Traduzindo a Montanha Mágica (parte final)
Segundo a imensa maioria dos críticos e analistas literários, A Montanha Mágica traz discussões políticas e filosóficas que resumem boa parte das ideias em circulação no Ocidente pré-Grande Guerra (como era conhecida a Primeira Guerra Mundial, antes de ter havido uma segunda). Tais debates se dão quase sempre entre dois personagens, Ludovico Settembrini e Leo Naphta, homens maduros que disputam a consciência do jovem Hans Castorp, tentando moldar suas ideias.
Não nego, obviamente, que seja assim. No entanto, me parece que Mann estava falando de coisas que iam muito além de um momento específico do início do século 20. E isso se dá justamente quando, em dado momento da obra, as palavras e as discussões se dissolvem, e os temas atrelados a um momento do tempo são vencidos por uma percepção atemporal da própria existência.
Antes de chegar lá, entretanto, temos de passar pelos personagens em questão, e por seu longo duelo pela “alma” do herói da história:
O italiano Ludovico Settembrini é quem primeiro aparece na obra. É apresentado logo cedo a Hans Castorp, enquanto o jovem ainda imaginava que passaria não mais que algumas semanas visitando o primo no Sanatório Berghof. Ele rapidamente se torna uma espécie de mentor intelectual de Hans Castorp. Settembrini representa os ideais da chamada “civilização Ocidental”, do Renascimento e do Iluminismo – em suma, razão, liberdade individual, humanismo e progresso.
Já Leo Naphta surge apenas na segunda metade do livro. Trata-se de um judeu polonês de juventude conturbada, que eventualmente se torna um jesuíta de pensamento radical. Desde o primeiro momento em que ele é introduzido na trama fica claro que, embora sejam amigos, a relação de Settembrini e Naphta é marcada por profundas discordâncias de ideias.
Mann esboça seus personagens colocando-os uns contra os outros, em vez de descrevê-los diretamente. Naphta é caracterizado em função de seu adversário intelectual, Settembrini. A perspicácia intelectual de Naphta se iguala à do italiano, mas sua mentalidade é essencialmente irracional. Enquanto para Settembrini a morte é apenas a ausência de vida, Naphta insiste que a morte se encontra em um reino próprio, metafísico: independente da vida, a morte trava uma batalha perene contra ela. Seu dualismo é, portanto, a base de sua glorificação da doença, do sofrimento e da morte. Seu amor pelos extremos e seu desprezo pelos ideais humanistas o levam a defender a Inquisição e os aspectos autoritários do catolicismo e do comunismo.
Após a primeira aparição de Naptha, invariavelmente a história se desenrola através das discussões cada vez mais longas e complexas entre o religioso e o humanista. Em meio ao embate de ideias, Hans Castorp ora se vê considerando um lado, ora o outro, e em seus pensamentos ficam claras as contradições presentes no pensamento de cada um deles. Neste momento da obra ao meu ver fica claro o porquê de, mesmo aqui, o jovem Hans Castorp continuar sendo o herói da história: pois ainda que não tenha nem um terço do conhecimento e da experiência de vida dos dois debatedores que disputam sua simpatia, ele é herói justamente por buscar pensar por si mesmo, erigindo as próprias ideias, muitas vezes formadas por parte de um lado, e parte de outro. Este tipo de heroísmo é bem raro, e segue sendo necessário até os dias de hoje.
E assim os debates vão se tornando cada vez mais enérgicos, complexos, no fundo sem sentido, já que em dado momento já não há nada mais a ser acrescentado, e a opinião de um e de outro debatedor não muda sequer uma vírgula. Nestes trechos, o próprio autor procura deixar claro que todo debate do tipo – onde as pedras já não se chocam buscando produzir novas faíscas, novas ideias, mas tão somente tiram lascas umas das outras – nos leva inexoravelmente a tragédia do extremismo, da polarização sem volta... e, para sairmos dessa armadilha, é preciso abandonar as palavras, ir além delas.
Então Clavdia Chauchat enfim retorna ao Sanatório (ela havia ido embora logo após a tal noite de Carnaval), e desta vez com um homem mais velho, uma espécie de amigo íntimo e amante, Mynheer Peeperkorn.
Trata-se de um rico plantador de café holandês aposentado que passou anos em Java, nas Índias Orientais Holandesas. Tão ou mais doente que Settembrini e Naphta, ele passa boa parte dos dias no Sanatório ou acamado ou celebrando a vida, geralmente bebendo e se mantendo embriagado a maior parte do tempo. No entanto, Peeperkorn tem uma personalidade tão magnética, um carisma pessoal tão avassalador, que sua mera presença em qualquer roda social ofusca os demais debatedores, como se suas palavras e argumentos lógicos simplesmente se dissolvessem na presença de algo maior, mais misterioso, atemporal.
