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9.4.10

Um médium notável, parte 2

continuando da parte 1...

Que nos sobra então após tantas suposições? Nada mais do que suposições. Se é verdade que alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias, se é verdade que “não é possível experimentar com espíritos conforme se faz com uma pilha voltaica” – conforme disse Kardec –, e finalmente, se é verdade que a existência do espírito ainda requer comprovação experimental, então da mesma forma os céticos tem de correr atrás de comprovações para suas alegações. Recorrer à opinião de sobrinhos alcoólatras (que depois se ratificou das acusações ao tio), de supostos ex-coordenadores das reuniões de Chico em Uberaba, de “pesquisadores” que tem a idéia fixa de provar que Chico era uma fraude – nada disso será suficiente. De nada adianta encarar um fenômeno com um pré-julgamento em mente (“Todo médium é um fraude!”; “Espiritismo é coisa do demônio!”; “Espíritos existem e Chico é um santo!”), não sobrará espaço algum para qualquer análise objetiva – apenas para sua opinião subjetiva, que em todo caso já estava definida a priori.

Felizmente temos pesquisas sérias e aprofundadas sobre o fenômeno (leia-se: fato, e não mera teoria ou opinião) da produção literária de Chico:

O site Obras Psicografadas possui vasta análise cética de inúmeras obras espíritas, neste site existe uma análise de que certas obras de Chico podem ter plagiado textos pré-existentes. Na verdade, esse tipo de análise cai dentro do âmbito da hipótese da criptomnésia, já que dificilmente Chico iria se dar ao trabalho de inserir conscientemente certos trechos de outras obras, quando em realidade a vasta quantidade de sua produção literária fala por si só... De onde haveria “plagiado” todas as descrições minuciosas dos livros ditados por Emmanuel e André Luis? Que houvesse, sem querer, “plagiado” alguns trechos, é até verossímil... Que essa explicação se estendesse para toda sua obra, absolutamente não.

Já a própria FEB (Federação Espírita Brasileira) pesquisou citações históricas presentes em livros de Chico. Gilberto Trivelato, coordenador do estudo, parece estar se certificando da autenticidade da obra de Chico: “Alguns relatos são tão detalhados que Chico não os faria nem com a ajuda das melhores bibliotecas... Um deles diz que a Catedral de Notre-Dame, em Paris, tinha escadas. Hoje ela não tem. Mas se você pesquisar a fundo, descobre que no século 19 tinha, por causa de enchentes”.

Pesquisa a fundo: isso dá trabalho... Muitos preferem as generalizações e julgamentos apressados. Muitos se indignam com a possibilidade de um médium do interior de Minas ser, talvez, o maior brasileiro que já existiu. Um homem cuja obra obviamente ainda não pôde ser totalmente compreendida, mas cujo carisma arrastou multidões.

Merece a obra de Chico receber aprovação e credibilidade imediata pelos espíritas e simpatizantes? Obviamente que não, senão não seríamos muito diferentes dos pseudo-céticos... Uma coisa são as obras ditadas por Emmanuel e André Luis, outra são obras ditadas supostamente pela mãe de Chico (com todo respeito) com supostas descrições dos “seres alados de Marte” ou versões ufanistas da história do Brasil, considerado o “coração do mundo” por Humberto de Campos. E mesmo entre os espíritas de longa data há calorosas discussões acerca do relato das migrações entre planetas de “A Caminho da Luz” (embora o Gênesis de Kardec também afirme isso) – será que houve mesmo a migração de Capela?

Mas acima de tudo, há que se considerar que espíritos não são infalíveis, e falam somente sobre o que sabem: nada mais, nada menos. Considerar que Chico tenha sido ludibriado por espíritos zombeteiros, que afirmavam serem pessoas que em realidade não eram, talvez seja mais difícil de crer considerando a proteção quase permanente de Emmanuel. Mas e quanto ao próprio Emmanuel? Apesar de iluminado pela convivência no plano espiritual, não deixava de ser um ex-padre católico, no mínimo um espírito com enormes tendências ao lado religioso da doutrina – ao contrário de André Luis, que era um entusiasta da ciência.

