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30.1.16

Lançamento: Entre a Esquerda e a Direita

As Edições Textos para Reflexão trazem mais um e-book gratuíto, desta vez tratando de Política...

Em Entre a Esqeurda e a Direta: Uma reflexão política, a minha ideia foi chamar dois debatedores para falar de Política – Alfredo Carvalho e Igor Teo – cada um representando um dos seus espectros ideológicos.

Eu enviei perguntas para que ambos os convidados respondessem sem que soubessem previamente da resposta um do outro. O meu intuito foi poder demonstrar que o embate de ideias é não somente saudável, como extremamente necessário para a boa Política. Afinal, a política comprada pelos grandes corruptores não tem mais quase espaço para qualquer tipo de ideologia – é o que eu costumo chamar de Grande Negócio Eleitoral.

E, também vale lembrar, o objetivo final do embate de ideias não é “exterminar” a opinião contrária – isto sim, seria uma Ditadura, quando alguém se presta a governar sem dar chance da oposição se manifestar. Aqui ambos os convidados tiveram pleno espaço para a manifestação e, quem sabe até, algumas conclusões em comum.

Rafael Arrais


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» Veja também a série original que deu origem ao livro, aqui no blog


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12.8.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte final)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

Entre a pobreza e a desigualdade
Os seus críticos dizem que é o livro mais vendido e menos lido dos últimos tempos, mas fato é que desde que publicou O Capital no Século 21, Thomas Piketty foi subitamente catapultado ao posto de “economista pop star”, algo que certamente não temos visto com tanta frequência por aí.

A tese principal que o economista francês traz ao mundo em sua obra, amparada por calhamaços de estudos e estatísticas econômicas, é a de que os países desenvolvidos vêm registrando uma elevação da concentração de renda num ritmo consideravelmente mais rápido do que o próprio crescimento econômico. Ora, isto significa basicamente dizer que, sob o signo do capitalismo moderno, a desigualdade entre os ricos e os pobres vem se tornando um abismo cada vez mais instransponível. Ele tem razão?

Na verdade, não poderia estar mais correto. E não é que essa desigualdade seja algo “concebível”, como aquele varejista que tem uma renda 20 vezes maior do que um dos seus gerentes de setor, ou aquele milionário “bem nascido” que recebeu uma herança superior ao patrimônio total de todos os habitantes de uma cidadezinha de Minas, não, é algo que realmente vai além da imaginação: estamos falando de algumas pessoas que detém mais riqueza do que o PIB de inúmeros países somados.

Um estudo apresentado pela entidade Oxfam às vésperas do Fórum Econômico Mundial de Davos, no início de 2015, demonstrou que a eclosão da crise econômica mundial, em 2008, fez com que o ritmo da desigualdade se acelerasse ainda mais. Segundo o estudo, em 2009, os 1% mais ricos do planeta acumulavam cerca de 44% do PIB global; em 2014, chegamos a relação de 1% para 48%; e, em meados de 2016, a previsão é a de que os 1% mais ricos deterão metade das riquezas do mundo. Não sei quanto a vocês, mas sempre que penso nisso me dá a impressão de que a desigualdade é tão avassaladora que simplesmente não conseguimos concebê-la racionalmente, ou talvez simplesmente não queiramos pensar muito sobre o assunto...

Já li muitas críticas às estatísticas que Piketty usou como base para elaborar sua tese. Mas, ainda que ele tenha errado num ou noutro cálculo, fica muito difícil desmontar a essência da sua tese. É fato, a desigualdade no mundo sempre foi grande, mas hoje está atingindo níveis simplesmente estratosféricos. E sabem por quê? Porque na realidade nunca acumulamos tanta riqueza – no passado éramos mais pobres por igual, e hoje somos mais ricos, embora de maneira enormemente desigual.

Essa constatação histórica do desenvolvimento da economia humana, juntamente com a ciência e a tecnologia, é precisamente a única forma viável de contrapormos as ideias de Piketty. Neste sentido, acredito que o economista italiano radicado nos EUA, Luigi Zingales, seja a voz mais sã a se levantar e analisar de forma crítica o best-seller de Piketty.

Como professor da Universidade de Chicago, Zingales está literalmente no centro do pensamento liberal, e como tal, traz aquela outra visão que muitos simpatizantes da esquerda fazem questão de ignorar, a de que, se o capitalismo moderno trouxe muita desigualdade, também trouxe muita riqueza. Assim, chegamos àquela pergunta fatídica: É melhor sermos pobres por igual, ou relativamente ricos, enquanto uma pequena elite se torna absurdamente rica?

Vamos deixar esta resposta para depois. Primeiro, é preciso considerarmos que, a despeito de suas visões de mundo, nem Zingales nem Piketty podem ser situados precisamente nas extremidades da esquerda ou da direita, como aliás é comum com todos os grandes pensadores...

Quando perguntado por um repórter da Folha de São Paulo sobre a relação do título do seu livro com a obra-prima de Karl Marx, numa alusão a possiblidade de ser um comunista ou anticapitalista, Piketty respondeu assim:

“O problema é que há gente que vive ainda na Guerra Fria e tem necessidade de inimigos anticapitalistas. Não sou esse inimigo. Creio no capitalismo, na propriedade privada e nas forças do mercado.

Nasci tarde demais para ter a menor tentação que seja pelo comunismo de tipo soviético. Isso não me interessa. Ao mesmo tempo, acho que temos necessidade, basta ver a crise de 2008, de instituições públicas muito fortes para regular o mercado financeiro e as desigualdades produzidas pelo capitalismo.”

Pulemos então para a entrevista com Zingales no Estadão. Quando lhe perguntaram se existe alguma intervenção aceitável do Estado na economia, eis o que ele disse:

“O mercado precisa de regras para operar. A pergunta é quem vai implementá-las e mantê-las funcionando. Mas, além disso, é importante entender que a criação de uma rede de proteção social pode ser considerada uma intervenção pró-mercado.

Os empreendedores buscam com frequência lobbies para conseguirem subsídios. Quando uma empresa está prestes a falir, o empresário diz que precisa de ajuda porque os trabalhadores vão ficar desempregados. O meu ponto de vista é que, se temos uma boa proteção social, não é preciso se preocupar com os trabalhadores, e as empresas podem falir sem problema. Num modelo de livre mercado, as empresas precisam falir, mas os indivíduos não precisam sofrer.”

Ora, é impressão minha, ou parece que os baluartes do socialismo e do neoliberalismo chegaram a concordâncias surpreendentes sobre a economia e a política?

Vejam bem que nem Piketty nem Zingales pretendem carregar tais alcunhas, e ainda que fosse o caso, muitas vezes “socialismo” e “neoliberalismo” são somente palavras cujos significados se perdem na complexidade de um mundo de ideias cada vez mais conectadas, um fluxo onde quase tudo parece poder mudar da noite para o dia.

No fundo, ambos estão defendendo um capitalismo de real livre mercado, livre dos grandes monopólios, cartéis e lobbies políticos, onde nenhuma empresa possa ser “grande demais para quebrar”, mesmo que ela seja um banco, precisamente porque haverá uma rede de proteção e bem estar social capaz de cuidar de uma nova leva de desempregados, até que novas empresas possam absorvê-los. Isso nada mais é do que o socialismo e o capitalismo andando de mãos dadas, às vezes um pouco mais a direita, às vezes um pouco mais a esquerda. Ou seja, o grande terror dos extremistas, mas quem sabe a única solução para o mundo atual...


A resposta para o amanhã
Pobreza ou desigualdade? Privacidade ou segurança? Estado ou Mercado? Socialismo ou capitalismo? Esquerda ou direita?

A verdade é que, se quisermos nos certificar de que teremos um futuro melhor do que o presente, nós devemos responder tais perguntas em debates amigáveis, ou reuniões políticas onde tanto o governo quanto a oposição não somente tenham a voz assegurada, mas que, sobretudo, tenham uma ideologia genuína, e se prestem a defender no poder aquilo que sempre defenderam antes de chegarem ao poder.

Pois nada é mais distante da Política do que este Grande Negócio Eleitoral, onde os discursos são escritos por marqueteiros, e não por estadistas.

