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2.2.17

As despedidas

As despedidas são momentos da vida com os quais ainda não aprendi a lidar. É que, mesmo quando partimos rumo a um destino aspirado, as despedidas põem a nu, com a clareza do sol e a crueza da verdade mais verdadeira, o insuperável paradoxo da vivência humana; ela tem, lado a lado, como irmãos siameses, a coluna dos ganhos e a coluna das perdas.

A cada nova etapa da vida, deixamos de ser o que fomos e o que somos, deixamos para traz um pouco de nós mesmos. Por isso é que se diz: quando nos despedimos, despedimo-nos também um pouco de nós mesmos.

Para mim essa ocasião tem necessariamente qualquer coisa de mãos acenando; qualquer coisa de palavra reprimida, que se converte em lágrima furtiva; qualquer coisa úmida no olhar. É nela que eu experimento uma verdade ingênua, mas incrivelmente feliz:

Não é a primeira vez que me digo adeus, ergo o braço e aceno para quem parte e quem parte sou eu. Sou eu quem tem os olhos umedecidos no porto e, ao mesmo tempo, sou eu quem tem os olhos umedecidos na nave.

Perdoe-me a humilde vaidade, eu sei que eu sei ser assim, como os poetas me acenando adeus, e parto comigo mesmo acenando-lhes adeus.

Meu irmão, é verdade, se você deixa de ser juiz ou se deixa de ser qualquer coisa, você não deixa os juízes nem deixa os companheiros, você se deixa a si mesmo em algum baú assombrado, tal como se deixou o menino no baú da infância, tal como se deixou o moço no baú do amor, tal como se deixou o homem no baú do trabalho.

Nós, os homens, somos diversos, múltiplos, porque somos sobretudo semeadores de fantasmas. Agora que somos maduros, compreendemos: viver não é fazer outra coisa senão deixar nossas assombrações pelas esquinas do tempo. Ser maduro é ser um monte de fantasmas conservados à naftalina no baú dos nossos guardados mais queridos.

Eu sou quem está guardando o juiz que fui, no meu baú. O juiz é meu penúltimo fantasma, tenho certeza disso, o juiz é minha penúltima aventura exaurida. O juiz que estou guardando, entre as naftalinas do meu baú de guardados, esse juiz é meu penúltimo cântaro vertido.

Mas quero lhes deixar bem claro: não há tristeza na minha despedida; há apenas emoção, que me toca profundamente. Passam-se, na memória, vivências felizes que aqui tive com colegas eminentes, confraternais companheiros, com servidores dedicados e leais – a quem não canso de reiterar profundos agradecimentos.

Como se percebe, meus caros, são muitos os fantasmas que estou guardando no baú do peito e do tempo. Sei que nesta minha passagem também cometi erros, nem poderia ser diferente, mas tenho a consciência tranquilizada, porque sei também que trabalhei para não errar.

Aqui, fiz muitos amigos e penso que não fiz inimigos. Se existe algum, não o conheço; dele nunca tive notícia.

Posso, portanto, afirmar com toda a segurança: a assombração que fica, o fantasma que deixo nesta Casa não é assustador, nem triste, nem sombrio. Não tenho receio, ele quer ser apenas, para sempre, um "fantasminha camarada".

E, agora, é seguir caminho, porque, como diz a canção pantaneira de Almir Sater, “cumprir a vida é compreender a marcha e ir tocando em frente. Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser carrega em si o dom de ser capaz de ser feliz”.

O olhar para trás me deixa emocionado, porque o que vejo e o que levarei na lembrança são somente coisas boas. E o olhar que lanço para frente está cheio de esperança; por isso é que estimo, ao me despedir e partir, que, na contabilidade futura, contra os percalços da vida, não há de me faltar um superávit de ventura no balanço dos dias.

Muito obrigado!


Acerca da autoria
Este texto não é meu. Ao contrário dos demais textos selecionados de outros autores que trouxe aqui para o blog, resolvi falar da autoria ao final, e não logo de início. Isto porque, se dissesse lá no alto que se trata de um texto do saudoso ministro do STF, Teori Zavascki, ele certamente seria lido de outra forma. Mas, de fato, apesar de contar com algumas citações ao poeta José Paulo Bisol, se trata de trechos selecionados de um discurso de Teori, proclamado quando este foi chamado para o STF, no final de 2012. Era uma despedida, portanto, direcionada aos seus colegas do STJ, onde foi ministro desde 2003 até a data.

