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12.1.17

A civilização e a barbárie

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Em nosso debate, foi citado um historiador espanhol que afirmou que todas as civilizações partem da barbárie, passam por um período religioso e depois entram numa espécie de "decadência espiritual", pela falta da prática do autoconhecimento [1]. Eu associei isso ao estágio atual da nossa própria civilização, e nesse contexto é que elaborei o meu complemento:

Acho que todas as culturas de fato partem da barbárie, mas isso se dá desde o advento das cidades. Antes delas, provavelmente em boa parte do mundo humano não havia a barbárie, tampouco bárbaros, já que pela etimologia do termo "bárbaro" chegamos ao grego antigo, "não-civilizado", "estrangeiro", "estranho". Antes das cidades, todos eram não-civilizados, estrangeiros, estranhos, mas como não sabiam disso, se tratavam apenas como seres humanos mesmo.

As cidades surgiram com a agricultura, pois antes dela éramos todos nômades basicamente todo o tempo, e os únicos "locais fixos" da pré-civilização eram justamente os templos religiosos da religiosidade arcaica, as cavernas com arte rupestre, os círculos de pedras elevadas, e provavelmente locais específicos nas florestas, dos quais praticamente não restaram registros.

Com a agricultura e o excedente de alimentos, grãos e cereais que podiam ser estocados nos primeiros silos, houve a possibilidade de se cercar e delimitar pedaços de terra e dizer: "Aqui é nosso território". Daí logo vieram os primeiros conflitos e guerras organizadas. No início, não creio que quisessem conquistar a terra do outro, mas sim somente roubar seus alimentos. Depois, quando o outro montou seu primeiro exército para proteger seus grãos, os invasores precisaram também formar exércitos, e assim foi até que a maior parte das grandes cidades tiveram seus exércitos permanentes, e muita guerra e muito sangue correu desde então...

A grande ironia é que talvez tenhamos nos tornado bárbaros justamente quando nos tornamos civilizados. Nesse sentido, toda a civilização tem de lidar com a sua própria barbárie, contê-la, administrá-la na medida do possível e, acima de tudo, sempre acusar os outros de serem bárbaros, pois assim se parece decerto mais civilizado.

Claro que, com o passar dos séculos, muitas civilizações de fato avançaram muito na contenção de sua barbárie, e criaram as primeiras legislações, as primeiras religiões organizadas, as primeiras mitologias que vieram a ser registradas em palavras, as primeiras ideias filosóficas extensivamente debatidas, as primeiras ciências baseadas na observação do mundo natural etc. Mas, será que alguma delas foi totalmente bem-sucedida nisso? Eu creio que não.

Assim como nas tribos ancestrais eram somente alguns poucos xamãs e pajés quem detinham de fato o dom ou a capacidade de se conectar com o sagrado, mesmo nas grandes culturas tais homens e mulheres continuaram sendo uma grande minoria, infelizmente. Mas existe um alento nesta análise: não é que as civilizações tenham caído em decadência moral ou espiritual (pelo contrário, eu sempre gosto de lembrar que hoje vamos ao Maracanã ver e aplaudir partidas de futebol, e não a um Coliseu romano ver homens se matando ou sendo devorados por feras), mas é que este ápice moral e espiritual nunca chegou a ser de fato alcançado, nem mesmo na antiga Atenas, ou em Florença em pleno Renascimento, tampouco nas cidades de maior índice de desenvolvimento humano da Escandinávia de hoje em dia.

Desde as primeiras tribos, nós não estamos em decadência, mas em ascensão. E, se parece ao contrário, é justamente porque simplesmente há muito mais gente viva hoje do que há milênios atrás. No meio dessa gente toda, ainda há muito mais xamãs e pajés genuínos do que jamais houve na história deste planetinha. Basicamente, toda a gente que não se esqueceu da Alma. Se queremos caminhar mais rápido em sua direção, é bom ouvirmos o que eles têm a nos dizer. Mas não será fácil encontrá-los, pois (salvo raras exceções) eles não estão na Grande Mídia ou nos Bestsellers, tampouco nos Grandes Templos. Muitos deles podem estar convivendo ao seu lado, sem terem sido percebidos.

Quem ama de fato e profundamente, quem volta a sua lupa mais para dentro do que para fora, quem busca julgar mais a si mesmo do que aos "bárbaros", este conhece alguma coisa do tema!

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[1] Alejandro Deulofeo em Matemática da História

Crédito da imagem: Google Image Search/Canal History

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5.11.14

O caso Mignonette

Imaginem um bote a deriva em alto mar, com quatro sobreviventes do naufrágio de um navio (o Mignonette) em meio a uma forte tempestade. Imaginem que eles estão há muitos dias sem comida ou água, e que um deles, o mais novo e órfão, está passando muito mal devido ao fato de haver – contra a recomendação dos outros ocupantes do bote – bebido da água salgada do mar. Imaginem que os três que ainda parecem ter maiores chances de sobreviver por mais alguns dias são todos pais de família e altamente estimados por seus pares na sociedade. Imaginem que lhes passa pela mente que a única chance de sobreviverem seria assassinar o garoto doente e se alimentar da sua carne e do seu sangue... Podem parar de imaginar, pois se trata de um caso real, ocorrido no final do século XIX em mares ingleses, e que se tornou bastante conhecido na história do Direito.

Michael Sandel, em sua série sensacional de aulas sobre filosofia moral na Universidade de Harvard, usa tal história para demonstrar como o utilitarismo, uma doutrina ética que prega que o bem-estar das pessoas deve ser sempre a meta a ser buscada, nem sempre é de fácil compreensão ou interpretação, e abre uma discussão sensacional com os próprios alunos do curso, que basicamente devem tentar chegar a um acordo para responder a questão: "Seria admissível o assassinato de um para que três pudessem sobreviver?".

Na cerca de meia hora abaixo, podemos refletir junto com a turma em Harvard:

» Veja o restante da série no YouTube (este é o segundo episódio)

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Crédito da imagem: Google Image Search

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18.12.12

Amor químico

A ocitocina é um hormônio produzido pelo hipotálamo e armazenado na hipófise posterior (ambos partes do cérebro humano), e tem a função de promover as contrações musculares uterinas durante o parto e a ejeção do leite durante a amamentação. Segundo Paul Zak, um economista americano que estuda a ocitocina através de ferramentas de scanning cerebral, ela também está intimamente ligada a empatia, de modo que, quando alguém possuí ocitocina em níveis elevados, tende a se comportar de modo mais altruísta e amoroso. Zak a chamou de "a molécula do amor", mas alerta que é muito melhor produzi-la naturalmente do que, quem sabe nalgum dia, tomar algum "comprimido de amor". Um abraço é mais do que suficiente para aumentar a ocitocina, contanto que seja verdadeiro, contanto que haja empatia envolvida. Neste TED Talk, Zak fala mais sobre o assunto:

De fato, conhecermos os processos cerebrais envolvidos com a sensação, a experiência do amor, não necessariamente nos diz muita coisa acerca do amor. Se o amor for apenas uma "regulação hormonal", poderíamos compará-lo a um combustível que faz com que um dado automóvel possa se locomover... Mas nenhuma analogia científica e racional parece dar conta da complexidade envolvida no amor. Afinal, se o amor é um combustível, ele é um combustível especial: que, quanto mais é utilizado, mais potente se torna. Com um litro somos capazes de dar a volta ao mundo, contanto que continuemos a ter a coragem de manter o pé no acelerador. O amor é um combustível que não termina nunca - sendo assim, será possível que possamos "nos abastecer de amor", como quem se abastece de vitamina C?

Nesta animação a seguir, projeto final de Nadav Nachmany para sua faculdade de artes e design, temos uma visão um tanto quanto sombria de como pode ser a vida de alguém "viciado em pílulas de amor", em amor químico... Dá o que pensar:

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Crédito da imagem: Tim Pannell/Corbis

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3.7.12

Gênesis: o mundo antes da lei

O Discovery Channel, canal de TV a cabo, tem uma série com documentários acerca dos grandes livros da humanidade. Este episódio fala sobre o Gênesis. Bem, gostemos ou não, todos devemos levar em consideração que boa parte do pensamento ocidental foi influenciada pelo conteúdo deste que é o primeiro livro da Bíblia, e narra o início de tudo - do mundo e dos homens que habitam o mundo...