Pois nada é mais nefasto para a Política do que ter um grande partido político de ideologia incerta, que ora defende isto, ora aquilo, de acordo com a direção do vento, ou do bocado do Orçamento que conseguirá abocanhar em acordos obscuros em prol da garantia da “boa governança”.

Assim, eu prefiro não responder a nenhuma dessas questões, mas deixá-las em aberto para que vocês, da Mansão do Amanhã, possam não somente refletir sobre elas, como quem sabe até encontrarem alguma inspiração para se aventurarem na Política, com “P” maiúsculo.

Quando foi condenado pela polis ateniense por corromper seus jovens discípulos com novas ideias, foi dada a Sócrates a opção de se exilar e evitar a morte pela ingestão de veneno. O grande filósofo optou por permanecer em sua polis e aceitar o veredito. Há muitos que dizem que sua decisão se baseou inteiramente em seu enorme respeito para com a Justiça de Atenas. Mas, creio eu, talvez o velho sábio não encontrasse muita utilidade em prosseguir com sua existência, se não fosse para incitar os jovens a terem novas ideias...

Assim, ao não aceitar o exílio em troca da própria vida, Sócrates também se recusou a deixar que suas ideias fossem exiladas do mundo. O que essa bela história nos ensina é que a única resposta possível para o amanhã deve necessariamente partir do Amanhã.

Portanto, não é somente reclamando dos nossos representantes no Executivo, no Legislativo e no Judiciário que iremos conseguir mudar alguma coisa mais depressa. Se você quer realmente que este país chegue a ser, finalmente, o “país do futuro”, não há melhor caminho do que ser, você mesmo, um ser da Política.

E, se você é jovem, há todo um universo de possibilidades em aberto. Se for o caso de seguir neste caminho, tão sagrado quanto profano, lembre-se de que a Política não se faz em gabinetes, departamentos ou centrais sindicais isoladas a esquerda ou a direita; a Política se faz entre a esquerda e a direita.


Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política.
Simplesmente serão governados por aqueles que gostam.

(Platão)

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Thomas Piketty e Luigi Zingales)

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13.7.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 5)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

De Obelix a Rasputin
Gérard Depardieu afirmou recentemente que “está pronto para morrer pela Rússia, pois lá as pessoas são fortes, e não tolas como os franceses”. Ele não estava brincando. Apesar de ter nascido na França, desde 2013 adquiriu a cidadania russa, e abandonou definitivamente sua terra natal.

O premiado ator, muito lembrado por sua atuação como Obelix nos filmes de Asterix, na verdade não parece ter nada contra a cultura francesa em geral, mas sim uma enorme preocupação com os seus rumos políticos. Na prática, o que fez Depardieu abandonar os papéis frugais franceses e encarnar russos mais misteriosos, como o místico Rasputin, foi algo um tanto quanto prático: ele queria pagar menos impostos.

Apesar de ter origem humilde, Depardieu fez fortuna como astro do cinema europeu. Mas não foi só: ele também se tornou um grande empreendedor, dono de diversos vinhedos e restaurantes, com cerca de 80 empregados em sua folha de pagamento.

A ironia da coisa toda é que Obelix se mudou da França para a Rússia para fugir do... socialismo! Ou pelo menos é assim que ele classifica a ideologia política do atual governo de François Hollande, e a sua proposta de taxar grandes fortunas. O projeto do presidente francês foi vetado pelo Tribunal Constitucional de seu país, mas somente a possibilidade de haver passado, e que todos os franceses com renda anual acima de um milhão de euros fossem taxados em 75%, já foi motivo suficiente para Depardieu rumar para Moscou, com o aval do presidente russo, Vladimir Putin.

Estima-se que na Rússia ele não vá pagar mais do que 13% de imposto, podendo chegar a míseros 6%! E depois dizem que a Rússia é comunista...

Mas este exemplo de “fuga fiscal” passa longe de ser exclusividade da França ou de um ou outro milionário. Não importa se tiveram origem humilde e se beneficiaram do estado de bem estar social de seus países natais, a maioria dos europeus que se tornam milionários rapidamente se tornam irredutíveis defensores de baixos impostos. Taxar as grandes fortunas, então, soa quase como um ato terrorista.

Aqui no Brasil, apesar de previsto na Constituição de 1988, o imposto sobre grandes fortunas nunca passou de um “princípio de discussão” no Congresso. E, mesmo assim, sempre que o tema surge na pauta, há um verdadeiro exército midiático preparado para jogá-lo a lona o mais breve possível. Mesmo em época de pleno ajuste fiscal, falar em taxar milionários, neste país, é a heresia das heresias.

Mas é preciso reconhecer que, de fato, já existem muitos impostos no Brasil. Sobretudo para os pobres...


O imposto do champanhe
No “país do futuro”, aquele que sonha em ser uma “Suécia tropical”, temos sim uma alta carga tributária, assim como um retorno pífio nos serviços públicos que deveriam garantir o tal bem estar social “sueco”, como saúde, educação e transportes. Isso faz com que aqueles brasileiros que se consideram “classe média”, e que pagam escola e plano de saúde particular para a família, reclamem que “precisam pagar duas vezes pelo mesmo serviço”: uma pelo serviço precário que o Governo não presta, e outra pelo serviço em si, via rede privada.

Ora, disso tudo todos vocês devem saber, afinal não falei nenhuma grande novidade. De fato, isso tudo não está inteiramente errado, mas tampouco inteiramente de acordo com a realidade do país... Uma realidade, aliás, que dificilmente é mostrada nas grandes vias da mídia. Vejamos, ponto a ponto, o que precisa ser “acrescentado” aos fatos do último parágrafo:

1. O que é a tal classe média brasileira
A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República determinou em 2012 que a classe média brasileira tem renda familiar per capta entre R$291,00 e R$1.019,00. Muitos de nós encaramos tais valores como absurdos, mas isso ocorre sobretudo porque temos visto muitos filmes de Hollywood. Ora, a renda da “classe média” de um país é sempre relativa à renda média de seus habitantes. Nesse caso, tais valores equivalem à renda de famílias que recém saíram da miserabilidade, e é isso mesmo o que eles refletem: que a maior parte da população brasileira é pobre, muito pobre, se comparada às classes médias dos filmes americanos.
É muito difícil que uma família brasileira que consiga pagar escolas particulares para os filhos, e planos de saúde privados, seja efetivamente de “classe média”. Segundo a média do país, seriam famílias de classe média alta, ou ricas.

2. Nossos impostos são mesmo injustos, mas não da maneira que muitos imaginam
O que torna toda essa situação ainda mais grotesca é que, comparativamente a renda, é exatamente a tal classe média brasileira que arca com os maiores impostos, talvez os mais injustos de todo o planeta.
A taxa máxima do imposto de renda no país é de 27,5%. Nesse quesito, ainda estamos mesmo distantes de uma Suécia, onde ela pode chegar a 58%. Mas, da mesma forma, estamos abaixo de muitos países desenvolvidos, como Alemanha (51%), EUA (46%) e Coreia do Sul (41%), assim como de alguns de nossos vizinhos na América Latina, como Chile (45%) e Argentina (35%).
Ora, e como nossa carga tributária total é tão alta se nosso imposto de renda passa longe de estar entre os maiores do mundo? A resposta é o que torna nossos impostos tão injustos: os impostos indiretos, que são aplicados ao consumo (e não a renda).
É assim que vivemos num país onde um quilo de arroz ou feijão, uma geladeira ou fogão, e quase tudo o que há num supermercado, possuem impostos altíssimos e fixos, ou seja: tanto um milionário quanto um miserável pagam exatamente o mesmo imposto quando fazem as compras do mês ou precisam trocar um eletrodoméstico.

3. Para os ricos, há muitos impostos “simbólicos”
Segundo o abrangente estudo do economista José Roberto Afonso, A Economia Política da Reforma Tributária: o caso Brasileiro, somente o bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, arrecada mais com o IPTU, ou seja, o imposto sobre o patrimônio imobiliário, do que toda a área rural do país, com todas as grandes fazendas e latifúndios de terra (ver pág. 9 do estudo). É isso o que chamo de “imposto simbólico”, algo que existe basicamente só para os fazendeiros poderem reclamar que também pagam impostos. Ora, se isso fosse revisado e atualizado, a própria reforma agrária talvez ocorresse naturalmente, sem grandes conflitos além da chiadeira geral dos latifundiários.
É por uma razão muito parecida que pagamos o IPVA, o imposto sobre automóveis, enquanto jatinhos particulares, helicópteros e lanchas luxuosas jamais foram taxadas. Mesmo o nosso imposto sobre heranças é irrisório perto do que é praticado em boa parte do mundo.
Todo o nosso sistema tributário reflete o nosso passado de colônia e de grandes coronéis: se antes a carga pesada do trabalho recaía sobre os escravos, hoje algo muito parecido ocorre com a nossa carga tributária, que pressiona muito mais as camadas pobres da população, enquanto faz cócegas nos realmente ricos, ou nem isso...