Como sabemos, Teori faleceu recentemente num trágico acidente de avião em Paraty. Nos deixou não somente a relatoria inicial, e extremamente corajosa, da Lava Jato (o maior caso de corrupção de nossa história), como muitos amigos por onde passou. Este texto nos dá uma dimensão do motivo por ter sido tão querido, talvez na mesma medida em que foi tão discreto.

***

Crédito da foto: Google Image Search

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7.11.16

10 anos

Dez anos de nossas conversas
sob a luz do luar carioca,
num telhado de prédio,
soberanos sobre a noite tijucana.

Saudade.
Dizem que é palavra exclusiva de nossa língua,
difícil de definir...

Então lá vai, amiga:
se somos o sal da terra,
é a saudade o sal do amor.
Bonita, enigmática, como você,
e seus gatinhos, e a Lua.

Não sei se este poema está ficando bom.
Afinal, são dez anos,
dez anos sem nossas conversas,
sem trocarmos poemas e confissões
sobre coisas que somente os poetas veem e sentem:
dores e hemorragias profundas da alma,
e também as rimas, as canções,
e os feitiços de cura...

E você se foi assim, sem aviso;
ficaram só os gatos e os poemas.
Mas seus felinos moram longe, na Tijuca,
e os seus versos, embora belos como sempre,
embora eternos como nossas noitinhas,
nada me respondem
acerca do seu paradeiro.

Amiga! Eu continuo contemplando a Lua,
na esperança de que onde quer que esteja,
possamos por um momento estar encarando o mesmo céu,
a mesma luz.

Nós: poetas desamparados num telhado de prédio,
alheios as superficialidades da vida,
trovadores da essência.
Ainda de mãos dadas,
ainda em nossa Tijuca
que é todo o mundo...

As vezes fecho os olhos, e ainda estou lá,
naquelas noites contigo,
além das ideias de certo e errado,
além do sangramento das almas,
além do julgamento final.
Mas então os abro e estou aqui.
E o que me resta, amiga?

Saudade.
Dez anos
de saudade...


(este poema é dedicado aos dez anos do blog Textos para Reflexão, que por sua vez é dedicado a minha amiga, Flávia Lopes)


raph'16

***

Crédito da foto: Google Image Search

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23.2.14

A tua estrela

Se não posso estar agora ao teu lado
Se não posso te olhar face a face
Te despir, te beijar e te ter por toda pele
Lhe ofereço o céu:
Olha para esta noite tão negra e nebulosa
Olha e imagina as estrelas além destas nuvens

Escolha uma delas

Que nesta doce imaginação pode ser
Que ainda tão distantes um do outro
Possamos, quem sabe, ter escolhido juntos
A mesma estrela...

A tua estrela


raph’14
em memória aos amores distantes...

***

Crédito da foto: Google Image Search

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6.5.13

Ainda é cedo

Noutro dia fui ver Somos tão jovens, filme que conta a trajetória musical inicial de Renato Russo e retrata com certa competência o estado espiritual de sua juventude em Brasília. O filme propositadamente se encerra antes de ter de falar das fases mais tristes de sua vida, e portanto deveria ser apenas mais um fim de tarde agradável no cinema... E era, até o finalzinho do filme, quando Renato canta Ainda é cedo. Apesar de ser uma cena de certo teor emocional, não parecia justificar o fato de eu haver chorado em pequenas cascatas ao longo de boa parte da música. Havia algo a mais que eu não havia identificado ainda... Algo que parecia estar mais profundo dentro de mim.

Eu gosto muito de fingir que este blog é impessoal – e tenho certeza que há muitos que acreditam. Mas, na prática, nunca foi, é apenas fingimento mesmo.

Não sei se estavam por aqui em 2006, quando ele começou, mas alguns de vocês devem saber que eu comecei este blog em homenagem a uma amiga. O nome dela é Flávia Lopes, e ela é poetisa.

