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22.9.13

A surpreendente resposta de Papa Franciso a um ateu

Segue abaixo a transcrição da Carta Aberta de Papa Franciso ao Jornalista Eugenio Scalfari. A carta do Papa pretende ser uma resposta a duas cartas abertas que Scalfari escreveu a Francisco e publicou nos dias 7 de Julho e 7 de Agosto de 2013 no editorial do La Repubblica, jornal italiano do qual é fundador e colunista. Em ambas, Scalfari formula - como alguém que tem uma cultura iluminista e não procura a Deus - “perguntas de um não crente ao papa jesuíta chamado Francisco”. Pois “aqui e hoje não sou um jornalista - escreve Scalfari - sou um não crente que há anos está interessado e apaixonado pela pregação de Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José [...]. Tenho uma cultura iluminista e não procuro a Deus. Acho que Deus seja uma invenção consoladora e ilusória da mente dos homens”.

A resposta de Francisco é surpreendente e praticamente inaugura um diálogo direto e profundo, até recentemente impensável, entre a Santa Sé e os ateus humanistas e moderados. A forma com que Francisco consegue acolher e responder as questões de Scalfari, sem pretender impor sua fé e muito menos condenar o ceticismo do jornalista, é certamente uma aula de embate de ideias, onde as pedras, longe de se chocarem e arrancarem lascas uma das outras, produzem faíscas luminosas e, quem sabe até, um fogo até então desconhecido...

Não irei comentar ao final do texto, como costumo fazer com textos de autores selecionados que trago a este blog, mas no entanto gostaria muito que lessem este trecho abaixo, de autoria do grande estudioso de mitologia do século passado, Joseph Campbell, que foi retirado do monumental O Poder do Mito. Após lerem o trecho, terão plenas condições de analisar o que diz o Papa Francisco de forma ainda mais profunda, até onde as palavras podem chegar:

Deus é um pensamento. Deus é uma idéia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico. Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe.

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

* * *

E finalmente, a carta de Francisco, na íntegra (retirada do vatican.va):

Vaticano, 4 de Setembro de 2013

Prezado Dr. Scalfari,

Com viva cordialidade queria, através desta, procurar, ainda que apenas em linhas gerais, responder à carta que houve por bem dirigir-me, nas páginas do jornal La Repubblica de 7 de Julho, com uma série de reflexões pessoais, que haveria de desenvolver nas páginas do mesmo jornal do dia 7 de Agosto.

Começo por lhe agradecer a solicitude que teve em ler a Encíclica Lumen fidei. De facto, esta – na intenção do meu amado Predecessor, Bento XVI, que a idealizou e em grande parte redigiu e de quem a herdei com imensa gratidão – tem em vista não só confirmar na fé em Jesus Cristo aqueles que nela já que se reconhecem, mas também suscitar um diálogo sincero e rigoroso com quem, como o senhor, se define «um não-crente há muitos anos interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré».

Parece-me, pois, muito positivo, tanto para nós individualmente como para a sociedade em que vivemos, determo-nos a dialogar sobre uma realidade tão importante como é a fé, que faz apelo à pregação e à figura de Jesus.

Em particular, penso que há hoje duas circunstâncias que tornam obrigatório e precioso este diálogo. Aliás o mesmo constitui – como se sabe – um dos objectivos principais do Concílio Vaticano II, querido por João XXIII, e do ministério dos Papas, que desde então até aos nossos dias – cada um com a própria sensibilidade e contribuição – têm caminhado pelo sulco traçado pelo referido Concílio.

A primeira circunstância – como lembram as páginas iniciais da Encíclica – decorre do facto de, ao longo dos séculos da modernidade, se ter assistido a um paradoxo: a fé cristã, cuja novidade e incidência na vida do homem foram expressas, desde o início, precisamente através do símbolo da luz, tem sido muitas vezes rotulada como a obscuridade da superstição, que se opõe à luz da razão. E assim se chegou à incomunicabilidade entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, por um lado, e a cultura moderna de traça iluminista, por outro. Chegou o tempo – o próprio Vaticano II inaugurou a estação – de um diálogo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas para um encontro sério e fecundo.

