Pular para conteúdo
23.11.15

Onde vivem os magos

Um mago é antes de tudo um ser desperto. Nesse sentido, o “despertar” não significa necessariamente a aquisição de um “conhecimento secreto”, tampouco torna este próprio mago alguém superior aos demais. Pelo contrário, o verdadeiro mago é aquele que já se iniciou no caminho que conecta todos os seres e todas as coisas, e já percebeu que não faz sentido pensar num céu de escolhidos. Sabe que, se o céu não for erigido aqui, neste mundo, neste tempo, ele será sempre um céu vazio, uma fantasia pobre, um anti-mito.

Tais magos aprendem a reconhecer seus próprios pensamentos e a filtrar o que vem de fora. E assim, com o tempo, com apenas algumas vidas passageiras, uma espécie de milagre acontece, e onde antes se via um charco de caos e desejos desenfreados, passa a se ver um sistema que guia a tudo e a todos rumo a uma montanha de onde é possível ver toda a paisagem, e esta paisagem se torna a imagem daquilo que é lembrado para sempre. Às vezes temos visto tal paisagem em nossos sonhos mais iluminados...

Aqui neste país tropical, todos esses que sonham juntos um mesmo sonho por vezes se encontram em São Paulo. Em plena Avenida Paulista, enquanto uns estão indo ao banco, ou fazer compras, ou simplesmente assistir ao cover do Elvis (e nada contra nada disso), outros estão indo encontrar consigo mesmos, e com a essência da realidade. Este evento ocorre praticamente uma vez por ano, o último foi no fim de semana passado.

Abaixo lhes trarei alguns trechos do que vi, ouvi e senti no IV Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas [1]:

Signos Intermediários na Astrologia, Marcelo Del Debbio

“A linguagem astrológica preenche a arte com os seus símbolos mais profundos, particularmente no Renascimento.”

“Não há saltos abruptos entre as energias que os signos simbolizam, mas variações graduais, como tudo no tempo da natureza.”

“Quem nasce entre os dias 21 e 22 de cada mês está mais próximo dos intervalos entre os signos, isto é, dos signos intermediários.”

“O estudo de tais signos intermediários é um avanço sobre a astrologia tradicional, o que prova que ainda há muito por ser estudado e compreendido.”

“Todos os signos trazem potencialidades boas e más, o que cada um vai desenvolver vai de acordo com o seu livre-arbítrio.”

Alquimia e Hermetismo, Giordano Cimadon

“A gnose é uma experiência, uma ‘doutrina sem forma’ que se manifesta na própria alma, e não em livros.”

“No estado de consciência adequado, até mesmo os eventos mais cotidianos da vida se tornarão uma aventura espiritual.”

“A gnose é o terceiro componente principal da formação da cultura ocidental, após a racionalidade e a fé dogmática.”

“Para os gnósticos, Deus não é homem, mulher, velho, jovem, nem animal nem planta nem mineral, pois se encontra além da epistemologia [conhecimento racional].”

“O aqui é um ponto além do espaço. O agora é um ponto além do tempo. Viver no aqui e agora, portanto, é viver na eternidade.”

Mitos e Lendas Celtas: Decifrando Nossa Rica Herança Espiritual, Cláudio Crow

“Mitologia, espiritualidade, religião, filosofia e história são, no fundo, uma só coisa, e não podem ser compreendidas em separado.”

“As verdades presentes nos mitos não são proclamadas por profetas, mas nascem de nós mesmos, de nossa essência eterna.”

“Os deuses e as deusas da cultura celta são emanações da paisagem, indissociáveis da natureza. Para a cultura celta, a morte de um rio seria a morte de uma deusa.”

“A mente celta jamais se sentiu atraída pela linha reta, e evita formas de ver e perceber o mundo que se satisfaçam com a certeza.” (John O’Donohue)

“O druida [sacerdote celta] não vê o outro mundo, vê este mesmo mundo com outros olhos, e deve se dedicar a trazer a perfeição do céu para a terra.”

Hermeticaos: Magia não é “bug”, é “cheat code”, Felipe Cazelli [2]

“A verdadeira treta na discussão se Deus existe ou não nem é a questão existencial em si, mas uma disputa que envolve a resposta da pergunta, ‘Quem vive melhor, o ateu ou o crente?’. Diante disso, eu gosto da solução que um amigo meu encontrou; ele diz que ‘é um ateu não praticante’.”