Se hoje mesmo eu ainda conto nos dedos os poetas que conheço pessoalmente, antes de haver o blog e a própria massificação do acesso a internet no país, eu conhecia somente ela. E quem é poeta sabe: você pode ter pais, familiares, amigos próximos, mas somente outro poeta poderá entender de certos assuntos existenciais. Somente um poeta pode servir a uma certa carência de todo poeta, que é poder se comunicar com os outros sem as palavras, essas cascas de sentimento...

Eu me comunicava com ela sem as palavras. À noite, no telhado do seu prédio na Tijuca (no Rio de Janeiro; ela morava numa cobertura de um prédio antigo de onde dava para passear no telhado), contemplávamos tanto as estrelas quanto os gatos e transeuntes das calçadas – tudo nos interessava, mas nada precisava realmente ser dito.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo [1]

***

Flávia era grande fã de Renato Russo e sua trupe, eu só fui virar fã de verdade anos depois de sua morte. Então é isto que o tempo me fez: começar este blog, e virar fã da Legião Urbana; e ambos são fruto direto do tempo que já não há: o tempo de visitar minha amiga, seja a noite ou de dia.

Dizem que inventamos essas histórias de vida após a morte para suportar a dor da perda de alguém querido, mas me custa identificar onde exatamente isto nos ajuda, se não podemos realmente visitar quem lá está, e retornar, exatamente como eu fazia quando passava pela Tijuca. A Tijuca onde minha amiga mora está hoje inacessível para mim...

Se eu creio que ela ainda existe? Claro que sim, mas isto não me serve exatamente de conforto. Não é isto o que me conforta, se querem saber.

Não me conforta, pois não sei o que ela anda lendo, nem quais gatos ela cria hoje, nem mesmo que tipo de videogame ela anda jogando do outro lado do véu. Serão games mais modernos, ou aqueles clássicos que jogávamos na sua casa? Isto que eu não sei!

A questão não é, portanto, se ela ainda se lembrará do meu nome quando me encontrar noutro canto do Cosmos. A questão é que ela será muito diferente, e eu também, pois estamos sempre mudando, sempre morrendo e renascendo. E terá passado muito tempo, então quem seremos nós um para o outro?

Seremos ainda poetas? Talvez... O que me conforta é saber que pelo menos o time de futebol ela irá manter. Então, como nossa única briga foi por causa de futebol (e prometemos nunca mais brigar por causa disso), eu espero poder encontrar com ela para pode instigá-la e brigarmos outra vez (e quebrar a promessa): “E o seu time hein? Meia vida depois, ainda sempre vice!”.

De resto, o que sobra? Só a saudade, e palavras escritas em sangue...

Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela

Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei

E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo... [2]

***

Eu não me importo em ocultar que muito da minha poesia é escrito com sangue:

Já se perguntou, amiga, o que aqui fazemos?
Nesse telhado, de frente para o luar,
E os espaços infinitos entre as estrelas,
E os espaços finitos entre todos nós...
Já se perguntou, alguma vez,
O que será que estamos a observar?

(...) Será que existe o telhado?
Será que existe essa conversa?
Será que existem gatos a pular?
Ou, antes de tudo isso,
Existem amigos, e amizades,
Existem seres conscientes de si,
E consciências etéreas, esvoaçantes...
Indetectáveis senão pelo amor, e pela dor,
De observar ao mais belo luar
Sem ter minha amiga para conversar? [3]

Na poesia, mesmo as cascas de sentimento parecem conseguir trazer algum resquício metafísico do sentimento, da sensação, da intuição, do amor e da alma do mundo... Ou pelo menos foi tudo isto que aprendi com minha amiga.

No filme de Renato, a personagem que é sua melhor amiga, e para quem ele supostamente compõe Ainda é cedo, se trata na realidade de um amálgama das três melhores amigas da sua juventude. Além de tudo, ela ainda está lá, ela reaparece.

No meu caso, será um pouco mais complicado. Por isso chorei daquela maneira no cinema, hoje sei. E por isso continuarei chorando sempre que calhar de relembrar minha amiga, hoje também sei. Mas ainda que seja tão dolorido tudo isso, há um alento, uma consolação, que não tem absolutamente nada a ver com vida após a morte...