A segunda circunstância, para quem procura ser fiel ao dom de seguir Jesus na luz da fé, decorre do facto de este diálogo não constituir um acessório secundário da existência do crente; antes, pelo contrário, é sua expressão íntima e indispensável. A este respeito, deixe-me citar-lhe uma declaração, na minha opinião muito importante, da Encíclica: dado que a verdade testemunhada pela fé é a do amor – como lá se sublinha – «resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos» (n. 34). Este é o espírito que me anima nas palavras que lhe escrevo.

A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus: um encontro pessoal, que tocou o meu coração e deu uma direcção e um sentido novo à minha existência; mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou possível pela comunidade de fé em que vivi e graças à qual encontrei o acesso ao entendimento da Sagrada Escritura, à vida nova que flui, como jorros de água, de Jesus através dos sacramentos, à fraternidade com todos e ao serviço dos pobres, verdadeira imagem do Senhor. Sem a Igreja – creia-me! –, eu não teria podido encontrar Jesus, embora ciente de que este dom imenso da fé está guardado em frágeis vasos de barro que é a nossa humanidade.

Ora, é precisamente a partir desta experiência pessoal de fé vivida na Igreja que me sinto à vontade para perscrutar as suas perguntas e procurar, juntamente com o senhor, as estradas ao longo das quais possamos talvez começar a fazer um pedaço de caminho juntos.

Desculpe, se não sigo passo a passo as argumentações que propôs no editorial de 7 de Julho. Parece-me mais frutuoso – ou pelo menos está mais de acordo com o meu génio – ir de certo modo ao coração das suas considerações. Não entro sequer na modalidade de exposição que segue a Encíclica e na qual o senhor entrevê a falta duma secção dedicada especificamente à experiência histórica de Jesus de Nazaré.

Para começar, limito-me a observar que uma tal análise não é secundária. Trata-se efectivamente – seguindo aliás a lógica que guia o desenrolar da Encíclica – de deter a atenção sobre o significado daquilo que Jesus disse e fez e assim, em última instância, sobre aquilo que Jesus foi e é para nós. De facto, as Cartas de Paulo e o Evangelho de João, especialmente referidos na Encíclica, estão construídos sobre o sólido fundamento do ministério messiânico de Jesus de Nazaré, cuja resolução chega ao seu auge na páscoa de morte e ressurreição.

Por isso, é preciso confrontar-se com Jesus – diria – na dimensão concreta e tosca da sua história, tal como nos é narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelhos, o de Marcos. Aí se constata que o «escândalo», que as palavras e a actividade de Jesus provocam ao seu redor, deriva da sua extraordinária «autoridade» – termo este, atestado já desde o Evangelho de Marcos mas que não é fácil de traduzir em italiano. A palavra grega é exousia, que literalmente se refere àquilo que «provém do ser» que se é. Trata-se portanto, não de algo exterior ou forçado, mas de algo que brota de dentro e se impõe por si mesmo. Realmente Jesus impressiona, desinstala, reforma a partir – Ele mesmo o disse – da sua relação com Deus, que trata familiarmente por Abbá, o qual Lhe confere esta «autoridade» para que Ele a aplique a favor dos homens.

Assim, Jesus prega «como alguém que tem autoridade», cura, chama os discípulos para O seguirem, perdoa... Todas estas coisas, no Antigo Testamento, são prerrogativa de Deus, e só Deus. A pergunta, que mais vezes reaparece no Evangelho de Marcos – «Quem é este que... ?» – e que diz respeito à identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que não tem como finalidade exercer um poder sobre os outros mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isto até ao ponto de arriscar a sua própria vida, até experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à morte, até cair no estado de abandono na cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus até ao fim.

E é precisamente então – como exclama o centurião romano ao pé da cruz, no Evangelho de Marcos – que, paradoxalmente, Jesus Se mostra como o Filho de Deus! Filho de um Deus que é amor e que quer, com todo o seu ser, que o homem, todo o homem, se descubra e viva, também ele, como seu verdadeiro filho. Para a fé cristã, isto é certificado pelo facto de que Jesus ressuscitou: não para triunfar sobre aqueles que O rejeitaram, mas para atestar que o amor de Deus é mais forte do que a morte, o perdão de Deus é mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena gastar a própria vida, até ao fim, para testemunhar este dom imenso.

