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18.12.23

A teoria da bolsa de ficção, por Ursula K. Le Guin

Introdução
Décadas antes de Harry Potter, uma escritora já havia enveredado pela temática das escolas de magia e seus estudantes jovens e predestinados. Esta escritora se chamava Ursula K. Le Guin (1929 – 2018), e ficou mundialmente famosa no campo da literatura fantástica. Ela publicou pela primeira vez em 1959, e sua carreira literária se estendeu por quase 60 anos, produzindo mais de 20 romances e mais de 100 contos, além de poesias, crítica literária, traduções e literatura infantil. O que nos interessa aqui, no entanto, é um texto relativamente curto, que fez parte de uma coletânea de artigos intitulada Dancing at the Edge of the World – Thoughts on Words, Women, Places [Dançando nos Limites do Mundo – Reflexões sobre Palavras, Mulheres e Lugares], publicada em 1989. É no miolo deste livro que Le Guin nos trouxe uma nova teoria para as histórias de ficção, baseada mais na bolsa que coleta frutos do que na lança que assassina a caça, mais nas histórias aparentemente sem graça das relações do cotidiano do que nas jornadas heroicas. E este texto é tão impactante, tão abissal em sua profundidade, em sua mudança de paradigmas, que eu simplesmente não poderia deixar de trazê-lo aqui.


A TEORIA DA BOLSA DE FICÇÃO
por Ursula K. Le Guin; tradução de Priscilla Mello e revisão de Ellen Araujo e Marcio Goldman [1]

Nas regiões temperadas e tropicais onde aparentemente os hominídeos evoluíram em humanos, o principal alimento da espécie eram os vegetais. De 65 a 80% do que os seres humanos comiam nessas regiões nas eras do Paleolítico, Neolítico e na pré- história, era coletado; a carne era o alimento principal apenas no extremo ártico. As imagens dos caçadores de mamutes ocuparam espetacularmente as paredes das cavernas e o imaginário, mas o que nós realmente fizemos para permanecer vivos e saudáveis foi coletar sementes, raízes, brotos, botões, folhas, nozes, frutos, frutas e grãos, além de insetos e moluscos e pássaros, peixes, ratos, coelhos e outros pequenos animais que provêm proteína e podem ser capturados com redes ou armadilhas simples. E nós nem mesmo trabalhávamos muito duro para isso — muito menos que camponeses escravizados após a invenção da agricultura, e muito menos que trabalhadores assalariados desde que a civilização foi inventada. Uma pessoa na pré-história podia ter uma vida boa trabalhando por cerca de quinze horas por semana.

Com apenas quinze horas por semana empregadas na busca pela subsistência, resta bastante tempo para fazer outras coisas. Tanto tempo que talvez os mais incansáveis, aqueles que não tinham um bebê por perto para alentar suas vidas, ou alguma habilidade para criar, cozinhar ou cantar, ou mesmo pensamentos interessantes para pensar, decidiram sair e caçar mamutes. Os caçadores mais habilidosos então retornavam cambaleando com uma carga de carne, muito marfim, e uma história. E não era a carne que fazia diferença. Era a história.

É difícil contar uma história realmente emocionante de como arranquei uma semente de aveia selvagem da casca, e depois mais uma, e mais outra e depois mais uma, e então cocei minhas picadas de mosquito, e ouvi minha filha dizer algo engraçado, e de como fomos ao riacho, bebemos um pouco de água e observamos as salamandras por um tempo, até eu encontrar outro campo de cereais… Não, não se compara, essa minha história não consegue competir com aquela que narra o modo como enfiei minha lança profundamente no titânico flanco peludo enquanto minha filha, empalada por uma enorme presa, se contorcia gritando, com o sangue jorrando por toda parte em torrentes carmesins, e como um outro filho foi esmagado como geleia quando o mamute caiu sobre ele, enquanto eu atirava minha infalível flecha diretamente em seu cérebro através de seu olho.