Tem a ver com esta vida, que necessita ser vivida intensamente, como se não houvesse o amanhã que na verdade não há. Conforme os estoicos diziam: é preciso viver atento ao chamado do Barqueiro. Isto que vivemos aqui é somente a aventura de um náufrago em meio ao Oceano. É preciso estar atento, pois o Barco ainda irá velejar para muitas outras ilhas, e cruzar com muitos outros faróis a iluminar a neblina espessa. E não somos somente nós a navegar: cada um está a seguir o seu caminho!

Se ainda sofro com a ferida aberta da saudade? Sofro, e choro, e sangro!

Mas é melhor amar e perder que nunca haver sequer amado. É melhor ter uma poetisa somente na memória do que não a ter em canto algum, por antes nunca a haver conhecido... E que privilégio, que privilégio foi a ter conhecido!

De resto, o que sobra? Apenas a selvageria e a compaixão...

Depois de ter-lhe revelado tanto,
O que eu tenho,
Para minha causa?
Para meus prantos?
O que eu toquei,
O que eu senti?
Entre suas muitas faces?
Escondidas dentre mil mentiras?

(...) Depois de procurar todo esse tempo,
O que eu chorei,
O que eu quebrei?
A não ser meu ser incomodado,
A não ser minhas marés de vaidade?
Envoltas por poemas e livros,
Dentre selvageria e compaixão. [4]

***

Outra coisa que passa pela minha mente de vez em quando é uma pergunta estúpida: “Se eu pudesse trocar todo este blog, e tudo o que consegui com ele, pela vida de minha amiga, eu trocaria?”.

Sim, é uma pergunta estúpida e os estoicos também já sabiam disso: há coisas que nos cabe decidir, e há outras, muitas outras, que estão além da nossa capacidade de escolha...

Esta pergunta não tem resposta, pois a Natureza é simplesmente como é, e o tempo, passado ou futuro ou eterno, é apenas este momento e o que fazemos dele...

E eu sei meu amor, que disciplina é liberdade, e compaixão é fortaleza, e ter bondade é ter coragem, e também sei que lá em casa há um poço de águas tão límpidas e cristalinas. Mas, ainda assim, eu trocaria... Se pudesse, trocaria, e nem pensaria muito sobre o assunto.

Como ti, amiga, continuarei buscando. Continuarei buscando... Afinal, ainda é cedo...

Busco um canto
em que todas as crenças,
se consumam,
e todas as raças
se despatriotizem,
e todas as doenças
se extinguam,
e todos os  braços
se encontrem.

Busco um canto
em que a paz
se solidifique,
em que os sábios
não se corrompam,
e que as luzes
jamais apaguem.

Busco um canto
em que toda humanidade
em uníssono,
acompanhe,
e que a melodia,
atravesse séculos
de progressos e sangue,
e nos traga de volta
o dom da eternidade. [5]


Sou poeta e cronista - o lirismo é a amálgama destes dedos, confronta a vicissitude de meus passos. Conheci, desde a infância, o poder incutido na alma das palavras, como moldá-las, seduzindo cada frase, ora liberta e sem destino, repentina, ora trabalhada. Se me privassem de tal dom, necessidade ou vício, decerto enlouqueceria... (Flávia Lopes)  

***

[1] Tempo perdido (trecho), Legião Urbana.

[2] Ainda é cedo (trecho), Legião Urbana.

[3] A conversa (que não houve) (trecho), Rafael Arrais.

[4] Poema sem título (trecho), Flávia Lopes.

[5] Eternidade (trecho), Flávia Lopes.

Um conto por raph’13

***

Crédito das imagens: [topo] Divulgação (Somos tão jovens); [ao longo] Flávio (o último namorado dela, e também meu amigo).

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14.8.12

O chamado dos navegantes

Quando soou, o sinal foi inesperado:
“O que é isso, onde vai?”
“Tomar o barco, onde sou chamado.”
“Mas ainda é noite...”
“Verei o sol que nasce noutras terras.”
“Espere que irei contigo!”
E então, você sorriu e me disse, com os olhos refletindo a lua:
“Esta noite só viajam os convidados, meu amigo.”

Assim partiu o melhor homem que caminhou por nosso país
Sereno como a noite – majestoso como as estrelas;
Tomou o barco e foi conhecer outros reinos
E outras terras...
Navegava pelo oceano uma vez mais
Deixando meu coração assim, tão seco!
Com o sangue gotejando pelo chão
Formando já uma poça de solidão...