A fé cristã acredita nisto: Jesus é o Filho de Deus que veio dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, ilustre Dr. Scalfari, tem razão quando vê, na encarnação do Filho de Deus, o perno da fé cristã. Já Tertuliano escrevia: «caro cardo salutis – a carne [de Cristo] é o perno da salvação». É que a encarnação, ou seja, o facto de o Filho de Deus ter tomado a nossa carne e compartilhado alegrias e sofrimentos, vitórias e derrotas da nossa existência até ao grito da cruz, vivendo tudo no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o amor incrível que Deus tem por cada homem, o valor inestimável que lhe reconhece. Por isso, cada um de nós é chamado a assumir o olhar e a opção de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, pensar e agir. Esta é a fé, com todas as suas expressões que são descritas concretamente na Encíclica.

* * *

Além disso, no mesmo editorial de 7 de Julho, o senhor pergunta-me como entender esta originalidade da fé cristã, assente precisamente na encarnação do Filho de Deus, face a outras crenças que por sua vez gravitam em torno da transcendência absoluta de Deus.

Eu diria que a sua originalidade está precisamente no facto de que a fé nos faz participar, em Jesus, na relação que Ele mesmo tem com Deus que é Abbá e, nesta luz, participar na relação que Ele tem com todos os outros homens, incluindo os inimigos, sob o signo do amor. Por outras palavras, a filiação de Jesus, como no-la apresenta a fé cristã, não é revelada para marcar uma separação intransponível entre Jesus e todos os outros, mas para nos dizer que, n’Ele, todos somos chamados a ser filhos do único Pai e irmãos entre nós. A singularidade de Jesus visa a comunicação, não a exclusão.

Claro, daqui segue-se também – e não é pouco – a distinção entre a esfera religiosa e a esfera política, que está sancionada no «dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César", afirmada com nitidez por Jesus e sobre a qual, laboriosamente, se construiu a história do Ocidente. De facto, a Igreja é chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, ou seja, o amor e a misericórdia de Deus que envolvem todos os homens, apontando para a meta escatológica e definitiva do nosso destino, enquanto à sociedade civil e política cabe a árdua tarefa de articular e encarnar na justiça e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a fé cristã, isto não significa fuga do mundo nem vontade de qualquer hegemonia, mas serviço ao homem, ao homem todo e a todos os homens, a partir das periferias da história e mantendo desperto o sentido da esperança que impele a realizar o bem em todas as circunstâncias e com o olhar sempre fixo no além.

Na conclusão de seu primeiro artigo, o senhor pergunta-me ainda o que dizer aos irmãos judeus sobre a promessa que Deus lhes fez: terá ela caído completamente no vazio? Trata-se de uma questão – pode crer – que nos interpela radicalmente como cristãos, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II redescobrimos que o povo judeu continua a ser, para nós, a raiz santa donde germinou Jesus. Na amizade que cultivei durante todos estes anos com os irmãos judeus, na Argentina, também eu muitas vezes questionei a Deus na oração, especialmente quando a mente se detinha na recordação da experiência terrível do Holocausto. O que lhe posso dizer – com palavras do apóstolo Paulo – é que nunca esmoreceu a fidelidade de Deus à aliança estabelecida com Israel e que, através das terríveis provações destes séculos, os judeus conservaram a sua fé em Deus. E nunca lhes agradeceremos suficientemente por isso, não só como Igreja, mas também como humanidade. Além disso, perseverando eles precisamente na sua fé no Deus da aliança, lembram a todos, inclusive a nós cristãos, o facto de que permanecemos, como peregrinos, à espera do regresso do Senhor e, por conseguinte, devemos manter-nos sempre abertos a Ele, sem nos fecharmos jamais no que já conseguimos.

E assim chego às três perguntas que me coloca no artigo de 7 de Agosto.

Parece-me que, nas duas primeiras, aquilo que lhe está a peito é entender a atitude da Igreja com quem não partilha a fé em Jesus. Antes de mais nada, pergunta-me se o Deus dos cristãos perdoa a quem não acredita nem procura acreditar. Admitido como dado fundamental que a misericórdia de Deus não tem limites quando alguém se Lhe dirige com coração sincero e contrito, para quem não crê em Deus a questão está em obedecer à própria consciência: acontece o pecado, mesmo para aqueles que não têm fé, quando se vai contra a consciência. De fato, ouvir e obedecer a esta significa decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal; e é sobre esta decisão que se joga a bondade ou a maldade das nossas acções.

