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30.10.17

Um papo com Laudo Ferreira, autor de Yeshuah

Veio como uma criança indefesa, outros dizem que é lenda.

Há dois mil anos falamos dele. Ele mudou o mundo e cada um de nós, mesmo que não tenhamos consciência disso.

É a figura histórica a respeito de quem mais se escreveu, mais se inquiriu. As divergências na compreensão de seus ensinamentos já existiam entre os próprios apóstolos, antes mesmo de sua partida. Embora suas palavras, registradas por seus seguidores conforme se lembravam delas no mínimo trinta anos depois de sua morte, sejam simples, transmitindo conceitos básicos repetidos de diversas formas, o entendimento não é fácil, pois supõe uma mudança interior.

[...] Onde encontrá-lo?

Cada um que procura o seu Jesus o encontra dentro de si mesmo.

E nessa multiplicidade de seres ele se esparrama como chuva de estrelas, cada uma com seu brilho próprio, feitas, no entanto, todas da mesma essência de luz. Qual é mais verdadeira que as outras? Na obra aberta, como é a obra de Jesus, a maravilha é que todas são verdadeiras.


O texto acima é parte do prefácio de Júlia Bárány Yaari para a HQ Yeshuah (Salvação), de Laudo Ferreira (com arte-final de Omar Vinõle; Ed. Devir), e que considero uma das 5 melhores da história.

Não é que eu não entenda de quadrinhos, já li Promethea de Alan Moore, Nausicaä de Hayao Miyazaki, Dreadstar de Jim Starlin, e até mesmo Calvin e Haroldo de Bill Watterson. Portanto, não é a toa que a coloco entre tais obras.

Se ainda não a conhece, recomendo ouça o belo depoimento que seu autor, Laudo Ferreira, deu para o podcast Papo na Encruza, de um pessoal muito gente boa e entendido dos paranauês [1] (vão reparar que eu sou um dos caras que mais enviou perguntas durante o programa):

Gostou do que ouviu? Você pode encontrar Yeshuah Absoluto na Amazon, e comprando por este link ainda estará ajudando o blog.

***

[1] Um dos apresentadores, Roe Mesquita, é o incrível ilustrador do nosso Tarot da Reflexão. Também recomendamos o episódio onde Leo Lousada, do canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, fala sobre a Kabbalah.

Crédito das imagens: Laudo Ferreira (Yeshuah)

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23.10.17

Gibran e a nudez na arte

Recentemente tivemos muitas polêmicas envolvendo arte, nudez e sexualidade no país. Agora que a “fervura” já passou, penso que ficou mais simples identificar os extremos: gente que nunca vai em galerias de arte invadindo exposições com certa truculência e vendo pedofilia onde não havia; e, no polo oposto, gente não admitindo que as pessoas se sintam nem um tiquinho incomodadas com uma criança tocando a perna de um homem nu.

Eu a princípio nem iria trazer este assunto aqui para o blog, mas por acaso estou no meio da leitura do fantástico O grande amor do profeta, com as cartas trocadas entre Khalil Gibran e sua grande amiga e confidente, Mary Haskell, incluindo trechos do diário dela. Ocorre que há um século atrás, Haskell esteve decorando o interior de seu colégio em Cambridge (próximo a Boston) com alguns dos quadros de Gibran (que também foi exímio pintor). Conforme as obras continham nudez, e o colégio era frequentado por menores de idade, houve protestos dos pais, e então o que se seguiu está descrito no livro (organização de Virginia Hilu, tradução de Valerie Rumjanek, editora Record).

Penso que este episódio secular ainda é capaz de jogar alguma luz até mesmo em nossa polêmica atual:


Mary Haskell
Escola Cambridge (Cambridge – Massachusetts)
10/10/1920

[...] Não cheguei a lhe mandar minha carta devido a uma nuvem dentro de mim, e porque queria muito lhe falar sobre isso e ao mesmo tempo não lhe queria contar coisa alguma. Pois fiquei magoada, e o fato de dizer-lhe iria magoá-lo também. Mas vou lhe contar tudo:

Uma senhora me disse que não matricularia seu filho em meu colégio porque eu tinha O Crucificado [um dos quadros de Gibran] na parede. E dois ou três professores disseram que achavam desaconselhável pendurar na parede A Mãe Celestial e, até mesmo, O Cordeiro Orou em Seu Coração [mais quadros, todos de temática místico-cristã]. Ainda agora, não consigo compreendê-los, e isso torna as coisas confusas a meus olhos, enquanto escrevo.

