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30.4.12

Um efeito estranho, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 184 a 187. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Como vimos, várias linhas de comprovação demonstram que os fenômenos mentais alteram significativamente a atividade cerebral. Essas linhas incluem nossos estudos de IRMf (Imagem por Ressonância Magnética Funcional) sobre observação emocional objetiva e o impacto da terapia comportamental cognitiva na fobia de aranha [1], além dos estudos de neuroimagens funcionais do efeito placebo. Os resultados dessa última série de estudos deixam bem claro que a atividade cerebral pode ser motivada pela crença e pela expectativa mental do paciente em relação a um tratamento médico proposto [2].

Para interpretar os resultados desses estudos, precisamos de uma hipótese que explique a relação entre atividade mental e atividade cerebral. A hipótese da tradução psiconeural [HTP] é uma delas. Postula que a mente (o mundo psicológico, a perspectiva da primeira pessoa) e o cérebro (que faz parte do chamado mundo “material”, a perspectiva da terceira pessoa) representam dois domínios diferentes em termos epistemológicos que podem interagir porque são aspectos complementares da mesma realidade transcendental.

A HTP reconhece que os processos mentais (tais como vontades, metas, emoções, desejos e crenças) são naturalmente demonstrados por exemplos no cérebro, mas afirma que não são idênticos nem podem ser reduzidos a processos neuroelétricos e neuroquímicos [3]. Na verdade, os processos mentais – que não são passíveis de localização no cérebro – não podem ser eliminados.

O motivo de não ser possível localizar os processos mentais dentro do cérebro é o fato de não haver nenhuma maneira de apreender os pensamentos apenas pelo estudo da atividade dos neurônios. O problema é semelhante ao de tentar determinar o sentido de mensagens em uma língua desconhecida (pensamentos) apenas pelo exame de seu sistema de escrita (neurônios). Seria necessária uma Pedra de Roseta para compará-las com o sistema de escrita de uma língua conhecida. Mas não existe tal pedra e, portanto, é impossível qualquer comparação [4].

Em consequência, a terminologia mentalista que descreve esses processos permanece absolutamente essencial para uma explicação satisfatória da relação entre a dinâmica cerebral e o comportamento humano. Ninguém jamais viu um pensamento ou um sentimento, mas eles exercem tremendo impacto em nossa vida. Além disso, segundo a HTP, os processos conscientes e inconscientes são automaticamente traduzidos em processos neurais nos vários níveis da organização cerebral (redes biofísicas, moleculares, químicas). Por sua vez, os processos neurais resultantes são depois traduzidos para processos e eventos em outros sistemas fisiológicos, como o sistema imunológico ou endócrino.

[...] Em termos metafóricos, podemos dizer que o mentalês (a língua da mente) é traduzido para o neuronês (a língua do cérebro). Por exemplo, pensamentos aflitivos aumentam a secreção de adrenalina, mas os felizes aumentam a secreção de endorfina [5]. Esse mecanismo de transdução informacional representa destacada realização da evolução que permite que os processos mentais influenciem causalmente o funcionamento e a plasticidade do cérebro. De certo modo, é como escrever nossas palavras faladas num sistema de símbolos que pode ser lido por outros a distância.

[...] Uma evolução biológica teleologicamente orientada (isto é, intencional, em vez de aleatória) permitiu aos seres humanos moldar, de maneira consciente e voluntária, o funcionamento de nosso cérebro. Em consequência dessa poderosa capacidade, não somos robôs biológicos governados por genes e neurônios “egoístas”. Um dos resultados é podermos, de forma intencional, criar novos ambientes sociais e culturais. Por meio de nós, a evolução se torna consciente, isto é, impulsionada não apenas por instintos de sobrevivência e reprodução, mas também por complexos conjuntos de percepções, metas, desejos e crenças [6].

Em minha opinião, as realizações éticas resultam do contato com uma realidade transcendental por trás do universo [7], e não apenas da multiplicação de neurônios no córtex pré-frontal do cérebro humano. Não se sabe com clareza se, por si mesmos, os neurônios desenvolveriam algum sistema ético.

