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1.2.17

Jorge Pontual recita Walt Whitman

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, traduz e recita poemas de grandes poetas da história.

Desta vez ele nos presenteou com um belo poema de Walt Whitman, poeta americano:

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Nós dois por tanto tempo fomos enganados]

Nós dois por tanto tempo fomos enganados
Agora transmutados, escapamos depressa como a natureza escapa
Somos a natureza

Estivemos ausentes, agora voltamos
Viramos plantas, folhas, folhagem, raízes, casca
Mergulhados no chão, somos rochas
Somos carvalhos, crescemos lado a lado
Pastamos, somos dois, nos rebanhos selvagens
Espontâneos como qualquer um

Somos peixes, nadando no mar juntos
Somos cachos de flores, derramamos perfumes
Nos caminhos, manhã e tarde

Somos a sujeita nas bestas, nos vegetais, nos minerais
Somos dois falcões predadores
Voamos alto, olhando para baixo

Somos dois sóis resplandecentes
Nos equilibramos, orbitais estelares
Somos dois cometas

Caçamos com garra e quatro patas na mata
Damos bote na presa
Somos duas nuvens, manhã e tarde
Pairando alto

Somos mares se encontrando
Somos duas ondas alegres, rolando uma na outra
Molhando um ao outro

Somos a atmosfera, transparente, receptiva
Penetrável, e impenetrável
Somos neve, chuva, frio, escuridão

Somos cada um produto e fluência do planeta
Circulamos e circulamos
E chegamos em casa de novo
Nós dois
Esvaziamos tudo
Menos a liberdade
Menos o nosso gozo


Walt Whitman (tradução de Jorge Pontual)


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3.12.15

O amigo terrorista

Na Arábia Saudita, o cinema é proibido, e não há escolas de arte. No entanto, sabe-se lá como, há uma cena artística saudita que vem crescendo e se tornando cada vez mais ativa na crítica ao regime monarquista.

Apesar do governo saudita tentar abafar ao máximo tudo o que ocorre dentro de seu território que atenta flagrantemente contra os direitos humanos, está cada vez mais difícil esconder absolutamente tudo... Recentemente um caso em particular criou certa comoção online – nele, um poeta foi condenado à morte:

Um tribunal saudita ordenou no final de Novembro (2015) a execução de Ashraf Fayadh, poeta palestino que vive na Arábia como refugiado. Ele tem agora pouco menos de 30 dias para recorrer da decisão. Mas ativistas que vêm acompanhando o processo contam que no momento lhe é vedado o acesso a representantes legais, e todas as visitas são proibidas.

Com 35 anos, Fayadh é um dos responsáveis pela associação cultural e artística Edge of Arabia, e já organizou várias exposições na Europa, inclusive na Bienal de Veneza, mas foi a sua poesia que o levou à prisão, primeiro em Agosto de 2013, e novamente em Janeiro de 2014.

Em Maio de 2014, um tribunal de Abha, no sudoeste da Arábia Saudita, condenou-o a quatro anos de prisão e 800 chicotadas. Mas Fayadh voltou a ser julgado no mês passado e um novo juiz resolveu lhe condenar à morte após ler trechos do seu livro de poemas publicado em 2008, cujo título pode ser traduzido para algo como Instruções no Interior.

A forma brutal com a qual a justiça saudita costuma aplicar sua pena capital – usualmente decapitações –, aliada ao fato de termos um poeta condenado a esse tipo de pena, levou muitos internautas europeus a denunciarem o caso no twitter. Um britânico chegou a comparar a Arábia Saudita ao Estado Islâmico, e o governo saudita ameaçou processá-lo.

De fato, se pararmos para uma rápida reflexão, poderemos constatar que a grande diferença entre o Estado Islâmico e a Arábia Saudita é o fato do primeiro ser considerado um estado não oficial, terrorista, e o último ser, basicamente, um aliado do Ocidente, uma espécie de “amigo terrorista” com quem ninguém quer realmente criar problema. E, claro, ambos se declaram islâmicos, mas certamente usam isso, hoje em dia, mais para justificar uma espécie de feudalismo arcaico do que propriamente para seguir os preceitos do Corão.

Afinal, um verdadeiro seguidor do Corão jamais condenaria um poeta à morte por decapitação. Ponto.

Dizem que Fayadh foi condenado porque sua poesia “prega o ateísmo”. Mas não é exatamente isso que sentimos ao ler seus poemas. Abaixo, segue um trecho do livro traduzido pelo jornalista Jorge Pontual e lido, pelo próprio, no programa GloboNews em Pauta:

Asilo,
ficar de pé no fim da fila
para receber um pedaço de pão.

De pé, como seu avô ficava,
sem saber porquê...
O pedaço de pão?

Você.

A pátria:
Um cartão para por na sua carteira.
Dinheiro:
Papéis com fotos de líderes.
A foto?

O que substituí você,
até o seu retorno...

E o retorno?
Uma criatura mitológica,
daquelas histórias que a sua vó contava.