Essa história não tem somente ação, ela tem um Herói. Heróis são poderosos. Antes que você possa perceber, os homens e as mulheres no campo de aveia silvestre, bem como suas crianças, e as habilidades dos criadores, e os pensamentos dos que pensam, e as músicas dos que cantam, tudo isso se torna parte do conto do Herói e fica a serviço desse tipo de narrativa. Mas essa não é a história deles. É a história do Herói.

Quando estava planejando o livro que se tornaria Três Guinéus, Virginia Woolf escreveu um título em seu caderno de notas: Glossário; ela pensava em reinventar o inglês de acordo com um novo plano, para contar uma história diferente. Um dos vocábulos deste glossário é o termo "heroísmo", que segue definido como "botulismo". E herói, no dicionário de Woolf, é "garrafa". O herói como garrafa — uma rigorosa reavaliação. Eu proponho agora a garrafa como herói. Não só a garrafa de gim ou de vinho, mas garrafa em seu sentido antigo de recipiente em geral, de algo que retém outra coisa.

Se você não tem algo onde guardá-la, a comida escapará — até mesmo algo que não é combativo e desprovido de recursos próprios, como um grão de cereal. Enquanto estão ao alcance das mãos você coloca tantos grãos quanto é capaz em seu estômago, sendo este o primeiro recipiente; mas e amanhã de manhã quando você acordar e estiver frio e chuvoso? Não seria bom ter algum punhado de grãos para mastigar e dar à sua pequena bebê para fazê-la se calar? Mas como conseguir levar para casa algo a mais do que cabe no espaço do estômago ou no das palmas das mãos? Então, você se levanta e vai para o maldito campo de cereais encharcado pela chuva, e não seria bom se você tivesse algo para colocar o bebê e assim colher os grãos com as duas mãos? Uma folha, uma cabaça, uma concha, uma rede, uma tipoia, um saco, uma garrafa, um pote, uma caixa, uma bolsa. Algo que guarde. Um recipiente.

O primeiro dispositivo cultural foi possivelmente um recipiente… Muitos teóricos acreditam que as primeiras invenções culturais devem ter sido um recipiente para guardar produtos coletados e algum tipo de tipoia ou rede para carregar as coisas.

É isso o que diz Elizabeth Fisher em Women’s Creation (McGraw-Hill, 1975). Mas não, não pode ser. Onde está aquela coisa maravilhosa, grande, longa, rija, um osso, suponho, que o Homem-Macaco primeiro acertou em alguém, como no filme [referência a 2001, Uma Odisseia no Espaço], e que, em seguida, grunhindo de êxtase por ter consumado o primeiro assassinato, foi lançado aos céus, e lá girando se transformou em uma nave espacial, abrindo caminho no cosmos para fertilizá-lo e para produzir ao final da trama, um adorável feto, um garoto, é claro, vagando pela Via Láctea, estranhamente sem qualquer útero, sem qualquer matriz que fosse? Eu não sei. Eu nem mesmo me importo em saber.

Eu não estou contando essa história. Nós já a ouvimos, todas nós ouvimos tudo sobre todas as lanças e espadas, as coisas para bater e perfurar e açoitar, as coisas longas e rígidas, mas ainda não ouvimos falar sobre onde se colocam essas coisas, o recipiente onde as coisas são guardadas. Essa é uma nova história. Isso é novidade.

E ainda assim antiga. Antes — certamente muito antes, se você pensar bem — das armas, uma tardia, luxuosa e supérflua ferramenta; muito antes das úteis facas e machados; junto com a indispensável enxada, o moinho e a pá (de que serve desenterrar um monte de batatas se você não tem nada para levar para casa as que não consegue comer?) — junto, ou antes, da ferramenta que extrai a energia para fora, nós fizemos a ferramenta que traz a energia para casa. Faz sentido para mim. Sou uma aliada daquilo que Fisher denomina de Teoria da Cesta [Carrier Bag Theory] da evolução humana.