O grande mérito deste documentário, na minha opinião, é ir além da teologia, da história, da moral e mesmo da metáfora, e analisar o Gênesis como "uma cultura humana em formação". Um exemplo está logo no início (1:55), quando um dos comentaristas, Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard, diz assim:

"Gênesis é sobre o mundo antes de haver lei. É sobre um Deus em aprendizagem, lutando para ser justo, sem regras [antecedentes]. Deus não teve problemas em criar um universo físico, só precisou de seis dias. Ele teve mais dificuldade quando chegou à parte da justiça... O Gênesis é sobre isso, sobre tentar fazer as coisas direito, com justiça."

Vejam o documentário, em 4 partes (cerca de 50min no total), no YouTube. Abaixo, a parte 1:

Ver a parte 2 | Ver a parte 3 | Ver a parte final


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30.4.12

Um efeito estranho, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 184 a 187. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Como vimos, várias linhas de comprovação demonstram que os fenômenos mentais alteram significativamente a atividade cerebral. Essas linhas incluem nossos estudos de IRMf (Imagem por Ressonância Magnética Funcional) sobre observação emocional objetiva e o impacto da terapia comportamental cognitiva na fobia de aranha [1], além dos estudos de neuroimagens funcionais do efeito placebo. Os resultados dessa última série de estudos deixam bem claro que a atividade cerebral pode ser motivada pela crença e pela expectativa mental do paciente em relação a um tratamento médico proposto [2].

Para interpretar os resultados desses estudos, precisamos de uma hipótese que explique a relação entre atividade mental e atividade cerebral. A hipótese da tradução psiconeural [HTP] é uma delas. Postula que a mente (o mundo psicológico, a perspectiva da primeira pessoa) e o cérebro (que faz parte do chamado mundo “material”, a perspectiva da terceira pessoa) representam dois domínios diferentes em termos epistemológicos que podem interagir porque são aspectos complementares da mesma realidade transcendental.

A HTP reconhece que os processos mentais (tais como vontades, metas, emoções, desejos e crenças) são naturalmente demonstrados por exemplos no cérebro, mas afirma que não são idênticos nem podem ser reduzidos a processos neuroelétricos e neuroquímicos [3]. Na verdade, os processos mentais – que não são passíveis de localização no cérebro – não podem ser eliminados.

O motivo de não ser possível localizar os processos mentais dentro do cérebro é o fato de não haver nenhuma maneira de apreender os pensamentos apenas pelo estudo da atividade dos neurônios. O problema é semelhante ao de tentar determinar o sentido de mensagens em uma língua desconhecida (pensamentos) apenas pelo exame de seu sistema de escrita (neurônios). Seria necessária uma Pedra de Roseta para compará-las com o sistema de escrita de uma língua conhecida. Mas não existe tal pedra e, portanto, é impossível qualquer comparação [4].

Em consequência, a terminologia mentalista que descreve esses processos permanece absolutamente essencial para uma explicação satisfatória da relação entre a dinâmica cerebral e o comportamento humano. Ninguém jamais viu um pensamento ou um sentimento, mas eles exercem tremendo impacto em nossa vida. Além disso, segundo a HTP, os processos conscientes e inconscientes são automaticamente traduzidos em processos neurais nos vários níveis da organização cerebral (redes biofísicas, moleculares, químicas). Por sua vez, os processos neurais resultantes são depois traduzidos para processos e eventos em outros sistemas fisiológicos, como o sistema imunológico ou endócrino.

[...] Em termos metafóricos, podemos dizer que o mentalês (a língua da mente) é traduzido para o neuronês (a língua do cérebro). Por exemplo, pensamentos aflitivos aumentam a secreção de adrenalina, mas os felizes aumentam a secreção de endorfina [5]. Esse mecanismo de transdução informacional representa destacada realização da evolução que permite que os processos mentais influenciem causalmente o funcionamento e a plasticidade do cérebro. De certo modo, é como escrever nossas palavras faladas num sistema de símbolos que pode ser lido por outros a distância.

[...] Uma evolução biológica teleologicamente orientada (isto é, intencional, em vez de aleatória) permitiu aos seres humanos moldar, de maneira consciente e voluntária, o funcionamento de nosso cérebro. Em consequência dessa poderosa capacidade, não somos robôs biológicos governados por genes e neurônios “egoístas”. Um dos resultados é podermos, de forma intencional, criar novos ambientes sociais e culturais. Por meio de nós, a evolução se torna consciente, isto é, impulsionada não apenas por instintos de sobrevivência e reprodução, mas também por complexos conjuntos de percepções, metas, desejos e crenças [6].

Em minha opinião, as realizações éticas resultam do contato com uma realidade transcendental por trás do universo [7], e não apenas da multiplicação de neurônios no córtex pré-frontal do cérebro humano. Não se sabe com clareza se, por si mesmos, os neurônios desenvolveriam algum sistema ético.

Graças ao mecanismo da tradução psiconeural, os valores associados a determinada visão do mundo espiritual podem ajudar-nos a governar nossos impulsos emocionais e a agir de maneira genuinamente altruística [8]. Nesses casos, a consciência moral substitui a programação inata como reguladora de comportamentos. Por sua vez, a capacidade de comportamentos racionais e éticos liberta-nos dos primitivos mandatos do cérebro da classe dos mamíferos [9]. Tal liberdade é responsável pelo fato de que, embora o genoma seja o mesmo em todas as sociedades humanas, algumas culturas valorizam e fomentam a violência e a agressão, enquanto outras as julgam negativas e jamais as empregam.

Por sorte, muitas culturas também começaram a incentivar as pessoas a se mover além do senso de obrigação com os familiares ou grupo social para uma apreciação e compaixão por toda vida, sobretudo por outros seres humanos, porque podemos com muita facilidade identificar-nos com eles.

***

[1] Citado em outro trecho do livro. Basicamente se trata de uma técnica para ensinar uma mente a, lentamente, abandonar sua fobia de aranhas. Sim, a terapia envolve muitos contatos diretos com aranhas, só que em condições estritamente controladas.

[2] Por muito tempo nada poderia ser feito objetivamente ante a alegação cética de que os espiritualistas “simplesmente fingiam experiências místicas”... Hoje, entretanto, as tecnologias de scanning cerebral têm comprovado, objetivamente, que gente como budistas e freiras carmelitas (neste último caso, incluindo um estudo do próprio Dr. Beauregard) não somente têm efetivamente tais experiências, como muitas das “redes de luzes” que se acendem em seus cérebros parecem fazer parte de um “reino místico”, reservado somente a certos tipos de experiências contemplativas.

[3] Ou seja, não se pode, ao observar a luz passando por um poste de luz, afirmar que aquele poste a gerou. Sabe-se que, num blecaute, nenhuma luz passaria por ali... Então, talvez, no caso do cérebro (e dos bilhões de postes de luz neuronais), esta usina oculta do pensamento também exista em algum território por ser descoberto.

[4] Segundo o filósofo americano John Searle, a consciência poderia ser imaginada como um “quarto chinês”: neste quarto estariam armazenados todos os dicionários e regras de gramática associados ao idioma chinês. Dentro dele haveria um homem capaz de traduzir e responder às questões escritas em chinês manipulando esses recursos, apesar de não saber falar uma única palavra nessa língua. Então, alguém que enviasse a frase “Como está o dia hoje para você?” poderia receber a resposta “Horrível!”, no mesmo idioma. Visto de fora, poderia parecer que o homem no interior “entendeu” a questão, mas Searle argumenta que esse comportamento não é suficiente para a compreensão. Da mesma forma, um computador nunca poderia ser descrito como “tendo uma mente” ou “compreendendo”. Já o cérebro poderia ser tão somente “um supercomputador pilotado pela mente”. Outros filósofos argumentam que a compreensão consciente seja tão somente o processo de “se comportar como se entendesse”.

[5] É impressionante como este fato extraordinário passa desapercebido pela grande maioria de nós, inclusive dos neurocientistas: pensamentos causam alterações fisiológicas que podem ser efetivamente medidas – logo, eles existem (objetivamente), e eles podem alterar nossa realidade corporal. Isto é um fato.

[6] A Natureza nos guiou na guerra da fome e da morte por bilhões de anos, mas a partir do momento em que nasce a consciência, em que o ser “desperta para si mesmo”, aparentemente a ascensão é repentina. Em apenas algumas dezenas de milhares de anos, estamos nós aqui, com o conhecimento e a tecnologia para efetivamente intervir na evolução de nossa própria espécie – esperemos que para melhor.

[7] Algo que pode ter ocorrido mais cedo em nossa história do que muitos imaginam.