Quanta coisa a ser levada em consideração... Quantos debates passados e vindouros... Quantas histórias contadas, e por contar, nos deixou esse médium notável! E quanto a Chico, será que o “capim de Deus” estaria hoje preocupado com seu legado?

“A doutrina é de paz... Emmanuel tem me ensinado a não perder tempo discutindo. Tudo passa... As pessoas pensam o que querem a meu respeito – pensam e falam. Estou apenas tentando cumprir com o meu dever de médium.” – respondeu-nos o médium ainda vivo [5].

Todo esse frenesi em torno de Chico, uns atacando-o como um demônio, outros o idolatrando como um santo, tudo isso também passa. Chico não é nem nunca foi o mito que as pessoas fizeram dele. “Não pretendo ser líder de nada” – afirmava. Chico foi a pessoa humilde do interior de Minas, o doce caipira com uma eterna doçura no olhar – mesmo por detrás dos óculos, todos que o conheceram sentiram-na –, aquele que agia naturalmente no amor, e continuará agindo.

Não se exponham a discussões inúteis com “céticos” e/ou “evangélicos” de opinião cristalizada... Deixem que julguem conforme acharem melhor, que enquanto não comprovarem nada, a obra de Chico e o seu exemplo moral continuarão falando por si próprios.  Deixem os caminhos da doutrina em movimento, que o espiritismo não foi feito para se dogmatizar em um “kardecismo” ou uma “idolatria a Chico”. Deixem Chico em paz em suas planícies mineiras do outro lado do véu. Ou não, tanto faz – ele cumpriu sua missão.

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[5] Trecho de depoimento ao Jornal O Ideal - Nº 56 - Janeiro de 2000.

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Artigo relacionado: Chico Xavier: charlatão?

Crédito da imagem: um dos cartazes de Chico Xavier, O Filme.

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Um médium notável, parte 1

E lá se vão 100 anos do nascimento do maior médium brasileiro. Naturalmente que tenhamos uma renovação do interesse pelo tema Chico Xavier: desde filmes a livros e matérias de revistas conhecidas, além é claro dos costumeiros ataques. Chico sempre inspirou os crentes e incomodou os céticos, tentarei explicar o motivo...

Um breve resumo de sua vida se encontra na Wikipedia: Nascido de uma família pobre em Pedro Leopoldo, região metropolitana de Belo Horizonte, era filho de Maria João de Deus e João Cândido Xavier. Educado na fé católica, Chico teve seu primeiro contato com a Doutrina Espírita em 1927, após fenômeno obsessivo verificado com uma de suas irmãs. Passa então a estudar e a desenvolver sua mediunidade que, como relata em nota no livro " Parnaso de Além-Túmulo", somente ganhou maior clareza em finais de 1931.

O seu nome de batismo Francisco de Paula Cândido foi dado em homenagem ao santo do dia de seu nascimento, substituído pelo nome paterno de Francisco Cândido Xavier logo que "rompeu" com o catolicismo e escreveu seus primeiros livros. O mais conhecido dos espíritas brasileiros contribuiu para expandir o movimento espírita brasileiro e encorajar os espíritas a revelarem sua adesão à doutrina sistematizada por Allan Kardec.

Sua credibilidade serviu de incentivo para que médiuns espíritas e não-espíritas realizassem trabalhos espirituais abertos ao público. Chico é lembrado principalmente por suas obras assistenciais em Uberaba, cidade onde faleceu. Nos anos 1970 passou a ajudar pessoas pobres com o dinheiro da vendagem de seus livros, tendo para tanto criado uma fundação.