O pior de tudo é escrever a você sobre isto. Se pudesse ocultar o rosto que faz com que as pessoas vejam o que eu sinto, eu o ocultaria. Dizem que os quadros fazem as meninas se sentirem constrangidas e que elas não são capazes de sentir o lado “espiritual” dos desenhos.

O que sinto a respeito dos nus dos quadros que tenho aqui é que as meninas têm uma sorte extraordinária de tê-los a sua volta, entre as pessoas que amam e respeitam. Sua presença lhes ensina que nada há de vergonhoso na nudez ou no corpo humano – e que isto não é um tabu entre pessoas esclarecidas – e que não precisa causar constrangimento a uma moça. Os quadros são uma presença silenciosa e tranquilizadora. E, se uma menina deseja ver corpos nus, que os veja abertamente aqui, e seja poupada da vergonha por seu desejo.

Se ela quer ver nudez, por que não satisfazer seu desejo? Não vejo nada de mal nisso. Ter aqui todos os quadros que amo seria a coisa melhor que esta escola poderia fazer pela juventude – e não é preciso que se diga uma só palavra acerca de um único quadro para que ele produza efeitos positivos. O próprio fato de estarem nesta escola parece dizer às moças: “O que veem em nós é bom, e é bom que o vejam”.

A preocupação com a influência que os quadros possam exercer nas meninas parece-me, apenas, parte de uma mentalidade complicada e cheia de temores. Digo a mim mesma que é “natural” e lembro a mim mesma o quanto desta mentalidade eu tinha e ainda tenho. Mas o que realmente não sei é quando enfrentá-la ou deixá-la de lado, se a escola está envolvida. E, por não saber o que fazer, nada fiz. Coloquei O Crucificado em meu próprio quarto, e O Contemplador [outro quadro de Gibran, porém sem nudez] ficou ótimo no lugar do primeiro, no meu gabinete.

Com amor,
Mary


Khalil Gibran
Nova York
11/10/1920

Adorada Mary:

A coisa mais sensata e delicada a ser feita é retirar das paredes todos os quadros que ofendem as meninas e suas mães. Pensar que um desenho meu está causando constrangimento a alguém, físico ou espiritual, é uma fonte de sofrimento e infelicidade para mim.

Não podemos pregar a castidade do nu. As pessoas devem descobri-la por si mesmas. Não podemos conduzir as pessoas ao coração da vida. Elas devem ir por sua própria vontade, e cada uma deve ir só.

Eu lhe imploro, querida Mary, que retire todo desenho sobre o qual você tenha ouvido a mais leve restrição.

E, afinal de contas, por que motivo isto deveria perturbá-la ou a mim? Não há nada que deva fazer com que as coisas se tornem negras diante de seus olhos ou diante dos meus. O que as pessoas sentem ou pensam faz parte da vida, e você e eu sempre aceitamos tudo na vida. A raiz de uma árvore não é inferior ao seu ramo mais elevado.

Com amor,
Khalil


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Crédito das imagens: Khalil Gibran (alguns de seus quadros)

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17.10.17

A filosofia para viver bem (parte 3)

« continuando da parte 2 | ler do início

3. O homem encontra Deus

Se Montaigne, assim como os céticos, se sentia a vontade com um mundo estranho, do qual não podemos saber tudo sobre ele, que está sempre a nos surpreender com algo novo, não podemos dizer o mesmo de René Descartes.

Em suas meditações, Descartes partiu do ceticismo. A dúvida era o seu método. Questionou absolutamente tudo para saber o que poderia ser realidade e o que era falso.

Após duvidar de todas as verdades, chegou a uma conclusão: ainda que ele duvidasse de tudo, não poderia duvidar dele mesmo enquanto aquele que duvida. Daí “penso, logo existo”.

É deste modo que levando a dúvida até suas últimas consequências, Descartes chega num ponto de certeza, um critério confiável para a verdade. Se eu penso sobre o mundo, posso até duvidar que meus pensamentos sobre o mundo sejam falsos ou verdadeiros, mas não há dúvida que eu de fato os pense. Voilà, a consciência.

Claro que Descartes não passou sem críticas. Leibniz criticou o pensamento cartesiano como circular, não havendo uma demonstração real de uma certeza. O “eu” conduz ao “penso”, e vice-versa. Já Nietzsche percebeu em Descartes uma série de pressupostos como “eu” e “pensamento” dos quais eles também podem ser colocados em dúvida, e, portanto, não há a menor certeza de suas existências. Bertrand Russell disse que Descartes pode objetar no máximo que existe pensamento, mas jamais que o pensamento é produto do eu.

