A cultura de jamais sentir dor
Uma das coisas que mais me impressiona no cristianismo é o valor dado à prática das penitências: jejuns, vigílias, orações, esmolas, peregrinações, autoflagelação, etc. Algumas ainda são feitas por cristãos hoje em dia, enquanto outras já não são tão aceitas ou estão simplesmente fora de moda. Nesse post eu falo mais sobre a prática das penitências, incluindo as realizadas nas religiões indianas.
Atualmente há uma maior valorização das penitências, como jejuns, por razões de benefício à saúde ou questões estéticas (obter massa muscular ou emagrecer). Isso se deve a um maior culto ao corpo do que ao espírito.
É verdade que a saúde e a beleza também são importantes e elas foram valorizadas nas mais diferentes sociedades e épocas, como na Antiguidade Clássica. Cristo nos mostrou a importância do corpo ao vir a esse mundo como ser humano. Ele também curou muitas pessoas, indicando que devemos ajudar os outros tanto no corpo quanto no espírito.
Sendo assim, o fato de nos sentirmos belos e felizes com nosso corpo, e também saudáveis, sentindo menos dor e com a possibilidade de desfrutar os prazeres da vida, que Deus nos deu, é realmente uma bênção. Todas essas coisas devem ser buscadas e não devem ser condenadas.
O cristianismo não é uma religião contra o prazer, mas mostra que devemos adorar, acima de tudo, o Criador e não a criatura. O que isso significa?
Se Deus existe e criou o mundo, significa que deve haver um sentido para o sofrimento. Mesmo que não seja ele o criador do sofrimento, o fato de ele permiti-lo deve ter um significado.
É fato que a dor existe. Ela jamais poderá ser completamente eliminada desse mundo. Desde desconfortos físicos até sofrimentos mentais, ela acontece em diferentes intensidades ao longo da vida, por mais que nos esforcemos para evitá-la.
Então o primeiro passo é aceitar a existência da dor. Não nos fará nenhum bem fugir dela o tempo todo e jogá-la para baixo do tapete, fingindo que ela não existe. O mesmo deve ser dito sobre a morte: ela ocorrerá em algum momento conosco e com as pessoas ao nosso redor. Por isso, dor e morte devem ser abordadas e aceitas de modo sincero, desde o começo.
Os cristãos dizem que se houvesse outra forma melhor de viver, evitando a dor e a morte, Jesus teria nos mostrado. Pelo contrário, Jesus nunca optou pelo caminho mais fácil. Ele fez um jejum de 40 dias no deserto logo antes de começar sua vida pública, para enfrentar de frente o diabo. E ao longo dos anos seguintes descansava pouco e seguia ajudando as pessoas, ensinando, curando, dando esperanças. Ele não fugiu da morte e muito menos de uma morte cheia de dor e humilhação.
O que isso nos mostra? Como será que devemos viver? Será que devemos passar nossa vida buscando confortos o tempo todo e sempre fingindo que a dor e a morte estão distantes de nós? Se não treinarmos formas de lidar com elas, quando elas acontecerem não estaremos preparados.
Por isso é importante para muita gente ter uma religião: religiões são muito boas não somente em lidar com os problemas do dia a dia, mas ir mais fundo. Uma religião vai para a raiz do problema do sofrimento, como o budismo, que diz de forma clara: “A vida é sofrimento”. Buda não tenta embelezar a verdade, mas mostra as coisas como elas são.
É verdade que na vida podemos ter muitas alegrias, mas também teremos muitas dores e o final da nossa história e da história de todo mundo não é exatamente um final feliz. Nosso final é a morte. O único motivo para não ficarmos tristes com isso é se descobrirmos que esse não é realmente o fim da história.
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