Em segundo lugar, o senhor pergunta-me se é um erro ou um pecado pensar que não existe nada absoluto e, consequentemente, também não há uma verdade absoluta mas apenas uma série de verdades relativas e subjectivas. Para começar, eu não falaria – nem mesmo para aqueles que acreditam – de verdade «absoluta» dando ao termo absoluto o sentido daquilo que está desligado, que carece de qualquer relação, porque a verdade, segundo a fé cristã, é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação! E tanto é assim, que cada um de nós capta a verdade e exprime-a a partir de si mesmo: da sua história e cultura, da situação em que vive, etc. Isto não quer dizer que a verdade seja variável e subjectiva. Longe disso! Significa, sim, que ela se nos dá sempre e só como um caminho e uma vida. Porventura não disse o próprio Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida»? Por outras palavras, sendo a verdade, em última análise, uma só coisa com o amor, requer a humildade e a abertura para ser buscada, acolhida e expressa. Concluindo, é preciso entendermo-nos bem sobre os termos e, para sair dos estrangulamentos duma contraposição... absoluta, talvez seja necessário reformular em profundidade a questão. Penso que isto seja hoje absolutamente necessário para se estabelecer aquele diálogo sereno e construtivo que eu almejava ao início deste meu texto.

Na última questão, pergunta-me se, com o desaparecimento do homem da terra, desaparecerá também o pensamento capaz de pensar Deus. É certo que a grandeza do homem está em ser capaz de pensar Deus, isto é, em poder viver uma relação consciente e responsável com Ele. Mas, a relação é entre duas realidades. Deus – tal é o meu pensamento e a minha experiência, mas são muitos os que, ontem e hoje, os compartilham! - não é uma ideia, ainda que muito elevada, fruto do pensamento do homem; Deus é realidade com o «R» maiúsculo. Jesus no-Lo revela – e vive em relação com Ele – como um Pai de bondade e misericórdia infinitas. Por isso, Deus não depende do nosso pensamento. Aliás, mesmo quando acabar a vida do homem sobre a terra – e, segundo a fé cristã, este mundo tal como o conhecemos está destinado em todo o caso a perecer –, não deixará de existir o homem; e com ele, de um modo que ignoramos, o próprio universo também não. A Escritura fala de «um novo céu e uma nova terra» e afirma que, no final – num onde e quando que nos ultrapassam mas para os quais, na fé, tendemos com desejo e expectativa – Deus será «tudo em todos».

E assim concluo, ilustre Dr. Scalfari, estas minhas reflexões, suscitadas por tudo o que me quis comunicar e perguntar. Receba-as como uma tentativa de resposta, provisória mas sincera e confiante, ao convite que vislumbrei para fazermos um pedaço de estrada juntos. A Igreja – creia-me! – apesar de todas as lentidões, infidelidades, erros e pecados que possa ter cometido e pode ainda cometer nos que a compõem, não tem outro sentido e finalidade que não seja viver e testemunhar Jesus: Ele, que foi enviado pelo Abbá para «anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista, mandar em liberdade os oprimidos, proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4,18-19 ).

Com fraterna amizade,

Franciscus PP.

 

* * *

Crédito da imagem: Google Image Search

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29.7.13

Uma entrevista com Papa Francisco

Em uma entrevista histórica, a primeira (exclusiva) desde que se tornou Papa, Francisco responde sem hesitação (e com toda a doçura que lhe é peculiar) a todas as perguntas do jornalista Gerson Camarotti da GloboNews, provavelmente um dos homens que mais compreende a política vaticanista; mesmo estando fora do Vaticano. A entrevista foi concedida na semana passada, enquanto o Papa participava da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro.