Essa teoria não só explica grandes áreas de obscuridade teórica e evita outras tantas bobagens teóricas (habitadas principalmente por tigres, raposas e outros mamíferos altamente territoriais), mas também me deu, pessoalmente, uma base para a compreensão da cultura humana de uma maneira que eu nunca havia pensado antes. Enquanto a cultura foi explicada como sendo originária e tendo se desenvolvido com o uso de longos e rígidos objetos para apunhalar, atacar e matar, eu nunca pensei que eu tivesse, ou quisesse, qualquer participação nisso. (O que Freud entendeu erroneamente como sendo sua falta de civilização, seria, na verdade, a falta de lealdade da mulher à civilização, observou Lillian Smith). A sociedade, a civilização de que falavam esses teóricos, era evidentemente a deles; eles a mereciam, eles gostavam dela; eles eram humanos, totalmente humanos, golpeando, apunhalando, empurrando, matando. Querendo ser humana também, procurei por evidências de que de fato eu era; mas se aquilo era o necessário para sê-lo, fazer uma arma e matar com ela, então, evidentemente, ou eu era um ser humano muito defeituoso, ou nem mesmo humana eu era.

É isso mesmo, eles disseram. Uma mulher é o que você é. Possivelmente, nada humana, certamente defeituosa. Agora, fique calada enquanto seguimos contando a História da Ascensão do Homem, o Herói.

Vá em frente, eu digo, enquanto volto para a colheita dos grãos, com o bebê na tipoia, e a pequena criança carregando o cesto. Sigam contando como o mamute caiu sobre a criança desafortunada, e como Caim derrubou Abel, e como a bomba caiu em Nagasaki, e como o Napalm caiu sobre os aldeãos, e como os mísseis cairão sobre o Império do Mal, e todas as outras etapas da Ascensão do Homem.

Se for algo humano colocar o que você quer, porque é útil, comestível ou belo, em uma bolsa, cesto, ou em uma casca ou folha enrolada, ou numa rede tecida com seu próprio cabelo, ou no que você tenha à mão e, em seguida, levar para casa com você, a casa sendo um tipo maior de bolsa ou uma grande caixa onde se podem abrigar pessoas e depois, pegar aquilo que armazenou e comer, ou compartilhar ou mesmo guardar mais um pouco para quando chegar o inverno, ou guardar em um pote medicinal, em um santuário ou em um museu, no lugar sagrado, onde se guarda o que é sagrado e, no dia seguinte, provavelmente, fazer a mesma coisa de novo — se fazer isso é humano, se for isso o que é preciso, então eu sou humana, afinal. Totalmente, livremente, com alegria, pela primeira vez.

Não, diga-se logo, um ser humano afável ou pacífico. Sou uma mulher que está envelhecendo, com raiva, segurando com força a minha cesta, lutando contra bandidos. No entanto, assim como mais ninguém, eu não me considero heroica por fazê-lo. É apenas uma daquelas malditas coisas que você tem que fazer para seguir sendo capaz de colher grãos de cereais e contar histórias.

É a história que faz a diferença. É a história que escondeu minha humanidade de mim, a história que os caçadores de mamutes contavam do Herói, sobre atacar, empurrar, estuprar, matar. A maravilhosa, venenosa história do Botulismo. A história do assassino.

Algumas vezes parece que essa história está se aproximando de seu fim. E antes que não se conte mais nenhuma história, alguns de nós aqui, na colheita dos cereais em campos de milhos alheios achamos que é melhor começar a contar outra história, com a qual, talvez, as pessoas possam seguir quando a antiga acabar. Talvez. O problema é que todas nós nos deixamos fazer parte da história do assassino [killer story] e, por isso, podemos acabar junto com ela. Desta maneira, é com certo sentimento de urgência que procuro a natureza, o tema, as palavras da outra história, a que não foi contada, a história vital [life story].