Levando tudo em consideração, a nossa carga tributária sobre os ricos ainda é maior do que a russa, mas ao menos aqui Depardieu poderia pegar uma praia e tomar uma caipirinha, ao invés de curtir uma sauna siberiana. Em todo caso, é certamente mais vantajoso para um milionário viver no Brasil do que na Suécia ou na França, ao menos a nível de pura tributação sobre a renda.

Mas a pior notícia é que, a despeito da melhoria do padrão de vida dos nossos miseráveis nas últimas décadas, com o Plano Real e a distribuição de renda (trunfos dos governos tucanos e petistas, respectivamente), a triste realidade é que a carga tributária veio se tornando com o tempo cada vez mais injusta, isto é, aumentou como um todo, mas aumentou bem mais para as camadas mais pobres (ver pág. 9 do estudo).

E, se após décadas de governos que se dizem de esquerda ou centro-esquerda, não houve nenhuma reforma significativa que pudesse ao menos aplainar um pouco tanta desigualdade tributária, fica cada vez mais difícil imaginar que a nossa geração ainda verá um Brasil com impostos mais justos.

Mas em algum iate caríssimo, ancorado em alguma belíssima praia do nosso litoral, eles estão celebrando o “país do futuro”... Quanto será que pagaram de imposto no champanhe? Pouco lhes importa.

» Em breve, Zingales vs. Piketty...

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Crédito da imagem: Rasputin/Divulgação (Gérard Depardieu no papel de Rasputin)

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15.6.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 4)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

Uma questão de escala
É interessante como muitas vezes o significado de uma palavra, sua etimologia original, se perde ou se altera com o passar dos séculos e das sociedades. Talvez o exemplo mais claro disso seja o que ocorreu com o termo “candidato”.

Na Roma antiga, um candidato a um cargo público precisava se dispor a passar por uma espécie de ritual, onde ele atravessava uma praça pública vestindo tão somente um manto branco. Era um ato simbólico, é claro, mas sua simbologia era muito instrutiva: a brancura do manto (candidus) simbolizava a pureza de sua moral e de seu caráter, o que era essencial para administrar os assuntos públicos. Era tão óbvio há milênios quanto hoje: nenhum cidadão vai querer eleger um mau caráter, um corrupto, para gerir uma cidade-estado ou um país, até mesmo porque isso significa, basicamente, gerir o dinheiro dos impostos pago por todos, ou quase todos.

Ora, é evidente que, tanto na Roma antiga quanto nas democracias atuais, qualquer candidato vai buscar ocultar os seus “pontos fracos”, e enaltecer suas habilidades de bom governante. Isto está bom, é assim que fazemos quando queremos convencer aos outros das nossas qualidades, até mesmo numa entrevista de emprego...

O grande problema surge quando, ao invés de contar somente com a sua lábia, inteligência e oratória, ao invés de se apresentar somente com um manto branco em praça pública, o tal candidato passa a dispor de um conglomerado de agências de marketing e propaganda política, chefiadas por marqueteiros profissionais, verdadeiros magos do convencimento alheio, ao custo de muitos, muitos milhões de reais.

É dessa forma que, se após eleito o candidato talvez possa, quem sabe, atuar de forma livre (contanto que retribua as “doações” das empresas a sua campanha, é claro), é cada vez mais claro e evidente que, nos programas da TV, e até mesmo nos debates ao vivo, não é o próprio candidato quem fala, mas a sua “equipe de marketing” quem fala por ele. E assim chegamos a candidatos que são verdadeiras caricaturas de si mesmos, e que, uma vez chegando ao poder, assumem finalmente as suas personalidades reais (ou quase sempre, dependendo das estatísticas de aprovação nas pesquisas pós-eleições).

Assim sustentamos um sistema perverso de corrupção da democracia, um sistema que se retroalimenta, e se torna cada vez mais perigoso: um candidato precisa gastar milhões em sua campanha para convencer o eleitorado de que ele é o melhor (pois não há, de fato, outra opção para se vencer eleições majoritárias no Brasil e em muitos outros países); para conseguir tantos milhões, o candidato ou o seu partido político precisam convencer muitas grandes empresas de que eles têm uma boa chance de vencer (pois as grandes empresas jamais “doam” aos que não têm chance alguma, ou você pensou que se tratava de alguma ideologia?); para justificarem o gasto milionário em “doações eleitorais”, as grandes empresas precisam analisar cuidadosamente quais contratos superfaturados podem conseguir “lá na frente”, assim justificando seus investim... ops, suas “doações”, desculpem...

Finalmente, após as eleições as grandes empresas vão de vento em popa nos negócios, já que “a sorte lhes sorriu” e os candidatos em que “apostaram” acabaram vencendo. Logo, nas próximas eleições, as “doações” podem ser ainda mais substanciais, o que torna o custo das eleições em geral cada vez maior, e a chance de vencer um candidato realmente “puro”, como teoricamente eram os romanos antigos, vai se aproximando muito rapidamente de zero.

Portanto, a única forma de encerrar esse ciclo vicioso do Grande Negócio Eleitoral é reduzir drasticamente a escala do negócio como um todo: as eleições devem ser muito, muito mais baratas; e muito, muito mais amadoras!


Uma questão de lógica
Jan Larsson é um dos marqueteiros mais experientes do cenário político sueco; ocorre que isso jamais fez dele um administrador de campanhas suntuosas, cheias de propagandas pirotécnicas e curtas metragens exuberantes onde basicamente mais se atacam aos adversários do que se propõem políticas para melhorar o país. Ele tem bons conselhos para nós:

“Exatamente pelo fato de as campanhas publicitárias serem uma ferramenta tão cara e tão poderosa, é preciso ser cuidadoso e não exagerar na sua utilização.”

Até 2013, campanhas publicitárias de partidos políticos na TV eram proibidas na Suécia. Em 2014, pela primeira vez, fizeram uma experiência: no canal 4 da TV comercial, o eleitorado assiste a breves comerciais políticos de cerca de 40 segundos de duração, veiculados entre anúncios de margarina e barras de chocolate... Os comerciais são curtinhos mesmo, até mesmo porque os partidos não teriam recursos para filmar anúncios mais longos.

Na Suécia, o financiamento privado não passa de cerca de 30% do custo das campanhas, praticamente o oposto do que ocorre por aqui. Será que isso pode ser perigoso para nós? Vejamos o que diz Larsson:

“Seria um absurdo da minha parte expressar opiniões pessoais sobre a democracia brasileira, mas naturalmente é preciso tomar muito cuidado ao permitir que o dinheiro controle a informação. Especialmente quando não se tem um sistema rígido para controlar quem financia os partidos políticos. Se a distribuição de recursos para os partidos é justa, então todos têm as mesmas oportunidades. Mas quando você permite que grandes empresas e organizações controlem o financiamento dos partidos, põe-se em risco uma coisa extremamente fundamental, que se chama democracia.”

E é assim que, enquanto na “Suécia tropical” temos eleições cada vez mais caras e suntuosas, onde até mesmo grandes humoristas trazem seu show para as propagandas políticas, na Suécia real, tanto o oposto, os comerciais são curtos e semiamadores, e todo o embate político se dá nos debates televisivos (onde se evita a todo custo os ataques pessoais, pois os eleitores não suportam isso) e no “corpo a corpo” dos militantes, que muitas vezes chegam até a emprestar seus megafones aos militantes adversários, já que todos eles estão nas ruas antes para fazer prevalecer a democracia do que somente para vencer uma eleição.

Então me digam, honestamente, onde os mantos brancos sairiam de suas vitórias eleitorais mais sujos e maltrapilhos, num país recém-saído da miséria, onde as eleições são caríssimas, ou num país rico onde as eleições são baratas? Para mim, pelo menos, parece ser uma pura e simples questão de lógica.