“A verdade é uma experiência. Assim sendo, os devotos das religiões organizadas são, em sua grande maioria, uma galera que acredita piamente nas experiências dos outros, algumas de milênios atrás, e se abstém de ter as suas próprias experiências desta verdade.”

“Estes são os fundamentos do ocultismo ocidental: (a) Não tem credo, mas hipóteses que precisam ser testadas, ainda que subjetivamente; (b) Muitos acabaram se convencendo de que há mesmo um mundo invisível; (c) Da mesma forma, que há uma ordem no universo, e que nada existe sem um propósito; (d) Igualmente, que tudo evoluí, do caos para a ordem, do simples para o complexo; (e) Que aprendemos através das reencarnações; (f) Que as circunstâncias de nossas vidas servem para o nosso desenvolvimento; (g) e finalmente, que há espíritos que podem afetar a realidade a nossa volta.”

“A magia é arte, a arte, e esta é uma afirmação grave! Pois, como uma arte, a magia não tem realmente regras definidas. O ritual mágico é uma experiência arbitrária, e nem mesmo um estado de consciência alterado se faz necessário para que ele seja realizado. No fim das contas, você consegue o que pediu, se a sua crença for praticada diariamente, e se o que deseja tem meios de se manifestar de acordo com as leis naturais.”

“Se a energia é a massa acelerada a velocidade da luz, a massa, isto é, a matéria, é uma ‘energia lerda’. Isto é bom, pois que se a realidade é puramente mental, há um delay entre o que você pensa e o que você efetivamente realiza. Assim, nós estamos nesse mundo, sobretudo, para aprendermos a controlar a mente, que nunca desliga. O dia em que não vermos problema em ver nossos desejos realizados imediatamente, sem delay, estaremos já iluminados, e não será mais necessário vivermos por aqui.”

Nos Sagrados Caminhos da Y’urema, Rita Andreia de Cássia

“A natureza é sagrada e viva, e Y’urema é a árvore, e também a deusa, que liga a terra e o céu.”

“O mundo está doente porque os homens se distanciaram do seu lado feminino.”

“Nós temos fé que existe um espírito vegetal que nos cura...”

“A Y’urema é uma árvore de muitos, muitos galhos... Ela é a maior entidade dos cultos ameríndios.”

“No fundo, toda a magia terá a cor que você pensar.”

A Magia na Umbanda, Alexandre Cumino

“Zélio de Moraes fundou a umbanda em Niterói/RJ, em 1908, com 17 anos de idade. Foi a entidade que ele incorporava, o Caboclo das 7 Encruzilhadas, quem idealizou o ritual de umbanda. A umbanda é a primeira religião nascida exclusivamente no Brasil.”

“Este caboclo foi reconhecido como um padre católico em uma vida passada por um médium espírita vidente, mas ele responde ao médium que ‘somente uma encarnação não resume o que é um espírito, e hoje eu prefiro ser um caboclo’.”

“A umbanda faz questão de ser uma religião, e cultuar os orixás e os santos católicos. A umbanda, ao contrário do espiritismo, não tem ‘centro’, tem ‘templo’, com altar e uma ritualística formal.”

“Uma falange é composta por muitos espíritos anônimos usando um mesmo nome para se identificar. Assim sendo, não há somente um Preto Velho, uma Maria Padilha ou um único Caboclo Pena Branca, mas muitos deles.”

“Na umbanda e nos demais cultos africanos, a chamada Direita se encarrega de trazer a energia positiva, enquanto que a Esquerda se dedica a repelir a energia negativa. Dessa forma, ambas têm a sua função, que é sempre benéfica (em se tratando de magia divina).”

***

[1] Se trata de pequenos trechos e frases que anotei em meu caderno. Não significa que tenha sido exatamente o que os palestrantes disseram, mas antes já a minha interpretação, por vezes resumida, do que foi dito. Finalmente, vale notar que infelizmente eu não tive tempo de assistir todas as palestras (apesar de ter assistido somente cerca de metade da palestra do Alexandre Cumino, decidi incluí-lo também).

[2] O próprio título da palestra do Cazelli já encerra um conhecimento profundo, que merece uma explicação: um bug seria como que uma espécie de falha no sistema de um game; já um cheat code seria um código que permite “burlar” certas regras do jogo. Ora, se a realidade é um sistema mental, um mago não está se aproveitando de nenhuma suposta falha deste sistema, mas antes se aproveitando desses tais códigos que permitem alterar suas regras – o detalhe é que tais códigos já estavam inseridos nela, desde o início dos tempos.