Graças ao mecanismo da tradução psiconeural, os valores associados a determinada visão do mundo espiritual podem ajudar-nos a governar nossos impulsos emocionais e a agir de maneira genuinamente altruística [8]. Nesses casos, a consciência moral substitui a programação inata como reguladora de comportamentos. Por sua vez, a capacidade de comportamentos racionais e éticos liberta-nos dos primitivos mandatos do cérebro da classe dos mamíferos [9]. Tal liberdade é responsável pelo fato de que, embora o genoma seja o mesmo em todas as sociedades humanas, algumas culturas valorizam e fomentam a violência e a agressão, enquanto outras as julgam negativas e jamais as empregam.

Por sorte, muitas culturas também começaram a incentivar as pessoas a se mover além do senso de obrigação com os familiares ou grupo social para uma apreciação e compaixão por toda vida, sobretudo por outros seres humanos, porque podemos com muita facilidade identificar-nos com eles.

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[1] Citado em outro trecho do livro. Basicamente se trata de uma técnica para ensinar uma mente a, lentamente, abandonar sua fobia de aranhas. Sim, a terapia envolve muitos contatos diretos com aranhas, só que em condições estritamente controladas.

[2] Por muito tempo nada poderia ser feito objetivamente ante a alegação cética de que os espiritualistas “simplesmente fingiam experiências místicas”... Hoje, entretanto, as tecnologias de scanning cerebral têm comprovado, objetivamente, que gente como budistas e freiras carmelitas (neste último caso, incluindo um estudo do próprio Dr. Beauregard) não somente têm efetivamente tais experiências, como muitas das “redes de luzes” que se acendem em seus cérebros parecem fazer parte de um “reino místico”, reservado somente a certos tipos de experiências contemplativas.

[3] Ou seja, não se pode, ao observar a luz passando por um poste de luz, afirmar que aquele poste a gerou. Sabe-se que, num blecaute, nenhuma luz passaria por ali... Então, talvez, no caso do cérebro (e dos bilhões de postes de luz neuronais), esta usina oculta do pensamento também exista em algum território por ser descoberto.

[4] Segundo o filósofo americano John Searle, a consciência poderia ser imaginada como um “quarto chinês”: neste quarto estariam armazenados todos os dicionários e regras de gramática associados ao idioma chinês. Dentro dele haveria um homem capaz de traduzir e responder às questões escritas em chinês manipulando esses recursos, apesar de não saber falar uma única palavra nessa língua. Então, alguém que enviasse a frase “Como está o dia hoje para você?” poderia receber a resposta “Horrível!”, no mesmo idioma. Visto de fora, poderia parecer que o homem no interior “entendeu” a questão, mas Searle argumenta que esse comportamento não é suficiente para a compreensão. Da mesma forma, um computador nunca poderia ser descrito como “tendo uma mente” ou “compreendendo”. Já o cérebro poderia ser tão somente “um supercomputador pilotado pela mente”. Outros filósofos argumentam que a compreensão consciente seja tão somente o processo de “se comportar como se entendesse”.

[5] É impressionante como este fato extraordinário passa desapercebido pela grande maioria de nós, inclusive dos neurocientistas: pensamentos causam alterações fisiológicas que podem ser efetivamente medidas – logo, eles existem (objetivamente), e eles podem alterar nossa realidade corporal. Isto é um fato.

[6] A Natureza nos guiou na guerra da fome e da morte por bilhões de anos, mas a partir do momento em que nasce a consciência, em que o ser “desperta para si mesmo”, aparentemente a ascensão é repentina. Em apenas algumas dezenas de milhares de anos, estamos nós aqui, com o conhecimento e a tecnologia para efetivamente intervir na evolução de nossa própria espécieesperemos que para melhor.

[7] Algo que pode ter ocorrido mais cedo em nossa história do que muitos imaginam.

[8] Isso não é exclusividade de espiritualistas e religiosos, mesmo os céticos, os cientistas materialistas e os ateus podem ser altruístas. A ironia é que, mesmo em alguns casos não crendo que sequer possuem uma mente, é através dela que elaboram suas próprias ações altruístas.