Num sonho, encontrei-o;
Estava ainda no barco, mas um corvo me levou até lá:
“Onde está morando agora?”
“No mar.”
“Mas como faço para falar contigo?”
“Sonhe.”
“Mas como posso saber se me lembrarei deste sonho?”
“Pinte um quadro, me disseram que nos ajuda a lembrar...”

Quando acordei, ainda sangrava – não me lembrava de quase nada;
Mas foi então que a imagem do quadro me veio à mente...
Na verdade, talvez nunca saiba ao certo
Se o que pintei foi o que se passou realmente
Mas usei meu sangue escorrido para tingir a vela vermelha
E com as lágrimas que me restaram, preenchi o mar...
Só então a ferida aberta estancou
A saudade que ainda paira pelo ar:
Esta foi o amor que ficou


raph’12

***

Crédito da foto: Westend61/Corbis

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5.4.12

Na soleira

Não sei como é tua casa, nem mesmo a porta...
Se estará aberta ou entreaberta
Decorada com flores ou diminutos duendes
De madeira ou de pura rocha;
Mas sei que terá uma soleira
E talvez tenha até um pequeno tapete
Para guardar fora a sujeira

O que sei é que tenho medo de perder-me de ti
Na imensidão de tua mansão...
Sei bem como as poetisas gostam de jardins
E grandes salões de jogos e bibliotecas
E uma pequena mesa para se jantar e almoçar
Visto que comer só é coisa de lobos e leões:
Imagino que em tua casa o café da tarde
Seja a hora de maior alegria

Quero então ver-te ali, na soleira...
Talvez com um olhar angustiado de saudade
De nunca termos sequer nos visto;
Mas eis que em teu olhar já verei
Todos os cômodos de tua mansão
Que jamais adentrei...

E, então, poderemos pular ligeiro
Para o café com bolachas
Salpicado por poemas
Anedotas para qualquer idade
Doces e breves risadas
E uma leve brisa
Da mais pura felicidade


raph'12 (para Carol)

***

Crédito da foto: ClassicStock/Corbis

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16.8.11

Café com poesia

Nem sempre gostei de café
Mas nos últimos tempos tenho apreciado
Xícaras após o desjejum
Não sei que tempos...

Às vezes, amiga, nada é o que é,
E tudo que temos ansiado
Reduz-se a tantos e tantos momentos
Que se tornam apenas um

Pegue as atendentes, por exemplo:
Algumas são mais carinhosas
Mas outras tiram um expresso sem igual
Às vezes, quando quero conversar,
Não me importo do café estar aguado
Mas noutras, quero apenas o melhor aroma,
O melhor café –
A nada dou a devida atenção
Nada é o que é...

Nem sempre gostei de café
Mas num dia li nalgum lugar que fazia bem
E desde então a cada bebericada
Tenho me sentido mais poético!

Mas, amiga, você que é poeta deve saber...
Na verdade o café ajuda a evitar infarto
Em quem está farto é de viver

E, mesmo, assim, há apenas uma chance,
Uma porcentagem
Uma incerta indefinição:
Da vida se fartar, ou infartar,
Eis a questão...

Eu não sei em que medida o café me ajudou
A ser mais poeta
Com qual matemática
Tem me auxiliado a tocar n’alma alheia
Mas sei que nunca fui tão poeta
Nunca fui tão eu mesmo
Quanto quando estava contigo
E o mundo todo estava alheio...

Nem sempre gostei de café
Mas será que foi ele quem me tornou mais poeta
Ou fui eu quem, acreditando nisso,
Não me importei de expor-me em verso?

Sei que hoje, amiga, uns tem me chamado assim:
De poeta
De conhecedor d’alma alheia
Mas como posso conhecer a alma de alguém
Senão da mesma forma que te conheci
E a trouxe para dentro de mim mesmo?