[8] Isso não é exclusividade de espiritualistas e religiosos, mesmo os céticos, os cientistas materialistas e os ateus podem ser altruístas. A ironia é que, mesmo em alguns casos não crendo que sequer possuem uma mente, é através dela que elaboram suas próprias ações altruístas.

[9] Embora obviamente seja uma liberdade parcial; Ainda que nossa vontade muitas vezes não subjugue o puro instinto animal, fato é que pelo menos em algumas vezes a vontade vence – e a liberdade de escolha, de fato, existe!

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Crédito da foto: learnpure.com

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17.1.12

O que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Na mitologia grega, Prometeu foi um titã defensor da humanidade, conhecido por sua astúcia e inteligência. Ele foi responsável por roubar o segredo do fogo divino e dar aos mortais, ato que foi severamente punido pelos deuses...

Há muito tempo o homem tem sondado os segredos da natureza, e desde cedo houveram muitos que afirmavam que era inútil seguir adiante: não se podia desafiar aos deuses. Mas outros, tal qual Prometeu, não esmoreceram ante o desconhecido, e é precisamente graças a esses últimos que devemos boa parte de nossa filosofia, ciência e – porque não dizer – espiritualidade.

Este paradoxo entre a inconcebível natureza da Natureza – parafraseando Feynman – e o nosso esforço para compreendê-la e domá-la, tal qual um tigre feroz, é algo que permeia toda a história de nossa cultura. Os avanços científicos, no entanto, têm espantado e assustado a muitos: a mesma energia (nuclear) que abastece um hospital pode dizimar cidades inteiras em segundos; os cientistas não só mapearam o genoma humano como prometem um dia “reprogramar” os corpos de nossas crianças ainda na gestação; etc. Tudo isso levanta profundas questões éticas.

Nesse contexto: estaria tal conhecimento relegado as trevas (como querem os fundamentalistas)? Ou ainda é possível unir os avanços científicos com o debate ético que permeou nossa cultura desde o advento das primeiras religiões? Em suma: o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?

[Del Debbio] Antes de responder a esta pergunta, é necessário que se faça uma separação e explicação da diferença gritante entre Religião e Espiritualidade. No mundo de hoje, infelizmente, estas duas palavras estão misturadas no meio de muita ignorância e fundamentalismo dogmático.

Espírito, para os ocultistas, representa o sopro de realização divina que habita em todos os homens, que conhecemos como “Inspiração”. Espírito é definido pelo conjunto total das faculdades intelectuais. Ele é freqüentemente considerado como um princípio ou essência da vida incorpórea (religião e tradição espiritualista da filosofia), mas pode também concebida como um princípio material (conjunto de leis da física que geram nosso sistema nervoso).

Na Antiguidade, o sopro e o que ele portava (Alef, o som, a voz, a palavra, o nome) continha a vida, seja em protótipo, em essência ou em potência (mítica). No tronco judaico-cristão das religiões diz-se que “Deus soprou o barro para gerar o (ser no) homem”. Simbolicamente, a terra representa à parte material do corpo e o sopro a parte de nossa consciência que até hoje não foi reproduzida em laboratório; estando, portanto, além dos domínios do método científico atual.

Religiões, por outro lado, são invenções humanas. Grilhões da vontade moldados por pessoas que se utilizam da falta de conhecimento e estudos de outras para obter poder e dinheiro sobre elas. Um verdadeiro veneno da humanidade.

Sendo a Espiritualidade a busca constante pelo conhecimento e pela pesquisa dentro da Ética, a Ciência pode ser considerada a irmã mais nova da espiritualidade, ao lado das Artes e da Filosofia. Porém, a ciência, tal qual a arte e a filosofia, são amorais.

Desta maneira, a espiritualidade deve sempre guiar a utilização do conhecimento em busca do bem maior e do desenvolvimento da humanidade. Os Iluministas e alquimistas chamaram este movimento de “Humanismo”. O humanismo, da maneira como os alquimistas o vêem, propõe ao ser humano a realização de um processo de evolução que o leve a superar suas qualidades até alcançar a excelência de sua condição humana. González Pecotche afirma que o humanismo é "parte do próprio ser sensível e pensante, que busca consumar dentro de si o processo evolutivo que toda a humanidade deve seguir. Sua realização nesse sentido haverá, depois, de fazer dele um exemplo real daquilo que cada integrante da grande família humana pode alcançar".

Não é de se espantar que, em sociedades nas quais as casas e barcos eram construídos com madeira e pedra, seus deuses possuíam como principal arma um martelo. O Martelo, simbolicamente, representa a vontade e o conhecimento técnico que pode ser usado tanto para construir quanto para esmagar a cabeça de um inimigo. Só depende de quem o estiver utilizando.

[Mori] Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que iremos resolvê-los, definiu melhor do que ninguém Isaac Asimov. Nossas mitologias de certa forma refletem esta sabedoria. Na mitologia grega em Hesíodo, o conhecimento concedido à humanidade representado pelo fogo de Prometeu é punido por Zeus através de Pandora e sua caixa. Todos os males do mundo são uma punição pelo conhecimento roubado dos deuses, e eles não podem ser contidos novamente. Mesmo no mito do Jardim do Éden, é curiosamente também uma mulher a levar ao pecado original do fruto do conhecimento, que uma vez provado leva à expulsão sem volta de Adão e Eva do Paraíso. Conhecimento é um atributo divino, mas todos os problemas que ele causa são um caminho do qual não há retorno.

Seria então o conhecimento uma maldição? Tanto na mitologia grega quanto na cristã, entende-se que éramos imortais antes do conhecimento, mas Carl Sagan em Os Dragões do Éden fornece uma interpretação profunda a estas mitologias ocidentais: não é que fôssemos realmente imortais, é que simplesmente não possuíamos conhecimento sobre a morte. Um papagaio pode ser imortal simplesmente porque jamais entenderá que um dia irá morrer. Ele é imortal enquanto vive. A ignorância pode ser uma benção, mas é uma que ultimamente nos iguala aos animais, e neste sentido, mais do que benção a ignorância é, ela sim, uma maldição. É justamente no desafio aos deuses na busca do conhecimento que nos aproximamos de algo divino.

Depois de milênios, e indo muito além dos antigos gregos, sistematizamos a aquisição de conhecimento sobre o mundo natural através daquilo que chamamos de ciência. E avançamos incrivelmente, o que antes os gregos especulavam, como os átomos, hoje conhecemos e manipulamos em seus componentes, dos elétrons à tecnologia nuclear, um tipo de fogo fundamentalmente diferente, com poder e ordens de magnitude maior. É um novo fogo de Prometeu. Seria uma nova maldição?

O problema não é o conhecimento, é a sabedoria, ou a falta dela. Não conseguimos sistematizar a aquisição de sabedoria. A filosofia tenta promovê-la e muitas religiões tentam se apropriar dela, mas nenhuma delas é tão bem sucedida na aquisição de sabedoria quanto à ciência o é na aquisição de conhecimento. Em efeito, pode-se dizer que parte das religiões e filosofias é contrária à busca tanto por sabedoria quanto por conhecimento, retraindo-se ao invés no dogma e na ignorância. São tudo aquilo de que não precisamos.

É neste desequilíbrio entre o sucesso espetacular da ciência na busca por conhecimento e o fracasso em termos da filosofia e da religião na busca por sabedoria que nos encontramos hoje. Muitos percebem esta preocupante situação, e apelar à espiritualidade, como um conceito anterior à religião, é uma resposta buscada assim como aqueles que buscam a religiosidade ao invés da religião.

São tentativas, embora fundamentalmente estas abordagens difiram apenas em seu escopo, ao promover uma busca por sabedoria individual ao invés daquela ditada coletivamente. No ponto em que promovem o livre arbítrio e o questionamento são positivas, mas deixam de lado algo da sabedoria que a coletividade também pode oferecer.

Acredito que além da espiritualidade e da religiosidade, como sentimentos individuais; além da filosofia e da religião como práticas coletivas, há algo mais promissor na busca por sabedoria tão necessária para lidar com os desafios impostos pelo conhecimento: o livre debate fundamentado nesse mesmo conhecimento.

Temos hoje as ferramentas tecnológicas para o livre debate como nunca antes tivemos, porém nos falta um conhecimento compartilhado sobre as questões que precisamos debater. Temos espiritualidade, temos religiosidade, temos conhecimento acumulado em livros, computadores, cientistas, mas falta conhecimento democratizado, popularizado. De pouco adianta querer o bem de todos se ao discutir sobre a energia nuclear, não se sabe realmente o que é um átomo. Não há sabedoria sem conhecimento.

Se o conhecimento pode criar problemas a todos nós, é compreendendo-os coletivamente que iremos resolvê-los.