Ela é estranha, não vem fácil, não vem aos lábios sem esforço como a história do assassino; ainda assim, é exagerado dizer que ela nunca foi contada. As pessoas têm contado a história vital há muito tempo, de todas as maneiras e com diversos tipos de palavras. Mitos de criação e transformação, histórias de tricksters, contos populares, piadas, romances…

O romance é um tipo de história fundamentalmente não-heróica. Claro que o Herói frequentemente conquistou o romance, porque esta é sua natureza imperial e seu impulso incontrolável, conquistar tudo e administrar tudo, enquanto proclama severos decretos e leis para controlar seu pungente impulso de matar. Assim, o Herói, por meio de seus porta-vozes, os Legisladores, primeiro impôs que a narrativa apropriada é aquela que remete à flecha ou à lança, começando aqui e indo direto lá e PÁ! atingindo seu alvo (que cai morto); e segundo, que a questão central da narrativa, incluindo o romance, é o conflito; e, por fim que a história não é boa se ele – o Herói – não estiver nela.

Eu discordo disso tudo. Eu chegaria ao ponto de dizer que a forma natural, apropriada e adequada do romance poderia ser a de um recipiente, uma cesta. Um livro carrega palavras. Palavras guardam coisas. Elas carregam sentido. Um romance é uma caixa de medicamentos, guardando as coisas em uma particular e poderosa relação entre si e conosco.

Uma das relações entre os elementos do romance pode muito bem ser a do conflito, mas a redução da narrativa ao conflito é absurda. (Uma vez li um manual de escrita que dizia: "Uma história deve ser vista como uma batalha", e continuava com estratégias, ataques, vitórias etc.). Conflito, competição, estresse, luta etc. podem ser vistos como necessários ao conjunto da narrativa concebida como uma bolsa/ventre/caixa/casa/pote medicinal, porém são elementos de um todo que, em si mesmo, não pode ser caracterizado como conflito ou harmonia, uma vez que o propósito da história não é a resolução ou o êxtase, mas um processo contínuo.

Finalmente, é evidente que o Herói não fica bem nessa cesta. Ele precisa de um palco, de um pedestal ou de um pináculo. Você o coloca em uma cesta e ele parece um coelho, uma batata. É por isso que gosto de romances: no lugar de heróis, eles contêm pessoas.

Então, quando comecei a escrever romances de ficção científica, comecei a carregar essa grande cesta pesada de coisas; a minha cesta cheia de fraquezas e bobagens, e de minúsculos grãos de coisas menores que uma semente de mostarda, e de redes intrincadamente tecidas que, quando laboriosamente desatadas, contêm um seixo azul, um cronômetro imperturbável marcando o tempo de outro mundo e o crânio de um rato; cheia de começos sem fins, de iniciações, de perdas, de transformações e traduções, e de muito mais truques do que conflitos, muito menos triunfos do que armadilhas e ilusões; cheia de naves espaciais que ficam presas, missões que falham e pessoas que não entendem. Eu disse que era difícil fazer uma história emocionante de como tirar os grãos de suas cascas, não disse que era impossível. Quem algum dia disse que escrever um romance era fácil?

Se a ficção científica é a mitologia da tecnologia moderna, então seu mito é trágico. "Tecnologia" ou "ciência moderna" (no sentido que comumente é atribuído a esses termos, como um não refletido diminutivo para ciências-duras e tecnologias de ponta fundadas através do contínuo crescimento econômico) é uma empreitada heroica, hercúlea, prometeica, concebida como triunfo e, por fim, como tragédia. A ficção que personifica esse mito sempre será, e sempre tem sido, triunfante (o Homem conquista a terra, o espaço, os alienígenas, a morte e o futuro etc.) e trágica (apocalipse, holocausto, depois ou agora).

Se, no entanto, evitarmos o modo linear, progressivo, da Flecha-(assassina)-do-Tempo do Tecno-Heróico, e redefinirmos a tecnologia e a ciência como primordialmente uma cesta de culturas, em vez de uma arma para a dominação, um agradável efeito colateral é possibilitar que a ficção científica seja vista como um campo muito menos rígido e estreito, não necessariamente prometeico ou apocalíptico; e, de fato, menos um gênero mitológico do que realista.

É um estranho realismo, mas é uma estranha realidade.

