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26.2.18

O problema do niilismo: a reação romântica

Como vimos no texto anterior, o racionalismo apostava que o avanço da razão instrumental e o aprimoramento da técnica tornariam a vida humana mais satisfatória. Os primeiros racionalistas acreditavam – e muitos atuais ainda compartilham a crença – que os problemas da humanidade eram apenas uma questão técnica. O progresso tecnológico e o avanço do conhecimento científico seriam cada vez mais capazes de resolver os problemas humanos, conduzindo-nos a uma vida plena e feliz.

O que vemos na realidade é justamente o contrário. O mundo da razão, embora tenha nos trazido maiores facilidades, conforto e segurança, não foi capaz de solucionar os problemas existenciais da humanidade.  Ao invés disso, o problema do niilismo se tornou mais evidente. Índices de depressão, ansiedade e outras questões de saúde mental são cada vez mais alarmantes na modernidade.

Se, por um lado, o racionalismo avançou na instrumentalidade e no domínio da natureza, por outro apartou o ser humano das condições que dotavam sua vida de sentido. O espírito racionalista desfez-se das antigas tradições, e com elas, o senso de comunidade e o pertencimento do homem a uma história cultural, racial e familiar.

A mudança da vida rural para a urbana também implicou numa profunda transformação na vida social e subjetiva. Primeiramente, pelo contato com as grandes aglomerações. Diferente da vida rural em que o homem vivia em pequenas comunidades cujos membros pensavam mais ou menos de maneira igual, nas grandes cidades o homem passou a estar em contato com uma maior diversidade quanto aos modos de existir. No entanto, nosso funcionamento é mais tribal do que gostaríamos de admitir. Temos o desejo de formar pequenas comunidades de pessoas afins, que pensam como nós e com quem temos alguma identificação. Nossos amigos. O que faz com que nos grandes aglomerados urbanos, grande parte das pessoas seja na realidade indiferente para nós, e que nós sejamos indiferentes para elas.

O fenômeno da solidão urbana tornou-se cada vez mais sensível. Diante de muitas pessoas, o homem passou a se sentir cada vez mais sozinho, já que a presença de muitas pessoas, antes de representar reais companhias, recorda que a maioria delas pouco tem a ver com ele. O homem se sente sozinho numa multidão. Consequentemente, cresce a sensação de indiferença entre as pessoas. Se no mundo rural todos são conhecidos e próximos, na vida urbana cada um deve seguir sua vida sem muita proximidade, pois a aproximação repentina logo é desconfiável quanto às intenções.

A mudança do modo de vida rural para o urbano também alterou a relação do homem com a natureza. Se antes o homem possuía uma conexão com a terra em que nasceu, terra em que trabalhava, com os animais daquela região, a natureza se tornou cada vez mais estranha ao espírito urbano. O homem perdeu o senso de pertencimento a terra, que antes representava o lar histórico para si e seus familiares, e que agora lhe pertence apenas enquanto paga o aluguel. Isto quando não precisa mudar de território em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Já aos animais resta viverem confinados a pequenos espaços ou condenados a serem pragas urbanas a ser exterminadas.

Essas transformações criaram no homem a sensação de alienação em relação à natureza, esta que fora tão importante nas sociedades tradicionais. A natureza – em sua magnanimidade – relembra o homem de uma transcendência maior do que si mesmo. Tal é o sentimento de reverência e profundidade que temos ao admirar uma grande montanha, uma bela paisagem litorânea ou uma floresta cheia de vida. Todo o contato do homem com a natureza dá-se hoje, de modo controlado, reduzindo os riscos que a natureza pode representar, lembrando-nos muito pouco de sua magnanimidade.

Assim como a instrumentalidade dominou a relação do homem com a natureza, ela também tem se apoderado das relações entre pessoas. É cada vez maior a queixa de que as relações modernas são excessivamente utilitárias, marcadas por investimentos pessoais pragmáticos e que pouco atendem as necessidades emocionais mais profundas do ser humano.

O homem moderno, alienado do contato humano e da natureza, encontrou no mundo da razão – o mesmo que prometia através do avanço da técnica o fim de tudo que representava dor e sofrimento: doenças, conflitos, mortes desnecessárias – uma angústia tal qual nunca antes havia experimentado.