De qualquer modo, somos cartesianos. O pensamento de Descartes foi fundamental para a Modernidade. A partir de então, não somos mais guiados por critérios externos de verdade como no Mundo Antigo – o mundo ou os deuses – mas referidos à subjetividade e a consciência.

É curioso, no entanto, que Descartes em algum momento precisou apelar para Deus para sustentar seu pensamento.

Afinal, como não imaginar que a verdade talvez seja um engano criado por um gênio maligno que queira nos dissimular?

Descartes responde: se há o imperfeito, é porque há o perfeito. Caso contrário, não haveria sentido supor uma perfeição. E Descartes supostamente já havia chegado num conhecimento perfeito para a consciência: penso, logo existo.

Deus é a própria perfeição, externo ao próprio mundo, mas que garante sua existência ainda que imperfeita. O pensamento não poderia existir se não existisse um Deus que o garantisse, e não um gênio maligno tentando nos enganar sobre isso.

Ou seja, se há verdade, há Deus.

A filosofia sempre esteve às voltas com o problema de Deus, mas nunca conseguiu se livrar Dele. Não faltaram tentativas.

Mesmo um pensador como Spinoza – cujo objetivo era erradicar toda transcendência e afirmar um mundo de imanência absoluta, em que não há outra coisa senão tudo o que há e podemos ver/sentir – chegou a uma ideia de Deus. Claro que o pateísmo de Spinoza se diferencia da visão dos religiosos ortodoxos sobre Deus, em que Ele existe enquanto entidade pessoal.

O Deus de Spinoza é imanente. Nós e Ele somos Um só. O Universo e Ele também. Nós e todas as coisas somos a mesma coisa, e não há um mais-além da realidade do Um. Ou seja, não há espaço na filosofia imanente para a transcendência de Deus que Descartes imaginou.

E Spinoza chega a Deus justamente porque não era possível chegar a qualquer outra coisa.

Não. Eu não estou falando que Deus existe.

Estou dizendo que há um ponto de absurdo em que a própria realidade não faz sentido se não cedermos dos questionamentos, do ceticismo. Tal como fizeram Descartes ou Spinoza.  Precisamos inevitavelmente tomar algo a priori como infalível e disso tirar todas as conclusões consequentes.

A Ciência tem Deus no seu próprio método científico. Este que pode colocar tudo em dúvida, questionar a realidade, descobrir a verdade do universo. A única coisa que fica fora de questão é o próprio método científico.

Qualquer filósofo, por mais ateu, tem que admitir Deus em algum ponto do seu pensamento. Não enquanto a entidade que os religiosos pensam existir. Mas justamente enquanto este ponto de incongruência que faz todo o restante do universo ser coerente, e não sermos meros céticos a duvidar de tudo indefinidamente, como fizera Pirro, jamais chegando a qualquer certeza.

Para os analíticos, são os pressupostos lógicos que servem de base para o pensamento. Já os construtivistas encontraram Deus na História: tudo é um fato histórico, e pode ser explicado por ela, não havendo nada de real para além da mesma.

A ideia que existe um vazio por baixo de tudo não é muito reconfortante. Todos nós assumimos irracionalmente algum ponto de certeza – convictos dele de forma bastante emocional – para dar sentido e orientar nosso pensamento. Negamos assim que a realidade possa ser apenas um absurdo.

Se podemos relacionar o epicurismo ao hedonismo e o estoicismo ao ascetismo, o ceticismo chega na modernidade sob a forma do niilismo. A ausência de um critério absoluto que possa definir a realidade. Mais do que a morte de Deus, o niilismo é a radicalização do ceticismo sob o entendimento de que a dúvida é a única certeza. Não há um significado para a existência, tampouco um objetivo para estarmos vivos. As coisas simplesmente existem.

Estamos acostumados a imaginar que por detrás das aparências existe uma verdade oculta, a qual devemos buscar para compreender melhor o mundo. A perspectiva niilista é que, por detrás das aparências, não há outra coisa senão o Vazio. As aparências são tudo que temos enquanto existência, e não há uma verdade mais além disso, apenas uma existência negativa: o Vazio.

O niilismo se tornou o grande bicho-papão da modernidade. Muitos o identificaram como depressivo, trágico, destrutivo. Coube finalmente a alguns franceses – sempre eles – subverterem isso. Mas veremos no próximo texto.

» Continua aqui

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Felix Russell-Saw/unsplash

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16.10.17

Reencontro

Onde fica o ponto de encontro
comigo mesmo?

