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17.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 3

continuando da parte 2

As bases filosóficas do agnosticismo foram assentadas no séc. XVIII por Kant e Hume. O termo, porém, foi cunhado pelo biólogo britânico Thomas Huxley em 1876 – ele definiu o agnóstico como aquele que acredita que a questão da existência de Deus não pode e talvez jamais possa ser resolvida.

O evangelho do agnóstico

“O Cosmos é tudo que existe, que existiu ou existirá” – Assim, com essa frase inesquecível, Carl Sagan inaugura o primeiro episódio da série de 13 documentários intitulada "Cosmos", veiculados na TV americana em 1980, e depois no restante do mundo. Ao pretender explicar ciência e cosmologia para o público leigo, Sagan acabou criando um épico que abrange também muitas questões existenciais, história, mitologia, religião e espiritualidade em geral.

Em alguma costa rochosa, em alguma praia do globo, Sagan observa as ondas, os pássaros, o vento, e algum tempo depois nos traz outra pérola em sua narrativa: “Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo.”

Sagan era profundo conhecedor de religiões e mitologia, além de cientista e cético, mas não era nem ateu nem teísta ou deísta, era puramente agnóstico. Seu evangelho era constituído de uma obra de divulgação científica totalmente voltada para tal espanto, tal deslumbramento, tal amor pela natureza e todo o Cosmos a sua volta. Essa era a boa notícia de Carl...

Para muitos teístas, o fato de existirem pessoas que não creem em um Deus pessoal, ou que pelo menos não tem certeza de sua existência, parece causar um certo desconforto. Não é raro perceber, em qualquer pessoa ligada a doutrinas eclesiásticas, uma tendência a classificar ateus, agnósticos, céticos, e às vezes simplesmente todo e qualquer cientista, como “gente sem fé”, perdida, afastada de Deus, e até mesmo imoral.

Mas a verdade é que, a despeito do aparente consenso dos eclesiásticos, a moralidade, o amor, não são exclusividade daqueles que oram todos os dias a Deus, que frequentam missas, que consultam algum manual da Verdade Absoluta frequentemente. Para o religioso superficial, isto que digo não levanta muitas questões – “Ora, mas é exatamente assim: uns são bons, outros maus, crer em Deus não faz de ninguém um santo”. Sim, isso faz sentido, mas a questão é mais profunda...

Se Deus existe – e para teístas e deístas ele certamente existe –, porque ele “permite” que algumas de suas criaturas vivam sem sequer crer nele?

Em outro produto da obra de Sagan, o livro de ficção “Contato”, que também deu origem a um excelente filme homônimo, é descrito um contato com inteligências extra-terrestres de uma forma verossímel e científica. Existe também um conflito entre as crenças de cientistas e religiosos – em dado momento, a protagonista do primeiro contato (no livro são vários contatos ao longo das décadas, no filme há apenas um), uma cientista agnóstica, nos traz uma importante indagação:

“Se Deus quisesse nos mandar uma mensagem e escrituras antigas fossem a única forma que pudesse imaginar, ele poderia ter feito um trabalho melhor. E ele dificilmente teria que se confinar a escrituras. Por que não há um monstruoso crucifixo orbitando a Terra? Por que a superfície da Lua não é coberta com os Dez Mandamentos? Por que Deus deveria ser tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo?”

Ao contrário do que muitos eclesiásticos possam imaginar, esta mensagem não denota um pensamento que diminua de alguma forma a importância da Bíblia, mas antes um pensamento que aumenta enormemente a amplitude do que há de sagrado no mundo – o reino é todo o Cosmos. E não poderia ser de outra forma...

Podemos encontrar neste mundo ateus, agnósticos, teístas e deístas, sim isso tudo é verdade. Mas será muito difícil encontrar algum ser que negue a existência de um sistema que rege todo o universo. Seja a crença nas leis fundamentais da natureza, seja a crença nos desígnios divinos, seja um misto de ambos, todos creem em algum sistema, cuja função pode ainda ser um mistério – mas que há de ser buscado, há de ser resolvido passo a passo, por todos nós, juntos!

Sim, nós realmente somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo. E pouco importa, na prática, se tal Cosmos é um ser pessoal, uma força cósmica ou até mesmo um acaso miraculoso – pois no fim, conforme postularam Kant e Hume, não compreendemos ainda muito bem nenhum deles, não podemos ainda resolver tal questão. Será que poderemos um dia?

Para resolvê-la, talvez não bastem apenas orações e experiências místicas, apenas meditação e autoconhecimento, mas também o estudo meticuloso, prático, objetivo, material, profundamente mundano, da natureza a nossa volta. Há muitos gigantes da história da ciência que, buscando talvez um deus barbudo senhor dos exércitos, acabou esbarrando em verdades muito mais profundas. Talvez buscando um reino confinado a um pequeno pedaço de rocha na periferia da uma de bilhões de galáxias, acabou esbarrando no infinito.

E, se mesmo hoje existem seres que buscam aos mistérios de Deus sem sequer crer nele, que se aventuram pelas entranhas dos átomos e quarks, pelo reino bizarro da mecânica quântica, pelos códigos ocultos do DNA, pelos quasares e sóis distantes, pelas singularidades de seções inimagináveis do espaço-tempo, deixem que busquem, pois de uma coisa teremos sempre a certeza: é impossível estar “fora” de Deus.

Talvez o trabalho deles seja tão importante para o mundo quanto os mandamentos dos evangelhos. O importante é encarar as boas novas não como enigmas solucionados, mas como o início de um caminho, subjetivo e objetivo, interior e exterior, que preenche toda nossa existência.

