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8.4.18

A noite negra da alma

Noite Negra .:.

"Não se engane, crescer é um processo doloroso! Observe a semente lançada no ventre da terra, o esforço da borboleta e a cadeia alimentar: o curso da vida nada possui de pacato e fleumático.

Apenas olhares superficiais enxergam paz; a perpetuação e o avanço na natureza acontece mediante força, atrito, luta e batalhas.

Olhos desatentos veem na natureza uma mãe romântica, inocente e meiga que acaricia placidamente sua prole. Ingenuidade. A 'Mater Natura' é uma sábia senhora que exigirá - da semente e de ti - energia, fibra e tenacidade para vencer as cascas, renascer e transmutar-se.

O ponto mais escuro da noite é o que antecede a beleza do alvorecer.

As mesmas leis de luz e trevas que regem a mecânica biológica guiam a marcha espiritual. Eis uma realidade retratada na ritualística Rosacruz, Maçônica e n'outras mil tradições religiosas/iniciáticas.

Antes da ressurreição, o Iniciado deve não apenas morrer mas também 'descer aos infernos' para reencontrar-se, depurar-se e sublimar-se.

O termo 'Noite Negra da Alma' foi cunhado primeiramente por {São} João da Cruz no século XVI. Parceiro espiritual de Tereza d'Avila, ele foi não apenas um taumaturgo e místico de primeiríssima linha mas, igualmente, um fino poeta.

'La Noche Oscura del Alma', descreve a ascensão da consciência divina e, per si, configura as dificuldades entre deixar o onde se está para germinar, florescer e frutificar o que se é.

Graças aos longos e profícuos artigos de Blavatsky para a revista da Sociedade Teosófica e estudos perpetuados em 'Pelas Grutas e Selvas do Hindustão', 'A Voz do Silêncio' e 'A Doutrina Secreta' (livros que recomendo enfaticamente!) é que a expressão ganha 'mapas' marcadamente esotéricos, retratando com exatidão a jornada espiritual: o árido deserto interno precede o oásis da Iluminação.

A 'Noite Negra da Alma' é mais que um período trevoso de dificuldades corriqueiras, trata-se de um ponto de mutação na história individual de quem se propõe ou vê-se 'obrigado' a caminhar, amadurecer e evoluir."

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/ mongerosacruzcacianocompostela

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Crédito da imagem: Google Image Search

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20.8.13

Lançamento: A Voz do Silêncio

Em mais um lançamento das Edições Textos para Reflexão, trazemos uma das obras-primas de Helena Blavatsky, A Voz do Silêncio.

Blavatsky escreveu esta obra de memória nos últimos anos de uma vida quase mitológica, totalmente dedicada a divulgação da luz da antiga sabedoria do Oriente. Esta edição traz um grande livro de uma grande autora, traduzido para nosso idioma por um dos homens que mais o dominaram ao longo de sua história, ninguém menos que Fernando Pessoa: 

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Abaixo, segue um trecho da introdução do livro:

Carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro

Lisboa, 6 de Dezembro de 1915

Meu querido Sá-Carneiro:

Como lhe escrevo esta carta, antes de tudo, por ter a necessidade psíquica absoluta de lhe escrever, Você desculpará que eu deixe para o fim a resposta à sua carta e postal hoje recebidos, e entre imediatamente naquilo que ficará o assunto desta carta.
Estou outra vez presa de todas as crises imagináveis, mas agora o assalto é total. Numa coincidência trágica, desabaram sobre mim crises de várias ordens. Estou psiquicamente cercado.
Renasceu a minha crise intelectual, aquela de que lhe falei mas agora renasceu mais complicada, porque, à parte ter renascido nas condições antigas, novos fatores vieram emaranhá-la de todo. Estou por isso num desvairamento e numa angústia intelectuais que você mal imagina. Não estou senhor da lucidez suficiente para lhe contar as coisas. Mas, como tenho necessidade de lhes contar, irei explicando conforme posso.
A primeira parte da crise intelectual, já você sabe o que é; a que apareceu agora deriva da circunstância de eu ter tomado conhecimento com as doutrinas teosóficas. O modo como as conheci foi, como você sabe, banalíssimo. Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível, tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de força, de domínio, de conhecimento superior e extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito.
Coisa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre “Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz”. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me [?]. Não me julgue você a caminho da loucura; creio que não estou. Isto é uma crise grave de um espírito felizmente capaz de ter crises desta.
Ora, se você meditar que a Teosofia é um sistema ultracristão – no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus – e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, você terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise.
Se, depois, reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu Panteão todos os deuses, você terá o segundo elemento da minha grave crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (você compreende?) essenciais, atrai-me por se parecer tanto com um “paganismo transcendental” (é este o nome que eu dou ao modo de pensar a que havia chegado), repugna-me por se parecer tanto com o cristianismo, que não admito. E o horror e a atração do abismo realizados no além-alma.
Um pavor metafísico, meu querido Sá-Carneiro!

Fonte:
“Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas”. Fernando Pessoa (Introduções, organização e notas de António Quadros). Publicações Europa-América, 1986.

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Comentário
Ocorre um caso curioso no caso desta tradução de “A Voz do Silêncio”, onde o tradutor acaba se tornando mais famoso no meio literário, ao menos na “pátria da língua portuguesa”, do que a própria autora.
No entanto, embora nem todos o saibam, Fernando Pessoa traduziu diversos autores ligados a Teosofia: além da própria Helena Blavatsky, notadamente duas outras autoras – Annie Besant e Mabel Collins – e o autor C. W. Leadbeater. Em todos os casos traduções do inglês (idioma dominado por Pessoa) para o português (idem).


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