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25.6.26

O mistério de Amherst

A Natureza é a mais elevada das artes
Apenas ver o céu de verão já é poesia

Se leio um livro e isso deixa todo o meu corpo tão gélido
Que não há fogo que posso aquecê-lo,
Sei que isso é poesia
Se sinto, fisicamente,
Como se o topo da minha cabeça fosse arrancado,
Sei que isso é poesia –
Essas são as únicas maneiras de saber –
Haverá outra?


No século XIX, Amherst era uma pequena cidade cerca de 150 km ao oeste de Boston, cuja população girava em torno de 2 a 4 mil habitantes. Nessa época, a vida do cidadão médio era marcada por uma combinação de trabalho agrícola, religiosidade protestante intensa, forte valorização da educação e uma vida social relativamente restrita para os padrões atuais. A maioria das famílias dependia direta ou indiretamente da agricultura, e os dias de trabalho começavam cedo, muitas vezes antes do nascer do sol.
No entanto, o nível de alfabetização e interesse pela leitura era consideravelmente elevado se comparado à cidades norte-americanas do mesmo porte. A cidade contava com instituições de peso, como o Amherst College, fundado em 1821, e posteriormente a Universidade de Massachusetts Amherst, fundada em 1863. Além da Bíblia, muitos dos seus cidadãos eram versados nas obras de William Shakespeare, John Milton, Ralph Waldo Emerson e Henry Wadsworth Longfellow.
Isso pode explicar, quem sabe, o surgimento de um grande poeta numa cidadezinha tão modesta. Certamente ele teria viajado bastante, quiçá rumo a outros continentes, para compensar a falta de diversidade cultural em sua cidade natal. Talvez fosse um agitador social, presente em saraus de poesia em Boston e outras grandes cidades de sua época.
Mas que esse poeta tenha vivido toda a vida em sua própria região, que nunca tenha participado de saraus públicos, movimentos culturais, tampouco tido algum livro de poemas publicado em vida – e que, ainda por cima, tal poeta tenha sido recluso e isolado em sua própria residência por boa parte da vida, e que seja lido e reconhecido até hoje como um dos maiores poetas da língua inglesa e, além de tudo isso, que seja uma mulher, uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson.


Viver é tão surpreendente que deixa pouco espaço para outras ocupações.


Nascida em 10 de dezembro de 1830, Emily era filha de um proeminente família de região. Tanto seu pai quanto seu avô foram advogados de renome. Ela sempre viveu ao lado da família, a quem era muito apegada: os pais, o irmão Austin e a irmã Lavinia que, assim como ela, nunca se casou. A irmã foi também uma de suas grandes amigas ao longo da vida, e após sua morte tornou-se a guardiã de sua obra poética – sem Lavinia, dificilmente o mundo conheceria Emily Dickinson.
Nossa poetisa sempre demonstrou uma grande sagacidade aliada a um temperamento espirituoso, muitas vezes irônico, e uma forte tendência à introspecção e a solitude. Estudou até os 17 anos num seminário para moças, onde foi uma aluna brilhante, sendo versada em inglês, latim, história, geografia, matemática e, principalmente, botânica, pois era grande amante das flores. Com exceção de algumas viagens a Boston e outras cidades da região, Emily passou praticamente a vida toda na mesma residência onde nasceu, chamada “The Homestead” – uma mansão bela e espaçosa, hoje transformada no Emily Dickinson Museum.
Lá ela tinha o seu quarto, um cômodo relativamente simples, com uma pequena mesa de canto iluminada por um lampião, onde escreveu, quase sempre à noite, após encerrar as tarefas domésticas, centenas de poemas que entraram para a história. Isso também se explica pelo seu grande interesse pela leitura, aliado ao fato do pai possuir uma grande biblioteca que estava sempre à disposição. Emily era especialmente versada na Bíblia e na obra de Shakespeare, mas também admirava Charles Dickens, George Eliot e as irmãs Brontë. Na poesia, teve contato com Ralph Waldo Emerson, William Blake, John Keats e Elizabeth Browning. Todavia, seus poemas não parecem ter influência direta de nenhum deles, sendo talhados com extrema originalidade, o que decerto a ajudou a ser lida e reconhecida até os dias atuais.

E assim, com essa sabedoria, orei –
Grande Espírito, dá-me
Um Céu não tão grande quanto o teu,
Mas grande o suficiente para mim


Durante toda a sua vida teve menos de dez poemas publicados, todos enviados a jornais por pessoas da família, sem o nome da autora. Logo de cara, ao verificar que alguns de seus poemas foram impressos com “melhorias” e “correções” editoriais, Emily desistiu de publicá-los como livro, e passou a enviá-los, por correspondência, somente aos seus amigos mais próximos – mesmo que fossem apenas amigos das letras, isto é, cujo contato com a poeta se dava quase sempre pela via das cartas.
Quanto aos casos amorosos, fossem ou não platônicos, ela sempre os manteve em segredo, embora os vivenciasse intensamente. Seja como for, as suposições acerca de sua vida amorosa são baseadas tão somente nas cartas que ela enviou e que foram parcialmente recuperadas ao longo do tempo, já que todas as cartas que ela recebeu de seus correspondentes foram queimadas pela irmã após sua morte, atendendo seu desejo expresso. Dito isso, parece certo que chegou a ter diversos flertes na juventude, e que na maturidade três homens lhe despertaram um forte sentimento. Eram todos casados, mais velhos, figuras que ela admirava: um ministro presbiteriano, o editor de um jornal e um juiz. Com os três a poeta manteve correspondência por muitos anos, e num e noutro ano, deram-se até mesmo raras visitas pessoais. O terceiro, o juiz Otis Lord, um grande amigo de seu pai, ficou viúvo e teve um romance de poucos meses com Emily. Ao que tudo indica, em 1882 ele a pediu em casamento, mas ela recusou, pois isso a obrigaria a mudar-se de Amherst. Dois anos depois, o juiz faleceu.
Também são bastante evidentes os sinais apaixonados nas dezenas de “cartas poema” (letter poems) que ela enviou à sua grande amiga Susan Dickinson, casada com seu irmão Austin. Susan, uma mulher culta e inteligente, em geral era a primeira a receber os poemas de Emily, sendo também a sua principal crítica literária. Esse diálogo duradouro entre as duas foi essencial para o processo criativo e o crescimento intelectual da autora.