No Estúdio I de hoje à tarde, Camarotti confessou que o Vaticano não havia aprovado a entrevista exclusiva, e que "tudo dependeu da intuição do Papa em aceitar falar". Além disso, ocorreu algo muito raro para o caso de uma entrevista a um chefe de Estado: nenhuma pergunta foi vetada a priori. Ou seja, Camarotti podia perguntar sobre o que quisesse perguntar - e não faltaram perguntas difíceis, como as que remetiam aos problemas de corrupção no chamado Banco do Vaticano (IOR) e as recentes manifestações nas ruas do Brasil. Sobre o que sabia responder, Francisco respondeu pausadamente e com enorme clareza, nos trazendo uma sabedoria que vai muito além da mera intelectualidade. Sobre o que não sabia responder, teve a humildade de admitir:

Alguns trechos selecionados da entrevista acima:


Trecho sobre o inconformismo da juventude

Um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre negativa. A utopia é respirar e olhar adiante.

O jovem é mais espontâneo. Não tem tanta experiência de vida, é verdade, mas as vezes essa experiência nos freia. O jovem tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista, e isso é muito lindo! Isso é algo comum a todos os jovens.

Então eu diria que, de uma forma geral, é preciso ouvir os jovens, dar-lhes meios de se expressar e cuidar para que não sejam manipulados.

***

Trecho sobre a idolatria do dinheiro

O mundo atual em que vivemos caiu na feroz idolatria do dinheiro. Há uma política mundial impregnada pelo protagonismo do dinheiro. Quem manda hoje é o dinheiro.

Isso significa uma política mundial economicista, autossuficiente, sem qualquer controle ético, que vai arrumando os grupos sociais de acordo com essa conveniência.

O que acontece então? Quando reina no mundo a feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro, e as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, mal cuidados, descartados.

Até agora, vimos claramente como se descartam os idosos. Há toda uma filosofia para descartar os idosos: "Não servem. Não produzem". Os jovens tampouco produzem muito, pois é uma carga que precisa ainda ser formada. O que estamos vendo agora é que a outra ponta, a dos jovens, está em vias de ser descartada.

O alto percentual de desemprego entre os jovens da Europa é alarmante. Em certos países já há mais da metade dos jovens desempregados. Nós vemos um fenômeno de jovens descartados.

Então para sustentar este modelo político mundial, estamos descartando os extremos... Curiosamente, estes que são a promessa para o futuro. Porque o futuro quem vai dar são os jovens, que seguirão adiante, e os idosos, que precisam transferir sabedoria aos jovens. Descartando ambos, o mundo desaba.

Falta uma ética humanista em todo o mundo.

***

Trecho sobre a Torre de Babel

Se me der um minuto, direi algo a mais sobre esse tema (Camarotti: "lógico que dou").

No século XII havia um rabino muito sábio que escrevia explicando à sua comunidade, com fábulas, os problemas morais que havia em algumas passagens da Bíblia.

Uma vez, falou sobre a Torre de Babel. Ele explicava assim:

Qual era o problema com a Torre, porque houve o castigo divino?

Ora, durante a construção da Torre, era necessário fabricar tijolos do barro, meter-lhes palha, levá-los ao forno e, já cozidos, transportá-los para o alto da edificação. Cada tijolo era um tesouro, devido a todo o trabalho envolvido em sua fabricação. Quando caía um tijolo do alto da Torre, era uma catástrofe, e o operário que o deixou cair era castigado.

Mas se caísse um operário, nada acontecia...

Hoje, há crianças que não têm o que comer no mundo; há crianças que morrem de fome e desnutrição; há doentes que não têm acesso a tratamento; há mendigos que morrem de frio no inverno; há crianças que não têm educação nem perspectivas de futuro. Nada disso é notícia.

Mas quando as bolsas de algumas capitais caem 3 ou 4 pontos percentuais, isso é tratado como uma grande catástrofe mundial. Compreende?

Esse é o drama desse "humanismo" desumano que estamos vivendo. Por isso é preciso recuperar os extremos da sociedade, os idosos e os jovens, e não cair numa globalização da indiferença em relação a esses dois extremos que são o futuro do mundo.


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28.7.13

Oremos por Francisco

Ele que veio do "fim do mundo", retornou para demonstrar que o Reino se espalha por onde quer que existam corações abertos para ele. Afinal, o mundo não terá fim enquanto existirem corações a pulsar...

Veio nos relembrar de que a Igreja, a verdadeira, é feita de pedras vivas e de sementes a aflorar nos campos, e não de orações repetidas da boca para fora dentro de quatro paredes de pedras mortas.