» Em breve, “Gérard, por que não vem pegar uma praia?”

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Crédito da imagem: Wikipedia (vestuário usado na Roma antiga)

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21.5.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 3)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

“Não há almoço grátis”
Recentemente, o ex-diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, investigado na operação Lava Jato e signatário de acordo de delação premiada, deu o seguinte depoimento a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga os desvios bilionários da estatal:

“Não existe doação de empresas que depois essas empresas não queiram recuperar o que foi doado. Se ela doa R$ 5 milhões, ela vai querer recuperar R$ 20 milhões lá na frente... Não há almoço grátis.”

O que parece óbvio, claro e cristalino até mesmo para os mais desinformados acerca do nosso sistema eleitoral, no entanto, é muito mais grave do que parece. Doações empresariais são o investimento mais lucrativo do mercado, e o lucro compensa em muito o risco envolvido no negócio... Costa falou em empresas doando 5 e ganhando 20, ou seja, 4 vezes mais do que o valor doado, mas a realidade é muito mais lucrativa!

O estudo “The Spoils of Victory” (“Despojos da Vitória”), feito por pesquisadores de três universidades dos EUA, concluiu que as empresas que financiaram candidatos a deputado federal do PT nas eleições de 2006 receberam entre 14 e 39 vezes o valor doado por meio de contratos com o poder público nos anos subsequentes.

A pesquisa, publicada em 2014, cruza os dados oficiais de doações para as campanhas e os contratos obtidos pelas empresas nos anos seguintes – sem levar em conta eventuais pagamentos ilegais. Segundo os autores, não foi possível estender o estudo para governos anteriores por falta de dados públicos confiáveis.

Taylor Boas, um dos autores do estudo, explica que nos países em desenvolvimento os problemas envolvendo doações de campanha se agravam porque eles têm poucas leis de regulamentação da atividade. Segundo Boas, “No Brasil o limite para a doação corporativa é de 2% de seu faturamento bruto anual. Isso é um valor muito alto já que estamos falando de grandes empresas”.

E não é que as grandes empresas financiadoras tenham qualquer tipo de alinhamento ideológico com este ou aquele partido. Maior exemplo disso foi a atuação da JBS-Friboi, uma das maiores do mundo no ramo de alimentos, na campanha presidencial de 2014: não satisfeita em doar para um só candidato, resolveu doar de uma vez só para todos os que tinham alguma chance de vencer, ou seja, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva. Não há, de fato, nenhuma ideologia envolvida neste processo – afinal, não à toa, a JBS foi na última década uma das grandes beneficiadas pelos empréstimos do BNDES a juros nível “ajuda de custo do papai”.

Ora, o próprio escândalo envolvendo a Petrobrás, outro daqueles que a grande mídia gosta de chamar de “maior caso de corrupção da história do país” (desta vez, porém, muito provavelmente com razão), está intimamente relacionado com o financiamento de campanhas eleitorais. E, como muitos devem saber, não se trata mais de financiamento não declarado a Receita Federal – o famigerado “caixa 2” –, mas doações perfeitamente legais e declaradas, ou seja, “caixa 1” mesmo... A questão é que a origem do dinheiro em si é ilegal, fruto de propinas gordas vindas de cartéis de empreiteiras.

Com tanto “crédito na praça”, não é de surpreender que o custo total das últimas eleições, em 2014, tenha batido o recorde histórico, e chegado a R$ 5 bilhões. Nós temos que olhar para esse número, infelizmente, não pelo seu valor atual, mas pelo que vai custar aos Cofres Públicos em “benefícios” a todas as empresas que tiveram a sorte de doar para os candidatos vencedores (afora, é claro, as que doaram para todos os candidatos)... Ou seja, no final das contas, quem paga pelo custo crescente de nossas eleições, no médio e longo prazos, somos eu, você, todos nós.


O Grande Negócio Eleitoral
É precisamente isso que eu chamo de Grande Negócio Eleitoral. Eu não sei quanto a você, mas neste ponto eu sou mesmo radical: não vejo como uma empresa possa ter quaisquer motivos para financiar campanhas políticas que não a possibilidade de lucro futuro. É muito simples: empresas não apoiam ideologias, elas investem.

Por conta desta minha percepção solidificada por inúmeros exemplos que venho analisando nos últimos anos, sou defensor ardoroso do fim do financiamento empresarial para campanhas eleitorais, e obviamente não sou o único... Faz mais de um ano que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a CNBB, a UNE, a CUT e outros movimentos sociais enviaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) desautorizando as doações empresariais para campanhas.

Ora, quando o julgamento já estava vencido em favor da ação, com 6 votos favoráveis dos ministros do STF (o que supera a metade), o ministro Gilmar Mendes pediu vistas para analisar “com cuidado” a Adin em casa, e interrompeu a tramitação da ação. E, repetindo, isso já faz mais de um ano!

Como defensor da democracia, eu compreendo que existam aqueles que defendam a continuidade do financiamento empresarial. Mas a questão aqui é que não está funcionando a democracia: é um único ministro emperrando a tramitação de uma ação importantíssima, que já foi voto vencido.

Vamos, porém, nos voltar para os defensores do financiamento empresarial... Eu quero crer que o motivo de eles persistirem defendendo o modelo atual se deva a um forte temor de que, em instaurado o temido financiamento público e exclusivo de campanha, os atuais detentores do poder se tornem quase que “lordes feudais”, utilizando os recursos públicos e a máquina do governo para injetar centenas de milhões de reais em suas campanhas, enquanto os que estão fora do poder mal teriam recursos para ter alguma chance nas eleições.

Pois bem, é talvez um motivo justo, mas inteiramente equivocado. E abaixo irei lhes enumerar as razões:

(1) Defender o fim do financiamento empresarial não significa defender o financiamento público e exclusivo. Isto porque o financiamento privado continua sendo perfeitamente possível, só que exclusivamente através de doações de pessoas físicas, e não jurídicas. De fato, o Butão é o único país onde foi adotado o financiamento público e exclusivo de campanha. No entanto, há diversos países que vêm adotando a proibição do financiamento empresarial nos últimos anos, dentre eles Canadá, Portugal, França, Polônia, Ucrânia, México, Paraguai, Peru, Colômbia e Egito.

(2) É preciso lembrar que o financiamento público já existe no Brasil, e está na Constituição. O Fundo Partidário, inclusive, recentemente teve o seu valor quase que triplicado, passando de R$ 289 milhões para R$ 867 milhões [1], no que parece ser uma clara reação dos parlamentares ao fechamento das torneiras das grandes empresas – que finalmente têm algum motivo para temer prosseguir com seus investimentos de campanha (alguma coisa, afinal, está dando certo!).

(3) Os atuais detentores do poder já são os maiores beneficiados pelas doações empresariais, inclusive em valores que superam em muito o que lhes cabe do Fundo Partidário. Por exemplo, ao final do segundo mês da campanha presidencial de 2014, a campanha do PT havia arrecadado de empresas 3 vezes mais do que o PSDB e 6 vezes mais do que o PSB. Já para o governo de São Paulo, não que fosse alguma surpresa, as doações se concentraram majoritariamente no PSDB.

Ou seja, não somente o financiamento público já existe, como em todo caso os atuais governantes, desde que mantenham sua popularidade em alta, são naturalmente os destinatários da maior parte do financiamento empresarial... No atual cenário, o financiamento público e exclusivo talvez fosse até um auxílio na renovação dos cargos eletivos, mas nem é isso que estou aqui defendendo...

Defendo tão somente o fim das doações empresariais, pois crer que alguma empresa tem realmente algum motivo para dar dezenas, centenas de milhões de reais para campanhas de políticos, que não seja para receber muito mais em troca lá na frente, é no mínimo de uma inocência muito grande.

Enfim, independente da opinião de cada um acerca do financiamento empresarial, o que todos devem concordar é que alguma reforma precisa ser feita em nosso sistema eleitoral, e ela é absolutamente urgente!

» Em breve, o ciclo vicioso que coloca em xeque a democracia...

***

[1] Ainda assim, ficou somente pouco acima do valor das isenções fiscais concedidas as emissoras de TV por conta do horário eleitoral “gratuito” em 2014, que de fato jamais foi gratuito. Somente entre 2002 e 2014, o somatório das isenções chegou a R$ 4,4 bilhões.