No mundo tradicional, o homem lidava com a angústia através de uma crença metafísica reconfortante. Os mitos, lendas e narrativas religiosas estabeleciam uma ordem no mundo, um sentido para os acontecimentos, e assim o homem se sentia amparado pelos seus símbolos. O racionalismo científico demonstrou que os mitos não eram reais, e a fé parecia primitiva em relação à potência da razão. O Universo se tornou explicável cientificamente, mas ausente de qualquer sentido ou ordem. O mundo e a vida existem por alguma aleatoriedade, e nada possui um sentido maior do que aquele que nos iludimos em imaginar. No entanto, confrontar-se com este niilismo pode ser muito angustiante.

Se os conservadores condenam o niilismo, fonte do sentimento de angústia e desamparo, buscando retornar a um modelo de vida tradicional, os racionalistas acreditam no uso da razão instrumental para suplantar os problemas da existência. Para um racionalista, em algum momento a ciência alcançará o progresso tecnológico que solucionará as dores humanas. Testemunhamos isso quando as neurociências prometem a cura para os problemas existenciais através da manipulação das transmissões bioquímicas do cérebro. Como se, ironicamente, dissessem: se a vida não pode ser vivida com sentido, ela pode ser dopada com medicamentos psiquiátricos que vão nos anestesiar e provocar uma sensação de felicidade produzida.

Para muitos racionalistas parece uma solução perfeita. No entanto, para a maioria das pessoas isso soa como uma distopia digna de ser retratada num episódio da série Black Mirror. Um mundo desprovido de experiências autênticas, cuja única saída é anestesiarmos nossas angústias.

A ciência foi impotente para resolver os problemas existenciais. E por conta da sua indiferença às questões de valor, ela pouco pode nos auxiliar com questões éticas. Sabemos, por exemplo, que existiu uma intensa atividade científica no regime nazista, e a própria ciência já foi utilizada para justificar as maiores atrocidades. A técnica e a razão instrumental são armas cegas nas mãos de grupos que detém o poder e podem agir a despeito de qualquer compromisso ético.

É como uma reação a esse mundo triste fundado pelo racionalismo que surgiu o movimento artístico-filosófico do romantismo.

Os problemas existenciais, diriam os românticos, são patológicos – isto é, da lógica do pathos, das paixões. Lidar com o ser humano, e todas suas questões existenciais, é lidar com as paixões humanas. Campo no qual a ciência e a razão instrumental são inférteis.

O romantismo questionou a centralidade da razão. O homem moderno criou a ideia de si mesmo como um ser extremamente racional, mas tal racionalidade raramente é encontrada na maioria dos seus comportamentos. Filósofos como Schopenhauer e Nietzsche entendiam que o ser humano é governado por forças, vontades e instintos mais profundos. O homem é movido pela paixão, não pela razão. Os racionalistas, ao promoverem um mundo instrumental, destituíram o lugar das paixões, que foram reprimidas em nome de ideais supostamente racionais.

Segundo os românticos, os racionalistas estavam iludidos por suas crenças supostamente racionais. A razão, embora importante ao homem, não é o principal norteador do comportamento humano, mas está subordinada às paixões. Um racionalista é assim alguém que se crê racional, mas em seu íntimo está motivado por um afeto que o cega de sua própria irracionalidade.

O espírito romântico representou a rebeldia e o inconformismo com a incapacidade do racionalismo em oferecer o progresso que havia prometido. Foi também uma tentativa de entender e aceitar a natureza humana como ela realmente era, sem as idealizações da razão e da fé.

Se os racionalistas estavam, pela ciência, excessivamente interessados na realidade externa, os românticos voltaram para si mesmos. O palco da investigação romântica era o próprio espírito humano, capaz das maiores realizações da sociedade, mas também dos atos mais mesquinhos. Através da arte, demonstrava-se a criatividade, o grotesco e o sublime. A literatura representava o drama humano, seus ideais utópicos e seus desejos paradoxais. O sonho e a fantasia foram valorizados como forças criativas. Os autores românticos foram assim os grandes fomentadores da vida subjetiva, de uma existência de grande profundidade interior.

Num mundo indiferente e solitário, utilitarista e burocrático, os românticos se dedicaram a buscar uma vida autêntica como forma de superação das angústias modernas. Mas o que seria a autenticidade? Para os românticos, somos autênticos quando agimos a partir de nossas verdadeiras paixões, para além das convenções sociais ou ideais racionalistas.

