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6.9.22

A origem do universo, com o Boteco Mayhem

Por que a noite é escura? Para responder a esta pergunta, eu e os outros participantes do Bate-papo Mayhem fizemos uma jornada até o início de tudo, num episódio cheio de ciência, mitologia e espiritualidade. Assista abaixo:

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15.8.11

A descoberta do Cosmos, parte 1

Texto de Werner Jaeger em "Paidéia: a formação do homem grego” (Ed. Martins Fontes), tradução de Artur M. Parreira – Trechos das pgs. 201 a 204. Os comentários ao final são meus.

A ideia de Sólon é esta: a dike [1] não depende dos decretos da justiça terrena e humana nem resulta da simples intervenção externa de um decreto da justiça divina, como sucedia na antiga religião de Hesíodo. É imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. Portanto, a sua inexorabilidade é o “castigo de Zeus”, a “paga dos deuses”. Anaximandro vai muito além. Esta compensação eterna não se realiza só na vida humana, mas também no mundo inteiro, na totalidade dos seres. A evidência deste processo e a sua imanência na esfera humana levam-no a pensar que as coisas da natureza, com todas as suas forças e oposições, também se encontram submetidas a uma ordem de justiça imanente e que a sua ascensão e sua decadência se realizam de acordo com essa ordem [2].

Nesta forma – se a encararmos do ponto de vista moderno – parece esboçar-se a ideia prodigiosa de uma legalidade universal da natureza. Mas não se trata de uma simples uniformidade do fluxo causal, no sentido abstrato de nossa ciência atual. O que Anaximandro formula com as suas palavras é mais uma norma universal do que uma lei da natureza no sentido moderno. O conhecimento desta norma do acontecer da natureza tem um sentido religioso imediato [3]. Não é uma simples descrição de fatos, mas uma justificação da natureza do mundo. O mundo revela-se como um cosmos, isto é, como uma comunidade jurídica das coisas. Elas afirmam o seu sentido na incessante e inexorável geração e corrupção, quer dizer, naquilo que a existência tem de mais incompreensível e insuportável para as aspirações da vida do homem ingênuo. Não sabemos se o próprio Anaximandro empregou nesse sentido a palavra cosmos. No seu sucessor Anaxímenes já a encontramos, se é autêntico o fragmento que se atribui a ele.

Mas, em princípio, a ideia de cosmos encontra-se – embora sem o sentido rigoroso que teve mais tarde – na concepção de um acontecer natural governado pela dike eterna, de Anaximandro. Temos, portanto, o direito de caracterizar a concepção do mundo de Anaximandro como a íntima descoberta do cosmos. Esta descoberta não se podia fazer senão no fundo da alma humana. Nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica. Foi da mesma faculdade intuitiva que brotou a ideia de infinidade dos mundos, atribuída a Anaximandro pela tradição [4]. Sem dúvida alguma, a ideia filosófica do cosmos representou uma ruptura com as representações religiosas habituais. Mas esta ruptura representa a aparição de uma nova concepção da divindade do ser, no meio do horror da fugacidade e da destruição, que tanto impressionou as novas gerações, como mostram os poetas.

É neste estado de espírito que reside a semente de incontáveis desenvolvimentos filosóficos. O conceito de cosmos constituiu até os nossos dias umas das categorias essenciais de toda concepção do mundo, embora nas modernas interpretações científicas tenha gradualmente perdido o sentido metafísico original [5]. A ideia do cosmos mostra, com simbólica evidência, a importância da primitiva filosofia natural para a formação do homem grego. Assim como em Sólon o conceito ético-jurídico da responsabilidade deriva de teodicéia para a epopeia, também em Anaximandro a justiça do mundo recorda que o conceito grego de causa, fundamental para o novo pensamento, coincidia originalmente com o conceito de culpa e foi transferido da imputação jurídica à causalidade física. Esta transposição espiritual está ligada a transposição análoga dos conceitos de cosmos, dike e tisis, originários da vida jurídica, para o acontecer natural [6].