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Crédito da imagem: Jean-Pierre Lescourret/Corbis (estátua de Prometeu, com Rockfeller Center ao fundo)

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11.7.11

Involuções, parte 2

« continuando da parte 1

Segundo algumas teorias espiritualistas, a evolução física da vida na Terra reflete sua evolução espiritual: desde bactérias e insetos, passando por roedores e macacos, até o homo sapiens, princípios espirituais, sementes de consciência, vieram evoluindo e habitando corpos, aqui e ali, por todo o globo terrestre. Em biologia a palavra involução está associada à autólise, a morte celular. Não existe para a Natureza, até que se prove o contrário, algo como uma “involução das espécies”: existem mutações que eventualmente acarretam em pequenos ganhos na capacidade das espécies, e as vão lentamente moldando ao longo do tempo, de modo que consigam continuar se adaptando cada vez mais as condições de seu habitat natural. As espécies podem se extinguir, e a grande maioria já se extinguiu, mas isso pode somente significar que evoluíram para novas espécies mais adaptadas, ou que sumiram da face do planeta. Nenhum homo sapiens regrediu até hoje a um bonobo, assim como nenhum inseto transformou-se numa bactéria.

No mundo espiritual, às vezes podemos dar vazão demasiada a nossa imaginação e errar aqui e ali em nossas interpretações. Por isso um dia cristãos acreditaram em escravos e mulheres sem alma, ou em guerras santas, mas isso não significa que todos os cristãos ou que todos os espiritualistas estivessem sempre equivocados. Para um espiritualista, é sempre necessário comparar sua teoria subjetiva com a objetividade infinita das leis da natureza, e foi exatamente isso que Alfred Russel Wallace, co-criador da teoria da evolução, e tantos e tantos outros espiritualistas que não viraram as costas para a Natureza, o fizeram.

Desde épocas imemoriais, desde eras em que não éramos ainda homens nem mulheres, temos singrado o Cosmos e habitado seres que se organizam e evoluem, até que surja a consciência individualizada, e até que essa consciência se expanda até o estágio atual. Foi o próprio Rabi da Galiléia quem disse que somos deuses em formação, e que faremos tudo o que ele fez e ainda muito, muito mais... E ele também mencionou as muitas moradas do Reino. Ora, a Terra é apenas uma delas. Vivemos e evoluímos nela por bilhões de anos. Passamos por muitas eras de mudanças, mas raramente vimos mudanças de eras – o mundo atual talvez veja uma delas.

Por mais que a mídia insista em divulgar tragédias, guerras e violência em todos os cantos do mundo, no fundo aqueles que tem olhos para ver sabem que nossa ética jamais esteve a andar para trás: os assassinos e criminosos são normalmente a imensa minoria. Por mais estranho que possa parecer, os escravos negros que foram soltos na Europa e na América jamais se revoltaram como seria de se esperar, jamais desceram as encostas das favelas para fazer uma guerra social. Eles se acostumaram. Ainda que possam ter se acomodado, a história moderna fala muito mais de oportunidades de amor do que de ódio.

Mas a pior parte ainda é a indiferença... Apesar de tudo, no entanto, ainda existem médicos e voluntários que vão atender e salvar vidas nos entornos dos canteiros de guerras e genocídios. Ainda existem heróis que continuam a adentrar em prédios em chamas para salvar quem possa ser salvo. Ainda existem os caridosos, os que visitam creches, hospitais e asilos... Tudo bem, estes tampouco são a maioria, mas se o fossem, o céu já teria descido a Terra.

Mesmo assim, hoje vamos ao San Siro ver um clássico do futebol onde, ainda que exista alguma violência, raramente teremos um óbito sequer, e certamente jamais uma multidão estaria a aplaudi-lo como se aplaude a um belo gol. As “feras” de hoje são os craques de bola, e não tigres esfomeados com um antebraço entre os dentes...

Sim, algo mudou, e para melhor: hoje somos 7 bilhões de pessoas a dividir um mesmo planeta, e na maior parte de seu território temos paz, ou pelo menos uma vida muito mais pacífica do que aquela compartilhada pelos 300 milhões de 2 mil anos atrás.

Nosso maior inimigo não é a violência ou a promiscuidade sexual, mas nosso desejo desenfreado de consumir, e consumir, e consumir... Até que não reste mais nada a que se chamar de natural. O deus do consumo, porém, não contava com a sabedoria da Natureza: optou ela por fazer o papel de diabo da vez, e agora nos ameaça com seu clima caótico, nos forçando a nos unir em prol de um objetivo em comum.

Hoje temos a divina oportunidade de nos unir como uma única nação, um único povo, e estudar juntos a melhor forma de viver nesse reino de forma sustentável, para que muitos bilhões de nós ainda possam passar por aqui. Temos a árdua tarefa de regenerar a natureza devastada por nós mesmos nos últimos anos, mas isso ainda é muito melhor do que realizar guerras santas e outras aventuras inúteis, fruto de nossa enorme ignorância.

Sim, hoje somos um pouco mais sábios do que outrora, mas ainda é muito cedo para cantar vitória. No jogo na Natureza consigo mesma, ainda será necessário novas provas de que poderemos, finalmente, transitar desta para a próxima era. Mas é muito tarde para ser pessimista, nossa ciência e nossa espiritualidade têm nos apontado um glorioso farol de esperança logo ali, pouco além das próximas décadas. Quem tiver olhos para ver, e um espírito aberto para sentir, vivenciará o céu prometido, sem jamais involuir.

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Crédito da foto: Christian Liewig/Liewig Media Sports/Corbis

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10.7.11

Involuções, parte 1

Há uma corrente de cientistas que postula que o câncer é uma doença moderna. Sua suposição se baseia, principalmente, no fato de que a “autópsia” de múmias do antigo Egito demonstra que a incidência de câncer era praticamente não existente na época. Segundo essa teoria, o câncer seria fruto da industrialização e das sociedades modernas, podendo estar fortemente ligado à poluição das grandes cidades, e ao consumo de produtos industrializados. Qualquer demonstrativo da incidência de câncer no mundo atual parecerá favorecer tal teoria, visto que efetivamente existe mais câncer nos países desenvolvidos do que, por exemplo, nas regiões sub-desenvolvidas da África e de outros continentes... A ciência, no entanto, está cheia de conclusões apressadas.

A expectativa de vida em países desenvolvidos no início deste século gira em torno de 75 a 80 anos. No antigo Egito, mesmo entre os faraós que mereceram cerimônias de mumificação, ela não passava de cerca de 40 anos – na maior parte da história das sociedades humanas, incluindo as sociedades “selvagens” atuais, a expectativa de vida esteve sempre abaixo dos 35 anos. O câncer é resultado, principalmente, de erros decorridos da mutação de nossas células – e, quanto mais vivermos, maiores chances teremos de contrair câncer, é uma relação simples e até mesmo óbvia. Afora isso, corpos de múmias antigas nada nos dizem sobre a incidência de câncer infantil, nem tampouco temos registros detalhados da incidência desta doença no antigo Egito, simplesmente porque os médicos da época ainda mal sabiam diagnosticá-la.

Pesquisadores ingleses dizem que há poucas evidências de que apenas a poluição e a industrialização causam maior incidência de câncer... Por outro lado, há muitas evidências de que o cigarro, o exagero no consumo de álcool e alimentos gordurosos, e a exposição prolongada a radiação, certamente aumentam em muito as chances do surgimento do câncer. O problema não é viver no mundo moderno, portanto, o problema é viver da forma moderna, venerando o deus do consumo: Comendo e bebendo e se entorpecendo, numa tentativa frenética de escapar do abismo da falta de sentido no mundo pós-moderno.

Em todo caso, ainda que continuemos a buscar boas respostas para nossas perguntas acerca do sentido da vida, hoje temos muito mais tempo para refletir sobre o tema. Hoje podemos efetivamente viver, ao invés de tão somente sobreviver. Uma pessoa de classe média baixa no mundo atual, ainda que more em uma favela, ainda disporá de muito mais conforto, saúde e oportunidades de se entreter ou buscar conhecimento do que mesmo os maiores reis e imperadores da antiguidade. Se não nos damos conta disso, deve ser porque o deus do consumo nos assopra o ouvido todos os dias: “tudo bem, agora você finalmente tem um carro, uma casa... mas veja só a casa do vizinho, tem um jardim maior; veja o carro dele, é um modelo mais novo!”.