Se eu sou poeta, isso também é por sua causa,
E de todos os seus versos que adentraram minh’alma
E de todas as conversas sem sentido
E de todas as xícaras de café que não tomamos
Pois a poesia, como o amor, não faz sentido,
Nem se mede em porcentagens
Mas, de alguma forma sabemos,
Bem lá no fundo
Que ela é tudo que é


Para Flávia...

raph'11

***

Crédito da foto: Kerrick James/Corbis

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19.1.11

A saudade e a eternidade

Estes poemas dizem respeito aquele sentimento que nos ocorre quando subitamente sentimos falta dos momentos doces perdidos no passado, mas também dizem respeito a nossa lembrança da eternidade que jaz presente nessa persistente saudade do que ainda virá...

Saudades do verão

Os poetas tem esse dom
De deixar tanta saudade quando se vão
Mas não deixa de ser saudade boa
Por mais que doa
Por mais que por ora deságue
Como chuva de verão

Melhor amar e sentir a tudo isso, então,
Tudo isso que cascas de sentimento
Palavras, conjuntos de signos,
Jamais nos explicarão

Melhor amar e perder
Que nunca haver sequer amado
Melhor assim envelhecer
Que nunca haver sequer vivido

Que se a morte é a derradeira estação
Aos poetas, e aos amigos dos poetas,
Resta tão somente esse alento
De lembrar, de sentir, de saudar,
Esse amor, essa saudade,
Que pela pele nos arde
Como os primeiros raios de sol
Do próximo verão

Rafael Arrais, 2011


Eternidade

Busco um canto
em que todos os povos
se reconheçam,
e todas as vozes
se identifiquem,
e todos os olhos
se substantivem,
e todas as cores
se materializem.

Busco um canto
em que todas as crenças,
se consumam,
e todas as raças
se despatriotizem,
e todas as doenças
se extinguam,
e todos os  braços
se encontrem.

Busco um canto
em que a paz
se solidifique,
em que os sábios
não se corrompam,
e que as luzes
jamais apaguem.

Busco um canto
em que toda humanidade
em uníssono,
acompanhe,
e que a melodia,
atravesse séculos
de progressos e sangue,
e nos traga de volta
o dom da eternidade.

Flavia Lopes, (talvez) algum lugar entre 1998 e 2006

***

Crédito da foto: Dircinha

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13.9.10

Definição da saudade

Depoimento de Dr. Rogério Brandão, médico oncologista clínico, de Recife/PB. Fonte original: Pensador.info (mas existem inúmeras variantes circulando por e-mail ou em outros sites)

Médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, com toda vivência e experiência que o exercício da medicina nos traz, posso afirmar que cresci e me modifiquei com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Dizem que a dor é quem ensina a gemer. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão, até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além. Descobrimos uma força mágica que nos ergue, nos anima, e não raro, nos descobrimos confortando aqueles que vieram para nos confortar.

Um dia, um anjo passou por mim...

Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada, porém por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames, manipulações, injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia.

Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

Meu anjo respondeu:
- Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!
Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:
- E o que morte representa para você, minha querida?
- Olha tio, quando agente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?
(Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)
- É isso mesmo, e então?
- Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?
- É isso mesmo querida, você é muito esperta!
- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grand e espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação.
- E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.
Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei ao meu anjo:
- E o que saudade significa para você, minha querida?
- Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!

***

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o progresso no desenvolvimento do tratamento do câncer na infância foi espetacular nas últimas quatro décadas (no Brasil). Estima-se que em torno de 70% das crianças acometidas de câncer podem ser curadas, se diagnosticadas precocemente e tratadas em centros especializados. A maioria dessas crianças terá boa qualidade de vida após o tratamento adequado... Infelizmente não foi o caso da criança citada no depoimento.

Crédito da imagem: Chris Jones/Corbis

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9.9.10

E essa saudade

Que tua ida, querida
Não gere dor nem dissabor
Pois no mundo a maldade
Está apenas em quem ignora o amor

E essa saudade
Essa sacralidade da dor
Jamais será, minha querida
Fruto de tua ida

Pois o amor que nos abandonou
Por ora não nos deixou
Desamparados da vida

E essa saudade
Essa divina dor da lida
É tão somente o amor que ficou

raph’10

***

Quem aqui leu a série "A ciência da inspiração" deve ter visto a explicação do olhar mecanicista da ciência sobre a criatividade literária (na parte 2). Pois é, quem ficar atento aos próximos posts talvez perceba que essa visão é bastante pertinente, muito embora não consiga abarcar todo o espectro da criação em si...

Crédito da imagem: Mr. Mogu

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