O petróleo é inofensivo,
a não ser pela pobreza que deixa em seu rastro.
No dia em que os rostos
dos que descobrem mais um poço
ficarem escuros,
e quando soprarem vida no seu coração
para que possam extrair mais petróleo
da sua alma, para uso público:
Esta será a verdadeira promessa do petróleo.

Você é inexperiente,
lhe faltam as gotas de chuva
para lavar os restos do seu passado
e liberá-lo do que chamam “devoção”;
daquele coração capaz de amar e brincar,
e de interagir com sua obscena retirada
daquela flácida religião;
daquela pregação falsa
de deuses que perderam o orgulho...

Os profetas se aposentaram,
então não espere que os seus
venham até você.
Porque para você os monitores trazem
os seus relatórios diários,
e mostram seus altos salários...

Como o dinheiro é importante para uma vida digna!
Meu avô fica de pé, nu, todos os dias,
sem banimento, sem criação divina...
Fui ressuscitado
sem um sopro de Deus na minha imagem,
sou a experiência do Inferno na Terra.

A Terra
é o Inferno
preparado para os refugiados...


Se este blog fosse hospedado na Arábia Saudita, já não existiria mais.
Se eu morasse por lá, escrevendo tudo o que escrevo, provavelmente já teria sido preso, quem sabe executado.
Mas mesmos nós, os poetas, se somos executados, somos encaminhados ao livramento... do refúgio neste mundo de chumbo.
Mas ai daqueles que matam os poetas em nome de Deus – para eles, o Inferno já se faz presente, e não há realmente escapatória: o Inferno está em seus próprios corações negros, e todos os seus pensamentos são podridão.

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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10.9.15

Jorge Pontual recita Rumi outra vez

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolveu recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano]

Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano,
nem hindu, budista, sufi ou zen;
nenhuma religião ou sistema cultural;
eu sou nem do leste nem do oeste,
nem do oceano nem do chão,
nem natural ou etéreo,
nem composto de elementos;
eu não existo.

Não sou uma entidade
neste mundo ou no próximo,
nem descendo de Adão e Eva
ou qualquer história de origem;
meu lugar é o sem lugar,
um rastro do sem rastro...

Nem corpo nem alma,
pertenço ao Amado.
Vi os dois mundos como um só,
e esse "um", chamo e conheço;
primeiro, último,
fora, dentro,
só este respirar de ser humano...


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)


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10.7.15

Neruda, Pontual e a poesia

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Desta vez ele nos presenteou com uma primorosa tradução do poeta chileno Pablo Neruda:

Jorge Pontual recita Pablo Neruda

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[A poesia]

E foi nessa idade,
chegou a poesia para me buscar...

Não sei, não sei de onde saiu,
de inverno ou rio,
não sei quando nem como...

Não, não eram vozes,
não eram palavras, nem silêncio;
mas de uma rua, me chamava...

Dos ramos da noite,
de repente entre os outros,
entre fogos violentos,
ou voltando sozinho,
ali estava, sem rosto,
e me tocava...

Eu não sabia o que dizer,
minha boca não sabia dar nome,
meus olhos estavam cegos,
e algo me golpeava a alma...

Febre? Ou asas perdidas?

E fui ficando só,
decifrando aquela queimadura,
e escrevi a primeira linha vaga;
vaga, sem corpo, pura tontice!
Pura sabedoria
de quem não sabe nada...

E vi de repente o céu,
descascado e aberto,
planetas, plantações palpitantes,
a sombra perfurada,
crivada por flechas, fogo e flores.
A noite avassaladora,
o universo...

E eu, mínimo ser,
ébrio do grande vazio constelado,
a semelhança, a imagem do mistério,
me senti parte pura do abismo,
rodei com as estrelas,
meu coração se desatou no vento...


Pablo Neruda (tradução de Jorge Pontual)


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28.5.15

Jorge Pontual e a poesia de Rumi

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolver recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor [1]...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

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[Morri como mineral]

Morri como mineral,
e tornei-me planta.
Morri como planta,
e surgi como animal.
Morri como animal,
e sou humano...

Por que ter medo?
O que perdi ao morrer?

Mas de novo vou morrer como humano,
para voar com os anjos, abençoado.

E mesmo como anjo, terei de morrer.
Todos perecem, menos Deus...

Quando eu tiver sacrificado
a minha alma de anjo,
me tornarei
o que a mente sequer concebe!

Ah! Que eu não exista!
Pois a não-existência proclama,
como um órgão,
que para Ele voltaremos.


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)

***

[1] E olhem que não é a primeira vez que ele recita Rumi neste programa...

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31.5.14

Jorge Pontual recita Rumi

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolver recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Momento de felicidade]

Felicidade é este momento,
você e eu sentados na varanda -
duas formas, dois rostos,
mas uma alma,
você e eu.

A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos dão a água da vida
quando entramos neste jardim,
você e eu.

As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.

Você e eu,
unidos em êxtase de alegria,
livres do juízo e da razão -
você e eu.

Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
quando nós rimos,
você e eu.

Mais incrível ainda,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu -
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.
E na Terra do Açúcar, você e eu...


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)


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