A paixão é um afeto irracional. Ela não pode ser explicada, e pouco se submete a moral ou às tradições. Os desejos humanos podem ser contraditórios e contrários – mas isso não significa que sempre sejam – às demandas que o mundo coloca sobre nós. Encontrar uma vida autêntica pode muitas vezes significar entrar em conflito com a sociedade, pensamentos moralistas e desejos de outras pessoas. Ousar enfrentá-los é visto pelo romantismo como o preço para o homem encontrar a sua felicidade.

Importante situar que paixão assume um significado para além de um relacionamento amoroso-romântico entre duas pessoas. A paixão é todo tipo de afeto que liga o homem a alguma coisa, fazendo-o lutar por ela. Sua paixão pode ser um trabalho, uma ideologia, uma filosofia, uma ética de vida, e por aí vai.

Sabemos da força que o homem adquire quando está apaixonado. Se apaixonado por um homem ou uma mulher, ele desafia as impossibilidades e impedimentos para conquistar seu amor. Se ama sua pátria, ele se atira contra o exercício inimigo, sacrificando sua própria vida em nome da bandeira que carrega. Quando ama uma tarefa, realiza-a por paixão, mesmo quando suas forças lhe esgotam.

Os românticos encontraram na paixão a possibilidade de dotar a vida de sentido e valor, sem necessariamente apelar para explicações metafísicas, como faziam as tradições religiosas. O romantismo encontrou no amor – a possibilidade de encontrarmos uma paixão que nos faça desejar a vida mesmo com suas dificuldades e fracassos – a superação do niilismo.

Nietzsche falava do amor fati, amar a vida que possuímos mesmo com suas imperfeições. Camus dissertou sobre um Sísifo feliz que, mesmo diante do absurdo de uma existência sem sentido, estava satisfeito pela possibilidade de estar vivo realizando alguma coisa. Os românticos desvelaram assim um outro aspecto do niilismo.

Se o niilismo negativo é conhecido pela destruição dos antigos valores, pela falta de sentido para a vida, o niilismo positivo é justamente a criação de novos sentidos para a existência. É porque o sentido da vida não está dado, imposto pelas tradições e os laços simbólicos do passado, que o homem é livre para se apropriar de sua história e criar seu próprio sentido.

Superar o niilismo converte-se assim numa tarefa existencial. No mundo moderno, como nos faltam os referenciais simbólicos do mundo antigo – que, se por um lado eram amparadores, por outro podiam ser grilhões ao devir humano – somos livres para encontrar nossos próprios referenciais e criarmos a nossa vida a partir de nosso desejo. Nasce a ideia de que a vida não está dada, ela precisa ser conquistada. É preciso que o homem enfrente suas angústias, percorra um caminho próprio e autêntico, adquira maturidade, e assim encontre a profundidade do seu ser.

Realizar essa tarefa é o que diferenciaria aqueles que vivem uma vida autêntica daqueles que não tiveram a coragem de dar esses passos. Ainda assim, o sentido é sempre singular. Não se trata mais de um sentido da comunidade, mas cada sujeito deve encontrar os seus próprios valores. E se não há mais uma moral imposta para nos guiar, diria Nietzsche, como encontrar valores autênticos? Segundo o romantismo, através dos sentimentos.

O romantismo entende que os sentimentos são os indicadores da nossa autenticidade. Para o homem ser feliz, ele deve se guiar pelos seus reais sentimentos. O romantismo assume assim uma valorização do mundo interno, da subjetividade e das emoções humanas, colocadas em primeiro plano na questão existencial.

Para nós modernos, profundamente influenciados por essa ideia, parece óbvio pensar assim. Mas é preciso dar um passo atrás e perceber que antes do romantismo essa ideia não fazia tanto sentido como nos parece hoje. Por exemplo, se na Idade Média um homem procurava um padre para saber se deveria se casar ou não com uma mulher, o padre iria orientá-lo a partir das escrituras sagradas. Hoje, se você procurar um psicólogo ou um psicanalista com a mesma questão, ele lhe fará perceber como seus sentimentos lhe orientam em relação a essa pergunta.

Não é mais na tradição que o homem deve encontrar as respostas para sua vida, mas no seu íntimo, em seus desejos, como um verdadeiro romântico. Tal visão se tornou tão popular que é possível que até mesmo um padre mais moderno respondesse como um psicólogo se lhe fosse feita essa pergunta. O romantismo subjetivista da modernidade substituiu a moral das sociedades tradicionais como norteador ético.

