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17.5.15

2 respostas para Abu

Como já disse aqui algumas vezes, toco este blog primeiramente para organizar minhas próprias ideias. Isso não me desobriga, entretanto, a reconhecer que é sim, muito legal, ter leitores e curtidores. Mas fato é que, há quase uma década atrás, quando ninguém curtia ou comentava nada, ainda assim eu escrevia...

A primeira vez que me surpreendi com a “fama” do blog foi no início do III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, quando conheci pessoalmente um dos leitores do blog, que me reconheceu e veio falar comigo. Ele hoje é um amigo que inclusive já escreveu por aqui também.

Mas o que sempre me deu ânimo para continuar escrevendo foram os raros e-mails de pessoas dando seus depoimentos, extremamente pessoais, de como algum texto daqui as auxiliou em suas vidas... Afinal, o que poderia ser mais recompensador do que isso?

Ainda assim, eu confesso que gostaria de haver alcançado uma certa “fama”, ao menos ao ponto de ter sido convidado para participar do programa Provocações, e ter sido entrevistado pelo Abu...

Talvez vocês o conheçam pelo seu personagem mais famoso, o Ravengar da novela Que Rei Sou Eu?, de 1989. Mas Antônio Abujamra foi muito mais do que um feiticeiro de personalidade forte, ele foi um pensador de personalidade forte. Seu programa de entrevistas, que durou quase 15 anos na TV Cultura, até a sua passagem recente, no último 28 de Abril, era interessantíssimo por diversas razões: entrevistava personalidades realmente interessantes, independente de sua “fama” (tendo, inclusive, entrevistado minha amiga Debora Noal, um anjo do Médicos Sem Fronterias, e até mesmo o Frater Goya, que conheci no Simpósio); recitava poemas (de uma forma magistral, pois Abu sempre foi um ator grandioso); e, principalmente, pelas perguntas, as perguntas!

Abu idolatrava a dúvida, e costumava fazer uma sequência de duas perguntas ao final dos programas. Primeiro, perguntava, “O que é a vida?”; e então, após a pessoa se esforçar muito para dar uma resposta sincera, ele repetia a mesma pergunta, “O que é a vida?”... Assim chegamos a diversos depoimentos que, se não resolveram a questão (e ela dificilmente seria resolvida), ao menos partiram genuinamente do fundo das almas que por lá tiveram o privilégio de passar.

Eu não tive tal privilégio, mas em todo caso gostaria de usar aqui a imaginação, e responder ao meu querido Abu:


[Abu] Raph, o que é a vida?

[Raph] Sabe Abu, se tem uma coisa capaz de nos manter sempre em movimento, sempre à frente, é a nossa divina capacidade de questionar o que sabemos, pois ela é de fato aquilo que nos faz buscar saber mais, cada vez mais...

E, se este oceano de conhecimento cada vez se alarga mais, e se fica evidente que, para cada dúvida que resolvemos, surgem diversas outras, é bom que seja assim, que este oceano é vasto, verdadeiramente vasto.

O que é a vida, então, senão a própria essência por traz deste questionamento? Não importa a resposta, importa mesmo é que continuemos a perguntar.

[Abu] Raph, o que é a vida?

[Raph] John Galsworthy, um dramaturgo inglês, dizia que “as palavras são somente cascas de sentimentos”... Então, Abu, é preciso compreender que “Deus”, “sentido”, “vida”, e até mesmo “eu” e “você”, tudo isto são apenas palavras...

Nesse sentido, talvez até exista uma resposta para essa pergunta, mas não creio que ela possa ser transmitida por palavras... Quem sabe por um gesto, ou um olhar, um olhar de amor...

Se um grande pesquisador descobre que o sentido da vida reside no interior de uma pérola em meio ao mar, ele pode tentar tirar toda a água do mar com sua grande máquina. Mas de que adiantaria saber o sentido da vida apenas após haver drenado o mar e esvaziado toda a praia?

Somente quem vai e mergulha pode encontrar tal pérola... Pessoa estava certo: navegar é preciso, navegar é cada vez mais preciso!

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação

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8.4.15

Adão e Eva eram negros

É bem provável que a maioria dos cientistas não creia, ao menos literalmente, que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos. Mas, fato é que os primeiros seres humanos, sejam quais fossem os seus nomes, eram negros. Neste caso já não é uma questão de crença, a ciência já tinha fortes evidências de que o homo sapiens se originou na África [1], e recentemente, com o estudo do genoma humano, chegou à conclusão que a pele branca, clara ou pálida é resultado de uma mutação relativamente recente em nossa história evolutiva.

O estudo, apresentado na 84ª reunião anual da Associação Americana de Antropologia Física, realizada em março de 2015 nos EUA, oferece fortes evidências que os europeus modernos não se parecem muito com os de 8 mil anos atrás.

Um time internacional de cientistas analisou o genoma dos restos de 83 indivíduos encontrados em sítios arqueológicos espalhados pela Europa. Os resultados apontam que a população europeia moderna é uma mistura de pelo menos três antigas populações que chegaram à Europa em diferentes migrações nos últimos 8 mil anos. Comparando com dados do Projeto 1000 Genomas, os cientistas conseguiram encontrar quatro genes associados com as mudanças na pigmentação da pele que passaram por forte processo de seleção natural.

Os cientistas encontraram dois genes diferentes relacionados com a coloração da pele, além de um outro, ligado aos olhos azuis e que também pode contribuir para a pele clara e o cabelo louro. Os humanos modernos que migraram da África para a Europa há cerca de 40 mil anos tinham a pele escura, o que é uma vantagem para regiões ensolaradas. E o estudo confirma que há 8.500 anos, povos caçadores e coletores na Espanha, Luxemburgo e Hungria também possuíam a pele escura, pois eles não tinham os genes SLC24A5 e SLC45A2, que levaram à despigmentação e à pele pálida dos europeus atuais.

Mas no extremo norte, onde os baixos níveis de luz favorecem a pele branca, os pesquisadores encontraram um panorama diferente entre os povos caçadores e coletores: sete corpos do sítio arqueológico de Motala, no sul da Suécia, datados em 7.700 anos, possuíam ambos os genes ligados à pele clara, assim como um terceiro, o HERC2/OCA2, que causa os olhos azuis [2]. Dessa forma, segundo o estudo, os povos caçadores e coletores do Norte da Europa já possuíam a pele pálida, mas os das regiões centrais e sul tinham a pele escura.

Então, os primeiros povos agricultores chegaram à Europa, há 7.800 mil anos, vindos do Oriente Próximo, também carregando os dois genes em questão. Eles se misturaram às populações caçadoras e coletoras e espalharam o gene SLC24A5 pelas regiões Central e Sul da Europa. A outra variante, o SLC45A2, se manteve em níveis baixos de penetração até 5.800 atrás, quando começou a se espalhar pelo continente.

O estudo não especifica porque esses genes passaram por tamanho processo de seleção, mas existe a teoria que a despigmentação serviu para maximizar a síntese de vitamina D, conforme afirmou a paleoantropóloga Nina Jablonski, da Unversidade do Estado da Pensilvânia. Pessoas que vivem em altas latitudes não recebem radiação UV suficiente para sintetizar a vitamina, então a seleção natural pode ter favorecido duas soluções genéticas para a questão: evoluir a pele clara para absorver mais radiação e favorecer a tolerância à lactose, para se digerir os açúcares e a vitamina D encontrados no leite.

“O que nós imaginávamos como um entendimento simples sobre o surgimento da pele despigmentada na Europa, é um emocionante trabalho da seleção” — disse Nina, em entrevista à revista Science — “Esses dados são interessantes porque mostram como se deu a evolução recente.”

Enquanto em boa parte de nossa história o racismo teve suporte na cultura geral, em algumas doutrinas de religiosos equivocados, em filosofias empobrecidas, em políticas públicas desconexas, e até mesmo na própria ciência, é um alento perceber como estavam certos todos aqueles que contemplaram a Natureza e perceberam há eras, pelas mais diversas vias, que somos todos uma única raça. E foi a própria Natureza quem nos contou: o estudo do genoma humano deixa muito claro e cristalino que tudo aquilo que um dia foi chamado de “raça humana” se resume a pequenas diferenças de tonalidade da pele, além de características faciais e capilares, que nem de longe são suficientes para delimitar mais de uma raça de homo sapiens no globo.

De fato, a única outra “raça humana” com quem já convivemos já está extinta, mas há resquícios dela em partes de nossos genes. Os neandertais e os homo sapiens tiveram um breve período de coexistência no Oriente Médio, quando chegaram a gerar filhos uns dos outros. Mas, enquanto os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas (através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu), os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa... Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Se há uma “raça pura” entre os homo sapiens, ela é composta precisamente pelos raros povos ancestrais africanos que chegaram aos dias atuais sem jamais terem saído do Continente Mãe. Enquanto a lendária “raça ariana” é na realidade uma grande mistura de migrações genéticas, onde se incluí até mesmo parte do DNA neandertal, a única vertente “pura” dos homo sapiens é negra e africana, como Adão e Eva.