[9] Embora obviamente seja uma liberdade parcial; Ainda que nossa vontade muitas vezes não subjugue o puro instinto animal, fato é que pelo menos em algumas vezes a vontade vence – e a liberdade de escolha, de fato, existe!

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Crédito da foto: learnpure.com

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26.4.12

Um efeito estranho, parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 181 a 184. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Alguns afirmam que o efeito placebo é mítico, que só se aplica a crédulos, ou até que usá-lo é antiético [1]. Que tal isso? Os mitos populares sobre placebos incluem as ideias de que funcionam apenas durante três meses, ou que só determinado tipo de personalidade reage a eles. Não há limite específico algum para a maioria dos efeitos placebo, nem de “paciente que reage a placebo”.

Mas, acima de tudo, o efeito placebo tem sido uma dificuldade e um problema para estudos sobre [novas] drogas [...]. O jornalista científico Alun Anderson sugere: “Confiança e crença são muitas vezes vistas como negativas na ciência, e descarta-se o efeito placebo como uma espécie de ‘fraude’, porque depende da crença do paciente. Mas a verdadeira maravilha é que a fé pode funcionar”. Anderson identificou uma questão chave. Uma materialista talvez ache que o efeito placebo é uma espécie de fraude exatamente porque indica que a mente pode mudar o corpo [2].

Em consequência, as explicações materialistas do efeito placebo muitas vezes são incoerentes. Por exemplo, quando descrito como a maneira pela qual “o cérebro manipula a si mesmo” [3]. Como vimos, o efeito placebo é de fato disparado pelo estado mental do paciente. Em outras palavras, depende inteiramente do estado de crença dele. Um processo inconsciente iniciado pelo cérebro para manipular a si mesmo (ou qualquer outra parte do corpo) é um processo de cura natural, não o efeito placebo. Por exemplo, houvesse o cérebro dos pacientes que sofrem de doença de Parkinson conseguido manipular a si mesmo e assim curar-se, não se exigiria tratamento algum, placebo, farmacêutico, cirurgia simulada ou real [4].

[...] Desde que começaram os estudos controlados do placebo, uma questão econômica fundamental confundiu o estudo do verdadeiro papel de seu efeito na manutenção da saúde. Não se pode patentear a marca esperança. Se um dado remédio “não age melhor que o placebo”, é uma má notícia para os fabricantes desse medicamente, mesmo que 85% do grupo de controle e 85% do grupo experimental melhorem [5]. A opinião atual de que os estudos mentais são importantes, mas as drogas são poderosas, obstruiu o estudo correto do efeito placebo.

Grande parte de medicina pré-científica dependia do efeito placebo. O fato de esse efeito tantas vezes funcionar ajuda a entender porque muitas pessoas mais tradicionais relutam em abandonar a medicação pré-científica, apesar de suas doutrinas questionáveis e, muitas vezes, perigosas. Lamentavelmente, os clínicos pré-científicos com frequência atribuem seu poder às doutrinas que abraçaram, quando, na verdade, deveriam atribuí-lo aos efeitos que aprenderam por experiência e erro [6]. A pesquisa médica científica começa a ajudar a resolver o dilema aceitando a natureza mental do efeito placebo. Pode-se estudá-lo como um efeito autêntico e, com o poder direcionado, talvez até aumentado, o que é muito mais produtivo do que se continuássemos a tratá-lo apenas como uma chateação.

O perfeito entendimento do efeito placebo também pode evitar algumas óbvias polêmicas atuais. Por exemplo, talvez fosse mais fácil resolver as questões éticas que cercam o uso de células-tronco embrionárias no tratamento da doença de Parkinson se os efeitos placebos explicassem a maior parte do seu valor atribuído. De modo semelhante, tratamentos polêmicos em algumas partes do mundo envolvem as partes do corpo de espécies em risco de extinção. Esses tratamentos devem quase todo seu efeito à crença do paciente na eficácia do tratamento exótico. Uma clara demonstração desse fato pode ajudar nos esforços de conservação [7].