O fragmento de Anaximandro permite-nos obter uma visão profunda do desenvolvimento do problema da causalidade a partir do problema teológico. A sua Dike é o princípio do processo de projeção da polis no universo. É certo que nos pensadores jônicos não encontramos uma transposição expressa da ordenação do mundo e da vida do Homem para o ser das coisas não humanas. Não podia acontecer isso, porque as suas investigações prescindiam totalmente das coisas humanas e visavam exclusivamente a determinação do fundamento eterno das coisas. Mas, dado que se serviram da ordem da existência humana para tirar conclusões a propósito da physis e sua interpretação, a sua concepção continha em germe, desde o início, uma futura e nova harmonia entre o ser eterno e o mundo da vida humana com os seus valores.

Pitágoras de Samos foi também um pensador jônico, embora a sua ação se tenha desenrolado na Itália meridional. É difícil determinar o seu tipo espiritual e a sua personalidade histórica. A sua figura tradicional mudou com a evolução da cultura grega. Assim, ele nos foi apresentado como descobridor científico, político, educador, fundador de uma ordem ou de uma religião e como taumaturgo [...] Comparada com a grandiosa plenitude espiritual de Anaximandro, a união em Pitágoras de elementos tão heterogêneos, seja qual for a ideia que nós formemos desta mistura, é, efetivamente, coisa singular e acidental. A recente maneira de apresentá-lo como um curandeiro já não pode aspirar a nenhuma consideração séria. Da imputação de polimathia pode concluir-se que procedem de Pitágoras aqueles que mais tarde Aristóteles referiu como “os chamados pitagóricos”, considerando-os fundadores de um novo tipo de ciência que eles, diversamente da “meteorologia” dos Jônicos, denominaram apenas Mathemata, isto é, “os estudos”.

» Na continuação, Pitágoras e a transmigração de almas...

***

[1] Dike era o termo grego que trazia os conceitos de ordem moral e julgamento justo baseados no espírito da sociedade Grega, a Paidéia. Sólon, além de legislador, era poeta.

[2] Mais a oeste, tal doutrina seria chamada de karma.

[3] É preciso lembrar que na Grécia antiga um sábio era ao mesmo tempo poeta, filósofo, cientista e espiritualista. Se é possível, talvez, debochar do politeísmo do cidadão grego comum, já não é possível fazer o mesmo com os grandes pensadores, que subordinavam todos os deuses a Zeus – um Deus dos deuses – ou ao próprio Cosmos – a Natureza da natureza.

[4] Há mais de 2 mil anos, os sábios gregos já antecipavam, ainda que apenas pela intuição, muito do que viria a ser comprovado pela ciência moderna. Além da “infinidade de mundos”, Anaximandro também previu a teoria da evolução, ainda que de forma rudimentar: para ele, os animais nasceram do lodo marinho, e o homem teria se formado, no princípio, dentro de peixes, onde se desenvolveu e donde foi expulso logo que se tornou de tamanho suficiente para bastar-se a si próprio.

[5] Em sua grandiosa série de TV (Cosmos), Carl Sagan afirma que o Cosmos é tudo o que é, o que foi e o que será. Embora certamente a visão científica moderna não enxergue a natureza como um “sistema jurídico”, Sagan foi buscar inspiração nos gregos antigos para muito do que foi exposto em sua série; onde há sim muita espiritualidade, na pura essência do termo.

[6] Isso quer dizer, se é que não estarei aqui resumindo demasiadamente um pensamento tão complexo, que os gregos passaram a compreender a “lei de causa e efeito”, ou karma, não como uma “paga dos deuses”, mas antes como uma lei natural, que nada tem a ver com o antigo conceito de culpa – ou, para se entender melhor, de pecado perante os deuses.

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Crédito da foto: Paul Almasy/Corbis (Delfos, Grécia).

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17.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 3

continuando da parte 2

As bases filosóficas do agnosticismo foram assentadas no séc. XVIII por Kant e Hume. O termo, porém, foi cunhado pelo biólogo britânico Thomas Huxley em 1876 – ele definiu o agnóstico como aquele que acredita que a questão da existência de Deus não pode e talvez jamais possa ser resolvida.

O evangelho do agnóstico

“O Cosmos é tudo que existe, que existiu ou existirá” – Assim, com essa frase inesquecível, Carl Sagan inaugura o primeiro episódio da série de 13 documentários intitulada "Cosmos", veiculados na TV americana em 1980, e depois no restante do mundo. Ao pretender explicar ciência e cosmologia para o público leigo, Sagan acabou criando um épico que abrange também muitas questões existenciais, história, mitologia, religião e espiritualidade em geral.