As estatísticas, no entanto, não mentem. Veja o que o médico Hans Roslin tem a nos dizer sobre o desenvolvimento de 200 países nos últimos dois séculos, em um vídeo da BBC:

***

Apesar de todo esse avanço, há também a corrente dos conservadores da moralidade, ou dos arautos do final dos tempos. Segundo os primeiros, que normalmente se julgam bastante religiosos, a moral moderna vive uma época de involução: por todos os cantos vemos violência desenfreada, promiscuidade sexual, divórcios e libertinagens em geral... Os partidários do fim do mundo vão ainda mais além – não somente concordam com o fato de haver uma involução moral, como dizem que essa é a mais forte evidência de que o mundo, finalmente, se encaminha para um final. Para muitos destes, é preferível que o mundo todo acabe num apocalipse pagão, do que ver sua própria igreja ser lentamente reduzida à um segundo plano histórico. Para estes, quanto antes tudo isso acabar, tanto melhor...

Mas será que os “conservadores” estão com a razão? Será que um inferno moral está lentamente sendo instituído na Terra, e somente alguns poucos escaparão para o céu?

A religião também está cheia de conclusões apressadas, provavelmente ainda mais do que a ciência. Há 2 mil anos, haviam cerca de 300 milhões de pessoas em todo o planeta. Numa de suas grandes cidades, Roma, o grande circo do povo era realizado dentre os muros do Coliseu, onde homens se digladiavam até a morte, ou eram devorados por bestas ferozes, para o delírio do público, e de seu imperador. Por todo o mundo dito civilizado a escravidão humana era perfeitamente aceita, e mesmo os grandes sábios da época antiga pouco tocaram no assunto. Por milhares de anos as mulheres foram relegavas a uma espécie de limbo governamental – não podiam exercer cargos de governo, não podiam aprender a ler e escrever, não podiam decidir os rumos da política, e muitas vezes foram tratadas como meros objetos, moedas de troca, por seus maridos. Há muitos ditos cristãos que, ao longo dos tempos, criam piamente que nem escravos nem mulheres tinham alma – e há muitos que mesmo nos dias atuais ainda acreditam que animais tampouco às têm.

Não ter alma significava não somente não ter a possibilidade de um dia adentrar o céu, como também significava um status sub-humano, como se Deus operasse pela criação de todo o Cosmos para que apenas os homens de certa etnia pudessem ganhar, afinal, uma alma.

Provavelmente houveram épocas felizes, quando algum imperador dizimou todos os exércitos de uma dada região, e depois a anexou ao império, e os camponeses e seres simples puderam gozar de certo período de paz. A violência, porém, obviamente sempre existiu... Há mil anos atrás não existia a televisão para divulgar quando uma jovem foi encontrada violentada e morta a poucos quilômetros de sua vila. Quando hordas de bárbaros passavam pelas pequenas cidades da Europa, estuprando, torturando, esquartejando a todos, tampouco isso chegava aos ouvidos dos camponeses a 100 Km dali, quanto mais ao resto do mundo.

Dizem que a moral é baseada nas normas de boa conduta de uma dada sociedade, e a ética, por sua vez, seria um conjunto de preceitos universais de vida em sociedade, de igualitarismo, de direito de liberdade, de civilidade, de compreensão, e acima de tudo: de amor. Quando os “conservadores” falam em involução moral, talvez estejam até utilizando o termo correto: pois, para um grupo cuja doutrina social afirma que o homossexualismo e a promiscuidade são tão ou mais condenáveis quanto os assassinatos mais cruéis (podem não afirmar isso abertamente, mas convenhamos, a maior parte pensa dessa forma), certamente a época moderna, da emancipação da mulher (para fazer sexo como bem entender) e dos direitos dos homossexuais, será uma verdadeira decadência moral. Mas isso não significa que a moral de alguns fale pela ética de todo um planeta.

» Na continuação, a evolução espiritual, a sabedoria da Natureza, e uma possível mudança de era...

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Crédito da foto: Colin McLurg

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10.7.10

Mulher objeto

Vamos ser honestos e ir direto ao ponto: faz muito tempo que o mundo ocidental é machista – no mínimo, desde que o culto a Deusa foi destroçado pela Igreja, mas isso não vem ao caso no momento...

Sim, já foi pior, já foi muito pior. Houve época em que mulheres “não tinham alma”. Houve época em que não podiam nem estudar nem trabalhar “porque sua única função era cuidar da casa e dos filhos”. Houve época em que não podiam votar e muito menos se eleger... Mas graças aos anticoncepcionais e aos movimentos de emancipação do século passado, as mulheres hoje estão em situação bem mais digna.

Ou melhor, elas sempre estiveram em situação digna. Os homens é que eram indignos das mulheres, pois por muito tempo foram educados para as tratar como seres secundários, às vezes serviçais.

Dizem que a humanidade não evoluiu moralmente. Os dogmáticos do apocalipse adoram lembrar que nossa evolução tecnológica nada fez por nossa moral. Dizem que “não há nada de novo abaixo do céu”... Eu não concordo.

Não concordo, porque há 2 mil anos o povo ia ver feras devorarem homens no Coliseu de Roma. E aplaudiam... Hoje o povo vai a um estádio de futebol (mesmo em Roma) para ver uma disputa esportiva, e raramente aplaude algum derramamento de sangue – é claro que os hooligans estão aí para nos lembrar do quão ignorante parte de nós ainda é, mas eles são a minoria, felizmente...

Os homens diziam que o mercado de trabalho não comportaria o afluxo de mulheres, que isso provocaria desemprego e conflitos e caos generalizado... Não, o apocalipse não chegou porque uma mulher assumiu a gerência de uma multinacional, ou a presidência de um país. Elas não são tão diferentes assim dos homens, e em muitas áreas são estatisticamente melhores – como na direção de automóveis, por exemplo; Se não acredita basta verificar em qualquer seguradora quanto custa o seguro para homens, e quanto custa o mesmo seguro para mulheres.

Mas há homens inteligentes e sensíveis o suficiente para reconhecer todas as potencialidades femininas... Vejamos o presidente da França, por exemplo, que certamente não deve ter muitas reclamações acerca da belíssima ex-modelo com quem se casou – uma artista de mão cheia, que não deixou de ser musicista e nem escritora por ser uma “primeira-dama”. Quantos homens não se sentiriam intimidados por uma Carla Bruni? Alguém tão bela, tão dona de si mesma, tão deliciosamente poética... Seria “muita areia para o caminhãozinho dele”? Certamente, talvez exatamente por isso ele esteja com ela – “o mais improvável dos relacionamentos”. “Improvável”, isto é, para os machistas que ainda se sentem melhor com as mulheres serviçais, as secundárias, as que não os podem ofuscar...

Porém, os ecos da barbárie medieval e a sombra da ignorância humana ainda se fazem presentes na época atual. Há algo de obscuro enterrado no cerne de nossa educação precária. Uma idéia de que homens são provedores e mulheres são “alguma espécie de bem material” – e que os homens devem ter muito, muito dinheiro, para poder “usufruir” dessas mulheres. Eis o absurdo conceito de mulher objeto (não estou me referindo a parafilia, mas simplesmente ao conceito em si), tão absurdo que se oculta longe da racionalidade, de modo que muitas vezes ele está no inconsciente, e não no consciente. Mulheres objeto no inconsciente coletivo de homens, e também de mulheres... Não acredita?

Se não acredita, dê uma breve olhada em comerciais de cerveja, em revistas masculinas, em sites pornô – ou melhor, talvez seja mais simples ir direto ao ponto, direto na “ferida”...

Clipes de música americana! Eles infestam as mentes de jovens e adolescentes – e mesmo de crianças e pré-adolescentes... Eu poderia citar vários exemplos, mas vamos direto a um ícone, do Black Eyed Peas (vale lembrar que não tenho nada contra a música em si, mas contra a idéia que os levou a escrever uma letra que, no fim das contas, resume muito bem o conceito de mulher objeto):

Na música acima, chamada “My Humps”, temos praticamente uma relação comercial estabelecida: o homem deve prover a mulher com dinheiro e jóias caras, e ela deve prover ele (com o perdão da palavra) com “muita bunda dentro do seu jeans” – eu estou apenas traduzindo a letra!

