2 respostas para Abu
Como já disse aqui algumas vezes, toco este blog primeiramente para organizar minhas próprias ideias. Isso não me desobriga, entretanto, a reconhecer que é sim, muito legal, ter leitores e curtidores. Mas fato é que, há quase uma década atrás, quando ninguém curtia ou comentava nada, ainda assim eu escrevia...
A primeira vez que me surpreendi com a “fama” do blog foi no início do III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, quando conheci pessoalmente um dos leitores do blog, que me reconheceu e veio falar comigo. Ele hoje é um amigo que inclusive já escreveu por aqui também.
Mas o que sempre me deu ânimo para continuar escrevendo foram os raros e-mails de pessoas dando seus depoimentos, extremamente pessoais, de como algum texto daqui as auxiliou em suas vidas... Afinal, o que poderia ser mais recompensador do que isso?
Ainda assim, eu confesso que gostaria de haver alcançado uma certa “fama”, ao menos ao ponto de ter sido convidado para participar do programa Provocações, e ter sido entrevistado pelo Abu...
Talvez vocês o conheçam pelo seu personagem mais famoso, o Ravengar da novela Que Rei Sou Eu?, de 1989. Mas Antônio Abujamra foi muito mais do que um feiticeiro de personalidade forte, ele foi um pensador de personalidade forte. Seu programa de entrevistas, que durou quase 15 anos na TV Cultura, até a sua passagem recente, no último 28 de Abril, era interessantíssimo por diversas razões: entrevistava personalidades realmente interessantes, independente de sua “fama” (tendo, inclusive, entrevistado minha amiga Debora Noal, um anjo do Médicos Sem Fronterias, e até mesmo o Frater Goya, que conheci no Simpósio); recitava poemas (de uma forma magistral, pois Abu sempre foi um ator grandioso); e, principalmente, pelas perguntas, as perguntas!
Abu idolatrava a dúvida, e costumava fazer uma sequência de duas perguntas ao final dos programas. Primeiro, perguntava, “O que é a vida?”; e então, após a pessoa se esforçar muito para dar uma resposta sincera, ele repetia a mesma pergunta, “O que é a vida?”... Assim chegamos a diversos depoimentos que, se não resolveram a questão (e ela dificilmente seria resolvida), ao menos partiram genuinamente do fundo das almas que por lá tiveram o privilégio de passar.
Eu não tive tal privilégio, mas em todo caso gostaria de usar aqui a imaginação, e responder ao meu querido Abu:
[Abu] Raph, o que é a vida?
[Raph] Sabe Abu, se tem uma coisa capaz de nos manter sempre em movimento, sempre à frente, é a nossa divina capacidade de questionar o que sabemos, pois ela é de fato aquilo que nos faz buscar saber mais, cada vez mais...
E, se este oceano de conhecimento cada vez se alarga mais, e se fica evidente que, para cada dúvida que resolvemos, surgem diversas outras, é bom que seja assim, que este oceano é vasto, verdadeiramente vasto.
O que é a vida, então, senão a própria essência por traz deste questionamento? Não importa a resposta, importa mesmo é que continuemos a perguntar.
[Abu] Raph, o que é a vida?
[Raph] John Galsworthy, um dramaturgo inglês, dizia que “as palavras são somente cascas de sentimentos”... Então, Abu, é preciso compreender que “Deus”, “sentido”, “vida”, e até mesmo “eu” e “você”, tudo isto são apenas palavras...
Nesse sentido, talvez até exista uma resposta para essa pergunta, mas não creio que ela possa ser transmitida por palavras... Quem sabe por um gesto, ou um olhar, um olhar de amor...
Se um grande pesquisador descobre que o sentido da vida reside no interior de uma pérola em meio ao mar, ele pode tentar tirar toda a água do mar com sua grande máquina. Mas de que adiantaria saber o sentido da vida apenas após haver drenado o mar e esvaziado toda a praia?
Somente quem vai e mergulha pode encontrar tal pérola... Pessoa estava certo: navegar é preciso, navegar é cada vez mais preciso!
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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação
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