Crédito das fotos: Raph e AESG

Marcadores: , , , , , , , , , ,

28.7.13

Lançamento: Os Evangelhos de Tomé e Maria

Os evangelhos apócrifos são basicamente todos aqueles que não foram incorporados “oficialmente” ao Novo Testamento [NT]. Eles se relacionam claramente com Jesus Cristo e trazem alguns dos eventos citados no NT, muitas vezes sob outra ótica ou interpretação. A maior parte dos evangelhos apócrifos que chegaram à modernidade faz parte da Biblioteca de Nag Hammadi, um conjunto de pergaminhos antigos que foram enterrados em vasos no deserto, e só vieram a ser descobertos em 1945.

Esta edição traz dois dos textos mais profundos encontrados em Nag Hammadi: Os Evangelhos segundo Tomé e Maria Madalena. Os acompanha uma série de contos (O Mensageiro) inspirados no gnosticismo e escritos por Rafael Arrais, autor deste blog e tradutor e editor de diversos livros ligados a espiritualidade, a poesia e a filosofia.

Comprar eBook (Kindle) Comprar versão impressa

***

Abaixo, o prefácio do livro (uma cortesia de Giordano Cimadon):

Houvessem sido encontrados na forma de antigos pergaminhos escondidos no interior de velhos jarros de cerâmica enterrados nas silenciosas areias de algum deserto oriental, os contos que formam O Mensageiro seriam hoje considerados narrativas gnósticas escritas por algum místico iluminado dos primeiros tempos da era cristã.

Seu estilo se aproxima bastante daquele empregado por muitos dos antigos gnósticos quando narravam a vida do Salvador e os seus ensinamentos. Ao lado de preceitos éticos e filosóficos apresentados com grande clareza, existem verdades esotéricas veladas por uma poesia que pode ser facilmente confundida com aquela nascida da pena de um sábio persa, ou pelos diálogos que evocam a sabedoria dos enigmáticos mestres orientais.

Embora as palavras que tecem os contos tenham sido empregadas com a destreza que se espera de um escritor moderno, a sensação que nos transmitem é de que foram deliberadamente arranjadas por algum hábil criptógrafo dos tempos medievais. Símbolos e alegorias bastante significativos aguardam o momento em que serão decifrados por todo aquele que carregue em seu coração a chave da gnosis.

O personagem central de O Mensageiro é apresentado como um homem excepcional, um enviado de Deus, mas um homem que hesita, que num primeiro momento não compreende a sua missão, que considera a si mesmo um homem simples, comum como todos os outros. À exemplo dos gnósticos, ele descobre a verdade dentro de si mesmo e por seus próprios esforços, e pretende ajudar os seus semelhantes a encontrarem, eles também, a verdade, cada qual à sua própria maneira.

Este humano mensageiro possui um mestre de terras distantes, um sábio budista que viaja às terras do Oriente Médio em busca de um enviado divino. Sua mensagem sobre o Reino dos Céus é esotérica, podendo ser compreendida em diversos níveis, por cada um que a ouve, à sua maneira. Este é o caso do conto em que o mensageiro conquista a simpatia e contrai a amizade e o respeito do demônio tentador das sombras que o ameaça, e ainda o converte em um de seus mais dedicados discípulos.

Outro de seus grandes amigos foi um guerreiro que pretendia sacrificar a vida de muitos em nome de uma liberdade ilusória. Ao invés de repreender seu amigo pela disposição assassina movida por uma ignorância justificada, o mensageiro prefere ensinar a ele uma lição definitiva, oferecendo a si próprio como um sacrifício solitário, com o objetivo de garantir a todos a possibilidade de uma liberdade autêntica, que é a liberdade da alma.

Além disso, foi inspirado e levado pelos anjos dos Céus a conhecer, momentos antes de sua partida, a personagem gnóstica mais importante da era que marcou a difusão da essência de sua mensagem esotérica. Esta mulher foi escolhida para ser não só a sua mensageira e a sua divulgadora, mas também a sua discípula e sua amiga, alguém que parecia desfrutar de grande intimidade espiritual com o mensageiro.

Atrás de todas estas narrativas envolventes estão escondidas pérolas de conhecimento universal que o autor, em seus momentos de inspiração, elaborou através de sua poesia. Os esforços realizados pelo leitor que almeja a sabedoria oculta na representação heterodoxa de Jesus em O Mensageiro serão absolutamente recompensadores, e mais ainda em virtude da possibilidade de realizar este mesmo mergulho nas profundezas dos outros dois textos que o acompanham nesta edição primorosa: Os Evangelhos de Tomé e Maria.