Com seu hedonismo radical, sua entrega completa e absoluta ao reino das emoções, Peeperkorn é de longe o personagem mais interessante do livro como um todo, muito embora apareça mais para o final. Aliás, é interessante dizer que, quando falo em “dissolvimento das palavras”, isso também ocorre literalmente no texto da obra, em praticamente todas as falas de Peeperkorn. Isso trouxe um desafio de tradução que suplanta quaisquer outras partes do livro. Abaixo, trago um de seus diálogos como exemplo, na minha tradução:
“Cavalheiros”, disse o holandês, levantando a mão de capitão com as unhas pontiagudas, num gesto imperial. “Tudo bem, cavalheiros, concordo, excelente! O ascetismo... a indulgência... o prazer dos sentidos... deixe-me dizer isso... certamente! Muitíssimo importante! Muitíssimo controverso! E, no entanto, permita-me dizer... temo que estejamos prestes a cometer... senhoras e senhores, estamos evitando, estamos irresponsavelmente evitando o mais sagrado dos...” – ele respirou fundo. “Este ar, senhoras e senhores, o ar de hoje é tão rico em caráter, tão ternamente sugestivo e reminiscente da fragrância da primavera. Não devemos respirá-lo apenas por respirar... eu imploro a vocês: não devemos fazê-lo. Isso é um insulto! É unicamente a ele que deveríamos dedicar toda a nossa... a suprema e mais intensa... Isso basta, senhoras e senhores! E o nosso peito, esse que o respira, deveria louvá-lo sem restrições... É até aqui que eu chego, senhoras e senhores, em homenagem a esse...” – ele parou de falar; inclinou-se para trás, com o chapéu sombreando os olhos, e todos seguiram seu exemplo.
“Chamo sua atenção”, disse ele, “para as alturas acima, muito acima de nós, para aquela mancha negra circulando lá no alto, contra o azul meio escurecido – é uma ave de rapina, uma imensa ave de rapina. E, se eu não estou muito enganado, meus senhores, e você, minha filha, trata-se de uma águia. Eu conclamo a atenção de todos para isso – vejam lá! Isso não é urubu, não é abutre... Se os senhores tivessem as mesmas dificuldades de enxergar que eu, na minha avançada... Sim, minha filha, já é avançada... Meus cabelos estão brancos, ou não estão? Bem, vocês poderiam ver ainda melhor que eu... vejam, a curva obtusa das asas... É uma águia, senhoras e senhores! Uma águia real.
Ela circula diretamente acima de nós, pairando no azul, sem bater as asas, lá naquelas alturas magníficas – e, com certeza, nos espia com seus olhos poderosos, que enxergam longe, sob os ossos salientes das órbitas... A águia, senhoras e senhores, a ave de Júpiter, a rainha de sua espécie, a leoa dos ares! Ela tem pernas emplumadas e um bico de ferro, curvado na ponta... e garras de poder horrendo, garras que se voltam para dentro... e uma longa garra traseira que forma um gancho de ferro com as da frente. Olhem lá, é assim mesmo!” – e ele tentou imitar a garra de uma águia com sua própria mão de capitão, com unhas de lança. “Minha companheira, por que você fica aí circulando, nos espiando?” – e de novo dirigiu seu olhar para cima. “Desça já aqui! Crave seu bico de aço na cabeça de alguém, dilacere seu ventre, o ventre do homem... a criatura a quem Deus... Perfeito! Liquidado! Suas garras ficarão emaranhadas em suas entranhas, e seu bico pingará sangue...”
Por focar mais nas emoções sentidas do que na lógica ou na descrição do que é percebido, a presença de Peeperkorn por si só encerra a fase de debates intelectuais da obra, e a encaminha para seu final.
Obviamente eu teria muito mais coisas a falar sobre este livro de proporções bíblicas que marcou a literatura do século 20. Poderia relatar a interessante relação a três entre Hans Castorp, madame Chauchat e Peeperkorn, uma espécie de defesa da não monogamia, antes mesmo do termo ter ido inventado; poderia falar de como Mann conhecia profundamente a história da Maçonaria, ao ponto de ter um dos principais personagens da obra, o sr. Settembrini, como um maçom; poderia, finalmente, falar da viagem mística de Hans Castorp em sua arriscada caminhada nas montanhas, quando teve de sobreviver a uma nevasca – isto é, se é que as palavras dariam conta de abarcar o evento...
Mas, após 16 meses de tradução e 3 artigos sobre A Montanha Mágica, me retiro dos Alpes neste quarto e último artigo, já que não se pode abandonar o mundo das planícies por completo, ao menos não enquanto estamos aqui, encarnados em carne, osso e coração.
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Crédito das imagens: [topo] Google Gemini AI (sr. Settembrini); [ao longo] Google Gemini AI (Leo Naphta e Peeperkorn).
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