Derramei o orvalho –
Mas colhi a flor da manhã –
Escolhi esta estrela:
Única dentre a Noite Imensa –
Sue - para sempre Sue!


Emily amava a Natureza e não se cansava de tentar colocar tal sentimento em palavras. Com seu conhecimento de botânica, cultivava flores numa estufa com tanta dedicação que havia sempre alguma espécie em floração, inclusive no inverno. Na companhia de seu cão Carlo, costumava passear pelos jardim da propriedade da família, o que sem dúvida a inspirava na escrita noturna.
Embora criada no Puritanismo, seus poemas demonstram aversão aos dogmas religiosos mais limitantes. Ao mesmo tempo, era evidente o fervor de sua religiosidade íntima, captada tantas vezes em seus versos mais arrebatadoramente místicos. Emily não se furtava de falar com profundidade tanto do Céu quanto do Inferno.


E se você fosse salva,
E eu condenada a estar
Onde você não estivesse,
Isso já seria o Inferno para mim.

Com a morte de seu cão, um companheiro diário por dezesseis anos, cessaram seus passeios pelos jardins, e Emily se tornou cada vez mais reclusa na própria casa, no próprio quarto, protegida pela irmã e pela criada da família.
Essa tendência à reclusão já havia se manifestado desde seus vinte e poucos anos, mas foi gradualmente se agravando diante da perda de diversas pessoas queridas. Já aos quatorze anos havia perdido uma prima e grande amiga, Sophie, da mesma idade. Ela perdeu o pai em 1874 e poucos anos depois, foi obrigada a testemunhar o adoecimento da mãe, até sua morte em 1882. Aliás, num curto período de alguns anos, a poeta perdeu a mãe, o querido sobrinho Gilbert, de meros 8 anos, uma grande amiga de infância, Helen Hunt Jackson, e ainda o juiz Lord, com quem quase se casou.
De fato, em sua época, anterior à penicilina e o saneamento básico, a morte era um espectro constante em torno dos vivos. Mesmo nas classes mais abastadas era comum morrer de acidentes, de parto, malária, tuberculose, tifo etc. Portanto, não é de admirar que Emily dialogasse constantemente com a morte e a imortalidade da alma em seus poemas. Em alguns deles, a Morte se torna uma espécie de personagem mitológica, uma semideusa, ou quem sabe um aspecto de Deus.


Porque eu não pude parar para a Morte –
Ela gentilmente parou para mim –
A carruagem levava apenas nós dois –
E a Imortalidade.


Em 1886, aos 55 anos e após dois anos de declínio de sua saúde, a poeta tomou a Carruagem. Morreu em sua cama, no mesmo cômodo onde teceu sua poesia, cuidada por Lavinia e Susan. O atestado de óbito menciona nefrite, mas pelos sintomas que ela descrevia, como desmaios e forte dores na nuca, hoje suspeita-se que fosse hipertensão. Seja como for, e medicina de sua época seria incapaz de salvá-la.
Ao organizar seus pertences, sua irmã Lavinia ficou surpresa ao encontrar, numa gaveta, centenas de poemas reunidos em 40 livretos manuscritos – uma produção desconhecida até mesmo da família. Assim, como Emily fez Lavinia jurar que queimaria todas as cartas recebidas pela irmã, mas nada disse sobre sua poesia, seguiu-se uma verdadeira epopeia da compilação de todos os seus poemas, inclusive os que foram remetidos por cartas aos amigos, que eventualmente também se tornaram seus primeiros editores.
Em 1890, quatro anos após sua morte, foi publicada a primeira seleção preparada por Todd e Higginson: Poems, com 115 poemas. Este pequeno livro alcançou um surpreendente sucesso de crítica e de público, esgotando onze reimpressões em dois anos. Na sequência, os mesmos editores lançaram mais duas coletâneas, Poems, Second Series (1891) e Poems, Third Series (1896).
Hoje amplamente reconhecida como uma das maiores poetas da língua inglesa, senão a maior, Emily Dickinson seguiu o mesmo caminho de outros grandes autores clássicos que foram muitas vezes ignorados em sua própria época, mas cuja obra venceu o tempo e veio a se tornar imemorial.
Ficou famosa a carta em que Emily faz uma pergunta ao “Sr. Higginson”, seu futuro editor:


O senhor (...) pode me dizer se o meu Verso está vivo?
A Mente está, ela própria, tão próxima – não pode ver com clareza – e não tenho a quem perguntar –
Se o senhor achar que respira – e puder me dizer – eu sentiria imediata gratidão.


Hoje podemos constatar que o seu Verso, minha amiga, segue mais vivo do que nunca!

 

(em breve as Edições Textos para Reflexão vão publicar uma seleção dos melhores poemas de Emily Dickinson... aguardem!)

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Emily Dickinson em forografia da época, colorizada por computador); [ao longo] Google Image Search (Amherst no século XIX; Emily Dickinson em sua mesa de escrita)

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