“Nas montanhas!”, diz o ser das planícies;
“Na floresta!”, diz o ser dos desertos;
“No fundo do mar!”, diz o ser celestial...

Mas em que tempo é isso?
Como pode haver tanta guerra,
tanto ódio e escuridão?

“É aqui e agora”, diz o sábio;
e então, ele continua:
“Sabemos da luz porque há sombra no mundo;
buscamos amor porque já odiamos demais,
e estamos cansados desta guerra
na qual jamais nos alistamos.

No fim do caminho,
no fim de todos os tempos, do tempo em si,
o amor já venceu,
o ser já respira a plenitude
do sentido de todas as coisas.
Ele observa este grande escoamento
e percebe a sua direção:
aqui e agora, na eternidade
desta breve iluminação,
tudo que há
é amor e canção.”

(ouçamos...
a música se inicia com os versos
mais belos e antigos da Criação...)

Embriagado em tais cascas de conhecimento
do ser em si,
eu retiro todas as barreiras que me impediam
de estar aqui, neste momento:

Quando minha alma se deita nesta grama
nem eu já me interesso mais de mim;
dissolvido, me deixo levar pelo vento...

(os trovadores continuam dedilhando
suas violas mágicas...
tudo ressoa o eco da canção...)

Ó, Jalal ud-Din, eu vejo as faces
tristes e risonhas de todos os seres,
de todos os bêbados cambaleantes,
de todos os poetas e cancioneiros,
de todos os anjos e forasteiros;
e é nelas que me reencontro,
nelas que sinto:
eu sou você.


raph'17

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Crédito da imagem: Lucas SankeyUnsplash

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13.10.17

O voo interno de Estas Tonne

Como um trovador dos dias atuais, eu viajo a incontáveis locais e encontro inspiração em diversas culturas sem me identificar especificamente com uma única nação ou país, mas antes com a riqueza cultural de todo o mundo. Minha música é o reflexo de uma estrutura clássica, com técnicas do flamenco, raízes ciganas, e características latinas. Meu nome é Estas Tonne.


Estas Tonne, apesar de nascido na Rússia, é um músico do mundo. Já tem diversos álbuns gravados que são distribuídos gratuitamente na web, mas o que é mais interessante é como eles foram gravados – como afirma o próprio músico: "Cada álbum é um demo gravado ao vivo. O que significa caminhar em um estúdio e tocar o que se sente."

Recentemente ele publicou no YouTube uma espécie de poema seguido de belíssimas imagens e, é claro, do seu violão mágico. Respire fundo, aperte o play, e sinta Internal Flight, the movie (Voo Interno, o filme):

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Crédito da foto: Divulgação/Estas Tonne

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7.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 2)

« continuando da parte 1

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

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Pistis Sophia
Ainda no gnosticismo, num dos evangelhos considerados apócrifos há uma referência a Pistia Sophia como “a Toda Progenitora”, ou seja, a criadora de todas as coisas da alma. Sophia, que também quer dizer “sabedoria”, é também muitas vezes vista como o aspecto feminino de Deus, ou a Alma ela mesma, isto é: a Alma do Mundo.
Segundo algumas vertentes gnósticas, é de Sophia que vieram todas as almas, mas infelizmente acabaram aprisionadas no mundo do Demiurgo, o mundo material, e o equivalente a Jornada do Herói de cada alma individual seria justamente, através da gnose espiritual, conseguir retornar para sua casa, a Grande Alma.
Ora, quando K. vai investigar o orfanato onde teria crescido a criança que procura, acaba tendo uma experiência de rememorar algo que supostamente havia sido implantado em seu cérebro de replicante: uma memória de quando era criança, sendo que ele teoricamente nunca havia sido criança. Ao encontrar o objeto que havia escondido na época de sua memória, um pequeno cavalo esculpido em madeira, no mesmo local, só que no mundo real, K. prontamente passa a considerar que ele mesmo poderia ser a criança, isto é, que ele próprio era o milagre que estava buscando.
Mas ele duvida, a memória poderia ser falsa ainda assim, e tudo poderia ser algum complô estranho. Assim, K. vai até a designer de memórias de Wallace: Dra. Ana Stelline, uma freelance que trabalha fornecendo as memórias infantis mais realistas possíveis para a nova linha de androides. Ao encontrá-la num galpão hermeticamente vedado, K. descobre que a designer havia nascido com uma doença grave (que lhe conferia baixa imunidade), e que havia passado boa parte da vida naquele galpão, isolada atrás de uma barreira de vidro. No entanto, naquele espaço puro, livre do peso e das doenças daquele mundo de chumbo, a designer, isto é, a própria Sophia, podia trabalhar livremente naquilo que sabia fazer melhor: criar belas memórias. Mesmo assim, memórias falsas.
Ocorre que K. pede a ela que analise sua própria memória, que não é exatamente uma memória feliz, e ela percebe que se trata de uma memória real, “pois memórias reais trazem sentimentos reais, e são facilmente identificáveis”. O estranho da cena toda é que, apesar de K. ficar transtornado com a confirmação de que sua memória era real, a própria designer parece ainda mais abalada que ele. Só saberemos o porquê na última cena do filme [1].