Algumas mulheres perceberam o absurdo estabelecido na cultura musical “pop” americana... Alanis Morissette nos brindou com sua brilhante paródia da mesma música, em que ela usa a mesmíssima letra, mas com outro ritmo (ela certamente não pretendia lançar um hit com esse clipe):

Isso dá uma pequena idéia geral de como o conceito de mulher objeto penetra em nossa cultura desde praticamente o berço – e nem sempre nossos adolescentes percebem por onde esse tipo de pensamento adentrou suas vidas (e até mesmo alterou o funcionamento cerebral)... Infelizmente não somos educados para pensar por nós mesmos, e dá no que dá: “conceitos enlatados goela adentro” – muitos de nós são praticamente gansos com cérebro inchado (ao invés do fígado).

E como mudar? Como fazer com que as mulheres escapem dessa sina – e de quebra reduzir (muito) a violência contra a mulher, causa direta de muitos traumas e assassinatos, mesmo nas “melhores famílias” –?

Simples: não aceite. Não compre essas idéias. Analise a si mesmo, conheça aos próprios pensamentos, e questione-se até que ponto eles são seus, e até que ponto são fruto de uma sociedade algo decadente, onde o deus do consumo faz o que quer e aonde quer... E todos o aplaudem, ou quase todos.

Mas, sobretudo, homens e mulheres, não desanimem! Quem sabe o dia em que nos chamaremos não de homens e de mulheres – mas de seres, de almas, de consciências –, não esteja tão distante assim... Era após era. Século após século... Hoje melhor do que ontem. Amanhã melhor do que hoje. Passo a passo.

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» Tradução da música "My Humps" (atenção: a leitura pode fazer você perder a fé na humanidade)

Crédito das fotos: Anônimo/Divulgação.

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24.4.10

Mente escura

Há tempos que a ciência tem postulado o estudo da consciência humana com um dos maiores desafios do conhecimento humano, talvez mesmo além de uma compreensão elaborada – como, por exemplo, a compreensão que temos do eletromagnetismo ou do nascimento de estrelas –, pois se trata essencialmente de utilizar o próprio objeto em estudo para realizar o estudo em si.

O psiquiatra alemão Hans Berger ajudou a iluminar a questão com a criação do eletroencefalograma (EEG), que grava a atividade elétrica no cérebro por meio de um conjunto de linhas ondulatórias sobre um gráfico. Com essa ferramenta, os neurologistas passaram a mapear a atividade elétrica do cérebro, e fazer diversas associações entre impulsos de coordenação motora, estados mentais e de foco de atenção dos inúmeros colaboradores e pacientes estudados nas últimas décadas.

Hoje se sabe que a consciência é mais como um processo que coordena decisões de acordo com o fluxo de informação sensorial recebido, ela é como o regente de uma “orquestra mental”. Porém, a análise qualitativa dos fenômenos conscientes complexos, como o amor e as decisões morais, ainda passam ao largo da explicação científica. Este é o famoso “problema difícil”: identificar o que exatamente interpreta informações e elabora respostas morais, em oposto a mera computação das informações.

Richard Feynman gostava de comparar a forma como os físicos modernos trabalham com a detecção das ondas de uma piscina: acaso não fosse possível ver quem mergulhou na piscina a pouco tempo, podemos ter uma boa noção de onde e quando ocorreu o mergulho, assim como o peso de quem mergulhou, apenas analisando a freqüência e a amplitude das ondas na superfície da água. A ciência lida somente com o que pode detectar – se ela não detecta o amor ou a moral, ao menos pode detectar o efeito elétrico no cérebro que ocasiona as demonstrações de sentimentos complexos. O que a ciência não pode pretender, entretanto, é que tais sentimentos se resumam ao efeito, ignorando a causa... Ou postulando que a causa está além de nosso controle, que é fruto do mero agitar químico do cérebro, como afirma o filósofo Daniel Dennet, o que em todo caso é basicamente o mesmo que ignorar a causa.

Carl Sagan já chegou a afirmar que prefere seguir os impulsos de seu inconsciente, que este na maior parte das vezes lhe “guia” para caminhos mais produtivos e sensatos do que sua racionalidade consciente [1]. Ora, mas se a ciência se preocupa em detectar a atividade elétrica do cérebro quando este está em plena atividade consciente, o que dizer de quando estamos sem fazer nada, teoricamente “sem pensar em nada, absolutamente nada”?

Em ensaios seminais sobre suas descobertas com as primeiras pesquisas utilizando o EEG em 1929, Berger deduziu, a partir das incessantes oscilações elétricas detectadas pelo aparelho, que “temos de supor que o sistema nervoso central está sempre – e não só durante o estado de vigília – num estado de considerável atividade.” Mas suas idéias foram amplamente ignoradas, até tempos recentes, bem recentes... A tecnologia para se examinar o cérebro se aprimorou: em 1970, veio à tomografia por emissão de pósitrons (PET, Positron-Emission-Tomography), que mede o metabolismo da glicose, fluxo sanguíneo e absorção de oxigênio para a extensão da atividade neuronal; já em 1992 veio à captação de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI, functional Magnetic Ressonance Imaging), que mede a oxigenação do cérebro com o mesmo propósito.

Essas tecnologias são mais do que capazes de analisar a atividade cerebral, focada ou não, mas a maioria dos estudos iniciais levou a impressão errônea de que, na maior parte, as áreas do cérebro permanecem tranqüilas até que sejam requisitadas a desempenhar alguma tarefa específica. Ao longo dos anos, no entanto, alguns pesquisadores [2] começaram a estudar a atividade cerebral de colaboradores simplesmente em estado de descanso, deixando a mente livre para divagar. Eles descobriram que a energia gasta pelo cérebro não varia mais do que 5% entre o estado de vigília e/ou atividade consciente e o estado de relaxamento completo, quando supostamente não fazemos absolutamente nada a não ser pensar, divagar...

A conclusão surpreendente a que chegaram é a de que boa parte da atividade geral – de 60% a 80% de toda a energia gasta pelo cérebro – ocorre em circuitos não relacionados a nenhuma evento externo. Com a devida licença dos colegas astrônomos, os pesquisadores deram a essa atividade intrínseca o nome de “energia escura do cérebro” – referência à energia não visível (não interage com fótons), mas que representa a maior parte da massa do universo.

Ficou claro, a partir desse trabalho, que o processo consciente é responsável por apenas uma parte, ainda que crítica, da atividade total de todos os sistemas do cérebro. Como Berger mostrou em primeiro lugar, e muitos outros confirmaram desde então, a sinalização cerebral consiste em um amplo espectro de freqüências, que vão dos potenciais corticais lentos (SCPs, Slow Cortical Potentials) de baixa freqüência até a atividade acima de 100 ciclos por segundo. Um dos grandes desafios da ciência é entender como os sinais de diferentes freqüências interagem.

A orquestra sinfônica proporciona uma metáfora adequada, com sua integrada “tapeçaria” de sons provenientes de múltiplos instrumentos que tocam no mesmo ritmo. Os SCPs equivalem à batuta do regente. Só que, em vez de manter o tempo para um conjunto de instrumentos musicais, esses sinais coordenam o acesso que cada sistema cerebral exige para o vasto depósito de memórias e outras informações necessárias para se sobreviver num mundo complexo e em permanente mudança. Os SCPs garantem que as computações corretas ocorram de maneira coordenada, exatamente no momento adequado.

Mas o cérebro é muito mais complexo que uma orquestra sinfônica. Ele oscila continuamente entre a necessidade de equilibrar respostas planejadas com demandas imediatas. Os grandes expoentes da psicologia, como William James, Sigmund Freud e Carl Jung, sempre compreenderam o enorme e misterioso papel do inconsciente sobre o consciente. Que o cérebro pode até ser uma máquina de envio e reenvio de informações, um computador molecular de vasta complexidade, mas ainda assim há que se pensar no que quer que – esteja onde estiver no cérebro – interpreta as informações recebidas e elabora respostas morais e sentimentais...

Eis a mente escura, aquela que ainda escapa da lente agitada da ciência, assim como a grande parte da matéria e da energia do universo. Do que é formada? Onde está exatamente no cérebro? Seria ela limitada pelo corpo, ou apenas uma energia que toca as teclas do cérebro enquanto este permanece como um instrumento apto para ser tocado? São ainda muitos mistérios, muitos paradoxos e enigmas, muitos “problemas difíceis” no caminho da ciência... Mas ela não descansará; nós não descansaremos, pois a natureza não nos deixará relaxar.

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[1] Livre interpretação de um breve comentário de Sagan num especial da TV americana, onde ele, Stephen Hawking e Arthur C. Clarke discutiram sobre Deus, o universo e as leis da natureza.

[2] Boa parte das informações científicas deste artigo foram retiradas do artigo “A energia escura do cérebro”, capa da Scientific American de Abril de 2010 (ano 8, #95), escrito por Marcus E. Raichle – professor de radiologia e neurologia –, que é um dos principais pesquisadores no assunto aqui abordado.