No primeiro deles encontramos um Jesus absolutamente místico e mensageiro de ensinamentos revolucionários, os quais ensinam seus discípulos a encontrar o Reino dos Céus no fundo de suas próprias consciências, e não em algum lugar no tempo e no espaço. Este mensageiro do Evangelho de Tomé afirma que o Reino dos Céus está ao alcance de todos os seres humanos, e que estes podem alcançá-lo mediante a gnosis, a sabedoria divina, a qual é capaz de transformá-los radicalmente.

Através de suas palavras conhecemos um Jesus que não se apresenta como um intermediário entre o homem e o Reino dos Céus, mas como alguém que alcançou sua iluminação interior mediante seus próprios esforços, e que agora pretende indicar, com precisão esotérica, um caminho que levaria os demais até este mesmo estágio interior.

Esta iluminação é, portanto, uma busca, e uma busca que traz sofrimento e espanto, já que está relacionada com a descoberta íntima da natureza espiritual do homem e do universo que o cerca. Mudança de identidade e de percepção dos mundos físico e espiritual através do conhecimento que começa em si mesmo, eis aí o que propõe Jesus neste Evangelho que pode ser lido como uma mensagem espiritual bastante subversiva.

E uma mensagem como esta somente poderia ter sido concebida e entregue por um professor absolutamente libertário como era o Jesus retratado pelos gnósticos. Um professor que não se limitava à ensinar uma verdade através de uma forma única, pretendendo que ela servisse da esma maneira a todos os corações. Esta sua característica pode ser vista no Evangelho de Maria, o segundo evangelho que acompanha esta edição, onde encontramos um Jesus que ensinava a cada qual segundo sua inclinação particular para aprender, e tinha mensagens individuais que entregava a seus discípulos.

Foi exatamente o que aconteceu com Maria Madalena, sua discípula e companheira, quem recebeu do mensageiro um ensinamento particular e íntimo, que mais tarde entregou também aos demais discípulos. Entre outros motivos, este talvez tenha sido um dos que provocou a antipatia de Pedro por aquela mulher preferida entre os apóstolos.

Na ótica dos antigos gnósticos, aquele que se transformaria na pedra angular da Igreja de Cristo, segundo os evangelhos canônicos, não via com bons olhos a intimidade de Maria Madalena com o Salvador, e relutava em aceitar o papel de liderança que ela exercia naquela comunidade de primeiros cristãos.

É provável que a rivalidade de Pedro para com Maria Madalena não estivesse somente relacionada com uma disputa pelo poder. Talvez sentimentos mais corriqueiros sustentassem esta rivalidade. Pedro poderia muito bem sentir-se envergonhado ao lembrar do momento da prisão e da crucificação de seu Mestre, quando ao invés de ter seguido o exemplo de Maria Madalena e ficado junto ao Salvador em seus momentos de maior angústia, chegou até mesmo a negar tê-lo conhecido. Pode também a raiva de Pedro encontrar seu fundamento no sentimento da inveja, já que após a sua ressurreição Jesus decidiu aparecer primeiro diante de uma mulher, e não de seus discípulos homens.

Contudo, esta provável mesquinhez de Pedro não deve fechar os olhos da alma do leitor para a possibilidade de que também esta que parece ser apenas mais uma rivalidade banal entre discípulos encerre um sentido oculto que aguarda ser revelado. Pois sempre há um sentido esotérico dado pelos antigos gnósticos aos seus escritos, e este deve ser encontrado por cada um. Caso contrário, como nos avisa Tomé, fogo sairá das pedras lançadas pelos transtornados e este mesmo fogo os consumirá.

É oportuno buscar também a este sentido esotérico nos contos que formam O Mensageiro, pois tal sentido é como um espírito imortal que anima suas palavras, além de ser o fio que os enlaça com a tradição gnóstica de séculos passados. Através da estética que o caracteriza, proporcionará uma leitura agradável aos olhos da carne, mas através da essência que lhe dá vida, será alimento para toda alma que anseia pela plenitude.


Giordano Cimadon é psicólogo, escritor, professor gnóstico e coordenador das atividades da Sociedade Gnóstica Internacional (www.sgi.org.br).


Marcadores: , , , , , , , , , ,