A terrível perfeição
Ainda segundo as antigas fontes gnósticas, uma das intepretações associa o Demiurgo a Samael, o Anjo da Morte, o Anjo Caído, o Deus Cego. O fato de Wallace ser inteiramente cego no filme apenas corrobora esta metáfora. Ora, Samael, tendo sido expulso do Céu, leva consigo sua hoste de “anjos perfeitos”, que assim atuam em seu nome. Obviamente que tais anjos são terríveis em sua perfeição, pois seguem as ordens do Demiurgo sem pestanejar, como seres sem alma, psicopatas. No filme, a personagem Luv é justamente um desses anjos, um anjo replicante, que segue o Deus Cego de forma dogmática.
Porém, tanto K. quanto Luv são fruto da nova linhagem de androides, e de certa forma ambos perseguem o mesmo milagre (a criança), ainda que por razões diversas. Outra questão interessante sobre ambos é que K., apesar de passar por fortes reações sentimentais em seu interior, praticamente não as demonstra; já Luv, que age sempre de maneira fria e calculista, por diversas vezes derrama lágrimas no filme, lágrimas que parecem tão artificiais quanto sua alma [2]. Impossível não reconhecer aqui, novamente, a dualidade entre nossos pensamentos materiais (Luv) e espirituais (K.); sim, pois como já disse Joseph Campbell, todos os mitos dizem respeito a nós mesmos.
A cena onde K. derrota Luv literalmente debaixo d’água é mais um simbolismo de nosso inconsciente: o pensamento materialista não foi extirpado de nós, continua lá no fundo, mas agora é nosso lado espiritual que surge do inconsciente para dar real significado a vida. O monstro terrível, angelical e sedutor, foi enfim domesticado – K. é o herói a assumir o timão de sua própria embarcação.

Deckard, o Ancião
Em sua longa investigação, K. acaba descobrindo que a mãe replicante era Rachel, a personagem pela qual Deckard, o Blade Runner do primeiro filme, se apaixona. Eventualmente K. parte para encontrar Deckard escondido num cassino abandonado numa zona de alta radiação, onde teoricamente não habitam humanos. Seguem-se algumas das cenas mais belas do cinema neste nosso século, e eles eventualmente se encontram. Inicialmente Deckard tenta se livrar de K., mas acaba sendo convencido de que ele viera para ajudar.
Nesta altura K. acredita que Deckard é seu pai, mas não chega a contar nada. Ainda que de forma brevíssima, Deckard assume o papel de Ancião ou de Mestre, aquele que aconselha o herói. Infelizmente, no entanto, não há muito tempo para que eles convivam, pois os lacaios de Wallace vêm em seu encalço e acabam sequestrando Deckard.
Noutra cena essencial do filme, Deckard se encontra aprisionado na sede da corporação de Wallace, e este lhe apresenta uma cópia supostamente exata de Rachel (ainda jovem, claro), tentando lhe seduzir para que ele pudesse contar onde diabos está a criança, o milagre. Obviamente, o grande objetivo do Demiurgo é exterminar a alma, e tornar o mundo puramente material. Interessante que os sonhos de ascensão ao Paraíso no mundo de Wallace correspondem às colônias humanas noutros planetas. Porém, são literalmente paraísos artificiais, uma vez que tudo o que Wallace consegue produzir é sintético. Mesmo os seus replicantes não passam de androides estéreis, ele jamais conseguiu fazê-los se reproduzir.
Ao observar a cópia de seu grande amor, no entanto, Deckard afirma para o Demiurgo: “não é ela, eu sei o que é real”. Ora, o que é real é justamente o amor, e o amor pertence à Pistis Sophia, não ao mundo do Demiurgo. Não importa o que ele faça, jamais terá poder para gerar amor, gerar vida real, seja ela humana ou replicante.