E, se a sedução de pertencer a uma suposta “raça superior” é muitas vezes motivo suficiente para que muitos de nós abandonem o bom senso e as lições de boa convivência, talvez seja a hora de levantarmos um alerta: o racismo não é uma questão de ser ou não politicamente correto, de se ter ou não uma boa capacidade de convivência, o racismo é uma questão de profunda, profundíssima ignorância.

Se nos dias atuais nossos irmãos que carregam os genes de nossa pele original já conseguem ser aceitos e amados quando são craques em seus times de futebol, ou até mesmo quando se tornam presidentes de potências mundiais, isso é muito bom, mas ainda não é o bastante...

Pois se mesmo tais craques da bola volta e meia ainda são obrigados a conviver com torcidas de mentalidade pré-histórica, que se aprazem em atirar bananas nos gramados, e mesmo se em países de primeiro mundo, governados por um presidente de pele negra, nossos irmãos ainda são mortos por policiais com tiros pelas costas, é porque ainda há muita ignorância ainda por ser depurada.

E como vencer a ignorância da alma, senão pela educação da alma?

E como perpetuar a ignorância, senão por uma educação corrompida?

Sim, Adão e Eva, e todos nós, somos negros, pois é negra a nossa cor original, e é negro o continente de onde todos nós um dia saímos para conquistar a Terra. Sim, o Éden, afinal, também é africano... Está na hora de começarmos a reconstruí-lo, no mundo inteiro.

***

[1] Embora também existam outras teorias que afirmam que ele pode ter se originado tanto na África quanto na Ásia Central e na Europa. Em todo caso, o que nos importa neste artigo é que há fortes evidências de que os primeiros homo sapiens eram negros, seja onde tenham surgido.

[2] Novos estudos científicos e antropológicos levam a crer que a própria distinção da cor azul é algo recente em nossa história.

Crédito da imagem: Karin Miller

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10.1.15

A sublime canção

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar:

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou...

Gita! Gita! Gita!

Ao se deparar com tais versos, a maior parte dos brasileiros vai associá-los a famosa composição de Paulo Coelho e Raul Seixas, Gita. Mas talvez seja uma grande minoria que terá conhecimento da fonte original de boa parte das palavras usadas na música: O Bhagavad Gita, a sublime canção, um dos textos mais sagrados de toda a humanidade.

Embora mais famoso no Oriente (particularmente na Índia, sua terra de origem), o Bhagavad Gita eventualmente foi traduzido do sânscrito para o inglês e, dessa forma, pôde ser apreciado também por grandes mentes ocidentais, que não lhe pouparam elogios e até mesmo uma certa reverência:

Comparado com o Gita, o nosso mundo moderno e toda a sua literatura se parecem insignificantes e triviais (Henry David Thoreau)

O Bhagavad Gita é a coisa mais profunda e mais sublime de que dispõe o mundo dos homens (Wilhelm von Humboldt)

Foi o primeiro dos livros, como se todo um império nos falasse; nada pequeno ou sem significância, mas grandioso, vasto e consistente, a voz de uma inteligência muito antiga (Ralph Waldo Emerson)

Este livro é um dos resumos mais claros e compreensivos da filosofia perene que já nos foram revelados; o seu valor persiste até hoje não somente em benefício da Índia, mas de toda a humanidade (Aldous Huxley)

O Bhagavad Gita (A canção [gita] do Senhor [Bhagavan; a forma humana da divindade]) é um episódio da imensa e milenar epopeia hindu, o Mahabharata (Grande [maha] Índia [bharata]), que contém 250 mil versos, descrevendo a grande guerra entre os Kurus e os Pândavas, que tinha por objetivo a conquista de Hastinapura, um dos centros mais importantes da antiga civilização ariana.

Numa interpretação literal, o livro traz um diálogo existencial entre Arjuna, um dos cinco príncipes dos Pândavas, e o cocheiro de sua carruagem de guerra, seu grande amigo Krishna, em meio ao horror de uma batalha entre dois povos que possuíam muitos laços familiares. Porém, como bem dizia Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século XX:

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental. (trecho de O Poder do Mito)

Ora, numa interpretação mais profunda do Gita, fica claro que o amigo do príncipe Arjuna é muito, muito mais do que um mero cocheiro. Nalgumas tradições hindus, Krishna é considerado o avatar (encarnação terrena de uma divindade) do deus Vishnu; e noutras tradições ele é considerado a encarnação do próprio Deus Supremo. Em todo caso, o que nos importa em uma interpretação esotérica da obra é que enquanto Arjuna pode ser associado ao ser ainda nos primeiros estágios de sua busca espiritual, Krishna é a representação do final do caminho: a dissolução do ego e a sua união com o logos divino, o Eu Superior, o Cristo.

A batalha retratada no início da canção deve ser compreendida como o embate interno, da alma com ela mesma, em busca de sua própria reformulação moral, em suma, sua evolução no caminho para conhecer a si mesma, um pensamento, um ensinamento de cada vez. Não é sem razão que Arjuna se vê incapaz de participar da guerra entre o seu grupo, os Pândavas, e o grupo adversário, os Kurus. Eis que ambos nada mais são do que a representação de nossos próprios pensamentos: é uma batalha psicológica, uma batalha que todos nós travamos em nosso interior desde o momento em que tomamos consciência de nossa existência – quer compreendamos, quer não...

Os autores do Bhagavad Gita colocam a narração de toda a história na voz de Sanjaya, o fiel servidor do rei cego dos Kurus, Dhritarashtra. Já os Pândavas são seguidores da rainha Kunti, mãe de Arjuna. Ora, Dhritarashtra, o rei cego de nascença, representa a vida material, ancorada nas forças inferiores do ego; já Kunti representa a pureza da alma, e a vontade de reconexão com a divindade, enfim, nosso lado espiritual.

Arjuna, ao perceber que ambos os exércitos fazem parte de si mesmo, que em essência todos são seus parentes, seus irmãos, desperta naquele momento de uma longa existência no mundo das ilusões, o mundo material transitório, e passa a considerar também a existência do mundo da essência, o mundo eterno, de onde vem seu amigo Krishna.

Não se trata, dessa forma, de uma batalha que precise ter um exército vencedor e um derrotado, mas de uma batalha pela reconciliação das forças interiores, para que tanto os Kurus quanto os Pândavas reconheçam, relembrem, que no fim das contas são todos filhos de um mesmo ser. E o que Krishna ensina ao príncipe Arjuna no restante desta sublime canção é precisamente que este ser é você!

***

Bibliografia
O Poder do Mito, Joseph Campbell (Ed. Palas Athena)
História das crenças e das ideias religiosas, Mircea Eliade (Ed. Zahar)
Bhagavad-Gita, A Mensagem do Mestre, introdução e tradução por Francisco Lorenz (Ed. Pensamento)

Crédito da imagem: Google Image Search (Arjuna e Krishna em sua carruagem)

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29.12.14

Um elogio a reflexão

É sempre muito proveitoso ler boa filosofia, a despeito das inúmeras lendas acerca de sua complexidade e aparente inutilidade prática. Ademais, nunca é tarde para começar a pensar sobre si, a se aventurar nos reinos da própria alma, a se conhecer. Ou, como bem resumiu Epicuro:

Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz.

Obviamente há que se ter em mente para que serve propriamente a filosofia. Em minha adolescência ela não foi ensinada no colégio, e portanto não servia para passar nas provas e tampouco no vestibular. Da mesma forma, o fato de alguém haver estudado filosofia não parece ser uma das prioridades das empresas na hora de analisar um currículo. Nesse sentido, é melhor aprender a programar, gerenciar ou até mesmo cozinhar. De fato, a filosofia não serve para passar em provas nem para se ter um bom salário.

No entanto, ela serve para se ter uma boa vida, uma vida com muito mais felicidades do que angústias, o que é fruto direto do contato e conhecimento de nossa própria alma. Não se deveria estudar filosofia somente para ter assuntos para conversar com este ou aquele intelectual de linguagem rebuscada, melhor seria evitar amizades deste tipo. A verdadeira filosofia não cria barreiras de linguagem entre as pessoas, todo verdadeiro filósofo é um apreciador da alma humana, pois é somente de lá que advém a sabedoria.

O Chefe Seattle, por exemplo, não sabia nada de física ou química, nem nunca leu nenhum clássico da literatura alemã ou russa. Mas todo filósofo saberá apreciar o seu quinhão de sabedoria, pois reconhecerá nela um pouco da água que flui da mesma fonte, na essência das almas, de todas as almas:

O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.

E foi necessário bem mais de um século para que o restante da humanidade se desse conta destas verdades. Ora, Epicuro e o Chefe Seattle nunca ouviram falar um do outro, mas certamente dariam excelentes amigos, pois ambos conheciam suas próprias almas de uma forma bem mais profunda do que a maioria de nós. A sabedoria, nesse sentido, é um dos nossos maiores tesouros, bem mais valiosa do que terras, petróleo, ou um cargo na diretoria de uma multinacional.

Amar a sabedoria, ser um filósofo, nesse sentido, é antes se preocupar em ser do que em ter. Antes se preocupar com as coisas naturais do que com as coisas superficiais. Mas no que exatamente a mera leitura dos clássicos poderá nos auxiliar? Em quase nada, se nos mantivermos apenas na leitura dos manuais de natação, sempre nos resguardando do mergulho. Por que deixar para amanhã a aventura que pode se iniciar neste momento?

