10 razões para ser cristão
Os debates acerca do cristianismo geralmente são um tanto inúteis, pois se resumem a ataques contundentes baseados nos equívocos da igreja, e defesas ardorosas fundamentadas no apego da fé de cada cristão. Em um dos debates no orkut (na comunidade Fé e Razão), um amigo iniciou um tópico chamado "10 motivos para ser cristão?"... Antes que o debate "pegasse fogo", respondi com o que compreendo como as "10 razões para ser cristão", inteiramente baseadas em minhas interpretações do Novo Testamento e de alguns "apócrifos", como o Evangelho de Tomé.
Razão
Observe que preferi usar o termo "razão" ao invés de "motivo" [1]. Acostumamos a interpretar esse termo como uma analogia a racionalidade e inteligência do ser humano, porém em sua origem, no logos grego, ele significava algo a mais (retirado da Wikipedia): "significava inicialmente a palavra escrita ou falada - o Verbo. Mas a partir de filósofos gregos como Heráclito passou a ter um significado mais amplo. Logos passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza". Essa interpretação do logos como "uma razão conectada ao Cosmos" atinge seu ápice na filosofia estóica, que infelizmente foi apropriada e deturpada pela igreja cristã.
Falando em igreja, é preciso novamente analisar a origem das palavras, e dissociar os termos "igreja" e "religião":
Igreja
Do gregro ekklesia, foi a palavra escolhida pelos autores da Septuaginta (a tradução grega da Bíblia Hebraica) para traduzir o termo hebraico q(e)hal Yahveh, usado entre os judeus para designar a assembleia geral do "povo do deserto", reunida ao apelo de Moisés. Pode-se também interpretá-la de forma genérica como "a comunidade dos escolhidos por Deus". Esse termo pode ter outras interpretações parecidas, mas dificilmente alguma delas irá abarcar todos os povos da Terra. A igreja é essencialmente a igreja de alguns, e não de todos (no sentido em que não se aplica a todos, mas apenas a quem se converte a ela e aceita seus preceitos e dogmas).
Religião
Do latim re-ligare, significa literalmente "religação", mas é comumente interepretada como "religação aos deuses ou ao Cosmos". Também é associada ao termo em latim religio, usado na Vulgata, que pode ser interpretado como "reverência ao Deus dos deuses", embora aqui o termo já esteja intimamente ligado a uma crença específica. Obviamente o termo original pode ter inúmeras interpretações; Nem todas serão tão parecidas, mas certamente nenhuma delas pretenderá estabelecer o religare como uma crença em específico: aqui todos podem participar do mesmo religare, cada um a sua maneira e sem o intermédio de hierarquias eclesiásticas. Seria então um caminho espiritual, por assim dizer.
Se analisarmos, por exemplo, o Evangelho de Tomé, encontraremos lá um Cristo Sábio, não necessariamente crucificado, não necessdariamente avatar divino, não necessariamente fundador de uma igreja e não necessariamente salvador da humanidade. É principalmente através desse tipo de análise religiosa, e não eclesiástica (ou baseada em alguma teologia dogmática), que cheguei as dez razões:
1- Amar a si mesmo, sem egolatria, mas compreendendo sua própria fagulha divina (logos).
2- Amar ao próximo como ama a si mesmo.
3- Amar a toda a Criação acima de todas as coisas, pois que somos apenas parte dela (amar ao Cosmos ou a Deus).
4- Compreender que nada ocorre ao acaso e que tudo é dado a cada um segundo suas próprias obras.
5- Compreender que na Criação existem muitas moradas e que percebemos apenas uma pequeníssima parte delas.
6- Compreender que somos deuses em formação e que tudo que Cristo fez, faremos também, e muito mais.
7- Compreender que ainda sabemos muito pouco mesmo das coisas terrenas, e quase nada das coisas celestes, e que porisso mesmo a mensagem do Cristo ainda esteve longe de ser completa há 2 mil anos.
8- Compreender que o Consolador prometido pelo Cristo é a Verdade derramada por todas as criaturas da Terra, sem necessidade de um profeta em especial.
9- Compreender que essa vida é apenas parte de um Vida Maior, a qual o Cristo não poderia explicar há 2 mil anos, mas que talvez hoje possamos compreender melhor através da Verdade do Consolador.
10- Seguir o caminho do Cristo, o caminho do meio, de religação a Deus, e nos tornarmos, como ele, unificados com Deus.
Para aqueles que creem em um Livro Infalível, tais conclusões podem ser absurdas. Da mesma forma, para aqueles que apenas se preocupam em atacar as contradições da fé alheia, sem se preocupar em reconhecer seus méritos, toda religião será veneno por antemão, e tais conclusões nada significarão.
Mas felizmente ainda existem os moderados. Aqueles que não creem em dogmas, e que não precisam atacar a crença ou descrença alheia como forma de reafirmação da sua própria crença ou descrença... Esses talvez reconheçam nessas dez razões um "lampejo" do que o cristianismo poderia ter sido, se não fosse apropriado pelo Reino do Padre. Ora, na verdade ainda há tempo para fazer o real cristianismo reflorecer na Terra, dependerá apenas de nós, de todos nós, pois que só entraremos no Reino de Deus de mãos dadas.
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[1] Na verdade o logos é pessoal (único), no contexto da frase "10 motivos para ser cristão" não faz muito sentido a analogia. Porém achei importante mencionar o significado de logos como parte da fundamentação lógica deste tópico.
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Crédito da imagem: Wikipedia ("símbolo do peixe", recorrente no início de iconografia cristã)
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