A ficção científica adequadamente concebida, como toda ficção séria, mesmo que engraçada, é uma maneira de tentar descrever o que realmente está acontecendo, o que as pessoas realmente fazem e sentem, como as pessoas se relacionam com tudo o mais nessa vasta cesta, esse ventre do universo, esse útero de coisas em gestação e esse túmulo de coisas que um dia foram, essa história sem fim. Na ficção científica, como em toda ficção, há espaço suficiente até mesmo para manter o Homem no lugar a que ele pertence, em seu lugar no esquema das coisas; há tempo suficiente para colher muitos grãos e semeá-los também, e cantar para a pequena bebê, e ouvir a piada de sua filha, e observar as salamandras, e ainda assim, a história não acaba. Ainda há sementes a serem colhidas, e espaço na cesta das estrelas.


***

[1] O texto foi achado online, em download gratuito (PDF), sob o título de A ficção como cesta: uma teoria, que talvez seja uma tradução mais correta do título original – no entanto, como este texto ficou conhecido em português como A teoria da bolsa de ficção, achei melhor mantê-lo. A tradução, aliás, é excelente, motivo pelo qual não traduzi novamente eu mesmo.

***

Livros recomendados da autora (na Amazon): Box A mão esquerda da escuridão e Os despossuídos; O feiticeiro de Terramar e Sem tempo a perder: reflexões sobre o que realmente importa (não ficção)

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Cena de 2001, Uma Odisseia no Espaço; BBC (Nagazaki logo após o ataque nuclear dos EUA); Google Image Search (Ursula K. Le Guin).

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15.12.23

Lançamento: Adquirir a sua alma na paciência

As Edições Textos para Reflexão adentram os reinados da filosofia existencialista com um de seus fundadores.

Em Adquirir a sua alma na paciência, o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard nos oferece a chave para o encontro e a conquista do nosso "eu". Comentando uma passagem bíblica, o autor nos apresenta um conceito único de "paciência", que tem mais a ver com a teologia do que com a filosofia.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book:

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» Leia também o nosso prefácio para esta edição: O andarilho de Copenhague.

» Caso deseje se aprofundar na obra de Kierkegaard, recomendamos seguir o perfil da Maitê Sartori (psicóloga especializada na filosofia do autor) no Instagram, ou quem sabe se increver em algum dos seus cursos sobre o tema.


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1.12.23

O andarilho de Copenhague

O texto abaixo foi escrito para compor o prefácio de Adquirir sua alma na paciência, o discurso de Soren Kierkegaard que tive a honra de traduzir de versões inglesas. Como a maioria dos meus prefácios, procurei falar sobre não apenas o que o autor nos trouxe em sua obra, mas também sobre como viveu sua vida. Creio que ganhamos muito ao nos imaginar, tal qual o pensador dinamarquês, simplesmente caminhando pelas vielas de Copenhague, saudando as almas que nos cruzam o caminho...


A vida só pode ser compreendida quando olhamos para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente.

Esta frase, retirada de uma das suas cerca de 7.000 páginas de diários, acabou se tornando uma das mais famosas de Kierkegaard; e, como toda célebre frase de um pensador, resume muito do que ele buscou falar em sua obra. Você arriscaria dizer sobre o que o pensador dinamarquês falou? Bem, se pensou em “autorreflexão”, “autoconhecimento”, ou ainda em “como lidar com a existência humana”, não está muito longe da resposta, seja ela qual for.

Tendo nascido e vivido em Copenhague, na Dinamarca, Soren Kierkegaard (1813 – 1855) foi ao mesmo tempo melancólico e bem-humorado, ao mesmo tempo filósofo e teólogo, mas quase sempre brilhante. Sua mãe, Ane Sorensdatter Kierkegaard, trabalhou como empregada doméstica antes de se casar com seu pai, Michael Pedersen Kierkegaard. Ela era uma pessoa simples, que não recebeu nenhuma educação formal, mas exerceu uma influência duradoura na vida do filho. Já seu pai, Michael, foi um comerciante de lã muito bem-sucedido. Mesmo sendo um homem severo, cultivava interesse por filosofia e costumava hospedar intelectuais em sua casa. Por conta da influência do pai, ele entrou em contato com os livros de Platão ainda bem jovem, e foi especialmente tocado pela figura de Sócrates.