Como vimos, muitas aplicações clínicas fluem de uma visão não materialista da neurociência. Quando tratamos a mente como capaz de mudar o cérebro, podemos tratar doenças cujo tratamento antes era difícil ou impossível. Mas também precisamos de um modelo de como a mente age no cérebro.

» A seguir, o que se especula sobre a interação da mente com o cérebro...

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[1] Este post é centrado no efeito placebo, um fenômeno muito conhecido e descrito pela medicina (inclusive a medicina dita convencional), mas que na prática é tão pouco compreendido quanto a própria mente humana, a grande catalisadora desse tipo de efeito (pelo que se acredita). Para saber mais, consulte este meu artigo: Placebo-nocebo.

[2] Para os materialistas eliminativos é consideravelmente mais complexo: se, como eles sugerem, a mente é apenas uma ilusão persistente, como exatamente ela muda o corpo?

[3] Jon-Kar Jubieta disse assim numa reunião sobre o efeito placebo, realizada pela Sociedade de Neurociência americana, em 2005: “Essas descobertas podem ter tremendo impacto na medicina, além de ajudar-nos a entender como o cérebro manipula a si mesmo”.

[4] O que ele está querendo dizer, e muitas vezes é mal compreendido, é que o efeito placebo não ocorre naturalmente, e sim como parte de um tratamento. É óbvio que, tal qual já dizia Hipócrates, “são nossas forças naturais que curam nossas doenças”, e nesse sentido a saúde sempre surgirá onde a doença não mais se faz presente. Mas, por outro lado, existe uma série de tratamentos não convencionais, associados pela medicina tradicional ao efeito placebo (ex: acupuntura, cirurgias espirituais, florais, reiki, etc.), que parecem efetivamente auxiliar na catalisação do efeito, de modo que, sem eles, o efeito não ocorreria, ou não ocorreria com a mesma eficiência.

[5] Ultimamente não é mais nenhuma novidade no ramo dos remédios para depressão que, conforme inúmeras pesquisas vêm demonstrando, na grande maioria dos casos eles não tenham nenhum efeito consideravelmente maior do que o “puro” efeito placebo, excluindo-se os casos de depressão severa, que têm medicamentos bastante específicos (e, nesses casos, sim, funcionam melhor do que placebos). A despeito disso, existem muitas pessoas no mundo desenvolvido que sofrem de depressão não severa, e compram mensalmente remédios caros que, na realidade, efetivamente funcionam tanto quanto pílulas de farinha.
Sobre o assunto, ver, por exemplo: revista Mente e cérebro (Scientific American/Duetto) nº226 – Antidepressivos são mesmo eficazes? (que foi matéria de capa); e revista Galileu (Globo) nº247 – Antidepressivos funcionam? Veja também esta entrevista com o psicólogo Irving Kirsch.

[6] Em outras palavras, o Dr. Beauregard não está nem um pouco interessado em explicações vagas para curas espirituais, como “Deus te curou” ou “o espírito da Senhora de Branco veio e te abençoou” – para ele, tais explicações são tão inúteis quanto a materialista (ver nota nº3 acima).

[7] Vamos citar um exemplo bem claro: chifres de rinoceronte são apreciados no Oriente como afrodisíacos, causando sua caça e risco de extinção (pois a carne não é sequer aproveitada). Ora, o chifre em pó conterá grandes quantidades de cálcio e fósforo, o que pode realmente aumentar o vigor de pessoas com deficiência desses minerais. Na posse desse conhecimento, algum antigo consumidor de chifres de rinoceronte em pó poderá, portanto, comprar vitaminas com cálcio e fósforo no lugar, auxiliando na preservação da espécie. Este é um caso onde já se tem uma boa ideia do que ocorre, mas muitos outros ainda caem na zona “nebulosa” do efeito placebo, e ainda não são compreendidos.

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Crédito da foto: Jed Share and Kaoru/Corbis (banca com venda de ervas e afrodisíacos em geral, no Marrocos)

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