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28.4.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 2)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

O duelo dos bois
Todo final de junho o Bumbódromo de Parintins, no Amazonas, recebe um dos maiores espetáculos de cultura popular do Brasil. É assim desde os idos de 1965, quando alguns jovens católicos organizaram o primeiro Festival Folclórico de Parintins, onde 22 quadrilhas se apresentaram, junto com os dois bois, o Caprichoso e o Garantido. Mas foi somente no ano seguinte que começou a disputa anual entre os bois: afinal, era preciso saber qual boi havia realizado o desfile mais bonito, e “vencido” a festa.

E assim é até hoje... No entanto, em 1982 ocorreu o impensável – o boi Caprichoso, em protesto contra as notas recebidas no ano anterior, se recusou a participar da festa, e foi substituído pelo boi Campineiro. Conforme o previsto, naquele ano o Garantido venceu facilmente a disputa. De lá para cá, isso felizmente nunca mais aconteceu. Ocorre algo curioso com o duelo dos bois de Parintins: embora todos amem o seu boi e odeiem o boi adversário, a verdade é que, sem o adversário, não haveria festa alguma!

Esta lógica dualista, longe de ser uma curiosidade cultural ou esportiva, é algo muito mais antigo e profundo... Segundo o taoísmo, não há nada que possa ser anterior ao Tao, uma coisa misteriosa que deu origem a tudo o que há. Entretanto, o primeiro conceito que advém do Tao, aquele que permite que nossa razão compreenda alguma coisa, é exatamente o conceito da dualidade, do yin e yang.

Segundo a ideia que engloba tanto yin quanto yang, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência, e esse complemento também existe dentro de si. Dessa forma se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, toda a categorização seria apenas uma conveniência da lógica...

Tudo bem, mas e o que todo esse papo de bois e energias complementares tem a ver, afinal, com a Política? Bem, talvez não muito pela superfície, mas certamente pelas profundezas – afinal, assim como o yin e o yang, e assim como o Caprichoso e o Garantido, esquerda e direita são tão somente referências para organizar o pensamento, e categorizar e organizar algumas ideias. Neste sentido, tanto a direita quanto a esquerda são vitais para a Política: elas não existem para serem “vencidas”, mas existem para que a própria Política seja possível.

Afinal, pensem bem, se só existisse a esquerda, ou a direita, como exatamente saberíamos diferenciar uma vertente política da outra, como saberíamos dizer a diferença entre um e outro partido? Seria o mesmo que uma festa no Bumbódromo onde somente um boi saísse vencedor todo ano. O nome dele? Tanto faz...

Tais dualidades tocam a essência da própria filosofia. Não são poucos os casos de filósofos que se tornaram célebres exatamente por se opor as ideias de outros pensadores famosos que lhes precederam. A própria origem do embate entre esquerda e direita, segundo muitos analistas, remete a uma época anterior a própria Revolução Francesa.

Thomas Hobbes e Jacques Rousseau jamais se encontraram pessoalmente, pois o primeiro morreu pouco mais de 30 anos antes do nascimento do último, e ainda assim, suas ideias se encontram em choque até os dias atuais. Para Hobbes, o estado natural do ser humano é um estado de guerra, violência e conflito. O filósofo inglês defendia a necessidade da existência de um grande governo soberano, um monarca poderoso capaz de, pela força, garantir a ordem do Estado, para que os pequenos grupos opostos não entrassem em guerra e trouxessem o caos; algo que, segundo sua filosofia, seria certamente inevitável em cenários de “vácuo de poder”. Já Rousseau acreditava que o que determinava o poder de um monarca era tão somente o sistema estabelecido, mas discordava veementemente que este soberano representaria efetivamente "o maior poder". Para o pensador suíço, tal poder adivinha da maioria dos cidadãos, e somente uma democracia plena seria capaz de estabelecer os alicerces para um mundo mais pacífico e feliz.

Em suma, Hobbes acreditava que o homem era caótico por natureza, e precisava ceder parte de sua liberdade se quisesse viver num Estado seguro. Rousseau, pelo contrário, acreditava que o homem era bom por natureza, e era exatamente o atual sistema, que regulava a sociedade da época, aquilo que o corrompia. Hobbes favorecia a segurança sobre a liberdade. Rousseau acreditava que a liberdade plena garantiria, por si só, um mundo mais seguro.

Assim, poderíamos quem sabe, dizer que Hobbes era o “conservador”, e Rousseau o “progressista”. Um não acreditava que grandes revoluções sociais favoreceriam a vida em sociedade, o outro clamava ardentemente pela revolução, e assim vai... Independente da preferência por um ou outro pensamento, é importante frisar que tanto Hobbes quanto Rousseau queriam o melhor para a humanidade. O embate de suas ideias, desta forma, não deveria ser compreendido como um duelo “do bem contra o mal”, seja onde rotulemos um ou o outro. Rotular ideologias como “boas” ou “más” talvez seja, até hoje, o maior equívoco do debate político.

De fato, seria simples dizer que Rousseau venceu a disputa, e que hoje a maior parte da humanidade vive em democracias plenas, livre dos monarcas e dos estados totalitários. Seria simples rotular as ideias de Rousseau como “as ideias boas”. Mas, a verdade é que não é tão simples, nunca é.

Vivemos efetivamente numa democracia plena, onde vale a máxima “uma pessoa, um voto”? Favorecemos realmente a liberdade acima da segurança, e conseguimos, assim, preservar a nossa privacidade? A defesa dos estados totalitários é, de fato, algo que já se perdeu no passado? Para começarmos a analisar tais questões, talvez a dualidade “esquerda e direita” já não seja suficiente – talvez precisemos usar outros eixos, e diagramas!


Em defesa da liberdade
David Nolan foi um ativista político norte-americano, grande defensor do libertarianismo. Nolan acreditava que a dualidade “esquerda e direita” era incapaz de abranger todo o espectro do pensamento político de um indivíduo, e foi assim que criou o famoso Diagrama de Nolan, onde temos, além do eixo “esquerda e direita”, um novo eixo onde os indivíduos podem defender a “liberdade” ou o “totalitarismo”.

Na prática, que o seu Diagrama faz é associar a ideia de “liberdade individual” a “esquerda”, e a ideia de “liberdade econômica” a “direita”. Há muitos esquerdistas que podem chegar a conclusão de que tudo o que Nolan pretendeu com seu Diagrama foi colocar o libertarianismo “no melhor dos mundos”. De fato, provavelmente foi isso mesmo, mas ainda assim o seu Diagrama, que é também uma espécie de “teste ideológico”, tem como grande virtude a capacidade de nos fazer enxergar as vertentes políticas como algo muito mais diverso e complexo do que “o preto no branco” ou “o bem versus o mal”.

Poderíamos, por exemplo, tentar situar as duas potências mundiais em seu Diagrama: EUA e China. Diríamos, então, que nos EUA há tanto liberdade econômica (baixa intervenção do Estado no Mercado) quanto individual (democracia plena, ausência de censura governamental etc.). Já na China teríamos algo como o oposto – baixa liberdade econômica (grande intervenção do Estado no Mercado) e individual (não há eleições diretas para a presidência, buscas na internet são censuradas etc.). Muito bem, ainda que o cenário fosse assim, tão “preto no branco”, fato é que os dois sistemas parecem funcionar muito bem, afinal estamos falando das duas maiores economias do globo.

Abaixo da superfície e das aparências, no entanto, podemos encontrar “sinais opostos” em ambos os casos: graças a Edward Snowden, “desertor” da grande agência de espionagem norte-americana, sabemos hoje que os olhos virtuais dos EUA representam uma grande ameaça a privacidade online global. Na China, já sabíamos que isso ocorria. Nos EUA, descobrimos há pouco tempo. Da mesma forma, o próprio gigante asiático, a despeito de continuar em teoria sendo um Estado comunista, é hoje a grande locomotiva do capitalismo global. Certamente há uma incômoda ironia no fato de uma das empresas de ponta da tecnologia mundial, a Apple, delegar boa parte do trabalho de montagem dos seus gadgets a trabalhadores chineses que, para dizer o mínimo, carecem dos mais básicos direitos trabalhistas, e por isso mesmo são baratos, muito baratos...