Uma das máximas do estoicismo, por exemplo, é uma frase supreendentemente simples: “Preocupe-se apenas com aquilo que pode mudar”. Mas qual a utilidade em se ler e decorar tal máxima, quem sabe para passar nalguma prova estranha, ou talvez para recitá-la em meio a uma reunião de negócios, querendo passar a ideia de que é um intelectual?

Pois é, de nada adianta haver lido Epicteto ou Sêneca se você nunca exercitou esse amor a sabedoria, esse olhar para si, enfim, a reflexão. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que poderemos nos desligar um pouco das crises nos noticiários, e tratar de resolver as crises de nossa própria existência. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que podemos, quem sabe, sair de casa para dirigir nosso carro numa metrópole engarrafada tendo em mente que o trânsito estará lá, como sempre esteve, e não é xingando o motorista ao lado ou algum deus da fortuna que iremos chegar mais rapidamente ao nosso destino.

O nosso destino, afinal, sempre foi nossa própria alma. Viaje até a Índia, visite um vulcão na Islândia ou um cassino em Las Vegas, e não terá dado sequer um passo para além de sua alma, de sua essência. Há todo um mundo por lá – de fato, o único mundo que há.

E somos bombardeados constantemente por informações, anúncios, equações de lucros e perdas, número de mortos e feridos, placares de partidas e resultados de provas, e nada disso existe por si só, ou tem significado por si só: somos nós, em nós mesmos, quem interpretamos o mundo. Por que, então, se abster de mergulhar, por que viver a margem de nossa própria alma?

Seja na filosofia, na ciência, na religião ou até mesmo na poesia, a primeira coisa que o mergulhador aprende é que os manuais só nos servem para dar a coragem do primeiro mergulho, dos primeiros cem metros na trilha da floresta íntima, pois que o restante da aventura caberá somente a nós.

Neste caminho, entretanto, não temos somente a ajuda do relato daqueles que caminharam há séculos ou milênios atrás por essas mesmas trilhas, temos também a possibilidade de sermos auxiliados pelos que caminham ao mesmo tempo que nós. E a única coisa que eles lhe pedirão é que ajudem também aos que vêm atrás.

E é assim, é somente assim, de mãos dadas nesta jornada, que poderemos um dia alcançar a eternidade. Esta região onde residem todas as utopias e todas as promessas de um novo amanhã, de onde cintila a luz que não gera nem é gerada, e que existe e sempre existiu para ser refletida – um pensamento de cada vez.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Epicuro)

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18.12.14

A estrela ao centro

Um grupo de pássaros desejava encontrar o seu rei; então pediram a um pequeno pássaro sábio de longa crista que lhes ajudasse em sua busca. Ele lhes disse que o rei que estão procurando se chama Simurgh e que vive escondido na montanha de Qaf. A jornada até a sua casa, porém, é uma aventura muito difícil e perigosa.

Mesmo assim, muitas centenas de pássaros aceitaram a tarefa, e iniciaram um longo voo através dos sete grandes vales que os separavam de seu destino: o vale da busca, seguido do vale amor, do vale da compreensão, do vale do desapego, do vale da unicidade, do vale do espanto e da perplexidade e, finalmente, do último deles, o vale do aniquilamento e da morte... Muitos foram se perdendo pelo caminho, de modo que somente 30 bravos pássaros conseguiram chegar em Qaf.

Este é um brevíssimo resumo de um dos textos clássicos do sufismo, de Attar de Nishapur, intitulado A linguagem dos pássaros (ou A conferência dos pássaros). Attar (o “perfumador”) viveu aproximadamente entre o fim do século XI e o início do XII, e foi um dos diversos grandiosos poetas que ajudaram a estabelecer as bases do sufismo, que nada mais é do que a vertente mística do Islã.

Embora todas as grandes religiões tenham o seu ramo místico, até hoje o termo “misticismo” é muito pouco compreendido, e usualmente associado ao termo “mistificação”, que é praticamente o seu oposto. Os místicos, de fato, são exatamente aqueles religiosos verdadeiros, buscadores da essência das coisas, e não de sua casca. Os místicos trabalham exatamente para desmistificar, descascar tais frutos sagrados, que nunca foram nem jamais serão descritos por palavras. As palavras, ora essa, são exatamente as cascas que sobraram...

No entanto, não foi através do perfume de Attar que fui atraído aos sufis, e sim pela poesia de um de seus admiradores, Jalal ud-Din Rumi, teólogo e poeta sufi que viveu na região da Anatólia (atual Turquia) no século XIII. Por mais estranho que possa parecer, este místico persa é atualmente um dos poetas mais lidos nos EUA e em muitos países de língua inglesa, e isso se deve menos a qualidade de seus tradutores (principalmente Coleman Barks) do que a qualidade inefável e atemporal de seus poemas:

Vem, vem, seja você quem for, não importa se você é um infiel, um idólatra, ou um adorador do fogo; vem, nossa irmandade não é um lugar de desespero; vem, mesmo tendo violado seu juramento cem vezes, vem assim mesmo.

Vem, lhe direi em segredo aonde leva esta dança. Vê como as partículas do ar e os grãos de areia do deserto giram desnorteados. Cada átomo, feliz ou miserável, gira apaixonado em torno do sol.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta. Já que todos somos um, falemos deste outro modo: os pés e as mãos conhecem o desejo da alma. Fechemos então a boca e conversemos através da alma. Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se lhe interessa, posso mostrar... [1]

Fui fisgado imediatamente pelo sentimento que tais cascas fizeram brotar em meu coração. Rumi sabia exatamente o que estava fazendo, ainda que inconscientemente, pois a maior parte de sua obra foi ditada enquanto ele mesmo dançava, rodopiando ao redor de algum ponto imaginário, enquanto seus seguidores se apressavam em anotar cada sílaba, cada palavra, e não perder nem uma gota daquele mel divino que escorria, sabe-se lá de onde.

Nem sempre havia sido assim. Antes de se tornar um poeta enlouquecido de amor, Rumi fora um grande teólogo ortodoxo do Islã, profundamente venerado por seu conhecimento das escrituras sagradas. Mas sua ortodoxia foi dissolvida no dia em que encontrou o sol de sua vida: Shams de Tabriz, um místico andarilho que instigou Jalal ud-Din a deixar as cascas de lado, e se concentrar na essência das coisas.

Tão intensa foi a amizade entre Rumi e Shams que o seu próprio filho, um de seus seguidores mais devotos, um dia escreveu desesperado:

Noite e dia, em êxtase ele dançava, na terra girava como giram os céus. Rumo às estrelas lançava seus gritos e não havia quem não os escutasse. Aos músicos provia ouro e prata, e tudo o mais de seu entregava. Nem por um instante ficava sem música e sem transe, nem por um momento descansava.

Houve protestos, no mundo inteiro ressoava o tumulto. A todos surpreendia que o grande sacerdote do Islã, tornado senhor dos dois universos, vivesse agora delirando como um louco, dentro e fora de casa. Por sua causa, da religião e da fé o povo se afastara; e ele, enlouquecido de amor. Os que antes recitavam a palavra de Deus agora cantavam versos e partiam com os músicos.

Na verdade o ápice do “delírio” de Rumi veio mesmo quando foi obrigado a se afastar de seu amigo. A história não foi tão bonita: Shams muito provavelmente foi assassinado pelos próprios seguidores de Rumi [2], enciumados de sua atenção quase que exclusiva ao seu amigo e amado, e aturdidos com o seu crescente afastamento da ortodoxia de outrora.

Não deu certo: após ser privado de sua grande amizade, Rumi se dissolveu completamente no amor, e passou o resto de seus dias dançando, rodopiando e recitando palavras divinas. Em tudo o que “escreveu”, assinou não com seu próprio nome, mas com o nome daqueles que amava, fosse Shams, fosse alguns dos seus discípulos, fosse o açougueiro da cidade...

Além das ideias de certo e errado, há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama, o mundo está preenchido demais para que falemos dele. Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um” não fazem mais nenhum sentido.

Você já sofreu em excesso por sua ignorância, já carregou seus trapos para um lado e para outro, agora fica aqui...

Na verdade, somos uma só alma, você e eu. Nos mostramos e nos escondemos você em mim, eu em você...

Eis aqui o sentido profundo da minha relação contigo: é que não existe, entre você e eu, nem eu, nem você.

Rumi assinava seus poemas com nomes alheios pois havia finalmente chegado, como os 30 pássaros de Attar, ao final da jornada do ser, a casa do rei, na montanha de Qaf:

Ao entrar, os pássaros olharam tudo assustados. Não conseguiam entender o que se passava, pois no lugar de ver a Simurgh, o rei, tudo o que eles conseguiram ver foi... 30 pássaros refletidos num grande salão cheio de espelhos, e vazio!
    
Finalmente compreendem que, contemplando a si mesmos, têm encontrado ao rei, e que em sua busca do rei, têm encontrado a si mesmos. Os que atravessam os sete vales se purificam, e os que conseguem chegar ao palácio real, encontram ao rei que se revela em seus corações.