É preciso alma para amar
Noutra cena tocante do filme, K. anda pela cidade e, ao atravessar uma espécie de ponte de pedestres, se depara com uma projeção gigante de Joi, a garota-holograma. Ocorre que ele havia guardado a memória de sua própria Joi num aparelho que foi destruído pelos lacaios de Wallace. Assim sendo, a “sua Joi” havia se perdido para sempre, e ali ele via uma “Joi genérica”. E esta Joi o chama pelo mesmo nome usado pela anterior, de “Joe”. Ora, assim fica claro que a paixão entre K. e a sua Joi era mero fruto de uma programação. Não havia alma no seu aparelho de Inteligência Artificial, apenas ele poderia ter uma alma, e é preciso haver alma para haver amor.
Dessa forma, o que K. havia amado era tão somente um ser imaginário. Ao contrário de Deckard, que amou uma replicante com alma, e por isso gerou nela um filho, um milagre. Afinal, Deckard “sabia o que era real”, enquanto K. ainda teria de passar por muitas e muitas aventuras para descobrir.

O fim de uma Jornada é o início de outra
Finalmente, após haver descoberto que na realidade Deckard e Rachel haviam tido uma filha, não um filho, K. mesmo assim não se desvia nem por um momento de sua missão e acaba conseguindo, com muito custo, resgatar Deckard e levá-lo ao encontro de sua filha real.
Pouco antes de entrar no galpão onde ela reside, Deckard pergunta para K. se “está tudo bem”, e ele afirma que sim. Na sequência, K. se deita sobre as escadas e, após Deckard já haver entrado no recinto, ele parece apenas contemplar os flocos de neve caindo levemente do céu. Há uma profunda sensação de paz: o herói cumpriu sua Jornada, e está preparado para a próxima. No fundo, não importava se K. era ou não a criança, o milagre, mas sim se ele tinha ou não uma alma. K. parece ter chegado a conclusão de que, sim, tem uma alma, e daí em diante sua vida passa a ser de fato uma jornada espiritual, livre, na medida do possível, das seduções do Demiurgo. Não será uma vida desprovida de dor, é certo, mas pelo menos uma vida preenchida de sentido.
Já a última e belíssima cena do filme mostra Deckard, o Ancião, o Herói no Fim da Jornada, encontrado o milagre “em carne e osso” pela primeira vez. Sua filha era todo o tempo a própria designer de memórias dos androides de Wallace, a própria Pistis Sophia, a Alma do Mundo. É esta a iluminação, o sentido final de toda e qualquer jornada espiritual – a contemplação da Alma. E aqueles que já sabem disso, tornam-se nesta Criação, cocriadores, artistas do espírito. Este filme é só mais um exemplo disso.

***

Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] Inclusive, a primeira cena do filme é justamente o Grande Olho da Alma se abrindo, o que remete ao próprio despertar do protagonista. Aliás, eu recomendo que revejam o filme considerando desde o início que tudo o que transcorre de iluminado, até o último floco de neve, é uma Criação da criança-milagre, Pistis Sophia. Só recomendo que levem algum lenço; isto é, se tiverem alma!

[2] Há outras interpretações menos focadas em mitologia que afirmam que Luv somente derrama lágrimas quando presencia a morte de outros replicantes, jamais de humanos (apesar de que ela parece se emocionar ao assassinar a chefa de K.). De fato, é uma possibilidade, talvez ela estivesse interiormente lutando contra si mesma para se libertar da programação de Wallace. Em todo caso, mesmo aqui continua valendo a interpretação de que K. consegue "desobedecer" a sua programação, enquanto Luv não, e me parece que este "livre-arbítrio" tem tudo a ver com a proximidade da alma, do amor, enfim, do lado mais espiritual da vida.

Nota final: o gnosticismo na obra de Philip K. Dick
Pode parecer estranho, mas Philip K. Dick foi um escritor de ficção científica profundamente ligado ao gnosticismo. Como não sou nenhum especialista em sua obra literária, indico a vocês este artigo de meu amigo Giordano Cimadon, da Sociedade Gnóstica Internacional; e também este texto escrito por Eduardo Pinheiro, um especialista em sua obra, para o blog Papo de Homem.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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6.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 1)

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

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Aviso dado, prossigamos... Como devem saber, o filme é uma continuação do clássico cult de 1982, escrito por Hampton Fancher e David Peoples, e dirigido pelo grande Ridley Scott. A sequência atual é dirigida por um diretor muito promissor, Denis Villeneuve, e compartilha do mesmo Hampton Fancher no roteiro, desta vez com ajuda de Michael Green. Ambos os roteiros devem muito ao livro Do Androids Dream of Electric Sheep? (Será que Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), escrito por Philip K. Dick, que acabou se tornando um escritor essencial da história da ficção científica justamente com a ajuda do sucesso alcançado pelo primeiro Blade Runner.