Amai sim, o próximo, e toda a vida, como a ti mesmo. Mas amai a coletividade da vida, amai os átomos que nos conectam a tudo e a todos em uma teia sem fim, amai ao Cosmos acima de todas as coisas.

***

Crédito das imagens: Divulgação (Cosmos de Carl Sagan).

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9.4.09

A viagem "mística" de Sagan

Carl Sagan foi um dos maiores divulgadores de ciência da história. Cientista, físico, astrônomo, cético: isso não o impediu de ser um profundo conhecedor de religiões (embora agnóstico), e um ser humano de muita imaginação, além de uma estranha intuição acerca da espiritualidade. No filme Contato, baseado no livro homônimo escrito por Sagan, temos um roteiro adaptado escrito pelo próprio Sagan em parceria com sua esposa, Ann Druyan - O filme fala, dentre outras coisas, sobre uma possibilidade "mais realista" do contato com inteligência extra-terrestre, além de ser o pano de fundo para um interessante debate das relações entre Fé e Razão.

O que irei analisar aqui, entretanto, é o quão enigmático foi Sagan ao descrever a "viagem" realizada pela protagonista (interpretada por Jodie Foster) em direção a uma espécie de "buraco de minhoca dimensional" que a levou a algum canto do Universo, onde teve um contato - quase uma espécie de sonho lúcido - com uma inteligência extra-terrestre. Do ponto de vista de seu célebre livro, "O mundo assombrado pelos demônios", podemos afirmar que o próprio Sagan defendia que os relatos "místicos" de encontros com Seres Mitológicos, Anjos e Espíritos estavam nos dias atuais sendo "substituidos" por encontros com ETs - Talvez ele tenha incorporado um pouco dessa sua teoria no roteiro do filme, mas fato é que a viagem "mística" de Sagan nos revela muitos paralelos com idéias espiritualistas profundas:

1. Uma outra dimensão: a cápsula que a personagem usa para viajar por um "buraco de minhoca" nos invoca a idéia de uma espécie de viagem dimensional, uma forma desconhecida da ciência atual de entrarmos em contato consciente com outra dimensão, ou outro ponto longínquo do Universo. O fato da viagem necessitar de um veículo no filme não impede a analogia clara com viagens de projeção da consciência e experiências similares.

2. "Eles estão vivos": a personagem verifica que existem civilizações inteligentes em outros planetas. Essa é uma idéia que permeia a humanidade há tempos, e que está longe de ser exclusiva da Ufologia... Afinal, Jesus já dizia que "na casa de meu Pai existem muitas moradas". Muitas teorias espiritualistas sustentam que espíritos habitam diversos planetas em nosso horizonte cósmico. No caso do filme, no entanto, a idéia é claramente ufológica: a vida extra-terrestre é física e não espiritual.

3. "Um evento cósmico (...) Eu não tinha idéia (de como é bonito) (...) Deveriam trazer um poeta": essas falas da personagem ao vislumbrar a imensidão cósmica sustentam a idéia de espiritualidade de Sagan: um sentimento de deslumbramento em relação a Natureza e o Cosmos. Não há referência clara a um sentimento religioso, mas a idéia é tão próxima que praticamente se confunde - e é exatamente onde Sagan defende a convergência de Fé e Razão, Ciência e Religião, para um objetivo conjunto de edificação moral da humanidade.

4. O contato é um "sonho": ao encontrar seu falecido pai, a personagem logo percebe que estava numa espécie de "sonho lúcido", e que a inteligência extra-terrestre se valeu de sua memória para contruir um "ambiente" de comunicação favorável, onde a personagem não tivesse um choque muito grande pelo contato direto com o desconhecido. Aqui a analogia com contatos espirituais é assustadora: as teorias espiritualistas sustentam exatamente que muito do que vivemos em nossos sonhos (ou projeções), quando algumas vezes o espírito se desprende do corpo, é filtrado por nossa consciência ao acordarmos (ou pouco antes disso), e somente algumas memórias persistem - ocorre que o contato com um "mundo desconhecido" poderia ser um choque muito grande para nossa consciência, acostumada a realidade "mundana". Permanece também a analogia de que não importa a "aparência" ou "forma" do ET ou Espírito, e sim sua moral, sua intenção, e a informação a que está autorizado a passar adiante.

5. "Pequenos passos": a personagem pergunta ao ET "o que vai ser daqui para frente?", esperando obviamente uma grande revolução do conhecimento na Terra. Ao que o ET lhe responde que tudo é feito com pequenos passos, e tem sido assim por milhões de anos. No decorrer do filme sabemos que quase ninguém acredita que a personagem realmente entrou em contato com ETs, e portanto a "grande revolução" se torna apenas "um primeiro passo"... A analogia com os contatos com espíritos superiores (principalmente em conhecimento) não poderia ser mais clara. Muitos céticos se perguntam: "se existem espíritos superiores, porque não aparecem para nós e resolvem nossos problemas? Solucionam nossas dúvidas científicas?" - Ora, exatamente pela mesmo razão que a civilização tenta não interceder nas poucas tribos "virgens" das florestas tropicais, pela mesma razão que uma civilização extra-terrestre não iria querer intervir na nossa evolução social, cultural, científica e moral: é que a lei do Universo é clara - pequenos passos, pequenos passos, porém sempre a frente.

A cena (infelizmente só encontrei sem legendas em português):

» Ver parte 2 da cena acima

***

Nota: Gostaria de deixar claro que essa é minha interpretação do filme e dessa cena em específico. Duvido muito que Sagan concordaria comigo, mas não posso deixar de admira-lo pelo que considero uma "intuição fortuita", principalmente vinda de um homem que foi cético e agnóstico toda a vida. Independente de espíritos existirem ou não, o legado de Sagan merece ser admirado por todos, sem distinção de crenças ou não-crenças...

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