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25.5.17

A verdade

Nós, seres que refletem sobre o Cosmos, temos um problema com a verdade: nos parece que, quanto mais a cercamos com as mãos, mais ela escapa por nossos dedos, nos mostrando que moramos numa praia ainda maior e mais cheia de pequeninos grãos de areia do que um dia ousamos imaginar...

Disse o Rabi da Galileia, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Analise esta frase de forma puramente racional, e me diga então o que seria a verdade: um homem? Um deus? Uma doutrina? Um livro, onde tais palavras foram registradas? Ora, ainda que consiga responder a tais questões, esta resposta será a sua, servirá somente para você, baseada na sua interpretação da vida, e de ninguém mais. Ainda que existisse mesmo um Manual da Verdade Absoluta, isto não nos diria nada sobre a verdade: pois caberia a cada um de nós interpretar suas palavras a sua maneira.

Vejamos um exemplo, “Disciplina é liberdade”... Diga isto para um policial militar ou um operador de tráfego aéreo e ele provavelmente discordará veementemente – é justamente a supressão da liberdade de fazer o que bem entender, e seguir regras e normas rigidamente estabelecidas, o que permite que cumpram o seu serviço da maneira que deve ser cumprido, para que o menor número possível de pessoas inocentes morra em decorrência de assaltos ou acidentes. Diga a mesmíssima frase para um zen budista, ou alguém que, através da domesticação dos desejos desenfreados da mente, encontrou a sua verdadeira vontade, e ele não só concordará, como abrirá uma largo sorriso com o coração – um coração livre.

Mas, estranho de se pensar, e se encontrarmos um budista militar, não haverá momentos em sua vida em que ele precisará seguir normas rígidas de disciplina de guerra e paz, independentemente do que diga o seu coração durante tais períodos? E se o sonho da sua vida fosse justamente o serviço militar? E se ele se sente tão bem cumprindo aquelas ordens patrióticas que, ao mesmo tempo em que às cumpre, ainda se sente o homem mais livre do mundo? Há muitos que compreendem os soldados como agentes de guerra e de morte, mas em princípio o bom soldado é justamente aquele que, em todos os momentos, busca o caminho mais breve possível para a paz, e zela por ela, e a abençoa, e agradece por não ter de disparar nenhum tiro em toda a manhã em que o sol nasce em terras livres.

A verdade, portanto, é algo que nós, os seres que refletem sobre o mundo, interpretamos – algo que até hoje nenhuma máquina foi capaz de realizar. A verdade não é algo que se imprime na página de um livro ou se escreve em equações complexas, mas talvez se pareça mais como um poema de luz recitado por aqueles mais loucos dentre nós, os poetas que habitam este mundo, mas conseguem por vezes entreolhar outros mundos por entre as frestas entre os dedos, sempre que apanham mais um bocado de areia desta praia infinita...

Nos dias de Einstein, por exemplo, ainda se acreditava, cientificamente, que o Cosmos era eterno, que não teve início nem teria fim, e que jamais poderia estar se expandindo. Foi Georges Lamaître, padre e astrônomo belga, quem propôs primeiramente a teoria que, de tão absurda para a época, foi rotulada de forma sarcástica por um radialista daqueles tempos como Big Bang, ou “a grande explosão”. Somente muitos anos depois, após a descoberta da radiação cósmica de fundo, que fora prevista pelos cosmólogos que defendiam a teoria, é que ela foi alçada de vez ao status de teoria científica mais aceita para o início do universo, e dentre os físicos atuais são raríssimos aqueles que levantam algum questionamento relevante acerca da sua validade.

No entanto, não foi à toa que muitos cientistas da época a questionaram: era de fato uma verdade bíblica demais para ser realmente verdade. Um universo inteiro que cabia na ponta de um alfinete ou num ovo cósmico primordial, e que se expandiu para se tornar tudo o que há... Como pensar cientificamente sobre algo assim? Como bem resumiu Terrence McKenna: “A ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Este milagre se chama Big Bang”.

Claro, muitos cientistas hoje se justificam dizendo que este universo pode muito bem ser apenas um de infinitos outros universos de um vastíssimo multiverso, e isto parece acalmar suas inquietações... No entanto, não somente o multiverso não pode ser empiricamente comprovado (como Javé ou Ganesha ou os discos voadores), como a sua preposição por si só não chega a resolver o problema lógico: e de onde surgiu o multiverso? Claro, podemos nos acalmar pensando que o multiverso, ou o Cosmos, é tudo o que é ou foi ou será, incriado, infinito e eterno. Einstein, Espinosa e tantos outros bem mais antigos ficariam satisfeitos, mas quem poderá dizer que esta é a verdade derradeira, absoluta?