Eis um homem praticamente inatacável: Doou todos os direitos autorais de suas obras para a caridade. Não foram poucas obras, nem produzidas nem vendidas. Houvesse retido os direitos, lucraria uma média de 670mil reais por ano (nos valores atuais) durante a vida [1]. Houve quem tentasse encontrar uma lógica absurda de lucro, baseada em “mimos” que as dezenas de editoras diferentes retornavam a Chico, mas o absurdo do ataque fala por si mesmo.

Nada consta, igualmente, de sua vida sexual: Passou a vida toda como assexuado, dedicando todo seu tempo a caridade, a produção literária (psicografias), ao trabalho (aposentou-se como escrivão e datilógrafo no Ministério da Agricultura) e a divulgação da doutrina espírita. Seu filho, Eurípedes, foi adotado, e hoje registrou a assinatura do pai, recebendo os 10% do lucro de tudo que é lançado com ela – inclusive os filmes (nem todos são "santos", obviamente).

A espiritualidade sempre se preocupou em manter Chico além de qualquer tipo de ataque. Pesquisando, encontramos fatos curiosos: o livro que deu origem ao filme com seu nome, “As vidas de Chico Xavier”, foi baseado numa pesquisa do jornalista – e cético – Marcel Souto Maior sobre a vida de Chico. Porém, não foi lançado após sua morte, a primeira edição consta de 1994 (mesmo a Wikipedia está errada). Ocorre que a pesquisa de Marcel foi “permitida” pelo guia de Chico porque este já sabia que ela seria muito importante para o futuro. E realmente foi: vendeu como água (e apareceu nos radares dos “céticos de plantão”, que perderam a oportunidade de analisá-la quase uma década antes) em 2002, após a morte de Chico (conforme a “profecia”, no dia em que o Brasil todo estava feliz, tendo ganho a Copa do Mundo).

Eis que uma biografia escrita por um cético gerou um filme dirigido por um ateu (Daniel Filho), tendo o papel de protagonista recaído sobre um ator que além de ateu sempre foi comunista (Nelson Xavier). Todos se disseram “mudados” pela história de Chico [2], e o filme já consta como a maior bilheteria de um lançamento do cinema nacional desde sua retomada em 1995. Não, Emmanuel não estava brincando em serviço, ele quis realmente se certificar que não teriam absolutamente nada para atacar tanto no livro quanto no filme (que, diga-se de passagem, também não tiveram envolvimento comercial com nenhuma editora espírita, nem com a FEB).

Sim, Emmanuel era chato mesmo. Se é verdade que tendia muito para o lado religioso da doutrina (já que fora na última encarnação o Padre Manuel da Nóbrega [3]), não se pode reclamar de seu cuidado com os mínimos detalhes da postura de Chico. Quando os jornalistas da Revista Cruzeiro realizaram a famosa reportagem tentando desacreditá-lo (isso está descrito no livro de Marcel), para a reclamação de Chico o guia respondeu: “Jesus Cristo foi para cruz. Você foi para a Revista Cruzeiro”.

Até mesmo a questão do uso das perucas foi veementemente desaconselhada pelo guia – mas os cuidados com a aparência, ao seu gosto duvidoso, Chico fez questão de manter até o fim. Talvez, se mesmo nesse detalhe houvesse seguido a opinião de Emmanuel, muitos não o julgariam apressadamente como charlatão somente porque esconde a calvície (sim, para o ignorante qualquer motivo é motivo).

Em todo caso, os céticos nunca desistiram de tentar explicar o fenômeno da produção literária de Chico – mais de 400 livros de mais de 2mil supostos autores espirituais diferentes. Filtrando os ataques ad hominem falaciosos, chegamos a algumas suposições céticas dignas de nota:

Que era um leitor voraz
Se é verdade que Chico largou o colégio aos 13 anos (na quarta série do primário) para trabalhar, não é verdade que fosse um iletrado e ignorante completo. Sim ele certamente lia bastante, além de escrever cartas pessoais a amigos. Mas será que isso explica a maneira prolífera como escreveu em diversos gêneros literários, no mínimo em pé de igualdade com a qualidade dos supostos autores espirituais enquanto eram vivos? – E isso já desde as poesias de seu primeiro livro (talvez, não tenha iniciado pelas poesias sem razão).