Kierkegaard era o mais novo dos sete filhos do casal. Contudo, quando contava 22 anos, já havia perdido cinco dos seus irmãos, tendo restado apenas Peter Kierkegaard, que mais tarde veio a se tornar um bispo luterano. Logo depois, naquele mesmo ano de 1834, foi a vez da sua mãe deixar o mundo; e, poucos anos depois, em 1838, veio o falecimento do pai. Não admira, portanto, que o filósofo fosse íntimo dos grandes sofrimentos da existência humana, e que tenha se dedicado justamente a viver da melhor forma possível, apesar deles.

Com a herança da sua família, Kierkegaard pôde custear a sua educação, a sua vida e várias publicações das suas primeiras obras. Em 8 de setembro de 1840, Kierkegaard formalizou o pedido de noivado a Regine Olsen, jovem dinamarquesa que havia conhecido cerca de três anos antes. No entanto, ele logo se sentiu desiludido com as perspectivas da vida a dois. Encerrou o noivado em 11 de agosto de 1841, apesar de se acreditar que havia um amor profundo entre eles. Nos seus Diários, Kierkegaard menciona a sua crença de que sua “melancolia” o tornava impróprio para o casamento, mas o motivo exato para o rompimento permanece obscuro até hoje. Dali em diante, seu matrimônio seria com a filosofia e, por assim dizer, com a própria existência.

Uma das primeiras descrições da aparência física do pensador dinamarquês veio de Hans Brochner, um convidado para a festa de casamento do seu irmão, Peter, em 1836: “Eu achei [sua aparência] quase cômica. Na época ele estava com 23 anos de idade. Ele tinha algo bastante irregular em toda a sua forma e usava um penteado estranho. Seu cabelo subiu quase seis centímetros acima de sua testa em uma forma de crista desgrenhada, que lhe dava uma estranha aparência de espanto”. Já o próprio Kierkegaard se descreveu como alguém de composição frágil: “Franzino, raquítico e fraco para poder valer como um homem completo. [E ainda] melancólico, submetido ao sofrimento interior, profundamente ferido de muitas maneiras no íntimo da alma. Bem, a mim só uma coisa me foi concedida: uma inteligência eminente, com certeza para que eu não ficasse inteiramente desarmado”.

Em seu tempo, as ruas de Copenhague eram tortuosas, de modo que poucas carruagens passavam por elas. Kierkegaard amava caminhar pelas ruelas e simplesmente observar o dia a dia das pessoas comuns. Em 1848, ele escreveu: “Eu tinha verdadeira satisfação cristã no pensamento de que, se não houvesse outro, definitivamente havia um homem em Copenhague com quem todas as pessoas pobres poderiam abordar livremente e conversar na rua; se não houvesse outro, havia um homem que, qualquer que fosse o seu círculo social mais frequentado, não se esquivava do contato com os pobres, mas saudava toda empregada que lhe parecia familiar, todo servo, todo trabalhador comum”. Também podemos resumir boa parte da sua teologia sob esse ponto de vista: ao teólogo dinamarquês interessava mais a figura do Cristo andarilho e contador de parábolas do que toda a Igreja que se construiu ao redor dele.

Sócrates dizia que “uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”, e o pensador dinamarquês levou essa afirmação as últimas consequências. Em O desespero humano, publicado em 1849 e, para alguns, uma das obras inaugurais da filosofia existencialista, Kierkegaard nos apresenta a autorreflexão como uma ferramenta para entender o problema do “desespero”, que para o pensador não derivava da depressão em si, mas antes da alienação do “eu”. Assim, ele classificou diversos graus de desespero. O mais inferior e comum é derivado da ignorância: o indivíduo mal sabe o que o “eu” significa, e não tem a menor consciência da natureza do seu “eu” potencial, a melhor versão de si. Tal desconhecimento é quase uma bênção, e tão sem consequência que Kierkegaard não estava certo se deveria ser classificado como desespero. Segundo ele, o verdadeiro desespero ocorre quando temos mais consciência de nós mesmos, uma vez que os graus mais profundos de desespero derivam de uma profunda consciência do “eu” aliada a uma profunda aversão por esse mesmo “eu”.