Em alguma costa rochosa, em alguma praia do globo, Sagan observa as ondas, os pássaros, o vento, e algum tempo depois nos traz outra pérola em sua narrativa: “Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo.”

Sagan era profundo conhecedor de religiões e mitologia, além de cientista e cético, mas não era nem ateu nem teísta ou deísta, era puramente agnóstico. Seu evangelho era constituído de uma obra de divulgação científica totalmente voltada para tal espanto, tal deslumbramento, tal amor pela natureza e todo o Cosmos a sua volta. Essa era a boa notícia de Carl...

Para muitos teístas, o fato de existirem pessoas que não creem em um Deus pessoal, ou que pelo menos não tem certeza de sua existência, parece causar um certo desconforto. Não é raro perceber, em qualquer pessoa ligada a doutrinas eclesiásticas, uma tendência a classificar ateus, agnósticos, céticos, e às vezes simplesmente todo e qualquer cientista, como “gente sem fé”, perdida, afastada de Deus, e até mesmo imoral.

Mas a verdade é que, a despeito do aparente consenso dos eclesiásticos, a moralidade, o amor, não são exclusividade daqueles que oram todos os dias a Deus, que frequentam missas, que consultam algum manual da Verdade Absoluta frequentemente. Para o religioso superficial, isto que digo não levanta muitas questões – “Ora, mas é exatamente assim: uns são bons, outros maus, crer em Deus não faz de ninguém um santo”. Sim, isso faz sentido, mas a questão é mais profunda...

Se Deus existe – e para teístas e deístas ele certamente existe –, porque ele “permite” que algumas de suas criaturas vivam sem sequer crer nele?

Em outro produto da obra de Sagan, o livro de ficção “Contato”, que também deu origem a um excelente filme homônimo, é descrito um contato com inteligências extra-terrestres de uma forma verossímel e científica. Existe também um conflito entre as crenças de cientistas e religiosos – em dado momento, a protagonista do primeiro contato (no livro são vários contatos ao longo das décadas, no filme há apenas um), uma cientista agnóstica, nos traz uma importante indagação:

“Se Deus quisesse nos mandar uma mensagem e escrituras antigas fossem a única forma que pudesse imaginar, ele poderia ter feito um trabalho melhor. E ele dificilmente teria que se confinar a escrituras. Por que não há um monstruoso crucifixo orbitando a Terra? Por que a superfície da Lua não é coberta com os Dez Mandamentos? Por que Deus deveria ser tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo?”

Ao contrário do que muitos eclesiásticos possam imaginar, esta mensagem não denota um pensamento que diminua de alguma forma a importância da Bíblia, mas antes um pensamento que aumenta enormemente a amplitude do que há de sagrado no mundo – o reino é todo o Cosmos. E não poderia ser de outra forma...

Podemos encontrar neste mundo ateus, agnósticos, teístas e deístas, sim isso tudo é verdade. Mas será muito difícil encontrar algum ser que negue a existência de um sistema que rege todo o universo. Seja a crença nas leis fundamentais da natureza, seja a crença nos desígnios divinos, seja um misto de ambos, todos creem em algum sistema, cuja função pode ainda ser um mistério – mas que há de ser buscado, há de ser resolvido passo a passo, por todos nós, juntos!

Sim, nós realmente somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo. E pouco importa, na prática, se tal Cosmos é um ser pessoal, uma força cósmica ou até mesmo um acaso miraculoso – pois no fim, conforme postularam Kant e Hume, não compreendemos ainda muito bem nenhum deles, não podemos ainda resolver tal questão. Será que poderemos um dia?

Para resolvê-la, talvez não bastem apenas orações e experiências místicas, apenas meditação e autoconhecimento, mas também o estudo meticuloso, prático, objetivo, material, profundamente mundano, da natureza a nossa volta. Há muitos gigantes da história da ciência que, buscando talvez um deus barbudo senhor dos exércitos, acabou esbarrando em verdades muito mais profundas. Talvez buscando um reino confinado a um pequeno pedaço de rocha na periferia da uma de bilhões de galáxias, acabou esbarrando no infinito.

E, se mesmo hoje existem seres que buscam aos mistérios de Deus sem sequer crer nele, que se aventuram pelas entranhas dos átomos e quarks, pelo reino bizarro da mecânica quântica, pelos códigos ocultos do DNA, pelos quasares e sóis distantes, pelas singularidades de seções inimagináveis do espaço-tempo, deixem que busquem, pois de uma coisa teremos sempre a certeza: é impossível estar “fora” de Deus.