Que possuía “vasta” biblioteca
Segundo consta, sua “vasta” biblioteca chegou um dia a possuir cerca de 500 livros e revistas, com obras em inglês, francês e até hebraico (ele não sabia ler hebraico). A lista inclui obras de pelo menos dois autores dos quais psicografou: Castro Alves e Humberto de Campos. Muito bem, isso talvez explicasse as psicografias desses autores, mas e quanto às centenas de outros autores? Será mesmo que em lendo “cerca de 500 livros e revistas” estaremos aptos a escrever livros com a quantidade e qualidade que Chico escreveu? Ora, a biblioteca ainda está lá em Uberaba, preservada pelo seu filho – enviemos então nossas crianças para lá, vamos criar uma nação de gênios da literatura!

Que sofria de criptomnésia
Este é um distúrbio de memória que faz com que as pessoas se esqueçam que conhecem uma determinada informação. Segundo a teoria, Chico psicografava “sem saber” do próprio inconsciente, e resgatava as informações que já havia “lido em algum lugar” durante a vida. Ora, digamos então que sua biblioteca aliada aos livros e revistas que eventualmente leu durante a vida expliquem como tais informações foram parar em seu inconsciente sem que ele soubesse – e quanto à poesia? E quanto aos livros científicos? E quanto às respostas sobre economia e outros assuntos totalmente fora de sua alçada que deu aos “inquisidores” da Revista Cruzeiro? E quanto às respostas em rede nacional que deu durante o Pinga-Fogo da TV Tupi? Como será que tal conjunto de informações gerou tamanho conhecimento, tamanha habilidade poética?
Sobre esta hipótese no mínimo tão fantástica quanto à hipótese dos espíritos existirem, Monteiro Lobato um dia declarou: “Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, merece quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras”.

Que comparecia a sessões de materialização de espíritos fraudulentas
Se são fraudulentas ou não, não vem ao caso comentar, pois não quero aqui convencer ninguém de realidade ou irrealidade da existência de espíritos e/ou materializações. Mas é necessário notar que tais episódios que (bem ou mal) exporam Chico ao ridículo da mídia da época foram cuidadosamente orquestrados (novamente) pelos “jornalistas” da Revista Cruzeiro [4]. A lição que ficou do episódio foi prontamente assimilada por Chico, tanto que se afastou da mídia por anos, até o retorno triunfal no Pinga-Fogo de 1971. Fossem as materializações reais ou não, o espiritismo não se presta a esse tipo de espetáculo. É uma doutrina de reforma íntima, de autoconhecimento, de caridade, não de shows de materialização. “Lição aprendida meu caro Emmanuel”!

Na continuação, algumas conclusões sobre tais suposições, e uma mensagem final...

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[1] Segundo reportagem da Superinteressante de Abril de 2010, matéria da capa sobre Chico Xavier. Mesmo que não sejam valores exatos, certamente era muito, muito mais dinheiro do que a realidade de funcionário público (de baixo escalão) rendeu a ele durante a vida. Algumas citações no artigo (partes 1 e 2) foram retiradas da mesma reportagem.

[2] Essa “mudança” é narrada no livro de Marcel Souto Maior sobre os bastidores da filmagem de Chico Xavier, O Filme. Não quer dizer, nem de longe, que tenham se convertido ao espiritismo... Mas o exemplo moral de Chico é capaz de afetar – no bom sentido – até os maiores opositores da doutrina, contanto é claro que se disponham a estudá-lo.

[3] Em sua época, de português antigo, o padre assinava os documentos como “Emmanuel”, daí ter mantido esta grafia.

