando Pessoa, para me auxiliar a explicar o que vem a ser a poesia, esta estranha arte que lida com as cascas de sentimento. Também iremos analisar as três camadas de interpretação da antiga frase, "Navegar é preciso, viver não é preciso". Ao final, recito um dos poemas mais místicos de Pessoa, "Iniciação".

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2.7.18

Gibran, a luz do Líbano

Gibran Khalil Gibran, mais conhecido no Brasil como Khalil Gibran ou apenas Gibran, foi o maior poeta do Líbano e um dos maiores poetas de todos os tempos, pelo menos no que tange a poesia mística. Além de poeta, foi filósofo e pintor de relativo destaque. Mas sem dúvida é hoje mais conhecido pela sua literatura, sobretudo por sua obra-prima, O Profeta.

Ele nasceu em 6 de dezembro de 1883, de família pobre. Cresceu em zona montanhosa próxima a uma floresta de cedros milenares, num dos berços mais antigos da própria civilização humana.

Em 1894 emigra para os EUA com a mãe, o irmão e duas irmãs. Apenas seu pai fica no Líbano. Gibran passa cerca de 4 anos em Boston com sua família, mas em 1898 retorna a sua terra natal para completar seus estudos árabes no Colégio da Sabedoria, na capital Beirute. Passados menos de 2 anos, retorna a Boston e passa a se dedicar a pintura e a literatura, sendo sustentado pela família.

Entre abril de 1902 e junho de 1903, Gibran perde uma irmã e um irmão para a tuberculose, e vê a mãe morrer de câncer. Resta apenas sua irmã Mariana, o que obriga Gibran a correr atrás de algum retorno financeiro para sua pintura (algo que já era difícil naquela época). Felizmente, numa de suas primeiras exposições conhece Mary Haskell, diretora de uma escola em Boston, que se torna uma mecenas e confidente durante boa parte de sua vida.

Com a ajuda de Haskell, em 1908 vai estudar arte em Paris e chega a conhecer e ter algumas aulas com o escultor Auguste Rodin. Voltando aos EUA em 1910, já tem sua carreira artística inicialmente consolidada, e decide se mudar para um estúdio em Nova York. Lá ele passará o resto da vida.

Em sua terra natal, seus livros em árabe já o tinham tornado um escritor muito reconhecido. Entretanto, após decidir traduzir alguns de seus livros do árabe para o inglês, ele acaba alcançando certo sucesso editorial também nos EUA; para tal, contou com a ajuda do seu editor, Alfred Knopf, e com as revisões e o aconselhamento de sua amiga, Mary, que nessa altura já não tinha mais necessidade de lhe manter financeiramente.

É a partir do sucesso de O Profeta, lançado em 1923, que Gibran passa a ser reconhecido como grande escritor, além de pintor. Com o passar das décadas, ele será lembrado em todo o Ocidente e no Oriente Médio como o grande poeta do Líbano. No entanto, Gibran mal participa desta fama internacional, uma vez que falece já em 10 de abril de 1931, em decorrência de uma crise pulmonar (a sua saúde sempre fora frágil).

A filosofia do coração
Segundo Mansour Challita, diplomata libanês que ajudou a traduzir boa parte de sua obra para o português, “Gibran não era um filósofo no sentido transcendental da palavra. Não trouxe uma nova doutrina, uma nova interpretação do universo. Ele era um filósofo no sentido humano da palavra, um pensador, um guia.

Gibran nos trouxe o que talvez mais falte a nossa época, tão rica e tão pobre ao mesmo tempo: uma nova fé no homem, uma nova fé na vida. Ele redescobriu o papel do coração. Pregou a ternura no meio das máquinas e da concorrência impiedosa dos nossos tempos.”

Como tão bem descrito em O Profeta, Gibran não veio nos ensinar nada novo, mas simplesmente nos ajudar a florescer. A sua filosofia era mais coração que razão, mais poesia que lógica:

Homem algum poderá lhes revelar nada além do que já se encontra meio adormecido na aurora do que vocês já conhecem. O mestre que caminha à sombra do templo, junto aos seus alunos, não doa da sua sabedoria, mas antes da sua fé e da sua compaixão. Se ele é realmente sábio, não lhes convidará a adentrar na mansão da sua sabedoria, mas antes deverá lhes guiar até o limiar de suas próprias mentes.