Esta é a essência do sufismo, a essência do misticismo, e que não pode ser totalmente apreendida por palavras, por fábulas, nem sequer por poemas. Talvez tenha sido a dança, o sama, o grande tesouro que Rumi tenha deixado para nós, através da ordem Mevlevi, mesmo que hoje ela seja cada vez mais uma dança artística do que propriamente religiosa...

Fato é que isso tudo não importa, o que importa é a estrela ao centro, o ponto imaginário em torno do qual dançam os sufis, num ritmo eterno. E seja “Allah”, “Deus” ou “Alma do Mundo” o seu nome, tampouco importa, é somente um nome. O que importa é a experiência, o que importa é o próximo passo desta dança.

E ela não termina nunca!

***

[1] Os poemas e citações do texto podem ser encontrados em minhas traduções do poeta na obra Rumi – A dança da alma.

[2] O que não é algo assim tão raro na história do sufismo. Outro grande poeta sufi, Mansour al-Hallaj, também foi perseguido, preso por mais de uma década, torturado e morto, por se atrever a se “afastar da ortodoxia” de sua época (final do séc. IX, início do X).

Crédito da imagem: Babel Santorini/Divulgação

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30.9.14

Deus tá vendo essa zoeira!

É este o slogan de um dos jogos de cartas mais polêmicos dos últimos tempos, o Pequenas Igrejas, Grandes Negócios.

Quando ouvi falar a primeira vez deste projeto, foi da boca do seu próprio criador, meu amigo Marcelo Del Debbio. O Marcelo, como muitos devem saber, é um dos divulgadores de ocultismo e espiritualidade mais conhecidos do país, assim como um dos críticos mais veementes da “picaretagem” de alguns dos ditos espiritualistas de todos os credos.

A primeira coisa que pensei foi que a temática do jogo parecia ser, em geral, um ataque meio gratuito aos evangélicos. Tive medo de que o resultado final fosse um tanto generalista e enfiasse todos os evangélicos no mesmo saco. Obviamente, para muitos evangélicos “picaretas”, é exatamente isso o que pensam do jogo desde o primeiro momento em que souberam dele.

Mas o resultado final não foi bem esse... Antes de chegarmos lá, é preciso lembrar que o sistema do jogo já vinha sendo bolado há cerca de quatro anos pelo Marcelo e o seu amigo, Norson Botrel, ambos designers de jogos de RPG há muitos anos. Porém, na hora de finalizar tudo e efetivamente criar as ilustrações, imprimir as cartas, etc., eles tiveram de pedir ajuda a diversos outros amigos...

As ilustrações ficaram a cargo do Roe Mesquita, o design e o projeto gráfico, com Rodrigo Grola, e o marketing e a edição dos vídeos de divulgação com o PH Alves (do Conversa entre Adeptus). Todo esse pessoal é muito gente boa e também faz parte da comunidade espiritualista que se criou em torno do blog do Marcelo, o Teoria da Conspiração, mas ainda faltava um elemento essencial: Como pagar o trabalho dessa gente toda? Como pagar a impressão dos primeiros baralhos?

Foi aí que o Marcelo decidiu recorrer ao crowdfunding, usando o site Catarse. No crowdfunding, um projeto qualquer é apresentado com uma meta de financiamento (em reais) e, geralmente, uma série de bônus para aqueles que doarem valores maiores. No caso do Pequenas Igrejas, Grandes Negócios (PIGN), a meta mínima para a produção do jogo era de 29 mil reais. A cada 5 mil reais extras arrecadados, eram prometidos novas cartas e suplementos disponíveis desde o lançamento. Se o financiamento total ultrapassasse a última marca da lista, 75 mil reais, eles ainda prometiam entregar sleeves (embalagens plásticas) para cada carta do baralho a quem houvesse investido acima de certo valor.

Ao final de cerca de 2 meses de crowdfunding, o PIGN se tornou um dos projetos mais bem sucedidos do Catarse, tendo arrecadado quase 93 mil reais! Eu mesmo fui um dos 12 que doaram os valores mais altos disponíveis (400 reais, nem tanto se comparado a outros projetos do Catarse), e garanti uma carta com o meu pastor no jogo, o Bispo Sinésio!

Há algumas semanas atrás a minha edição do jogo chegou por correio, com assinaturas de diversos integrantes do projeto, e com quase 400 cartas, incluindo todas as cartas bônus disponíveis... A grande questão então passou a ser: será que eu usaria esse jogo apenas para ficar rindo das cartas, ou será que daria para jogá-lo realmente? Bem, com a ajuda do pessoal que segue o blog do Marcelo aqui na minha cidade, consegui jogar algumas partidas bem divertidas...

Na verdade o jogo é bem mais do que uma simples crítica bem humorada a “picaretagem” de alguns ditos espiritualistas. Ele realmente funciona como jogo, e acredito que não deveríamos esperar menos de designers como o Marcelo e o Norson. Como não sou exatamente um especialista em jogos de cartas do tipo (eles mesmos dizem que se inspiraram em Magic: The Gathering, BANG!, UNO e Munchkin para criar o mix de regras), não posso afirmar que se trata “do melhor jogo de cartas de todos os tempos”, mas certamente é um jogo tão divertido de jogar quanto o Munchkin (o que mais conheço da lista anterior), com a vantagem de ser ambientado num “universo brasileiro” – ou melhor, “num mundo onde as igrejas são usadas por pessoas trapaceiras e inescrupulosas para lavar dinheiro do crime, vender porcarias inúteis, explorar a boa fé de pessoas ignorantes e obter poder político; um universo muito diferente da nossa realidade, onde as igrejas são centros comunitários de ajuda ao próximo, gerenciadas por baluartes do bom caratismo”.

O que nos traz de volta a questão inicial: será que o PIGN coloca num mesmo saco tanto os “picaretas” quanto os verdadeiros espiritualistas? Na verdade, não, nem de longe... Para começar, apesar do jogo se focar, como o próprio título diz, nas igrejas, a verdade é que há críticas a “picaretas” de várias vertentes religiosas – para citar dois exemplos, temos no baralho os pastores “Mãe Binah” e “ET Bilu Bilu”, que estão longe de se referirem a pastores evangélicos do “mundo real”.

Além disso, em nenhum momento é citado o nome de Jesus. Não que isso por si só fizesse alguma diferença, mas não deixa de ser revelador o respeito que mantiveram ao seu nome. Em PIGN, encontramos “Jezuis”, e não “Jesus”.

Por fim, o que mais achei curioso no jogo é que todas as cartas de ataque (o objetivo do jogo é acabar com a reputação dos pastores adversários, daí existirem as “cartas de ataque”) se referem a notícias que foram vinculadas na mídia real (independente de serem verdadeiras ou não, mas o absurdo todo é que a grande maioria é verdadeira).

Assim, quando atacamos nossos amigos na mesa de jogo usando cartas como “Igreja é dona do maior complexo de saunas gays da Europa” (carta #215), “Religioso afirma que sexo ilícito é causa dos terremotos” (#187), “Pastor ex-gay quer criar ‘Conselho estadual para a defesa dos direitos héteros’” (#192), “Barak Obama está possuído pelo demônio, afirma pastor que faz exorcismo por Skype” (#162), ou ainda “Ex-obreira fica grávida do Diabo e dá à luz 3 caveiras de plástico!” (#31), ficamos nos perguntando se este jogo chegou mesmo a conseguir ser mais absurdo do que a nossa realidade – e então, ao menos nos resta o consolo: Deus tá vendo essa zoeira!

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» O PIGN pode ser adquirido na loja online da Daemon Editora

Crédito das imagens: Divulgação/PIGN

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26.8.14

A grande quarentena

“É uma medida que nos leva de volta a Idade Média. É um reflexo do pânico e da ignorância”.

Em West Point, uma favela sobre uma península em Monróvia, capital da Libéria, a Idade Média retornou em 20/08/14, quando a presidente Ellen Johnson Sirleaf decretou a quarentena em massa para cerca de 70 mil pessoas, devido a um surto de ebola fora de controle e do colapso do sistema de saúde deste que é um dos países mais pobres do mundo.

Recém saída de duas guerras civis em sequência, que devastaram sua economia e deixaram milhares de mortos, a Libéria contava, até 3 dias após o início da quarentena em West Point, 624 das 1.427 mortes causadas pelo surto de ebola na África, que já assusta o mundo e faz com que o continente mãe retorne aos noticiários.

Ainda não se sabe como exatamente o vírus ebola passou a contaminar seres humanos, mas o mais provável é que tenha sido pelo consumo da carne de animais selvagens, particularmente morcegos-da-fruta, os mais indicados como reservatórios naturais do vírus. Sim, na África há o costume de se comer morcegos, o que não é tão chocante em se considerando quanta miséria e fome ainda existem por lá...

Após a infecção, os sintomas têm início em duas a três semanas, e manifestam-se através de febre, dores musculares, dores de garganta e dores de cabeça. A estes sintomas sucedem-se náuseas, vómitos e diarreia, além de insuficiência hepática e renal, seguidos de graves problemas de hemorragia.

Comparado a outros vírus, o potencial de infeções em grande escala por ebola é considerado baixo, uma vez que a doença só é transmitida por contato direto com as secreções de indivíduos que mostrem sinais de infeção. A rápida manifestação dos sintomas faz com que seja relativamente fácil identificar indivíduos doentes e limita a capacidade de uma pessoa em transmitir a doença durante viagens. Entretanto, as péssimas condições sanitárias de algumas grandes cidades africanas faz deste surto de ebola uma grave ameaça.