[4] Outro episódio narrado no livro de Marcel Souto Maior: "As vidas de Chico Xavier".

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Crédito da imagem: um dos cartazes de Chico Xavier, O Filme.

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6.2.09

Chico Xavier: charlatão?

Este artigo não trata de ataque a Chico Xavier, mas sim de sua defesa. O título é para atrair aqueles que pesquisam no google por "textos prontos" (geralmente pelas palavras-chave "Chico Xavier charlatão" ou "Chico Xavier fraude") para poderem atacar a memória de Chico em discussões online. Se era essa a sua intenção, me desculpe, mas lhe convido a refletir um pouco mais sobre a natureza dos ataques gratuítos a Chico - afinal, porque será que ele incomoda tanto?

Segundo a Wikipedia e suas fontes, Chico Xavier psicografou quatrocentos e doze livros. Nunca admitiu ser o autor de nenhuma dessas obras. Reproduzia apenas o que os espíritos lhe ditavam. Por esse motivo, não aceitava o dinheiro arrecadado com a venda de seus livros. Vendeu mais de 20 milhões de exemplares. Cedeu os direitos autorais para organizações espíritas e instituições de caridade, desde o primeiro livro.

Suas obras são publicadas pelo Centro Espírita União, Casa Editora O Clarim, Edicel, Federação Espírita Brasileira, Federação Espírita do Estado de São Paulo, Federação Paulista do Rio Grande do Sul, Fundação Marieta Gaio, Grupo Espírita Emmanuel s/c Editora, Comunhão Espírita Cristã, Instituto de Difusão Espírita, Instituto de Divulgação Espírita André Luiz, Livraria Allan Kardec Editora, Editora Pensamento e União Espírita Mineira.

Apesar disso, o ataque mais comum a Chico parte dos céticos que afirmam que ele era um charlatão em busca de ganhos financeiros: que a renda de seus livros eram doados a instituições sem fins lucrativos, que não pagavam impostos, e lhe retornavam esses lucros em forma de "mimos" e outros auxílios. Vamos então analisar a lógica do ataque:

1- Seus 20 milhões de livros vendidos não eram sequer publicados pela mesma editora, e sim dúzias de editoras diferentes. Eram, portanto, todas parte de um "conxavo secreto" para favorecer os supostos ganhos sem impostos?

2- Os impostos insidem nos livros em si, só não insidem nas desepesas administrativas das editoras. Apesar disso, a maior parte dos livros de Chico é vendida por quantias bem abaixo da média editorial no país. Será mesmo que essa era uma boa estratégia para se obter lucro?

3- Não seria mais fácil para Chico simplesmente ficar com o valor dos direitos autorias de seus livros, desde o início? Muitos autores espíritas vendem milhares de exemplares (alguns, como Zíbia Gasparetto, milhões deles) e mesmo assim "embolsam" os direitos autorais - está perfeitamente de acordo com a lei, que é laica e não reconhece o direito de supostas entidades sobrenaturais (e, mesmo assim, elas não poderiam usar o dinheiro).

4- Porque Chico viveu a vida toda em residência humilde, sustentado por sua aposentadoria, e atendendo pessoas de segunda a sábado sem cobrar nada? Porque não decidiu pelo menos gastar essa "suposta bolada" no fim da vida? Porque, pelo contrário, trabalhou cada vez mais e mais, até o limite, quando seu corpo não podia mais lhe atender? Porque, enfim, não passou o fim da vida desfrutando de sua riqueza, viajando o mundo, quem sabe visitando locais espirituais como Índia ou Nepal?