O astrônomo poderá lhes falar de sua compreensão do espaço, mas não poderá lhes doar esta compreensão. O músico poderá cantar para vocês seguindo ao ritmo que existe em todos os espaços, mas não poderá lhes conferir o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a ecoa. E aquele que é versado na ciência dos números poderá lhes falar do mundo dos pesos e medidas, mas não poderá lhes encaminhar até ele.

Pois a visão de um homem não empresta suas asas ao outro. E assim como cada um de vocês se encontra isolado na consciência de Deus, da mesma forma cada um de vocês deve ter o seu próprio conhecimento de Deus e a sua própria compreensão do que jaz na terra.

Os filhos
Gibran acreditava no porvir, na lenta e gradual evolução espiritual da humanidade. Isso se refletia na forma com que tratava as crianças. Apesar de nunca ter tido filhos, Gibran parecia saber muito bem de onde eles vêm:

Seus filhos não são seus filhos. Eles são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vocês, mas não de vocês, e embora eles vivam ao seu lado, eles não pertencem a vocês.

Vocês podem lhes dar seu amor, mas não podem formar seus pensamentos, pois eles possuem seus próprios pensamentos. Vocês podem abrigar seus corpos, mas jamais suas almas, pois suas almas residem na Mansão do Amanhã, que vocês não podem visitar nem mesmo em sonhos.

Vocês podem lutar para ser como eles, mas não procurem fazê-los como vocês. Pois a vida não anda para trás e nem se demora com o ontem.

Não a paz, mas a espada
Gibran sempre foi muito intenso, seja na poesia, seja na pintura, seja em sua vida pessoal (o que pode ser conferido nas cartas que trocou com Mary). Ele parece ter vivido com o coração aberto, mas isto não significa que achava que o amor era algo “tranquilo e pacífico”. Assim como o Cristo, Gibran via no amor uma verdadeira guerra, uma guerra interna:

Quando o amor lhes acenar, sigam-no, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas, embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir. E quando ele lhes falar, acreditem no que diz, embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim.

Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica. E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda. E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol, também desce até suas raízes e as sacode em seu apego à terra.

Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si. Ele os debulha para expor-lhes a nudez. Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas. Ele os mói até a extrema brancura. Ele os amassa até que se tornem maleáveis. Então ele os encaminha ao fogo sagrado, para que possam se tornar o pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor irá operar em seu interior para que conheçam aos segredos de seus próprios corações, e através deste conhecimento se tornem um fragmento do coração da Vida.

Entretanto, acaso em seu medo vocês buscarem apenas a paz e o prazer do amor, então será melhor que cubram a sua nudez e abandonem ao açoite do amor, para que deem risadas num mundo sem estações, mas nem todos os seus risos; e chorem, mas nem todas as suas lágrimas.

O amor nada oferece além de si mesmo e nada recebe além de si mesmo. O amor não possui, e tampouco pode ser possuído; pois o amor se basta em si mesmo.

Quando você ama não deveria dizer, “Deus está em meu coração”, mas sim, “Eu estou no coração de Deus”.

Na floresta
Se em O Profeta Gibran chegou ao limite da linguagem, em alguns de seus poemas isolados ele chega naquela zona mística onde as palavras já não dão conta de cobrir todo o entendimento. Assim, encerro aqui meu breve translado pela vida e a obra da luz do Líbano com Na floresta, talvez o seu poema mais inefável:

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão,
se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos,
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar...
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor,
pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.

Na floresta não há crítico nem censor.
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: “Que estranho”.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho...
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura,
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: “Ele é desprezível e eu sou um grande senhor”...
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: “Ele é temível”.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis.

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera.
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração,
pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

***
 
Bibliografia
O Profeta, Khalil Gibran (a tradução de Rafael Arrais pode ser encontrada em e-book na Amazon); O Grande Amor do Profeta, com as cartas de Khalil Gibran e Mary Haskell (livro fora de tiragem, mas pode ser achado em sebos); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Arte para o filme O Profeta; Pintura do próprio Khalil Gibran.

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