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Crédito da imagem: Anônimo (representa a disparidade entre a energia gasta no processo consciente, acima da superfície, e a energia gasta pelo inconsciente a todo momento – este tipo de imagem é a metáfora mais utilizada para ilustrar a questão)

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15.4.10

Reflexões sobre o mal, parte 3

continuando da parte 2...

A psicopatia é um distúrbio mental grave caracterizado por um desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa para atos cruéis e inflexibilidade com castigos e punições.

A consciência do mal

Estive defendendo que Satanás é um mito, que não existe um ser que centraliza toda fonte do mal, e que os tais “mestres da escuridão” nada mais são do que seres mimados, incapazes de lidar com a frustração de seus desejos incontroláveis. Enfim, que o mal é apenas a ausência do bem, e que não existe em si mesmo, assim como a escuridão não existe – é apenas a ausência da luz.

Mas falava sobretudo do mal dito “sobrenatural”, como uma força que tinha o poder de influenciar os seres e guiá-los contra a vontade as ações mais diabólicas, com o perdão da palavra (o mito já contaminou a linguagem, não posso fazer nada). Ora, se é verdade que esse mal não existe, o mal que tem origem na ignorância de cada ser é bastante real, e bastante comum. A história da humanidade, apesar de todos os acertos da filosofia, da religião e da ciência, é permeada em todos os lados pela ignorância – essa ignorância que ainda nos permeará por muitas eras...

Sim os seres são influenciados, na verdade, pelos próprios vícios. E obviamente que, numa vida em sociedade, o vício de um pode influenciar o vício do outro. Não foi à toa que mesmo os grandes sábios da Grécia antiga praticamente não levantaram a voz contra a escravidão, que Hipátia de Alexandria foi queimada junto com a grande biblioteca, que as pessoas iam ver homens serem devorados por feras no Coliseu de Roma, e aplaudiam!

Felizmente, no entanto, estamos nessa lenta, lentíssima evolução moral. Passo a passo estamos seguindo a frente, ainda que sem pressa alguma: hoje não se queimam mais bibliotecas nem hereges, negociar e manter escravos é crime, e vamos ao Estádio Olímpico de Roma apenas para ver futebol – na maioria das vezes sem sangue derramado... Afinal o que nos move no caminho do bem e da virtude? Ora, dizem os sábios que é precisamente a aversão à consciência do mal praticado.

Ao encararmos o mal, fruto de nossa própria ignorância, em nós mesmos, ficamos escandalizados e procuramos melhorar. Nesse lento bater das águas na rocha dura, pouco a pouco lapidamos nossa alma, e transformamos um deserto de granito em uma praia de calcário. Certo, uma vida é muito pouco para tamanha transformação, mas há muitos sábios que dizem que é exatamente por isso que precisamos retornar ao mundo tantas e tantas vezes: é que as potencialidades não se edificam de uma vida para outra, há que se utilizar muitas delas!

Mas o cético, ou aquele que se deprime com essas “fantasias de almas e vida eterna”, dirá que o cérebro nada mais é do que o mero agitar de partículas, e que o mal nada mais é do que uma deficiência, uma psicopatia, uma falha do mecanismo cerebral... Estranho, no entanto, que tanto psicopatas quanto autistas tenham dificuldades de perceber suas emoções, sendo que os últimos geralmente não fazem mal a uma mosca, e os primeiros podem se tornar assassinos seriais. Quanto mistério dentro dessas partículas obscuras em nossa cabeça!

Em “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, o neurologista Oliver Sacks nos traz uma história – um de seus inúmeros casos clínicos de pacientes com doenças mentais – que talvez nos ajude a iluminar esse paradoxo [1]:

“Donald matou sua namorada sob a influência do cloridrato de fenociclidina (PCP). Ele não lembrara do que fizera (...) e nem a hipnose nem o amital de sódio foram capazes de liberar essa lembrança. Concluiu-se, portanto, em seu julgamento, que não havia uma repressão de memória, mas uma amnésia orgânica – o tipo de blackout muito característico do PCP.

Os detalhes, revelados no inquérito, eram macabros, e não puderam ser expostos em audiência pública. Foram discutidos in câmera – ocultos do público e do próprio Donald. (...) Ele passou quatro anos em um hospital psiquiátrico para os criminalmente insanos – apesar de haver dúvidas quanto a ele ser criminoso ou insano. (...) “Não sou apto para viver em sociedade”, dizia, melancólico, quando questionado.

No quinto ano ele começou a sair em liberdade condicional, [e sofreu um acidente enquanto pedalava sua bicicleta, ao desviar de um carro em uma curva fechada] (...) Ele sofreu uma grave lesão na cabeça (...) e séria contusão em ambos os lobos frontais. Ficou em estado de coma, hemiplégico, por quase duas semanas, e então, inesperadamente, começou a se recuperar. Nesse estágio começaram os “pesadelos”.

O assassinato, o ato, antes perdido para a memória, agora se mostrava para ele em detalhes vívidos, quase alucinatórios [2]. Uma incontrolável reminiscência emergiu e o assoberbou (...) Seria isso um pesadelo, seria loucura ou haveria agora uma “hipermnésia” – a irrupção de lembranças genuínas, verídicas, aterradoramente intensificadas? (...) Ele agora conhecia o assassinato nos mínimos detalhes: todos os detalhes revelados pelo inquérito mas não no julgamento público – ou a ele.

[Com anos de tratamento] já não está mais obcecado [pelo assassinato]: foi atingindo um equilíbrio fisiológico e moral. Mas e quanto ao estado de memória, primeiro perdida e depois recuperada? Por que a amnésia – e o retorno explosivo? Por que o blackout total e depois os vívidos flashbacks? O que realmente aconteceu nesse drama estranho, meio neurológico? Todas essas questões permanecem um mistério até hoje.”

Os livros de Sacks nos dão vários exemplos de casos de pacientes com amnésia profunda que eventualmente conseguem se “realinhar” com a realidade e a época atual, seja de forma permanente – pelo sucesso do tratamento –, seja de forma temporária – por tratamentos alternativos, particularmente com uso de música. Em todo caso, esquecer e depois lembrar de atos imorais não necessariamente quer dizer que todos um dia irão sentir remorso em se lembrando com detalhes vívidos de seus atos no mal.

Talvez os psicopatas sejam “imunes” ao remorso para sempre. Talvez não exista nada após a morte e, portanto, tenhamos inúmeros exemplos de seres que foram psicopatas, sem remorso, ao longo de toda a vida. Nesse caso, bem e mal são como efeitos aleatórios de características de nosso cérebro, e talvez não exista nem Deus nem a vida após a morte, e muito menos um Céu ou um Inferno conforme nos diz a Bíblia...

Por outro lado, talvez exista algum tempo do outro lado do véu, e talvez esse tempo não seja nada amistoso para aqueles que acumularam atos imorais em sua própria consciência – esta que, mesmo nem sempre parecendo, registra absolutamente tudo a nossa volta. Nesse caso, talvez o remorso e a culpa um dia fatalmente venham cobrar seu quinhão a todos aqueles que têm o saldo devedor. Não se trata de mera especulação teológica, temos indícios de que isso pode ser verdade por toda a parte, e em todos os tempos.

Dito isso, acho prudente lembrar que Céu e Inferno só podem realmente ser o que dizem que são se estiverem impressos em nossa própria consciência, não num futuro distante, não num Dia do Juízo, não após a morte, mas hoje, neste exato momento: somos os juízes e os escravos de nossa própria consciência, não há parte alguma que possamos ir sem ela, não há como ignorá-la nem ludibriá-la por muito tempo...

Aquele que se apraz com o amor, a moral, a busca pela verdade, estará envolto no mais luminoso e paradisíaco Céu aonde quer que vá. Ao passo que aquele que se identifica com a própria ignorância, e rende-se a estagnação e ao deboche perante as leis naturais – que ainda não compreende nem o ínfimo –, este estará condenado ao mais tenebroso e obscuro Inferno, ainda que tenha todas as riquezas, todos os escravos, e todos os impérios do mundo. Ocorre que um já encontrou o amor, o caminho sem fim, e o outro ainda o ignora, e crê que esta é uma terra de sofrimento, de absoluta ausência de sentido – onde tudo é relativo e todas as coisas, no fim, se reduzem ao nada, ao abismo vazio de seu próprio ser.

Este caminho, todos temos de percorrer: deixem que as rodas percorram os velhos sulcos.