Se um homem está insatisfeito com seu casamento, num mundo tradicional ele seria obrigado a se responsabilizar pelos votos simbólicos assumidos. Hoje entendemos que o sentimento deve se sobrepor à moral. Não nos espanta que alguém insatisfeito peça divórcio se o casamento não lhe vai bem. Afinal, o sentimento é mais importante que o código social. Os próprios códigos sociais se tornaram mais flexíveis, refletindo que sim, os sentimentos são mais importantes que as leis simbólicas dos homens, da sociedade e dos deuses.

O romantismo deslocou assim o problema do niilismo para uma questão sentimental, uma questão de amor. Não o amor sexual – embora na maioria das vezes seja dele que se trata – mas do amor enquanto paixão por algo que eleve o homem acima de si mesmo, sendo capaz de dotar sua vida de sentido. O mote de um romântico moderno bem poderia ser “faça o que você ama e sua vida terá sentido”.

Finalmente, a modernidade pode ser definida como o conflito entre racionalistas e românticos, em que ambas vertentes filosóficas coexistem numa complexa síntese. Vivemos numa sociedade cada vez mais técnico-instrumental, apoiada no desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo em que ansiamos por um refúgio para as angústias do mundo tecnocrata na busca pelo amor, na esperança de uma vida mais autêntica, ideais evidentemente românticos.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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23.2.18

O que é Deus pra você?

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste roteiro, trouxe de volta um antigo artigo sobre as muitas formas de crença ou descrença em Deus ou nos deuses, e acredito que o resultado final tenha ficado muito bom. Logo nas primeiras horas, o vídeo chegou a uma centena de comentários, não deixe de dar o seu também. Afinal, o que é Deus pra você?

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22.2.18

Ocultaria, o congresso das coisas que não existem

Não é lá muito simples definir o que é ocultismo, e muitas pessoas têm visões diversas do que ele venha a ser exatamente. Por isso mesmo, ao estudar o ocultismo, particularmente o ocultismo contemporâneo, é bom saber em que terreno se está pisando. Pois bem, eu creio que o pessoal do Ocultaria – o congresso das coisas que não existem têm bases sólidas e confiáveis, por isso estou aqui indicando este evento para quem puder ir (também estão disponíveis pacotes para assistir por vídeo).

Ele vai ocorrer em 21/07/2018, em São Paulo, não muito distante de onde costumam acontecer os Simpósios de Hermetismo, isto é, ali pela região no entorno da Av. Paulista (maiores detalhes no site). Aliás, o Ocultaria é quase como um Simpósio de Hermetismo feito por uma geração um pouco mais jovem, o que é algo extraordinário porque demonstra como esse tipo de conhecimento está fincando raízes cada vez mais sólidas aqui no Brasil.

Aliás, um dos palestrantes e apresentadores do Vortex Caoscast, o Rodrigo Vignoli, também é figurinha carimbada entre os frequentadores do Simpósio. Além dele, também falam o meu amigo Gelo e o Victor Vieira, que completam os pilares do Vortex; e, representando o canal do Nino Denani no YouTube, falam o próprio Nino e a Ana Lídia.

Portanto, se você quer conhecer um pouco mais de ocultismo, recomendo que assista alguns vídeos do Nino, depois ouça alguns podcasts do Vortex, e se lhe interessar, vá lá conferir tudo isso ao vivo:

Se inscreva no Ocultaria!


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15.2.18

O que fica

Nenhum animal no Jardim do Éden poderia desejar o conhecimento, seja do bem ou do mal. “Bem” e “mal” são conceitos que eles ignoram completamente, somente Adão e Eva poderiam desejar buscar algo mais do que já tinham, somente os primeiros humanos poderiam abandonar a paz do puro instinto animal, que sempre simplesmente segue sua própria natureza, para se aventurar no reino da consciência de si mesmo, e do outro. E não deveria nos admirar a sua expulsão do Paraíso, o seu pecado capital, pois que tal caminho nunca foi fácil, e continua não sendo. Há muitos espinhos nas rosas vermelhas entre o Éden e o dia de hoje, e nosso sangue foi deixado lá: todo o rastro da dor humana é ainda bem visível. O que estaríamos buscando, afinal?