No fim das contas, todo esse jogo de desfiles de bois e construção de diagramas é absolutamente incapaz de abranger todas as ideias políticas que desfilam pelo mundo. Diz-se que na democracia o convívio de tais ideias, assim como o surgimento de ideias novas, é o grande objetivo da Política. Mas, e quando algumas ideias têm mais “poder de barganha” do que outras? E quando as ideologias são compradas, e a democracia se torna nada mais do que um “grande negócio”? Será que o pior totalitarismo é aquele que se percebe a olhos vistos, como um grande Leviatã, ou será que há formas ainda piores de represamento das ideias, e bem mais sorrateiras?

» Em breve, o Grande Negócio Eleitoral...

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2.4.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 1)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

O futuro em primeiro lugar
Recentemente assisti o programa Clube dos Correspondentes na GloboNews, onde três jornalistas correspondentes de outras partes do mundo falavam sobre suas impressões acerca das manifestações do dia 15/03/15, e de como a crise política brasileira era vista no exterior.

Uma das correspondentes era Lotten Collin, jornalista de uma rádio sueca. Tendo coberto in locco as manifestações em Copacabana, no Rio de Janeiro, ela me pareceu ter uma opinião muito embasada acerca do que viu por lá:

“O que era muito impressionante para mim é que tinha algumas pessoas pedindo intervenção militar. E eram jovens, que nem sabem como foi a época da Ditadura.”

Que este tipo de pessoas, ainda que minoria, estivessem em uma manifestação democrática, que na quase totalidade criticava a gestão do atual governo, não pareceu algo absurdo somente para Collin, mas para boa parte dos analistas políticos do país, sejam eles alinhados a ideais de esquerda ou de direita. Afinal, só se faz Política numa democracia, numa Ditadura o que vale é a opinião de quem tomou o poder à força.

Ora, é exatamente para não chegarmos a esse ponto que devemos exercitar a Política, a verdadeira, que é basicamente a arte do diálogo entre ideologias e ideias contrárias, visando sempre o melhor consenso possível, para que todo um país caminhe à frente, tanto economicamente quanto socialmente, sem deixar de ouvir as opiniões e as demandas de seus grupos e setores sociais e ideológicos, sejam eles minoritários ou majoritários. Exigir a intervenção de uma força armada, para que “a sua opinião do que é o melhor para o país prevaleça”, é exatamente a receita para a não-política, o não-diálogo, o desastre completo...

O que pretendi, ao convidar para esta série dois genuínos pensadores a esquerda e a direita, que certamente entendem muito mais de Política do que eu, foi precisamente demonstrar o quanto os verdadeiros embates se dão no campo das ideias, e que sempre que saímos deste campo para o campo do embate pessoal, é a Política que sai perdendo, é o país como um todo que perde. Imaginem se as nossas eleições trouxessem debates tão civilizados como este que ocorreu ao longo das respostas e dos comentários desta série – daí já estaríamos na Suécia [1].

Voltemos ao relato de Collin:

“Eu senti que as pessoas entrevistadas tinham queixas reais, sobre a economia, a política, a corrupção, a qualidade dos serviços públicos... Mas em geral eram muito emocionais, não sabiam explicar exatamente qual era o problema. Por exemplo: ninguém fala dos problemas mais concretos da economia, como o papel do BNDES na Copa e noutros momentos, que nunca está muito claro. Elas querem os corruptos na cadeia, mas isso é exatamente o que já vem ocorrendo, os processos judiciais que podem prender muitos corruptos estão ocorrendo neste momento... Eu achei o protesto um pouco superficial.”

Para uma sueca, acostumada com altos níveis de escolaridade, civilidade e, particularmente, politização de sua população, deve ter sido realmente um choque constatar o quanto ainda estamos no início deste longo caminho, que infelizmente ainda pode levar gerações, mas que não obstante precisa ser trilhado, e cada passo dado há que ser comemorado.

Mas, enquanto não chegamos lá, vale considerar com muito carinho o que Collin considerou “a principal lição que o Brasil tem a aprender com a Suécia”, já ao final de sua participação no programa:

“Nesse momento na Suécia há uma negociação entre a direita e a esquerda, porque a eleição de setembro [2014] teve um resultado muito apertado, com margem muito pequena entre os dois principais blocos políticos... Bem, isso seria uma coisa boa para ocorrer aqui no Brasil também.”

De fato, o ambiente político sueco, normalmente estável, entrou em convulsão em dezembro [2014], quando o primeiro-ministro Stefan Lofven disse que planejava voltar às urnas após seu orçamento ter sido rejeitado pela oposição de centro-direita e os democratas suecos. Lá o principal debate se dá no âmbito das leis imigratórias, e do custo da imigração para os cofres públicos. O atual governo, de centro-esquerda, conseguiu costurar um acordo de até 8 anos com a oposição, de centro-direita, para garantir que a extrema direita, grande crítica da imigração, não “travasse” o país ao criar entraves para a aprovação do orçamento de 2015.

Segundo Lofven, “o acordo é um jeito de mostrar que nós tomamos responsabilidade por garantir que a Suécia possa ser governada; que colocamos o futuro do país em primeiro lugar”.

Enquanto isso, aqui em nossas terras tropicais, a nossa noção de “governabilidade” se resume praticamente a “agradar o PMDB”... Ainda falta muito para chegarmos a ser uma Suécia tropical. Mas, será que tal ideia já não seria uma ilusão a priori?


A Suécia tropical
Esta expressão curiosa foi cunhada por Roberto Mangabeira Unger, filósofo brasileiro respeitado em todo o mundo, e atual ministro de assuntos estratégicos. Ele a criou como forma de crítica ao que considera “uma ilusão perigosa”:

“A Suécia real passou por décadas de luta sobre o acesso ao poder político e as oportunidades econômicas. Depois, ao final, veio a organização de políticas sociais. Nós queremos ter o epílogo sem ter a narrativa anterior. Isto é a Suécia tropical. Nós temos uma vida política viciada nesta retórica barata. Os dois partidos que se tem na conta de modernos no Brasil, PT e PSDB, são as duas vertentes, as duas vozes desta ideia. O que se dá como moderno no Brasil é na verdade retrógrado. Para mudar, teríamos de romper com isto.”

De fato, se hoje o modelo econômico dos países escandinavos (norte europeu) é aquele que atinge os maiores índices de desenvolvimento humano, tal conquista não se deu de um ano para o outro, tampouco pela mera decisão política de um ou outro governante.

Nas décadas de 1970 e 1980 eles eram, em geral, estados inchados, com altos impostos e baixa competitividade, embora já dessem grande importância para o aspecto social. A guinada que os alçou ao pedestal de “modelo a ser seguido” veio nas últimas décadas...

Para começar, os estados racionalizaram seus gastos e criaram as mais fantásticas políticas de transparência do mundo, permitindo à população fiscalizar seus governantes e reduzir a gastança. Na Suécia, políticos de alto escalão moram em quitinetes, lavam a própria louça e usam transporte público ou bicicleta. Além disso, a burocracia caiu quase a zero e esses países viraram paraísos do empreendedorismo, de fazer inveja ao Vale do Silício com suas histórias de sucesso (Skype, Angry Birds, Spotify etc.).

Mas isso foi feito sem sucatear o estado nem prejudicar a população. As reformas do estado foram feitas com um objetivo claro: manter a qualidade do serviço público, ou, se possível, aumentá-la. Essa lógica ajuda a entender o que aconteceu com a saúde e a educação pública nesses países. O governo continua atuando, provendo serviços de qualidade, mas empresas privadas também podem entrar na competição. Os cidadãos recebem do governo vouchers de saúde e educação e podem decidir usá-los em escolas e hospitais públicos ou privados. Na Escandinávia, o estado continua grande, mas uma coisa fundamental mudou: ele agora funciona [2].

Se começássemos agora, talvez em 20 a 30 anos conseguíssemos chegar perto do estágio atual da Suécia e seus vizinhos. Mas então não seríamos uma Suécia tropical, mas quem sabe, finalmente, o país do futuro...