***

[1] Retirado do capítulo 19, “Assassinato”. O livro é publicado no Brasil pela Companhia das Letras, assim como vários outros do mesmo autor, todos recomendados.

[2] Qualquer semelhança com as análises da segunda parte de “O Céu e o Inferno” de Allan Kardec (ed. LAKE) talvez não sejam mera coincidência.

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Crédito da foto: Patrick Power

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16.3.10

Passeios de aeróbus

No livro “Nosso Lar”, de autoria de André Luiz e psicografado por Chico Xavier, temos uma curiosa descrição de um veículo de transporte público na colônia espiritual que dá título ao livro:

Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro [aeróbus], suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros. Ao descer até nós, à maneira de um elevador terrestre, examinei-o com atenção. Não era máquina conhecida na Terra. Constituída de material muito flexível, tinha enorme comprimento, parecendo ligada a fios invisíveis, em virtude do grande número de antenas na tolda. Mais tarde, confirmei minhas suposições, visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte.
Lísias não me deu tempo a indagações. Aboletados convenientemente no recinto confortável, seguimos silenciosos. Experimentava a timidez natural do homem desambientado, entre desconhecidos. A velocidade era tanta que não permitia fixar os detalhes das construções escalonadas no extenso percurso. A distância não era pequena, porque só depois de quarenta minutos, incluindo ligeiras paradas de três em três quilômetros, me convidou Lísias a descer, sorridente e calmo (Trecho do início do Capítulo 10: “No Bosque das Águas”, onde André Luiz tem o primeiro contato com o aeróbus).

Uma pergunta muito comum dos céticos (espíritas ou não) em relação a algumas descrições detalhadas de veículos e construções nas colônias espirituais é bastante válida, a primeira vista: “Ora, se essas colônias dispõe de tamanho nível de tecnologia, porque os espíritos não nos entregam de mão beijada os planos e as plantas para que nossos engenheiros e arquitetos possam construir tais veículos e construções aqui na Terra?”.

Um espírita precavido irá citar outro trecho do próprio “Nosso Lar” para explicar porque um aeróbus não poderia viajar pela Terra:

Dirigi-me, incontinenti, a Narcisa, perguntando:
- Onde o aeróbus? Não seria possível utilizá-lo no Umbral?
Dizendo-me que não, indaguei das razões.
Sempre atenciosa, a enfermeira explicou:
- Questão de densidade da matéria. Pode você figurar um exemplo com a água e o ar. O avião que fende a atmosfera do planeta não pode fazer o mesmo na massa equórea. Poderíamos construir determinadas máquinas como o submarino; mas, por espírito de compaixão pelos que sofrem, os núcleos espirituais superiores preferem aplicar aparelhos de transição (Trecho do Capítulo 33: “Curiosas Observações”).

Mas será que isso resolve o problema? Não poderiam, por acaso, os espíritos ajudarem nossos engenheiros e homens de ciência a inovar nossa tecnologia atual? Mesmo que não fosse possível construir uma espécie de metrô que plana em alta velocidade muito acima do solo, certamente algum tipo de avanço descrito nos livros de André Luiz poderia ajudar, e muito, a Terra...

Arthur C. Clarke, célebre escritor de ficção científica, dizia que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinquível de magia”. Clarke foi, ele mesmo, um “antecipador” de algumas tecnologias que só viriam a ser viáveis muitos anos após a descrição – então fictícia – das mesmas em seus livros. Particularmente com o conceito dos satélites geoestacionários, Clarke não só antecipou o futuro, como contribuiu decisivamente para ele: nossas telecomunicações devem muito ao que antes era pura ficção.

Interessante que, num nível mais extraordinário (e incerto), é possível que algumas das tecnologias descritas em “Nosso Lar” – que diga-se de passagem, foi publicado em 1944 – possam ser igualmente antecipações de avanços futuros da tecnologia na Terra. Se a décadas atrás o aeróbus – uma espécie de metrô se movendo pelo ar, sem contato com o solo e a altas velocidades – parecia um veículo mágico, hoje talvez não chegue a tanto:

Um trem de levitação magnética ou maglev (Magnetic levitation transport) é um veículo semelhante a um metrô que transita numa linha elevada sobre o chão e é propulsionado pelas forças atrativas e repulsivas do magnetismo através do uso de supercondutores. Devido à falta de contato entre o veículo e a linha, a única fricção que existe, é entre o aparelho e o ar. Por conseqüência, os maglevs conseguem atingir velocidades enormes, com relativo baixo consumo de energia e pouco ruído. Embora a sua enorme velocidade os torne potenciais competidores das linhas aéreas, o seu elevado custo de produção limitou-o, até agora, à existência de uma única linha comercial, o transrapid de Xangai. Essa linha faz o percurso de 30 km até ao Aeroporto Internacional de Pudong em apenas 8 minutos. No Brasil, existem projetos para se implementar o maglev, por exemplo, na Ilha do Fundão.

Ainda assim, talvez não se pareça tanto com um aeróbus... André Luiz disse que “ele parecia ligado a fios invisíveis”, e que se movimentava muito acima do solo. Será que tudo não passou de ficção da cabeça de Chico Xavier? Obviamente que para um cético em relação à existência de comunicação com espíritos desencarnados, tudo já seria ficção a priori. Mas e quanto aos que crêem na possibilidade – será mesmo possível que a tecnologia humana seja apenas uma sombra da tecnologia espiritual, e que a inspiração para as grandes descobertas se deva ao fato de que quase tudo já foi descoberto no plano espiritual?

Quem se preocupa com isso certamente irá sorrir ao conhecer uma distinta empresa americana, chamada Aerobus International, que constrói trens suspensos por fios condutores que parecem voar pelos céus. Dificilmente os engenheiros americanos leram “Nosso Lar”... Mas e daí? E se for mesmo verdade cada pequena descrição da colônia? E se a ela tem mesmo a forma de estrela e todos os Ministérios citados por André Luiz estão mesmo lá, até hoje – em que exatamente isso nos ajuda em nossa evolução espiritual?

Nosso Lar é apenas uma das muitas colônias espirituais a beira do Umbral, onde espíritos de elevada moral e caridade tentam a todo custo auxiliar aqueles que perambulam nas trevas de sua própria consciência... Que nos importa saber o perímetro da colônia? Ou em quanto tempo podemos atravessá-la em um aeróbus? Ou se ela tem restaurantes e casas noturnas? Certamente, se um dia estivermos por lá, essas serão nossas últimas preocupações.

Lendo alguns dos livros de André Luiz, percebi que eles nunca se trataram apenas de descrições – fictícias ou não – de colônias do plano espiritual da Terra. Ora, começando pelo “Nosso Lar” e passando por todos os outros, eles tratam principalmente da tão falada reforma íntima, da reforma de nós mesmos; Do caminho das trevas da consciência egoísta para as campos ensolarados da consciência amorosa, conectada ao Cosmos que pulsa e vibra com vida, em cada partícula e em cada plano de existência.

É possível que os espíritos nos inspirem descobertas e idéias para novas tecnologias. Mas é igualmente possível que estejam mais preocupados em nos inspirar o amor e o auto-conhecimento. Em todo caso, cada ser está onde seus pensamentos o sintonizam.

André Luiz (ou Chico Xavier, caso você seja cético) perderia fácil numa comparação com autores de ficção científica como Arthur C. Clarke... Mas André Luiz não pretendeu nos trazer aulas sobre a tecnologia ultra-avançada dos espíritos, e sim ensinamentos sobre a moral avançada dos seres de luz. Se ele recorreu a histórias que ocorriam ao mesmo tempo na Terra e no plano espiritual, e acaso tenha se preocupado em descrever como é a vida enxergada do lado de lá, foi porque reconheceu o tempo perdido em sua encarnação prévia – um grande neurologista e médico sanitarista do Rio de Janeiro, que tinha muito conhecimento, mas pouca sabedoria.

Em seus livros, não encontramos batalhas fascinantes entre “o bem e o mal”, mas sim relatos sinceros e perturbadores da ignorância e falta de caridade de grande parte dos seres; A começar pelo próprio André Luiz, que passou anos no Umbral, e mesmo depois de socorrido em Nosso Lar custou a perder os vícios e a pompa de “grande médico”. Custou a vencer o próprio ego e reconhecer que a luz que vem de cima é sempre maior do que a nossa própria. Custou, mas venceu, e depois dedicou alguns de seus anos a ditar livros para um dos maiores médiuns de que se tem notícia. E o resto é história.

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Crédito da imagem: Nosso Lar, O Filme

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