5- Porque um suposto charlatão recebeu a maior audiência em porcentagem da TV brasileira nos programas Pinga-fogo da TV Tupi em 1971 (maior até do que a da final da copa de 70)? (*)

6- Porque um suposto charlatão concorreu ao prêmio nobel da paz em 1981 e na votação para o Maior Brasileiro da História realizada pela revista Época na internet, obteve 9.966 votos, ou 36% do total, ficando em primeiro lugar? (*)

7- Ainda mesmo que Chico tivesse recebido alguns "mimos" de algumas dessas editoras, seriam então um pequeníssima parte da porcentagem de direitos autorias a que teria direito de qualquer forma - me escapa a lógica do ataque.

Ou seja, um ataque no mínimo absolutamente ilógico. Os céticos tem todo o direito de crerem no que quiserem, mas é interessante que nesse caso se usem de boatos obscuros e supostas entrevistas com ex-coordenadores de centros espíritas que "recebiam todos uma parte da bolada" - ora, ora, caso soubessem procurar em fontes mais sólidas, de prerência na biografia "As Vidas de Chico Xavier" (publicada pelo grupo espanhol Planeta, que não é espírita, e escrita pelo jornalista cético Marcel Souto Maior) ou mesmo nas próprias obras de Chico, que tratam de poesia a história antiga, de espiritualiadade a ciências (de fato, o livro "Mecanismos da Mediunidade" está em linguagem puramente científica) e às vezes também de polêmicas descrições da vida no "plano espiritual" - então talvez tivessem a oportunidade de construir uma opinião mais embasada e, porque não dizer, realmente cética.

Antes que digam que sequer considerei a lógica do ataque, vale retornar a mesma reportagem da revista Época (do link logo acima):

"Nos anos 70, Chico foi acusado de favorecer atores e políticos e deixar de atender as pessoas humildes. Também surgiram denúncias de venda de ingressos para visitas. Até o fim de seus dias, Chico recebeu, todos os sábados, milhares de crentes de todo o Brasil. Primeiro em Pedro Leopoldo, depois em Uberaba, para onde se mudou em 1959, quando já era uma celebridade. Nunca se conseguiu comprovar que o médium soubesse da movimentação financeira em torno de seu nome. Seu filho adotivo, Eurípedes Higino dos Reis, chegou a ser investigado pelo Ministério Público. De acordo com a Federação Espírita Brasileira, os direitos autorais dos livros de Chico Xavier, cedidos em cartório, beneficiam mais de 100 mil famílias. Chico Xavier dizia viver da aposentadoria como escriturário do Ministério da Agricultura."

Ou seja, a consciência de cada um que julgue o que faz sentido, e o que não faz...

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No "bate-pronto", outros comentários acerca de ataques comuns a Chico Xavier

Chico sofria de auto-engano.
Muitos céticos analisam dessa forma, e devem ser respeitados. Não acho desrespeitoso analisá-lo dessa forma, pois antes reconhecem que foi um homem de bem que praticou a caridade a vida toda - no entanto, falta explicar como um homem humilde do interior de minas, com segundo grau incompleto, escreveu tanto e sobre tantos assuntos diversos. Ainda assim, portanto, um desafio para a psicologia moderna.

Chico era doente mental.
De certa forma, parte do mesmo pressuposto acima, apenas tende a ser mais desrespeitoso o julgamento, afinal, mesmo em sendo doença mental, fica faltando explicar que tipo de doença era essa, que permitia a um homem falar horas em TV ao vivo, para todo um país, e não gaguejar, nem falar algo aparentemente "louco" ou "ilógico" de antemão (ah não ser, claro, para os preconceituosos).

Chico treinava a "escrita-automática" e porisso escrevia tanto.
Bem, decerto ele "treinou" muito então, "treinou" a vida inteira - mas falta explicar como psicografou diversos livros em conjunto com Waldo Vieira, onde um trazia os capítulos pares, e outro os ímpares, separados por quilômetros de distância entre suas respectivas cidades, e no fim o livro fazia total sentido de coerência, sem precisar ser editado na mínima vírgula, aparentemente. Teorias como a "escrita-automática" ou o "quase mítico" Inconsciente Coletivo falham em explicar esse fenômeno em específico, a não ser que postulemos que as informaões ficam "flutuando pelo ar" apenas à espera que os "escritores automáticos" as usem - nesse caso, em que isso diferiria exatamente da lógica espiritualista?