E, não custa lembrar, cerca de 90% dos infectados morrem.

Nos dias seguintes a quarentena em massa de West Point, os moradores passaram a contar com a distribuição de comida e água por grupos humanitários, mas se queixam de quantidades insuficientes e falhas na entrega. Os preços de mantimentos nos pequenos mercados dentro da favela dispararam e muitos itens essenciais já estão esgotados.

Não sabemos o que será dos 70 mil que retornaram forçadamente a Idade Média em Monróvia, mas sabemos de uma coisa: para boa parte do mundo, e particularmente no Ocidente, toda a região central do continente africano sofre de uma espécie de “grande quarentena étnica”. Afinal, quem se preocupa com o que se passa por lá? Quem estudou a sua história e a sua cultura no colégio? Quem se interessa genuinamente por suas religiões arcaicas? Quem chora pelos africanos?

Isto não é somente uma questão moral, mas uma questão de sobrevivência. Não é a toa que os surtos de doenças mais mortais das últimas décadas têm se originado na África. Se deixarmos todo um continente isolado dos “afazeres do mundo civilizado”, mergulhados na miséria e na fome, isto não os torna menos humanos, menos homo sapiens. E, uma doença que mata os homo sapiens africanos, mata também os homo sapiens do restante do globo. Se não estamos exatamente preocupados com eles, deveríamos ao menos ter o bom senso de nos preocupar com a espécie humana, como um todo!

Felizmente, há quem se preocupe, há corações ocidentais e orientais que ainda batem pelos africanos, e que fazem tudo ao seu alcance para os cuidar e auxiliar. Quando falamos de “cuidado e auxílio” aos africanos, particularmente aos mais miseráveis, é inevitável falar dos Médicos Sem Fronteiras.

O MSF é uma organização internacional não-governamental sem fins lucrativos que oferece ajuda médica e humanitária durante situações de emergência, em casos como conflitos armados, catástrofes naturais, epidemias, fome e exclusão social. É a maior organização não governamental de ajuda humanitária do mundo, na área da saúde, e sobrevive exclusivamente de doações.

Debora Noal, brasileira, psicóloga e “agente” do MSF, é um dos nossos anjos, um dos corações que ainda pulsa, forte, pela África. Não faz muito tempo que deu este relato emocionante, profundo, humano, para a então jornalista da Época, Eliane Brum, onde fala sobre a sua experiência de auxílio aos infectados pelo ebola noutros surtos passados (e que não chegaram ao noticiário) [1]:

Quando eu cheguei lá em Isiro (Congo), a primeira coisa que a equipe que estava junto comigo no avião falou foi: “Vamos se abraçar?”. Eu falei: “Gente, que estranho. Nunca ninguém me propôs isso dentro de um avião”. A gente sabia que, depois que saísse de dentro do avião, ninguém mais ia se abraçar durante longas semanas. E a cara deles refletia um pouco a minha cara, o que eu estava sentindo. Tipo: “Como será que é viver num mundo sem toque?”. Porque você não toca mais. Você passa semanas sem tocar na pele de ninguém. Você passa semanas sem ter um contato corporal que te dê uma sensação de acolhimento. Acho que essa é uma relação bem difícil. Como é que você cuida de alguém sem chegar muito perto? Como é que você abraça alguém sem tocar? Como é que você faz um carinho em alguém sem encostar sua pele na pele do outro?

Essa missão foi bem especial nesse sentido. Eu descobri várias formas de como cuidar do outro sem tocar. E foi muito bonito. Quando cheguei lá, a primeira coisa que eles diziam era: "A nossa função aqui é isolar o ebola". Aí eu passei a dizer para a comunidade: “Bom, gente, a minha função aqui é fazer com que o vírus fique isolado, e as pessoas não fiquem isoladas. Então, assim como o papel da equipe técnica, médica e de higiene é o de isolar o vírus, o meu papel é fazer com que as pessoas não fiquem isoladas”.

Para mim, a indignidade do vírus é a sensação de que ele só matava as pessoas que tinham coração bom, as pessoas que queriam cuidar. Porque, em geral, quem estava contaminado era quem tinha ajudado a cuidar dos outros nos últimos momentos de vida. Então, a pessoa estava lá, com febre, tendo diarreia, vômito e ninguém chegava perto por causa do vírus. E havia aquele que cuidava mesmo assim, mesmo sem ter água encanada, sem ter sabão em casa. E por isso se contaminava e morria.

Aconteceu isso com um pastor de 70 anos. A mulher dele morreu de ebola, e foi ele que cuidou dela até o último minuto. Também era ele quem rezava pelas pessoas que estavam contaminadas em sua comunidade. E, também por isso, ele se contaminou. Então, esse senhorzinho entrou no Centro vítima do cuidado. Quando eu entrei lá para perguntar a ele como é que ele gostaria de ser cuidado, o que a gente podia fazer por ele, ele disse: “Eu queria que alguém viesse me visitar”. Ele não pediu remédio, ele não pediu nada para dor, ele não pediu nada para diarreia, ele não pediu nada médico. Mas ele pediu que alguém fosse lá vê-lo, sabe? Ele já estava com a gente há mais de uma semana e não tinha recebido uma única visita. Nem os filhos o tinham visitado. Ele era pastor de uma das maiores congregações protestantes e não tinha recebido nem mesmo a visita de um fiel. Isso me deu uma sensação muito ruim. Aí foi nesse dia que eu decidi: vou lá nessa comunidade, vou conversar com eles, vou filmar a conversa, vou tentar trazer a sua comunidade para dentro do Centro.

Eles nunca tinham visto uma câmera. Eles nunca tinham visto televisão, nem filme, nem nada, mas de repente eram eles que estavam falando, com o olhar bem na câmera, mesmo, como se eles tivessem feito aquilo a vida inteira. E eles olhavam bem na câmera, falando: "Pastor, a gente está aqui rezando para você". Então, na hora em que a gente projetou, parecia que eles estavam olhando no olho do pastor e dizendo: "A gente tá aqui, rezando pra você, e é todo dia, é toda hora, e a gente reza de noite e a gente reza de dia e a gente tá fazendo três cultos por semana, que é pra juntar toda a comunidade pra rezar pra você. E Deus vai salvar você".

E, na hora em que eles começaram a rezar, o pastor se levantou, mesmo muito fragilizado, levantou os braços e começou a rezar junto com eles, como se eles estivessem compartilhando a mesma reza. Cara, foi muito bonito! Mais três dias depois dessa movimentação toda ele começou a reagir de uma outra forma. Ele começou a sair do lugar de paciente e começou a assumir o outro lugar que ele tinha, que era o lugar de cuidador. E começou a se levantar do leito dele para fazer as rezas, dentro dos espaços, para os outros pacientes. E ele se curou.

No dia em que ele saiu do Centro, a gente combinou com a equipe toda. A gente dá roupas novas, e eles saem com elas, depois de estarem curados, de o exame dar negativo. A gente arrumou então uma bengala improvisada e o gorro dele, e ele foi mais ou menos como um rei, sabe? Na frente do carro, vidros abertos, com todo o staff atrás, cantando as músicas que ele puxava.

Foi passando pelo meio dos mercados públicos da sua comunidade, acenando como se fosse "o rei", e nós todos cantando. Para as pessoas que estavam nos mercados, era como estivessem vendo uma miragem. "Ele está vivo!" Todo mundo já tinha dado ele por morto e, de repente, ele estava vivo. Sorrindo, acenando e cantando bem feliz dentro do carro. O pastor ainda pediu que a gente fosse com ele na Rádio atestar que ele não contaminaria mais ninguém. E a gente fez isso.


Ajudem Debora e o MSF a fazer mais. Ajudem a África a sair desta grande quarentena:

Contribua com o MSF, seja um doador sem fronteiras!

***

[1] Trechos retirados do artigo Missão Ebola: “Me reinventei a marretadas”.

Crédito das imagens: [topo] John Moore/Getty Images (moradora de West Point, "retida" na quarentena); [ao longo] MSF (Debora Noal ao lado de vítimas de violência sexual na África)

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21.8.14

Marina e o Tao da Política

Quero me desculpar uma vez mais com os leitores por ter de me aventurar novamente na política, e mais precisamente no atual momento político do Brasil. Eu sempre tento evitar tocar no tema, mas desta vez não tive como me segurar, é algo que precisa sair de mim, transbordar em palavras... Portanto, como não sou nenhum especialista em ciências políticas, vou tratar do tema através do que eu entendo, e que a meu ver está em sua essência, o taoísmo (ou a arte de se perceber e compreender os opostos).

“Não sou nem de esquerda nem de direita”. Há muitos especialistas em ciências políticas que abominam quando alguém diz isto. Para os especialistas da chamada “direita”, denota algum grau de alienação. Para os especialistas da chamada “esquerda”, denota que “o sujeito é de direita, mas não quer admitir”. Então, vamos lá, eu admito, sou de Esquerda. Mas não a esquerda dos projetos de poder, não a esquerda do neofeudalismo, não a esquerda das revoluções pela força das armas...