Segundo Mangabeira, o modelo de redistribuição de renda do socialismo brasileiro não se sustenta por muito tempo com o atual sistema tributário e somente com programas sociais voltados para as camadas mais pobres. É um contrassenso, realmente, crer que somente programas como o Bolsa Família, embora vitais, possam resolver a equação das injustiças sociais do país. Ainda falaremos mais sobre isso, mas não faz o menor sentido distribuir bolsas de um lado, enquanto de outro temos talvez o sistema tributário mais injusto do mundo, fortemente ancorado em impostos indiretos, que independem da renda. Vivemos no país onde um milionário paga exatamente o mesmo imposto que um miserável quando vai ao supermercado comprar um quilo de arroz ou feijão.

Mangabeira também nos dá sua receita para que um dia cheguemos a ser “uma Suécia”:

“O binômio perverso – juros altos, câmbio baixo – deve ser substituído pelo binômio virtuoso – juros baixos, câmbio alto. A condição para isso é reduzir drasticamente o gasto público, sem deixar de pagar os juros da dívida pública. Essa mudança deve ser combinada com reforma tributária que extraia renda dos endinheirados para financiar uma política social compensatória, dirigida aos brasileiros mais pobres. Afora isso, basta educar o povo e melhorar a eficiência do governo. O mercado e o social produzirão juntos a Suécia tropical.”

Temos certa dificuldade em situar pensadores como Mangabeira Unger “a esquerda ou a direita”. Penso que isso também ocorra com muitos outros analistas políticos e econômicos de ideias mais profundas, e até mesmo com alguns políticos... Não quer dizer que os centristas sejam “superiores”, quer dizer que talvez a rotulação costumeira de esquerdista ou direitista seja bidimensional, em suma, pobre demais.

No fundo, a única boa Política possível é a que é conduzida tendo sempre em vista não somente dois lados, mas todos os lados.

» Em breve, falaremos sobre bois e diagramas...

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[1] Em nome dos participantes "oficiais" da série, Alfredo Carvalho e Igor Teo, agradeço a todos os que comentaram, tanto no blog quanto no Facebook, e tornaram o debate mais aprofundado e produtivo. Alguns de vocês vão perceber que também estou levando em consideração seus comentários ao longo do restante da série... Claro que os textos continuarão online, de modo que qualquer um ainda pode adicionar comentários em qualquer parte desta série.

[2] Os dois últimos parágrafos foram retirados do excelente artigo de Denis Russo Burgierman, diretor de redação da Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.

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22.3.15

A quem interessa a polarização entre PT e PSDB?

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

[Raph] A democracia surgiu na Grécia antiga, no século V a.C. Como a própria etimologia do termo sugere, a democracia é uma forma de governo que se propõe a ouvir a voz do povo, da maioria do povo, e não somente de uma elite (seja ela monárquica, aristocrática ou religiosa). Neste sentido, a política nada mais é do que a atividade de tentar criar o melhor consenso possível entre grupos com ideias opostas, através do diálogo, sempre visando o bem da pátria.
Como ideias opostas sempre existirão, a chamada polarização política é não somente inevitável como por vezes bem vinda: quando a política é bem conduzida, novas ideias surgem da faísca do choque entre as pedras. No entanto, há momentos em que a polarização é tão radical que o choque das pedras faz com que tirem lascas umas das outras, sem produzir nada de bom, e paralisando o próprio governo.
Nós já vivemos mais de duas décadas de polarização entre dois partidos, PT e PSDB, e parece que já estamos num estágio de esgotamento. Aparentemente, ninguém quer mais chegar a um consenso, apenas destruir a imagem um do outro, custe o que custar...
Ainda assim, vai eleição e vem eleição, todo o esquema eleitoral, do financiamento as coligações, parece estimular cada vez mais tal cenário, para que siga exatamente como já está posto. É precisamente aqui que coloco a minha última questão: a quem interessa a manutenção desta polarização PT vs. PSDB?

[Teo] Tanto o PT quanto o PSDB possuem uma política mais centralista. Ambos concordam quanto a uma posição de social democracia, e de que as instituições do capitalismo não devem ser revolucionadas, mas transformadas ou melhoradas (dependendo da posição respectiva de cada partido) a partir de reformas graduais através de políticas de Estado. No entanto, ainda que próximos, tais partidos se enviesam em sentidos distintos em suas matrizes ideológicas.

O PSDB faz uma posição de centro tendendo mais para a direita, flertando com ideias neoliberais, como a redução do Estado, a redução das condições de bem-estar social em função do mercado e a privatização de áreas fundamentais à nação. Quanto ao último, pode se questionar como este processo ocorrido no governo PSDB foi permeado por denúncias de corrupção. Entregues à gestão privada, os serviços não melhoraram, seus preços subiram acentuadamente e se traduziram em problemas para o Judiciário. A receita neoliberal, em nome de índices econômicos de fachada e o lucro exorbitante das grandes empresas estrangeiras, deixa por onde passa como rastro o crescimento abismal da desigualdade social.
        
O PT, por sua vez, tem uma posição de centro tendendo para a esquerda. Economicamente assumiu um neodesenvolvimentismo, buscando valorizar a produção nacional e tornar o país menos refém do capital estrangeiro. Associou-se com países latino-americanos de forma a criar um eixo cultural e econômico alternativo ao ditado pela dominação dos países europeus e dos Estados Unidos. Socialmente buscou implementar projetos sociais que visassem à erradicação da miséria. Ainda assim, costuma-se ouvir que o PT traiu a esquerda. Por quê?

Para chegar ao poder o PT associou-se com grupos que são dominantes no país desde a República Velha. A implementação de seus programas sociais foi sempre tacanha, na medida em que não podiam ameaçar completamente os interesses desses grupos. Na luta por direitos os avanços sempre foram lentos demais, e estão ainda longe do que se esperava. Em resumo, pode-se dizer que para chegar ao poder o PT se vendeu ao instituído, fez acordos que para mantê-lo em sua posição o fez refém daqueles que deveriam combater. O PT nunca representou uma ameaça às instituições do capitalismo, e inúmeras vezes jogou muito bem segundo suas regras na promessa de um reformismo tardio.

A resposta à recente crise com austeridade apenas demonstra que Dilma está mais próxima de Margaret Thatcher do que, por exemplo, Rosa Luxemburgo. Isto é muito diferente das tentativas de grupos como o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha que possuem a posição de que não é o povo que deve pagar pela crise dos grandes capitalistas, mas eles próprios.

Por trás desta disputa binária reside ainda o PMDB, o maior partido brasileiro mesmo sem nunca ter elegido nenhum presidente. O PMDB possui alianças extremamente maleáveis segundo seus interesses (na última eleição no Rio de Janeiro, por exemplo, o governador pemedebista apoiou os dois candidatos à presidência simultaneamente no segundo turno). Respondendo mais diretamente à questão principal do Raph, cabe lembrar que quem cresceu com a disputa PT e PSDB nas últimas eleições foi o PMDB, se tornando hoje maioria no Senado. De certo modo, o PMDB está sempre do “lado vencedor” em seu jogo político a favor dos interesses privados que os beneficiam e os financiam no poder.

Nos últimos anos é possível perceber uma crise do centro em se mostrar capaz de lidar com os problemas estruturais ao nosso modelo socioeconômico. A democracia representativa no modelo instituído igualmente vem ganhando descrédito. Deste modo, alas mais radicais de ambos os lados tem crescido. Na direita, vemos o crescimento dos grupos fundamentalistas (como a bancada evangélica) e reacionários (como Bolsonaro e afins). Na esquerda, crescem grupos como o PSOL, que mostram uma saída possível aos nossos problemas institucionais pela esquerda crítica.

Radicalismo por si mesmo não é o problema. Em tempos de uma política centralista que não apresenta nenhuma perspectiva de mudança, colaborando com o instituído, atitudes radicais são o que pode fazer alguma diferença. Mas mesmo em posições radicais, o diálogo é sempre fundamental na medida em que é a partir dele que podemos produzir conscientização e agenciamentos políticos. E justamente diálogo é o que parece faltar a essa direita que luta contra os direitos fundamentais das mulheres, homossexuais, e por ai vai.

Faltam mudanças radicais. Mudanças que afetem à estrutura do poder instituído, sua distribuição e seu modo de reprodução. Pois comumente se fala em combater os males sociais, como a extrema desigualdade social e a corrupção, mas todas as ações se dão em nível superficial. Luta-se com os galhos secos de uma árvore morta, mas não se possui coragem para enfrentá-la pela raiz.