Eu confesso que falharei na explicação. De fato, tenho tentado usar das palavras durante toda a minha vida para explicar o que não pode ser explicado, pois que reside além delas. Como cascas de um fruto inefável, elas são a sombra invisível da chama de uma vela, o perfume que se perdeu com o vento que passou, a ave mítica que é vista de relance, e que muitos caçadores místicos afirmam ter encontrado, mas nenhum trouxe sequer uma pena! Eu confesso que tenho falhado todo o tempo, em cada texto, em cada poema, em cada parágrafo, em cada palavra: eu falo sobre o que não pode ser cientificamente comprovado, e jamais poderá. Eu falo sobre o único deus que não admite ateus, muito embora possa ser também profundamente odiado. Eu falo sobre aquilo que dói e não se sente, que arde e não se vê, que sempre andou solitário entre a gente. Enfim, eu confesso que falharei na explicação, mas falharei com dignidade.

Se é verdade que nosso primeiro contato com tal conhecimento foi através do instinto, nada nos leva a crer que seja somente através dele que podemos nos relacionar. Afinal, ainda que as palavras sejam de fato cascas de um sentimento indescritível, elas ainda podem tentar abordar tal sentimento de forma indireta, como quem apanha ar dentro de uma bexiga, e mostra algo invisível. As bexigas são as metáforas, mas o ar em si se refere a algo além delas, além de todas as metáforas do mundo, além de toda a linguagem humana.

Um explorador busca encontrar uma pérola preciosa no fundo do mar. Ele não pode retirá-la do local, então a única forma de mostrá-la a seus irmãos em terra firme é esvaziar o mar inteiro. Suponhamos que ele consiga tal façanha: ainda assim, tudo o que poderá fazer é apontar para uma joia na superfície, sem o brilho perolado que ela tem nas profundezas. Ninguém se comoverá com isso. São somente os mergulhadores eles mesmos que podem ir ao fundo e apreciar a beleza desta pérola a refletir os raios de sol vindos do alto, se refratando pelo mar inteiro, como se as estrelas da noite pudessem mandar sinais umas para as outras.

Quem se encontra em terra firme, entretanto, tem medo de morrer afogado. De fato, há acadêmicos por lá que dizem que o mar é perigoso e que, em todo caso, tal pérola jamais existiu. É apenas a fantasia dos loucos poetas que cantam sobre ela nas noites de lua cheia. O ego está acostumado com a terra firme, e quando se arrisca no mar é tão somente na beirada, longe das ondas mais afastadas. Mas eu estou falando de um naufrágio terrível, de um afogamento, de uma tragédia em alto mar. Eu falo do mar profundo, não do raso. Eu falo de onde o ego sabe que não poderá mais subsistir, e por isso sou perigoso.

Há um mundo onde os tolos, os loucos, os andarilhos, os poetas e os místicos são considerados seres incômodos e desimportantes, sem utilidade alguma para a sociedade. Afinal, o que exatamente eles constroem? Apenas castelos de areia que se perdem com a menor ventania. A sua obra não é sólida como a Ciência nem perene como a Igreja.

No entanto, há um outro mundo onde são eles justamente os reis e os sábios, e este mundo jaz além do alcance do ego, além do alcance dos seres da terra firme. Somente quem foi e mergulhou no abismo o encontrou. E, ainda que possa ter retornado, como Prometeu, o seu fogo divino será para os seres de casa como um fogo qualquer, como um poema qualquer, como uma arte qualquer, inútil.

É preciso uma guerra para que um mundo se comunique com o outro. Por isso já vieram andarilhos proféticos nos falar que chegaram em nossa terra para trazer a espada, e não a paz. Não há nada mais conflituoso do que ter de lidar com isto que fica, isto que é eterno, no mundo das coisas fugidias e mutáveis. É preciso mesmo uma espada para cortar todas as ervas daninhas da árvore do ser. É preciso muito sangue e muita dor neste processo. Mas é somente através da ferida que a luz lhe adentra.

É somente por muito bater em seu portão por dentro, que ele se abre. É somente por muito gritar de solidão em seu próprio casulo, que ele se rompe, e lhe transforma num ser alado. É somente queimando completamente no fogo deste conhecimento que você poderá se renovar inteiramente.