Eu bem sei que o Che Guevara vende muitas camisetas, mas não posso concordar com ele quando diz que “há que endurecer, mas sem perder a ternura”. Para mim, não há como endurecer sem perder a ternura, uma coisa é totalmente incompatível com a outra. A Revolução que eu acredito não é armada, é a Revolução da liberdade das ideias, do compartilhamento de informações, da junção de etnias, culturas e visões de mundo diversas. Meu revolucionário não se chama Che, mas Aaron, Aaron Swartz, o homem do amanhã (que infelizmente, foi massacrado pelo mundo do ontem).

E, se eu sou de Esquerda, devo agradecer todos os dias por haver Direita. E devo respeitá-la quando o respeito é recíproco. Num país do século 21 onde não há oposição, onde não há visões contrárias, não há Política e tampouco liberdade. Há feudalismo (ou neofeudalismo), há sobretudo um grande resquício de Idade Média. Por outro lado, nem sempre os “sonhos de soberania do reinado” vêm do governo; tantas vezes vêm daqueles que controlam o sistema, a informação, e que se veem cada vez mais desesperados num século onde o conhecimento é cada vez mais livremente compartilhado, onde os pensamentos voam cada vez mais libertos.

“É somente porque há escuridão que sabemos o que é a luz. É somente porque há frio que sabemos o que é o calor. É somente porque há tempestade que sabemos o que é a tranquilidade”. Taoísmo básico. Uma eterna dança de opostos – e o mesmo, é claro, ocorre na Política. O problema está em associar o “bem” a um dos lados, e o “mal” ao outro. Os extremistas são grandes especialistas neste tipo de coisa, os verdadeiros mestres da falácia do “8 ou 80” – “ou está comigo, ou está contra mim”.

No entanto, é até estranho de se pensar, mas os extremistas necessitam ardentemente uns dos outros. Bin Laden necessitava ardentemente de George Bush, e vice versa. O Hamas necessita ardentemente de um governo de extrema direita em Israel, e vice versa. Até mesmo aqui pelo Brasil, como vimos nas manifestações populares de Junho de 2013 e nos meses subsequentes, os Black Blocs necessitavam ardentemente de uma polícia militarista e violenta, e vice versa... Um antigo rabino já havia resumido muito bem, “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”.

O que muitos de nós que são seduzidos pelas extremidades não percebem é que os extremistas acabam por ajudar uns aos outros. O maior “mal” dos extremistas não é o “lado oposto”, mas o fim do conflito, o mundo dos moderados, dos pacíficos, dos mansos. Dizem que os mansos estão “em cima do muro”, que são “alienados” e etc. Um antigo andarilho (que também era muito manso) já havia resumido isto também:

“A alma vem primeiro. Se você não mudar o que a alma deseja, você irá apenas substituir a dominação romana por outra dominação, e nada nunca irá mudar. Primeiro você deve mudar o homem por dentro. Então o homem pode mudar o que está a sua volta. É o desejo de riquezas e poder que faz com que o homem queira dominar os outros. É o desejo que precisamos mudar, precisamos primeiro libertar a alma. Com amor.” [1]

Então chegamos ao atual momento político do país, onde dois partidos que vieram da mesma família ideológica brigam entre si como irmãos raivosos, e creem piamente que um é o oposto do outro. O irmão da “direita” acusa o outro de “haver tomado controle do parquinho, e não querer mais sair de jeito nenhum”; já o irmão da “esquerda” retruca que “todos os garotos ricos estão com vocês, e eles falam um monte de mentiras para tentar convencer os garotos pobres de que queremos controlar os brinquedos, e isso não é verdade!”.

A verdade... A verdade é uma coisa complicada em Política. Uma das principais razões da criação da Política e da Democracia, e que pareceu clara aos filósofos gregos, é que “ninguém é o dono da verdade, até mesmo porque não existe verdade absoluta”. Desta forma, a Política nasceu como forma de criar um diálogo muito necessário entre os pensamentos e crenças opostas, de forma que não seja necessária uma guerra ou matança para decidir quem, afinal, “tinha razão”. E, da mesma forma, os acordos servem para que a vontade da maioria seja realizada, sem que no entanto a vontade da minoria seja ignorada, ridicularizada, ou censurada...

O maior divertimento para quem, como eu, se equilibra na mureta do caminho do meio, é observar como as pessoas raivosas de um lado muitas vezes se comportam como o reflexo das pessoas raivosas do outro. Isto nunca foi tão evidente quanto quando Marina Silva surgiu como possibilidade de “terceira via” para o governo do Brasil.

Antes de mais nada, devo dizer que eu não voto em Marina no primeiro turno das eleições de 2014. Mas não deixo de votar nela porque a abomino, deixo de votar nela simplesmente porque acredito que exista um candidato imensamente superior a ela e a todos os demais, que se chama Eduardo Jorge. Eu poderia lhes trazer mais parágrafos e parágrafos explicando o motivo pelo qual Eduardo, assim como tantos outros bons candidatos que não abandonaram suas ideologias na Política do país, dificilmente vencerá alguma eleição enquanto não jogar o jogo do Grande Negócio Eleitoral, e aceitar os milhões de financiamento das empreiteiras e outras grandes empresas, e então ser eleito com o rabo preso (e etc.), mas acredito que isto todos vocês já estão cansados de saber. Então, prossigamos...

Quando Marina tentou criar sua Rede, preferiram liberar para o Kassab e encrencar com ela. Quando Marina se aliou a Eduardo Campos, disseram que “ela jamais aceitaria ser vice” e que “ela quer somente o poder”. Quando, finalmente, a tragédia em Santos nos privou da companhia do neto do grande Miguel Arraes na vida política brasileira, Marina despontou como possibilidade altamente viável para vencer as eleições para a presidência. E adivinhem o que ocorreu? Os extremistas passaram a acusá-la de “pertencer ao outro lado”. Eu não sei quanto a vocês, mas eu me divirto muito comparando frases como estas [2]:

“Depois de Collor de Mello e FHC, Marina é o novo ilusionismo da direita.” (Sergio Saraiva)

“Confesso ao leitor: tenho calafrios com a imagem de um segundo turno entre Dilma e Marina. É uma visão assustadora.” (Rodrigo Constantino)

Daqui a pouco podem ser grandes amigos...

Se é quase automático o repúdio da extrema direita a candidatura de Marina, é um tanto quanto irônico que muitos “direitistas” se vejam quase que obrigados a apoiá-la num segundo turno, por aparentemente (segundo as pesquisas de opinião) ser a única capaz de retirar a presidenta Dilma Rousseff do poder.

É mais hilário, no entanto, ver a extrema esquerda se comportar exatamente como a direita, só que para atacar uma adversária que, até outro dia, estava brincando no mesmo parquinho.

É hilário ver as línguas venenosas nos blogs chapa branca e nas redes antissociais alertarem para “a teocracia evangélica que se aproxima”, enquanto quase que ao mesmo tempo, vemos Dilma se dirigir nestes termos aos religiosos da Assembleia de Deus [3]:

“O Brasil é um Estado laico, mas, citando um salmo de Davi, eu queria dizer que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.” (Dilma Rousseff)

Eu quero crer que Dilma estava apenas lendo um discurso do seu “marqueteiro” de campanha. Pois além da frase já não fazer o menor sentido, denota no mínimo um grau enorme de falsidade, considerando que a presidenta sempre foi, para dizer o mínimo, “católica não praticante”. O que o Grande Negócio Eleitoral não faz pelas ideologias e as crenças dos políticos...

Agora, vejamos o que a própria Marina, que sempre foi extremamente religiosa (só que de verdade: antes católica, e depois evangélica), tem a dizer sobre a relação entre a fé e o Estado [4]:

“Eu acho que a grande conquista do nosso país é ser um Estado Laico. Um Estado Laico não pode ser confundido com um estado ateu. Um Estado Laico serve para defender os direitos de quem crê e de quem não crê. E a construção da laicidade do Estado é uma construção da Reforma Protestante, é uma pena que as pessoas tenham esquecido disso. Havia uma Igreja oficial que na época estava intimamente ligada ao Estado, e esta foi uma grande contribuição do protestantismo, o conceito de separação entre Igreja e Estado.” (Marina Silva)

Então, Marina é conta às pesquisas com células-tronco? Contra a legalização do aborto? Contra o casamento gay? Muito provavelmente... Porém, ao contrário de outros políticos de ideologias maquiadas pelo marketing eleitoral, ela **sempre** defendeu suas convicções, e não mudou de ideia para ganhar votos. Da mesma forma, nada, absolutamente nada, indica que o fato de ela ser eleita acarretará no arquivamento ditatorial destas ideias. Ela pode fazer plebiscitos (aliás, como Dilma propõe em muitas áreas essenciais), vetar de forma ditatorial, jamais (e ainda que fosse o caso, o próprio PT, na oposição, ajudaria em muito a derrubar qualquer veto do tipo).

Finalmente, temos o costumeiro ataque da “esquerda” que visa associar Marina aos grandes empresários e banqueiros, como se isto por si só fizesse dela uma “bruxa do mal”... Quanto a esta última questão, prefiro deixar uma frase do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que reflitam, e aproveito para encerrar esta minha breve excursão pelo pântano da política brasileira [5]:

“Não tem lugar no mundo onde o [banco] Santander esteja ganhando mais dinheiro que no Brasil” (ex-presidente Lula)

***

[1] Em realidade um trecho de A última tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis. Porém, acho verossímil que Jesus tivesse uma visão parecida. Em todo caso, o que importa aqui é a mensagem em si.