Neste sentido é que necessitamos de reformas estruturais. Reformas que atuem nos problemas estruturais do capitalismo, nos modos como a riqueza é distribuída, nos modos de produção, em seus meios de reprodução. Particularmente, minha visão é de que precisamos de uma esquerda radical (que não é sinônimo de comunismo, vale lembrar) que se oponha à ideologia hegemônica do capital e dialogue com as diferentes camadas sociais, tendo como agenda reformas estruturais. Uma esquerda que não esteja compactuada com o capital. Um posicionamento político que responda aos problemas da democracia não com fascismo, mas com novos modelos de organização social (como a organização social em rede), que visem aprimorar a democracia, e não dissolvê-la.

Hoje se fala da tão necessária reforma política, mas essas não são ideias essencialmente novas. O presidente João Goulart, apoiado por nomes como Leonel Brizola, já tinha na década de 1960 um projeto denominado reformas de base que incluíam reformas bancária, fiscal, urbana (contra a tão atualmente crítica especulação imobiliária), eleitoral, agrária e educacional. Desde a democratização da terra à valorização da educação, as reformas de base tinham como objetivo combater a desigualdade estrutural da sociedade brasileira. Antes de meros paliativos ou políticas populistas que nada alteram a hierarquia nacional, reafirmando apenas as relações de poder instituídas, as reformas de base miravam nos pontos cruciais e estruturais que determinam até hoje nossos problemas mais críticos.

Entretanto, tais medidas incomodavam à elite dominante e, apoiados pelos Estados Unidos, que viam no Brasil mais um de seus quintais, as camadas conservadoras instituíram o Golpe Militar em 1964 usando como desculpa a falsa e fajuta “ameaça comunista”, dando início a um período de sangrenta opressão, cujas consequências nefastas são sentidas até hoje, sobretudo na precarização da educação. Talvez se as reformas tivessem ocorrido, uma trajetória menos trágica existiria atrás de nós hoje.

Deste modo, assim como já começa a se desenhar na Grécia, e que se tentará estender também à Espanha, Portugal e recentemente Irlanda, apenas corajosas reformas estruturais podem mudar os rumos desse jogo viciado.

[Carvalho] Partindo de uma análise histórica das diversas experiências democráticas, em especial as mais recentes, amadurecidas e consolidadas no formato representativo, muitos filósofos e cientistas políticos tendem a concordar que o fenômeno da polarização entre alguns poucos partidos, geralmente dois, é recorrente e até mesmo necessário para o adequado funcionamento das modernas repúblicas constitucionais. Isso equivale a dizer que quando não há a disputa entre pelo menos duas forças políticas de interesses contrários, não há democracia, ou há apenas uma democracia doente.

Evidentemente, essa não é a única condição para manter a vitalidade democrática de uma nação. Existem mais elementos, tais como o império da lei, a separação entre os poderes, a liberdade de imprensa, e diversos outros. Cada um deles exercendo um papel específico e importante para o quadro geral. Basta retirar qualquer um e o edifício democrático logo começa a dar sinais de ruína. É mesmo uma harmonia delicada, de modo que o filósofo Olavo de Carvalho, para citar um exemplo, define a “democracia saudável” como “a administração bem sucedida de um conflito insolúvel, destinado a perpetuar-se entre crises e não a produzir a vitória definitiva de uma das facções”. E continua dizendo que “desde o início, a democracia tem encontrado no equilíbrio instável a regra máxima do seu bom funcionamento”.

O grande problema é que o mundo real é sempre mais complexo do que se espera. Assim, nos casos concretos, nas democracias “de carne e osso”, embora o conflito entre diferentes forças políticas sempre exista em algum nível, a forma como ele se dá nem sempre é compatível com o que prescrevem os teóricos e analistas da democracia. A experiência democrática que vivemos no Brasil desde meados da década de 1980 padece desse tipo de mal desde a sua criação, mas com duas fases bastante distintas: uma com a hegemonia do PMDB, quando as forças políticas mais relevantes coabitavam ou orbitavam o mesmo partido, mesmo com ideologias ou interesses conflituosos; e a outra com a polarização “para inglês ver” entre PT e PSDB.

A primeira fase representa o surgimento de um mecanismo que o professor Marcos Nobre chamou de peemedebismo, o qual ele descreve da seguinte maneira: “É um modo de fazer política que franqueia entrada no partido a quem assim o deseje. Pretende, no limite, engolir e administrar todos os interesses e ideias presentes na sociedade. Em segundo lugar, garante a quem entrar que, caso consiga se organizar como grupo de pressão, ganhará o direito de vetar qualquer deliberação ou decisão que diga respeito a seus interesses. Foi assim que o PMDB se organizou a partir da década de 80. Como se o partido fosse, em si mesmo, um governo de união nacional”.

Resumida dessa forma, como se pode perceber, a tese é bastante interessante e sua ideia central me parece acertada. Isso não quer dizer, entretanto, que os detalhes do diagnóstico, do prognóstico e tampouco da terapia indicados pelo filósofo sejam consistentes. Ele insiste, por exemplo, na capciosa retórica esquerdista de aplicar o rótulo de “conservador” a tudo e todos que ofereçam resistências às propostas de transformação defendidas por ele próprio, aproveitando-se da confusão comum que se faz entre as acepções política e vulgar do termo. Mas não se pode negar, enfim, que, embora o fenômeno não seja tão maquiavélico quanto Nobre o pinta, o peemedebismo percebido por ele parece ser mesmo uma realidade e um defeito da política brasileira, no sentido de fechá-la em si mesma, relegando os atritos democráticos ao submundo.

A segunda fase, conquanto não tenha suplantado em definitivo a influência de fundo da primeira, começou, curiosamente, durante o mandato do então peemedebista Itamar Franco e tem como marco inaugural a implantação do Plano Real, sob os cuidados do ministro Fernando Henrique Cardoso, que na sequência viria a vencer as eleições presidenciais. Naquele momento foi inaugurada a polarização entre PT e PSDB, que predomina entre altos e baixos em todas as eleições presidenciais desde 1994.

Ao contrário do que acontecia antes, com o sufocamento das controvérsias no interior de um único partido hegemônico, o problema passou a ser o banimento das controvérsias relevantes para fora do ringue político, por meio do destaque de apenas dois partidos cujas divergências eram, e ainda são, apenas secundárias ou circunstanciais. Como bem disse o ex-presidente FHC, em 2004, em uma interessante entrevista concedida ao então senador do PT, Cristovam Buarque, “nós não discutimos nem disputamos ideologia, é poder, é quem comanda”. Ao que foi complementado por Buarque, “antigamente a gente brigava para a ideia da gente prevalecer; agora a gente briga para que o outro não seja dono da ideia da gente”.

PT e PSDB são ambos partidos “de esquerda”, sendo o primeiro um pouco mais estatista e controlador que o segundo. A retórica dos partidos socialistas mais radicais – como PSOL, PCdoB, PSTU e PCO – segundo a qual, “na verdade”, aqueles seriam “de direita”, não passa de mais uma balela na farsa democrática que vivemos há tantas décadas. Ora, se as concessões que esses dois partidos fizeram ao capitalismo significassem algum tipo de “direitice”, teríamos que colocar até Lênin e o Partido Bolchevique no mesmo saco, o que é, evidentemente, um disparate. O PT, aliás, com a sua versão “made in Cuba” da Terceira Internacional – cujos partidos membros atualmente governam 17 dos 21 países da América Latina – tem feito um lento mas eficientíssimo trabalho de consolidação da hegemonia esquerdista em todo o nosso continente. No fim das contas, portanto, a resposta não poderia ser outra, quem ganha com a polarização mequetrefe da nossa política nos últimos vinte anos é, sem sombra de dúvida, a esquerda, em especial, infelizmente, a sua vertente de tendências totalitárias.

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Esta foi a sexta e última pergunta desta série. Agradeço mais uma vez aos participantes pela generosidade e o entusiasmo com que responderam questões marcadamente complexas. Quando esta série voltar a aparecer aqui no blog, será com os meus comentários gerais acerca de boa parte da gama de assuntos abordados... Até lá! (Raph)

Crédito das imagens: Guilherme Bandeira

O debate continua nos comentários, não deixem de acompanhar.

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