Estamos aqui brincando nas margens deste grande oceano cósmico, profundo e desconhecido, e por vezes nos encantamos com a quantidade de grãos e pedrinhas que catalogamos nesta vasta areia a refletir o sol, mas o encanto logo logo se transforma novamente em espanto, quando a areia escorre totalmente da mão, e vemos que a nossa frente há ainda um mar infindável de descobertas por serem feitas, um mar cada vez maior.

O Rabi também nos disse que “somos deuses”, e noutra parte dos Evangelhos, nos revelou que “dia virá em que faremos tudo aquilo que ele tem feito, e ainda muito mais”. Se ele já andou sobre as águas deste mar, se já velejou fundo em seu barquinho, se já mergulhou e nos trouxe peixes para alimentar a nossa fome espiritual, não é porque devemos nos contentar com olhar e aplaudir, mas porque devemos arregaçar as calças e segui-lo, mar adentro.

E assim, velejadores de nós mesmos, também seremos o caminho, a verdade e a vida, e que cada um interprete isso como seu coração achar melhor, pois que em realidade eu lhes digo: não há outra forma de verdade.


A fonte secreta de suas almas precisa brotar e desaguar pelos córregos murmurantes até o mar; e assim o tesouro de suas profundezas infinitas seria revelado aos seus olhos abertos.
Mas não usem balanças para pesar tais tesouros desconhecidos; e não busquem explorar as profundezas de seu conhecimento com uma vara ou uma sonda, pois o Eu é um oceano sem limites e imensurável.
Não digam, “Encontrei a verdade”, mas sim, “Encontrei uma verdade”. Não digam, “Encontrei o caminho da alma”, mas sim, “Encontrei a alma andando em meu caminho”. Pois a alma anda por todos os caminhos.

(Khalil Gibran, trecho de O Profeta)

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Crédito da imagem: Steve Halama/unsplash

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3.5.17

A marcha das formigas

Dave Matthews nasceu e viveu na África do Sul até os seus 10 anos de idade, quando seu pai faleceu devido a complicações de saúde. Sua família então se mudou para Nova York. Porém, ainda aos 12 anos ele voltou à sua terra natal, onde permaneceu mudando de escola em escola, se preocupando mais com a música do que com os estudos. Terminado o ensino médio, Dave retornou aos EUA e se estabeleceu em Charlottesville, Virgínia. Novamente um americano, incerto do que iria fazer da vida, acabou se tornado um conhecido e querido barman local.

Encorajado pelo amigo e guitarrista Tim Reynolds, Dave começou a mostrar sua música e, a partir de canções que havia escrito, convidou dois colegas instrumentistas para gravar uma demo tape. Assim nasceu a Dave Matthews Band, uma das bandas de maior sucesso de público e vendagem desde o final do século passado e, não obstante, uma banda essencialmente folk (popular, local), principalmente em seus primórdios. Talvez por conta de suas conexões africanas, Dave aprendeu a observar o espírito da América, em todas as suas nuances. Foi desta contemplação, acredito, que surgiu uma de suas letras mais belas e inquitantes, Ants Marching (Formigas Marchando), que fala basicamente de nós, os ocidentais, e do que temos feito de nossas vidas...

Neste show beneficiente em prol da agricultura local (ou familiar), literalmente no centro dos EUA, Dave nos apresenta Ants Marching ao vivo, acompanhado de seu antigo amigo (que por acaso é um dos maiores guitarristas vivos):

Ele se levanta pela manhã
Escova os dentes, belisca alguma coisa, e está pronto
Ele nunca muda coisa alguma
A semana termina, e outra começa

Ela pensa: nós nos entreolhamos
Imaginando o que o outro está a refletir
Mas nunca falamos coisa alguma
E estes crimes entre nós vão se aprofundando

Ele vai visitar sua mãe
A comida é boa, logo ele se esquece dos problemas
E se lembra de quando era pequeno
Brincando debaixo da mesa e sonhando

Você pega todas essas chances
E as guarda numa caixa, esperando dias mais tranquilos
Então as luzes se apagam, e você se levanta, e morre

Dirigindo por esta estrada
Há todos esses carros, e pela calçada
Pessoas vagueiam em todas as direções
Nenhuma palavra é trocada, não há tempo...

Oh! e todas as formigas estão marchando
Anteninhas vermelhas e pretas balançando
Todas elas seguindo do mesmo jeito
Todas elas seguindo no mesmo... caminho!

O doceiro instiga os pensamentos de um
Desejo por doces torturado pelo programa
De perda de peso que nos martela a cabeça
Corte o doce, corte, corte
Fique em cima do muro, não vá ofender ninguém
Corte, corte, corte, corte...

Você pega todas essas chances
E as guarda numa caixa, esperando dias mais tranquilos
Então as luzes se apagam, e você se levanta, e morre

Ants Marching (Formigas Marchando), por Dave Matthews Band (trad. Rafael Arrais)

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Tim Reynolds e Dave Matthews)

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