[2] Escolhi dois jornalistas que dão voz a opiniões de extrema esquerda (Luis Nassif Online) e extrema direita (Rodrigo Constantino/Veja). Não quero aqui fazer nenhum tipo de comparação entre eles para além disso. A frase de Saraiva foi retirada do artigo O discreto charme de Marina Silva, publicado no blog de Luis Nassif. A frase de Contantino foi retirada de sua coluna para a Veja, intitulada Marina vem aí? Ou: A Rede da demagogia.

[3] Fonte: Reuters Brasil.

[4] Retirado de vídeo que anda viralizando no YouTube, intitulado Marina Silva - Democracia, laicidade e não preconceito (o trecho inicia em torno de 01:45). Fiz uma ligeira adaptação ao final para deixar mais clara a citação.

[5] Fonte: Estadão. O ex-presidente Lula citava o episódio envolvendo o banco Santander, que emitiu, uma semana antes, um comunicado sugerindo que se a presidente Dilma Rousseff fosse reeleita haveria uma deterioração na economia brasileira.

Crédito das imagens: [topo] raph (montagem com imagens de Che Guevara e Aaron Swartz); [ao longo] raph (montagem em cima de cartaz do filme Malévola da Disney, com Angelia Jolie)

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18.8.14

Conectados, parte final

« continuando da parte 5

Não seja escravo do seu passado. Mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe, e voltará com respeito por si mesmo, com um novo vigor, com uma experiência a mais que explicará e superará a anterior. (Ralph Waldo Emerson)


Pensamentos libertos

Era uma manhã mais fria que o habitual de Janeiro de 2008, e Idoya, uma macaquinha de não mais que 5,5kg e 80cm de altura, era o primata no centro das atenções de um enorme grupo de outros primatas espremidos num laboratório da Universidade de Duke, em Durham (Carolina do Norte/EUA). Com fotógrafos e repórteres do New York Times documentando cada momento da preparação, Idoya foi gentilmente colocada pelos pesquisadores numa esteira hidráulica. Vários cabos conectavam neurochips implantados meses antes em seu cérebro a um eletroencefalograma e inúmeros computadores. Na parede imediatamente a sua frente, a simpática macaquinha já podia ver imagens de alta definição das pernas de um CB-1, um robô humanoide de 90kg e 1,5m suspenso no ar em um outro laboratório científico do outro lado do planeta – mais precisamente em Kyoto (Japão).

Era um momento histórico, ou pelo menos era o que torcia Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro pioneiro nos estudos mais aprofundados das interfaces cérebro máquina (ICMs). Nas últimas décadas, Nicolelis havia passado por um longo e penoso caminho, bem ao modo dos grandes pioneiros da ciência: com muitos e muitos erros, muitas e muitas tentativas, e apenas alguns acertos aqui e ali... Mas, felizmente, a qualidade dos acertos suplantou em muito a quantidade de erros; e naquele dia, se tudo corresse bem, todos presenciariam um “pequeno milagre” ocorrer diante de seus olhos.

A esteira começou a rodar, e Idoya prontamente começou a caminhar. Não se tratava de trabalho escravo: a macaquinha adorava caminhar um pouco, pois sabia que os outros primatas sempre a recompensavam com deliciosas uvas-passas e biscoitos, de modo que nem os flashes dos fotógrafos a deixaram tímida naquele dia. Nos computadores, um programa de computador com um algoritmo especialmente criado para tal experiência começava a extrair os comandos motores específicos do movimento das pernas de Idoya, filtrados de uma verdadeira avalanche cerebral.

Em Kyoto, o CB-1 começava a caminhar em pleno ar, seguindo os comandos elétricos do cérebro da macaquinha, que precisavam atravessar o planeta até o Japão e retornar como um feedback visual em cerca de 250ms (pois as reações conscientes operam numa janela de até meio segundo, ou 500ms). Mas isso não era tudo. Chegava a vez da simpática macaquinha fazer o seu “pequeno passeio pela lua” (a little moonwalk), uma alusão de Nicolelis a importância do experimento – um pequeno passo para Idoya, um grande passo para todos os primatas... “Ao meu sinal, desligue a esteira... Ok, agora!”

Enquanto a esteira parava, fazendo com que a macaquinha assumisse uma postura semiereta e imóvel, todos os primatas em Durham fixaram os olhos no monitor que exibia o robô em Kyoto. Até Idoya parecia intrigada, pois continuou a olhar atentamente para as imagens à sua frente. Talvez ela realmente quisesse provar algo, pois tudo o que puderam observar do Japão era aquele distinto robô humanoide andando e andando, suspenso no ar, seguindo as instruções detalhadas que continuavam a brotar de algum canto do cérebro de Idoya. Conforme o próprio Nicolelis relatou em seu livro [1]: “Cada passo finamente esculpido, apenas algumas centenas de milisegundos antes, pelo sopro de vida elétrico que emergia, quase como presente divino, de um radiante, embora agora liberto, cérebro de primata.”

Até os primeiros dias do século 21, o mero fato de pessoas conseguirem se comunicar instantaneamente por todo o globo, através de chats na Web, já parecia um grande avanço tecnológico. Algumas mentes afortunadas já podiam mesmo antever o advento dos smartphones, dos tablets, dos chats por vídeo, da TV on demand, etc. Porém, eram poucos, pouquíssimos, que já no início deste século puderam vislumbrar uma era onde nossa tecnologia permitirá que comandemos computadores microscópicos embutidos em todo o tipo de equipamento, automóvel ou eletrodoméstico, e até mesmo dentro de nosso próprio corpo, sem que seja necessário mover um dedo, um único músculo!

Com o avanço das ICMs, os computadores poderão ler o baile elétrico que ocorre em nosso cérebro quando “imaginamos um movimento”, ainda que este movimento nem chegue a ser executado por membros e músculos de nosso corpo. De fato, com um entendimento mais completo de como funciona o nosso cérebro, talvez seja possível uma interface ainda mais direta, onde a separação entre o corpo e o dispositivo que ele “pilota” deixe de ser clara. O nosso “cérebro liberto” poderia, desta forma, incorporar (literalmente) em robôs exploradores das fossas submarinas deste planeta, ou do solo avermelhado de Marte. Mas, para a maior parte de nós, o mais provável é que passemos a viver, cada vez mais, imersos nos ambientes virtuais... De fato, talvez neste tempo o próprio termo – “virtual” – deixe de fazer qualquer sentido.

Em seu livro, Nicolelis chamou a ideia de “brainet” (a Web do cérebro):

“Nossa interação com sistemas operacionais e programas específicos de nossos computadores pessoais se transformaria num claro exemplo de simbiose virtual, uma vez que nossa atividade elétrica cerebral seria utilizada diretamente para capturar objetos virtuais e, eventualmente, utilizar um novo meio de comunicação, uma verdadeira rede cerebral, a “brainet”, como gosto de chamá-la, um considerável upgrade das redes sociais, que nos permitiria, literalmente, trocar ideias com milhões de outros cérebros navegantes. O fato de empresas como Intel, Google e Microsoft já terem criado suas divisões de interface cérebro-máquina indica claramente que esta ideia não é tão exótica quanto pode parecer à primeira vista.

[...] No futuro, o que hoje soa como inimaginável se tornará rotina, pois o ser humano, com suas faculdades mentais amplificadas, certamente terá acesso a uma variedade de ambientes remotos e até mesmo inóspitos, através de emissários que tomarão o formato de ferramentas artificiais sofisticadas, robôs humanoides e até mesmo virtuais, todos controlados única e exclusivamente pelo pensamento de seu mestre.”

Imaginem um cenário onde todo e qualquer pensamento irradiado por uma mente humana pode não somente influenciar, como ser influenciado por outro pensamento. Imaginem uma imensa rede de pensamentos interligados, se conectando e entrecruzando uns com os outros. Imaginem os pensamentos mais potentes, com maior penetração sobre as mentes alheias, lentamente galgando degraus numa “lista de tópicos” global. Imaginem um grupo enorme de mentes reunidas em torno dos pensamentos e sonhos mais celebrados, os alimentando e os tornando cada vez mais enraizados nos alicerces desta verdadeira teia global que, em verdade, une todas as consciências humanas... Imaginaram?

Agora me digam, com sinceridade, será que estávamos imaginando algo que surgirá num futuro tecnológico, ou algo que não somente existe neste momento, como tem existido desde os primórdios da humanidade?

Em seu livro A essência da realidade, o físico israelense David Deutsch afirma que “tudo o que experimentamos diretamente não passa de uma construção virtual, convenientemente gerada para nosso usufruto, por nossa mente inconsciente, a partir de dados sensoriais somados a complexas teorias adquiridas e congênitas sobre como interpretar novas informações”. Ora, se a vida sempre foi uma construção virtual, porque exatamente a “brainet” de Nicolelis seria algo essencialmente novo? Diferente, certamente – novidade, de forma alguma!