Quando algo dá errado, quando falhamos e, por exemplo, não passamos numa prova, nós aparentemente nos desesperamos porque perdemos algo. Mas numa análise mais atenta, segundo o pensador dinamarquês, fica óbvio que a pessoa não se desespera por conta do fato em si, como não passar na prova, mas antes por conta de si mesma. O “eu” que não conseguiu conquistar seu objetivo se torna intolerável. A pessoa queria se tornar um “eu” diferente, alguém que passou no vestibular, mas agora está presa a um “eu” fracassado, em desespero. Mas seria possível nos desviar desse desespero simplesmente sendo bem-sucedidos em tudo aquilo que desejamos alcançar?

Para responder esta pergunta, Kierkegaard usou como exemplo um homem que queria se tornar imperador. E demonstrou que, ironicamente, ainda que ele conseguisse alcançar seu objetivo, na verdade ainda teria abandonado o seu antigo “eu”. Ou seja, tanto em seu desejo quanto em sua conquista, ele queria “se livrar de si mesmo”. Ora, essa negação do “eu” é dolorosa: é avassalador o desespero de uma pessoa que quer se afastar de si, que “não possui a si mesma; que não é ela mesma”.

Mas ele também propôs, é claro, uma solução para tal dilema. Kierkegaard concluiu que um homem poderia alcançar a paz e a harmonia internas se tivesse a coragem de ser seu verdadeiro “eu”, em vez de querer ser outro. “Querer ser quem se é realmente é, na realidade, o oposto do desespero”, ele resumiu. O pensador acreditava que o desespero desaparece quando paramos de negar quem realmente somos e aceitamos a nossa verdadeira natureza.

Em um trecho dos seus Diários, datado de 1835, Kierkegaard esboçava a essência do que viria a tratar em suas obras posteriores:

O que eu realmente preciso é ter clareza sobre o que devo fazer e não o que eu preciso saber, a não ser na medida em que o conhecimento deve preceder cada ato. O que importa é encontrar um propósito, para ver o que realmente é que Deus quer que eu faça; o mais importante é encontrar uma verdade que é verdade para mim, encontrar a ideia pela qual estou disposto a viver e morrer.

Em sua busca por si mesmo, por quem realmente é, em oposição às inúmeras máscaras sociais ofertadas pela sociedade da época, Kierkegaard nos deu uma contribuição que já era muito relevante em sua época, e que hoje, na sociedade da ebulição da informação e das redes sociais, se tornou ainda mais relevante.

Mas foi em Adquirir a sua alma na paciência, um dos Quatro Discursos Edificantes, publicado em 1843, que o andarilho de Copenhague nos ofereceu a chave para o encontro e a conquista de nossa própria alma. Comentando uma passagem do Novo Testamento bíblico, Kierkegaard nos apresenta um conceito único de “paciência”: uma paciência que tem mais a ver com o mundo espiritual, mais com a sua teologia do que com a sua filosofia. Para um estudante de filosofia ou psicologia, tal conceito pode soar demasiadamente místico, até mesmo incômodo. Se for o caso, vá mais além, mergulhe em tal “incômodo”, desvele o que acha que é o misticismo, se aventure pelo misticismo real, a coisa em si: você mesmo – mas tenha toda a paciência do mundo!


Soren Kierkegaard morreu em 1855, aos 42 anos. Embora a causa de sua morte não seja clara, estudos recentes apontam que a possível causa foi uma doença na coluna vertebral (antes, se achava que ele havia falecido em decorrência da tuberculose). Seu corpo se encontra sepultado no Cemitério Assistens, em Copenhague.


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Crédito das imagens: [topo] Desenho não terminado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard (c. 1840); [ao longo] Martinus Rorbye (pintura de 1831; retrata a Copenhague da época).

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