Ambos os filmes tratam de investigações policiais engendradas numa espécie de futuro distópico onde o consumismo exacerbado levou a humanidade a uma espécie de apocalipse da natureza. Ambos trazem cenários de metrópoles americanas sombrias e chuvosas cheias de imigrantes e androides convivendo em meio a um cenário abarrotado de anúncios que mais lembra uma “Tóquio que deu muito errado”. Outra questão central em ambas as obras é a desconfiança e a confusão entre o que é real, o que é humano e o que é artificial, em diversos sentidos.

Vamos passar agora para minha interpretação direta de algumas cenas e aspectos do filme:

O herói e o milagre
Na primeira cena do filme, K. está caçando um dos replicantes antigos que conseguiram se esconder da fiscalização. Como sabemos, o seu trabalho consiste em “desligar” todos esses androides da linhagem antiga, de modo a que permaneçam somente aqueles como o próprio K., inteiramente obedientes ao sistema governamental. Assim, temos uma característica primordial do filme revelada de início: K. sabe que é um replicante, e sabe que caça aqueles de sua própria “espécie”.
No entanto, já temos nesta cena uma diferença grande em relação ao primeiro filme: a ação se passa totalmente fora de Los Angeles, numa região onde há o cultivo sintético de alimentos. Dentre outras coisas que podem passar desapercebidas, há por exemplo um tronco morto de árvore e um pequeno ramo de planta encontrado no solo ao lado dela. Temos de considerar que, na distopia onde o filme ocorre, tanto madeira quanto plantas como aquela são algo extremamente raro de se ver. No contexto da cena, tais elementos soam mais como mensagens místicas que servem para despertar o herói em sua jornada. Sim, mesmo aqui temos uma Jornada do Herói [1] em curso, embora extremamente original.
Porém, o que realmente coloca “uma pulga atrás da orelha” de K. é a frase que o replicante lhe diz, pouco antes de entrar em luta corporal e acabar “desligado”. Algo como: “Você só faz o que lhe mandam fazer, mas é assim porque ainda não viu um milagre” [2].

O milagre muda tudo
Algum tempo depois, já no Departamento de Polícia, K. traz a sua chefa uma caixa encontrada enterrada perto da árvore, e nela há uma ossada aparentemente humana. O legista analisa os ossos e concluí que se tratava de uma mulher grávida que morreu durante um parto, provavelmente uma cesariana. É o próprio K., no entanto, que ao lado de sua chefa (uma humana, a chefa do Departamento) acaba operando o zoom do aparelho e descobrindo um código de série nos ossos, o que significa que a grávida em realidade era uma replicante da série antiga!
E isto muda tudo, não somente para a própria investigação policial, que passa a ser bem mais importante e sigilosa, como para o próprio K., que confirma que aquele tal “milagre” mencionado por sua vítima era, de fato, real.
Assim chegamos a uma importante passagem do filme, quando a chefa de K. determina que ele cace e mate a criança (agora já adulta) nascida daquela androide, e ele hesita por um momento... Quando sua chefa lhe pergunta qual o problema, ele responde: “É que nunca matei alguém nascido, suponho que os nascidos tenham alma”. Depois, pouco antes de sair da sala, a sua chefa complementa: “Não se preocupe, você tem se saído muito bem sem uma alma”.

O Demiurgo
É durante a investigação de K. que somos trazidos até uma cena na sede da corporação de Niander Wallace, o megaempresário responsável pela fabricação de alimentos sintéticos e pelas novas linhagens de replicantes (dentre eles, o próprio K.). Me pareceu que este personagem está diretamente associado à ideia de Demiurgo segundo algumas teorias gnósticas.
Este Demiurgo do mal seria o próprio criador do mundo material, responsável por nos manter seduzidos e ancorados em nossos próprios desejos materialistas, assim afastados do mundo espiritual. O conhecimento gnóstico seria justamente o caminho para nos elevarmos de volta ao mundo espiritual, de onde viemos originalmente. Uma outra forma de analisar tal dualidade seria simplesmente contrastar nossos pensamentos materialistas com os espirituais. Seja como for, fato é que Wallace, apesar de pouco aparecer no filme, representa a fonte (o empreendedor) de toda a materialidade, de toda a superficialidade, de toda a ilusão, presentes naquele mundo distópico.