Desde que nos reuníamos em torno da fogueira no centro da tribo, após mais um dia de caça extenuante, e ouvíamos as histórias dos homens e mulheres que contemplavam as estrelas e diziam se comunicar com espíritos, temos construído, em nossas mentes, em nossos mundos internos, reais ou virtuais (tanto faz), os sonhos mais iluminados, os pesadelos mais macabros, os mitos mais transcendentes. De lá para cá nossas lanças e machadinhas se tornaram ferramentas muitíssimo mais elaboradas, mas que continuam sendo tão somente ferramentas. Um computador, afinal, serve para computar, da mesma forma que uma machadinha serve para cortar – quem utiliza as ferramentas, quem esculpe e interpreta o mundo, real ou virtual (tanto faz), somos nós, os humanos, os que despertaram.

Dessa forma, de nada adiantará nos deslumbramos com o avanço de nossa tecnologia, de nos conectarmos numa “brainet” global, se neste processo continuarmos a nos desconectar de nossa essência mais profunda, que aí sempre esteve a quem teve olhos para ver. Antes da Web, antes da teia global de computadores, nós já formávamos uma rede, e já estávamos conectados, como ainda estamos, a Alma de tudo o que há.

***

[1] Fiz o que pude para resumir da melhor forma possível a descrição do experimento de Idoya conforme consta em Muito além do nosso eu (Cia. das Letras). Se quer um estudo mais minucioso (e abrangente) do assunto abordado, não deixe de ler a obra. O artigo ainda trará outros trechos do mesmo livro.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Miguel Nicolelis); [ao longo] Heather Layton/Nagaland

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13.8.14

Conectados, parte 5

« continuando da parte 4

Avatar, no mundo online, é uma figura digital, um alter ego de uma pessoa real, que pode ser representado em duas ou três dimensões, e ter praticamente qualquer forma permitida pela plataforma onde foi criado – ao limite da imaginação de cada um.


Sem pausas

Como vimos, o ser humano tem sido muito hábil em fazer uso de todo o tipo de tecnologia disponível para aprimorar sua forma de comunicação com os demais. Quando tudo o que tínhamos eram sinais de fumaça, ainda assim eles foram preciosos para que tribos se comunicassem a quilômetros de distância umas das outras. Após a invenção da escrita, passamos a deixar mensagens e discursos para a posteridade, de modo que até hoje podemos nos comunicar, de alguma forma, com a Atenas de Sócrates, assim como com a vida de tantos outros pensadores e escritores da antiguidade.

Mas foi somente com o advento da telefonia móvel e, particularmente, da Web, que tivemos acesso a uma outra magnitude em nossas comunicações. A interação online foi um dos grandes trunfos da internet desde a sua criação, e o que antes era usado para troca de informações entre militares e pesquisadores acadêmicos, acabou por se tornar uma imensa rede que hoje conecta, direta ou indiretamente, a maior parte da humanidade.

Porém, como vínhamos dizendo, a avassaladora quantidade de informação disponível no mundo online requer que nos tornemos, cada vez mais, exímios pescadores, com o bom senso e a sabedoria para podermos filtrar as informações relevantes das irrelevantes. E, se isto vale para as notícias, as revistas, os livros e os filmes em geral, da mesma forma, vale também para a nossa vida social na rede.

Zygmunt Bauman é um célebre sociólogo polonês que vive e leciona há décadas na Inglaterra. Perto dos seus 90 anos, ele não parece, a primeira vista, o tipo de pensador que teria muito a dizer sobre o Facebook... No entanto, as aparências enganam:

“Um entusiasta do Facebook gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu vivi por quase 90 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz “amigo”, e eu digo “amigo”, não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.

Quando eu era jovem, eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar.

E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões de verdade, face a face, corpo a corpo, olho no olho.

Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco, etc. É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto.

Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500... E isso mina os laços humanos.” [1]

A maior armadilha em que podemos cair na era digital é crer que o mundo virtual é aquele construído somente pelos pixels e os dados dos computadores em rede. Não, o mundo virtual é e sempre foi aquele que roda bem em nossa cabeça. O mundo é aquilo que imaginamos dele, e neste caso não importa tanto quantas interfaces, cenários virtuais e avatares digitais há na Web, pois que no fundo estamos conectados não somente a internet, mas a todo o mundo, a toda a Vida.

Querer viver somente no mundo online é tão somente abdicar de um mundo virtual complexo para um mundo virtual com a promessa de maior simplicidade. No entanto, isto é um tanto quanto ilusório, e no fim das contas a grande verdade é que há somente um único mundo – o mundo que você interpreta dentro de si mesmo.

Para além da superficialidade das amizades que se limitam ao mundo digital, e que nunca são transpostas para a complexidade do dito “mundo real”, uma das grandes iscas para aqueles que anseiam por “vidas mais simples” são os games.

Em um livro de título sugestivo, Como viver na era digital [2], Tom Chatfield aborda melhor o assunto:

“Tanto num game simples como Angry Birds, como num mundo virtual imersivo como World of Warcraft, temos exemplos de problemas tame (domesticado). Analisados pela primeira vez em 1973, pelos sociólogos Horst Rittel e Melvin Webber, os problemas tame incluem jogos como o xadrez e a maior parte dos problemas de matemática. São problemas nos quais a pessoa que está tentando resolvê-los tem todos os dados necessários à disposição e sabe desde o início que existe uma solução final ou alternativa vencedora.

Isto é o oposto dos problemas wicked (terríveis), que são problemas nos quais não existe uma maneira de expressar de forma clara a questão que está em jogo, nem algo como uma solução única ou definitiva. Cada problemas wicked é uma combinação única de circunstâncias, elas mesmas entrelaçadas a outros conjuntos de problemas, como por exemplo, a saúde financeira de uma grande empresa ou de um país, ou alguém tentando decidir qual a melhor maneira de administrar sua vida pessoal.

Deste ponto de vista, a vida em si é um problema wicked. Numa das piadas mais geniais da ficção científica, o escritor inglês Douglas Adams imaginou, em seu livro O guia do mochileiro das galáxias, um supercomputador capaz de responder à “Questão Fundamental da Vida, o Universo e Tudo o Mais”: um simples número, 42.

A piada reside na incoerência absurda entre o tipo de problema que pode ser respondido por um simples número e o tipo bem diferente de “problema” que a vida representa. A própria ideia de que a vida possui uma solução, da mesma forma que um jogo de xadrez, ou uma fase de Angry Birds, ou uma quest ou uma raid de World of Warcraft, é um divertido absurdo.”

De fato, mundo virtuais imersivos como o caso de World of Warcraft, onde milhões de jogadores interagem e se aventuram juntos há quase uma década, podem ser tão sedutores que a falta de um componente vital, o botão de pausa [3], pode ser letal... Em 2007, um chinês deitou sua cabeça no teclado de seu computador e morreu, após haver jogado Warcraft por três dias seguidos, sem dormir e, provavelmente, sem comer ou se hidratar adequadamente. E este não foi nem o primeiro nem o último caso de “jogar até a morte” [4]...

Talvez sejam necessários tais exemplos extremos para que nos demos conta de que, embora em muitos games online não exista um botão de pausa, há sempre a possibilidade de simplesmente largar o teclado ou o controle e, quem sabe, simplesmente ir até aquele café perto de casa, para tomar um expresso, ver pessoas em movimento, ouvir passarinhos cantando e contemplar o baile das nuvens.

Pode não haver, afinal, um botão de pausa para a vida. Mas, por outro lado, somos nós, e somente nós, os grandes responsáveis por determinar com que velocidade, com que qualidade, com que nível de angústia, ela é vivida. De nada adianta se esconder dos problemas complexos da vida, mesmo que sejamos os melhores estilingadores de pássaros do nosso grupo de amigos virtuais, e ainda que todo um servidor de World of Warcraft nos idolatre como “o grande mestre da arena”, isto por si só jamais irá afastar os problemas terríveis da existência; eles ainda o encontrarão, pois estão, essencialmente, dentro de você mesmo...

Devemos aprender a olhar para dentro, e conhecer a grande imensidão de nosso mundo virtual interior; e então, quem sabe, encarar a toda a complexidade da vida de frente, face a face, como grandes aventureiros de nós mesmos. E com isto não quero dizer que exista a esperança de transformar os problemas wicked em tame – pelo contrário, o que devemos é compreender e aceitar o quão terrivelmente vasta, complexa, profunda e interconectada pode ser a Vida, sem pausas!

» Em seguida, a grande rede de pensamentos libertos...

***

[1] Transcrito de uma entrevista concedida em sua casa para o programa Café Filosófico (TV Cultura).

[2] Parte do projeto The School of Life de Alain de Botton. Lançado no Brasil pela Editora Objetiva. A transcrição do texto do livro foi ligeiramente adaptada para facilitar a compreensão do trecho em questão.

[3] Games online não podem ser pausados, já que em sua simulação há inúmeros jogadores simultâneos. Seria o mesmo que pausarmos uma sessão de cinema para dar um pulo no banheiro –os demais cinéfilos da sessão certamente não ficariam muito satisfeitos.

[4] Ver, por exemplo, Jovem morre após jogar Diablo 3 durante 40 horas seguidas.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Zygmunt Buman); [ao longo] Divulgação/Rovio (Angry Birds)

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