Veio andar entre nós sem blindagens nem pompa. Veio beber chimarrão do mesmo copo de seus conterrâneos. Veio sorrir junto ao povo pelos corações entreabertos que lhe reservaram um espaço; e que agora se encontram cada vez mais abertos. Isto tudo lembra mais aos pastores andarilhos do que os eclesiásticos sedentários. Isto tudo lembra mais a Igreja do futuro, a Igreja que renova a si mesma, a Igreja que canta novamente o Pai Nosso em latim, mas com outro espírito e outro pensamento...

"Uma Igreja pobre para os pobres". Não vai ser fácil. Por isso tantos pedidos de oração. O Papa Francisco precisa mesmo delas, pois que passará mais perigo nos corredores do Vaticano do que nas areias de Copacabana. Ele vai tentar reformar a Igreja de fora para dentro, e não de dentro para fora. Passo a passo, uma planilha do IOR de cada vez.

Isto não significa que a Igreja deixará de ser conservadora. Não significa que o Papa e os católicos vão, do dia para a noite, aceitarem grandes reformas em sua fé e em seus dogmas. Ora, há muitos que, como eu, continuarão discordando de um ou diversos dogmas da Igreja... Porém, se a Igreja puder "sair as ruas", se puder ser novamente cristã, se puder ser mais franciscana e menos hierárquica; se puder, enfim, seguir o exemplo do Papa Francisco, e olhar as pessoas na mesma altura, e não de cima para baixo, isto será um enorme ganho para todo o mundo!

Por tudo isso, oremos por Francisco; mas oremos também por Maradiaga em sua "batalha" pela reforma da Cúria em Roma. Pois que será lá, principalmente, o campo onde será decidido o futuro da Igreja. Não torço pelo fim da Igreja do Cristo, torço pelo seu início...

Boa viagem, Francisco, e até breve.

***

Crédito da imagem: UOL

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22.3.13

Conversa Alheia: A revolução na Islândia

Com vocês, a "segunda temporada" do Conversa Alheia, onde alguns blogueiros e livres-pensadores falam sobre o que quer que lhes venha a mente...

Raph fala sobre a "revolução silenciosa" da Islândia.

Citado neste trecho:
A revolução em curso na Islândia

***

No episódio de reestreia, Raph Arrais, Igor Teo, Dani Roses e Josinei Lopes discutem sobre o "imperialismo norte-americano", os problemas da Igreja Católica e a adoção entre casais homossexuais.

Citado no programa:
Sobre Hugo Chávez
3 chimpanzés (sobre os bonobos)

***

» Ouça aos demais episódios no canal do Conversa Alheia no YouTube

» Para baixar os vídeos do YouTube, você pode usar o complemento Ant Video Downloader (para Firefox)


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18.3.13

Hangout Gnóstico: Mística Católica e o Novo Papa

Em minha segunda participação nos hangouts semanais de Giordano Cimadon (coordenador da Sociedade Gnóstica Internacional), a conversa gira em torno de um evento bastante recente: a eleição do Papa Francisco e os rumos da Igreja Católica Apostólica Romana. O convidado especial (Marco Antônio Marcon), entretanto, como estudante de teologia e católico, nos traz também um amplo espectro do lado mais profundo e místico da religiosidade católica-cristã.

Me causou especial admiração o fato de ter partido do próprio convidado a menção aos problemas do Instituto de Obras Religiosas (IOR), o "banco" do Vaticano. Assunto que eu mesmo evitei mencionar e que ele abordou de forma até mais contundente e direta do que eu imaginei fazer...

Para os que acham 2h10m um tempo muito longo de hangout, devo dizer que a partir de aproximadamente 01:18:00 o assunto recaí sobre as profecias de fim dos tempos, e vai nele até o final. Portanto, para quem não se interessa por profecias, pode terminar ali. E para quem se interessa somente por profecias, pode iniciar dali:

Obs(1): ao longo do vídeo, eu chego a citar que São Francisco de Assis era "quase um sufi", mas não houve tempo de explicar o que queria dizer. Vocês encontrarão mais informações sobre isso neste artigo do blog Saindo da Matrix (ver o trecho intitulado "No Oriente").

Obs(2): o artigo sobre "religião, mitos e super-heróis", que cito rapidamente no vídeo, é este: Xamãs, Heróis e Dragões

Crédito da foto: Time

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