E assim, recém-nascido na Criação, você finalmente perceberá que o Éden sempre esteve por toda a parte, que a luz sempre foi eterna, e que todas as suas experiências em seu baile com ela, todas as reflexões e encadeamentos, todos os toques na pele alheia, foram como acariciar o próprio universo. É só isto o que conta, é só isto a essência da realidade, é só isto o que fica.

Mas se você quer um nome, falhará em compreender, assim como eu aqui falho em me fazer compreendido.

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Crédito da imagem: Bruno Walpoth

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12.2.18

A nossa temperatura

Houve época em que vivia em meu próprio casulo,
como um astronauta sem contato com a Terra,
perdido no universo de si mesmo,
dono de tudo, e só.

Em meu casulo espacial eu achei conhecer Deus:
ele era onipotente, onipresente, onisciente,
ele era muito muito grande, maior que o infinito,
e por isso não aparecia,
tinha coisa mais importante para fazer...

Até que chorei tanto de solidão,
que meu cosmo pessoal se incendiou de dor,
e foi assim que meu casulo se rompeu.
Sim, ó caminhantes das inúmeras vidas:
foi através da ferida que a luz adentrou meu ser,
foi batendo por dentro
que o portão se abriu...

Então vi o mundo lá fora, e pousei de volta
aqui em nossa Terra.
Em minhas andanças pelas planícies e montanhas,
busquei saber quem eu era,
com quem poderia me relacionar,
e tudo o que seria bom ou mal,
claro ou escuro, certo ou errado,
moral ou imoral, louco ou são...

Mas eis que lhes digo, caminhantes,
por fim acabei sentindo,
e sentindo percebendo,
e percebendo compreendendo,
que além de todas essas ideias
há um campo
onde não há homem nem mulher,
nem quente nem frio;
há um campo
onde toda a nossa temperatura
se mede pela alma.

Foi justamente lá
que Deus apareceu para mim,
e todo o seu ser era a imagem e a semelhança
do nosso amor...


raph'18 (após dialogar com a Lua)

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Este poema também se encontra na página Poetas do Caos: facebook.com/caospoetas/

Crédito da imagem: Sam Manns/unsplash

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7.2.18

Felicidade

Plenitude .:.

"Existe uma dose de insatisfação, de inquietação, absolutamente necessária para se manter a roda da vida girando. Estar um pouco infeliz é essencial para uma genuína felicidade. O indivíduo plenamente satisfeito consigo mesmo morreu, encerrou todo um aprendizado e deveria ter o bom-senso de partir antes do tédio corroer-lhe a perfeição.

Felicidade é, em linguagem poética, um arco-íris cuja existência é relativa e deixa de existir se chegamos muito perto.

Quem diz-se inteiramente satisfeito, completo e inteiro não é feliz mas uma anomalia, um fruto maduro que logo cai da árvore e começa a podrecer. É a vida.

Ter felicidade e ser feliz são coisas distintas; por vezes nos perdemos procurando o que já temos e nos gastamos tentando manter o que, na verdade, já perdemos.

Compreender portanto que a felicidade é, como a vida, eterno movimento e insaciável transformação, nos desprende de modelos fixos, rasga a fotografia de príncipes/princesas encantadas, dissolve a vã expectativa por prometidos paraísos e libera-nos para aceitarmo-nos sob as dores e delícias de sermos quem somos. Sem culpa. Sem ilusões."

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/mongerosacruzcacianocompostela

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Crédito da imagem: Google Image Search (Banksy)

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5.2.18

O fogareiro

Quantas vezes vim aqui?
Quantas vidas passei por tal jardim
sem nada ver nem perceber
de suas flores e caules e raízes,
de seu suave e eterno
perfume de jasmim?

Que sabia eu de mim?
Quantas vidas de projetos inacabados,
e amores perdidos e achados,
e ilusões em desencanto,
e dor e angústia e falta de sentido
por todo canto?

Quantas vezes vim aqui?
Quantas vidas em meio ao caos?
Quanto tempo até enfim aprender
a abrir os olhos de adentro
e ver o ser,
e vendo perceber
que o reflexo de tanta dor,
e tanta confusão,
foi justamente o que fez brotar
tal ardor em meu coração?

Que queime, que arda por inteiro!
Que faça renascer todo amor do mundo
neste pequenino e singelo
fogareiro...


raph'18

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Este poema também se encontra na página Poetas do Caos: facebook.com/caospoetas/

Crédito da imagem: David Uzochukwu

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