Talvez o trabalho deles seja tão importante para o mundo quanto os mandamentos dos evangelhos. O importante é encarar as boas novas não como enigmas solucionados, mas como o início de um caminho, subjetivo e objetivo, interior e exterior, que preenche toda nossa existência.

Amai sim, o próximo, e toda a vida, como a ti mesmo. Mas amai a coletividade da vida, amai os átomos que nos conectam a tudo e a todos em uma teia sem fim, amai ao Cosmos acima de todas as coisas.

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Crédito das imagens: Divulgação (Cosmos de Carl Sagan).

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2.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 1

A matéria (do latim: materia) é aquilo que existe, aquilo que forma as coisas e que pode ser observado como tal; é sempre constituída de partículas elementares com massa não-nula (como os átomos, e em escala menor, os prótons, nêutrons e elétrons).

A descoberta do invisível

Empédocles foi um filósofo pré-socrático que viveu na atual região da Sicília, entre 490 e 430 a.C.; Também foi médico, legislador e místico. Aproximadamente 2460 anos antes de Darwin e Wallace, já postulava que “os seres evoluíram da água por processos naturais” e que “sobrevive aquele que está mais bem capacitado”. Empédocles viveu em uma era onde os sábios ou filósofos eram ao mesmo tempo religiosos e cientistas.

Por exemplo, ele defendia que o universo era mantido por suas forças fundamentais: o Amor unia os elementos e o Ódio os separava. Esse tipo de nomenclatura pode afugentar os cientistas atuais (bastaria substituir o termo “amor” por “gravidade” para, quem sabe, mudarem de ideia), mas os bem informados saberão que a própria ciência deve muito aos pensadores daquela época. Ao contrário de Pitágoras, Empédocles não achava que a natureza poderia ser desvendada apenas pelo pensamento ou pelo estudo místico dos números. Ele era, portanto, um místico observador...

De fato, um dos primeiros experimentos científicos de que se tem notícia foi realizado por Empédocles com um instrumento de cozinha bastante simples – o ladrão de água. Tratava-se de uma espécie de esfera de latão com perfurações de um lado e um longo cano fino no lado inverso. É usado até os dias de hoje, mas mesmo em sua época já vinha sendo usado há muito tempo. Basta imergir a esfera em qualquer balde com água, segurando-a pelo cano e sem tapa-lo, e depois retirar da água tapando o orifício do cano com o dedão – enquanto mantemos o cano tapado, a água da esfera não sai, mas quando retiramos o dedo do cano, ela vira uma espécie de regador e respinga a água para fora por suas pequenas perfurações.

Ora, muita gente deve ter inserido a esfera na água com o cano tapado, por engano, e percebido que nenhuma água havia sido “roubada” do balde pelo ladrão de água... Para praticamente todos isso não tinha nenhum significado oculto ou profundo, mas nas mãos do cientista isso era de uma significância até mesmo aterradora – se não havia “nada” dentro do ladrão de água, se ele estava sem água alguma, como pôde a água do balde não conseguir adentrá-lo apenas porque pressionamos a ponta do cano com os dedos? A única explicação era que o próprio ar ocupava aquele espaço!

Empédocles havia descoberto o invisível. “O ar” – pensou ele – “deve ser matéria em uma forma tão divinamente dividida que não podia ser vista”. Certamente os antigos já consideravam o ar um dos elementos básicos da criação, e Empédocles partilhava dessa crença. Porém, talvez para eles o ar fosse o elemento visto nas nuvens ou sentido nas ventanias e mesmo nas brisas sutis... Mas certamente ninguém havia concebido que o ar ocupava espaço, que preenchia o aparente vazio entre nós e os móveis de nossa casa, ou a árvore do outro lado da estrada. Empédocles havia provado a existência do ar através da observação da natureza, algo que não poderia ser feito somente com a mente, ou com os números.

Toda a ciência moderna se baseia naquilo que pode ser percebido ou diretamente pelos olhos, como um utensílio de cozinha ou uma árvore, ou através de instrumentos, como ondas de rádio ou galáxias distantes. A ciência moderna não considera aquilo que é percebido apenas pela mente, dentre outras coisas porque normalmente não é uma experiência que pode ser percebida por mais de uma pessoa – ou seja, geralmente não é um experimento replicável. Por isso costuma-se pensar que todo cientista é uma materialista, mas isso faz sentido?