A garota-holograma
Quando K. chega em sua casa somos apresentados pela primeira vez a Joi, uma espécie de Inteligência Artificial holográfica que lembra muito uma espécie de avanço tecnológico em relação as atuais bonecas sexuais japonesas. Claro que a relação amorosa deles não é física, uma vez que Joi só pode ser projetada como holograma. Isto, no entanto, é resolvido quando a própria Joi contrata (via internet?) uma garota de programa replicante para dançar e eventualmente transar com K.
Joi então se “sincroniza” com a replicante e o que se segue é talvez a cena mais antológica do filme, quando K. dança ao mesmo tempo com sua “garota fantasma” e com a prostituta. Aqui podemos fazer várias análises, desde a diferença entre a figura de nosso amor imaginário que fantasiamos em nossa própria mente em relação à pessoa real a qual nos relacionamos, até a própria dualidade “corpo-alma”; sendo que a alma, obviamente, seria a figura etérea de Joi.

Somos todos replicantes?
Joi também participa de outra cena consideravelmente profunda do filme, embora possa facilmente passar desapercebida: enquanto K. está analisando um por um os registros genéticos de pessoas nascidas na época do parto da criança que ele está caçando, Joi se questiona sobre a diferença entre seres construídos por bases orgânicas (citosina, adenina, guanina ou timina, isto é, o código genético) e seres de inteligência artificial, compostos por “zeros e uns”.
Aqui há uma questão importante, de fato: enquanto seres como Joi nada mais são do que sequências de programação de códigos inventados pelo ser humano, os androides ou replicantes do mundo de Philip K. Dick são feitos de intervenções humanas em um código pré-existente, que não foi criado pelo próprio homem. Assim sendo, é perfeitamente possível que a natureza ela mesma tenha interferido na própria evolução dos replicantes, permitindo que eles eventualmente passassem a gerar filhos (o milagre), uma vez que o ser humano jamais terá domínio completo de um código que não é inteiramente seu.
Isto também remonta a velha dúvida do primeiro filme, se Deckard era ou não um replicante. Ora, nesta nova versão o herói já sabe de antemão que é um replicante, mas a dúvida passa a ser outra, mais profunda: se replicantes podem gerar o milagre da vida, não seriam eles também portadores de uma alma? Não seria o próprio K., e todos os demais androides como ele, seres com direitos humanos?
Ao mesmo tempo em que refletimos sobre isso, podemos refletir sobre nossa própria vida no “mundo real”: não seríamos nós mesmos “replicantes”, no sentido de simplesmente replicarmos as mesmas tarefas, todo santo dia, pela vida toda, até aquele momento mágico em que finalmente descobrimos nossa própria alma? Não seria, este também, o milagre pelo qual todos nós buscamos?


» Na continuação, encerramos nossa análise falando de Pistis Sophia e de anjos terríveis (clique para acessar a parte final do artigo)

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Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] A Jornada do Herói (também chamado de “Monomito”) é um conceito de jornada cíclica presente em narrativas mitológicas, de acordo com o antropólogo Joseph Campbell. Você pode ver um excelente vídeo sobre o assunto no canal da Carol Moreira.

[2] A frase provavelmente é um pouco diferente, estou lembrando de cabeça. Mas a essência dela é a referência ao “milagre”.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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2.10.17

Tristeza dos Abismos

Tristeza dos Abismos .:.

"Cuidado, a tristeza é uma esfinge estranha… Se você lhe decifra os enigmas ela te abençoa, caso não, lhe arranca a cabeça!

Não tema, seu objetivo é lhe apontar o vazio, conduzir a reflexão e ao aprofundamento.

Se no lugar do questionamento, meditação e reencontro, optar por tapar o buraco em romances imaginários, compras desnecessárias, diversões frívolas ou vícios alucinantes em vã tentativa de fugir de si mesmo, cuidado, pois ela lhe penetra mais fundo, se alastra, domina e consome.

Mil, mil vezes preferível uma tristeza reflexiva, consciente e verdadeira do que uma felicidade rasa, abobalhada e simulada; não raro, o riso frouxo, a gargalhada excessiva e a necessidade de mostrar-se sempre radiante varre para debaixo do tapete os cacos perfurantes da depressão.

O indivíduo consciente é sinceramente feliz, não por ostentar a leveza da fantasia mas pela coragem de mergulhar na gravidade de si."

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/mongerosacruzcacianocompostela

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Crédito da imagem: Google Image Search/ancient-code.com

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