Porque Chico viveu doente? Porque um curandeiro não procura outro curandeiro?
Chico não era curandeiro, nem nunca pretendeu ser. Chico psicografava mensagens escritas em papel, e supostamente recebia influência de seu guia espiritual, Emmanuel, toda vez que ia falar em público (como foi o caso no Pinga-fogo). A lógica das enfermidades de Chico está na "Lei de Cause e Efeito" da doutrina espírita, caso queiram saber.

Gostaria de sugerir um tema. Por que vocês não desmascaram as práticas espíritas de Chico? Adoraria ver seus seguidores humilhados pela ciência. (texto comum em blogs sobre dismistificadores).
Ora, Chico também escrevia sobre ciência! O espiritismo não pretende negar a ciência, mas ir "adiante" onde a ciência tradicional ainda não se atreve a meter o nariz. Segundo o espiritismo, caso a ciência prove experimentalmente algo que vá contra a doutrina espírita, é a doutrina que tem de se adequar a ciência, e não ao contrário. O codificador da doutrina, Kardec, era ele mesmo um homem de ciências. Em tempo: a única "prática espírita" de Chico era a psicografia, e temos diversas áreas da psicologia e parapsicologia para estuda-la. Em relação a hipótese do espírito existir, temos estudos de Experiência de Quase Morte, casos de crianças que se lembram de vidas passadas, terapias de regressão de memória, dentre outros estudos científicos (independente de admitirem ou não a hipótese, a estão estudando de maneira científica e honesta).

Segundo a Bíblia a prática de necromancia é condenada.
Espiritismo não é necromancia, a palavra "espiritismo" foi cunhada por Kardec a menos de 2 séculos e não poderia constar na Bíblia. No mais, fica difícil compreender como Jesus falou com Moisés em uma tenda (Elias foi "arrebatado aos céus", mas Moisés estava "morto" a séculos).

Chico era gay.
Um caso clássico de auto-confissão de preconceito por parte de quem ataca. Não que fizesse alguma diferença, mas ao que tudo indica Chico desencarnou ainda virgem. Além disso, tinha uma posição que agradaria muitos defensores do fim do preconceito para com homossexuais.

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A resposta habitual de Chico (aos ataques)

"A doutrina é de paz... Emmanuel tem me ensinado a não perder tempo discutindo. Tudo passa... As pessoas pensam o que querem a meu respeito – pensam e falam. Estou apenas tentando cumprir com o meu dever de médium. Companheiros escrevem fazendo insinuações em torno da obra dos espíritos por meu intermédio... O que posso fazer? Estamos numa doutrina de livre opinião. Devo prosseguir trabalhando. O meu compromisso é com os espíritos... Não pretendo ser líder de nada. Estou consciente de que tenho procurado fazer o melhor e sou grato aos nossos Benfeitores por não me terem permitido uma vida inútil. Um dia, nós vamos compreender a necessidade de uma união mais profunda – quando sentirmos ameaçados pelas religiões intolerantes, que estão crescendo muito..."

Jornal O Ideal - Nº 56 - Janeiro de 2000

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(*) Numa análise mais cética, estes argumentos podem cair na falácia do "apelo a autoridade". Porém, não esqueçamos que o Pinga-fogo de 1971 foi um esforço jornalístico para tentar fazer Chico cair em contradição e/ou "desmascará-lo", e todos sabem que teve o efeito oposto: tornou-o um mito no país. No mais, os outros argumentos não dependem desses para se sustentar.

Este artigo também pode ser visualizado pelo endereço http://tinyurl.com/chicoxavier

Artigo relacionado: Um médium notável

Crédito da foto: Wikipedia

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