O termo “materialismo” só foi cunhado em torno de 1702 pelo filósofo alemão Leibiniz, mas seu conceito está diretamente relacionado ao atomismo, que nada mais é do que um desenvolvimento das ideias de Empédocles por um filósofo que, apesar de ter vivido na mesma época de Sócrates, está “historicamente agrupado” também entre os pré-socráticos: Demócrito.

Nascido em 460 a.C. na região da Trácia, Demócrito foi um discípulo de Leucipo de Mileto, e depois seu sucessor. É considerado por alguns “o pai da ciência moderna” pelo desenvolvimento do atomismo, mas há quem afirme que ele apenas continuou o trabalho de Leucipo, inspirado pelo pensamento de Empédocles. Em todo caso, nenhuma obra original de Demócrito sobreviveu até a modernidade, o que se sabe sobre ele é, sobretudo, o que outros pensadores de sua época disseram a seu respeito. Dizem que Platão o detestava, por exemplo, e que gostaria que seus livros fossem queimados, mas isso é provavelmente apenas uma anedota que procura demonstrar como o atomismo era, de certa forma, o oposto do idealismo platônico.

Outra anedota talvez seja mais realista, e conta que Demócrito dizia que “o riso torna sábio”, além de retratá-lo como alguém que costumava levar a vida com muito bom humor e gargalhadas ocasionais – “a vida sem festas ocasionais é como uma longa estrada sem estalagens pelo caminho”. Por essas e outras, ficou conhecido na Renascença como “o filósofo que ri”... Mas certamente os partidários do idealismo e particularmente do cristianismo não partilharam de seu bom humor: relegaram sua obra a um ínfimo “rodapé histórico”, uma espécie de filosofia apócrifa.

Mas com o renascimento da ciência, seu pensamento voltou à tona e, apesar de termos apenas pequenas referências de sua obra, sabemos que ele estava fundamentalmente correto quando defendia que “tudo é feito de átomos”. Apenas não pôde vislumbrar o quão profundamente sagrados eram tais átomos.

Na continuação, como cortar uma maçã sem causar um incidente nuclear...

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Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Democritus, por Hendrick ter Brugghen); [ao longo] Imagem retirada do episódio 7 da série de TV Cosmos, de Carl Sagan (eis o ladrão de água descrito no artigo).

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22.5.10

Vida 1.0

Em um dos episódios da saudosa série de TV Cosmos, Carl Sagan inicia dizendo a seguinte frase: "Se você quiser fazer uma torta de maçã a partir do zero, você precisará primeiro inventar o universo."

De fato, como Parmênides bem definiu, ex nihilo nihil fit (do nada, nada se faz). Essa é uma questão que talvez ainda esteja além de nossa ciência por um bom tempo – talvez mesmo para sempre. Já a questão do surgimento da vida a partir de matéria inorgânica possa ser resolvida nalgum dia, pelo menos é algo que pela lógica nos parece mais viável, embora estejamos ainda muito distantes de desvelar tal mistério.

Uma das teorias mais consideradas sobre a origem da vida na Terra é a panspermia. Ela trata da hipótese segundo a qual as sementes de vida são prevalentes em todo o Universo e que a vida na Terra começou quando uma dessas sementes aqui chegou, provavelmente “na cauda de um cometa”. Em “O Universo Vivo” Chris Impey nos esclarece melhor a questão:

“Tanto cometas quanto meteoros podem transportar moléculas complexas para a Terra. Surpreendentemente, quando os cientistas simulam impactos, os aminoácidos não só sobrevivem ao choque, mas muitos se unem para formar polipeptídios ou mini-proteínas – intimamente ligados à origem da vida.

Os meteoritos também trazem um ingrediente vital: o fósforo. Esse elemento reativo é o quinto mais importante elemento biológico depois de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, embora sua produção pelas estrelas seja bem pequena. O fósforo é decisivo para a vida porque forma a espinha dorsal do DNA, e também é o ingrediente principal do ATP – trifosfato de adenosina – o combustível fundamental da vida.”

A panspermia procura solucionar um problema corrente nas teorias do surgimento da vida na Terra – ocorre que nas condições iniciais do planeta, provavelmente não tínhamos elementos suficientes para explicar sua obscura origem. Para o “milagre da primeira célula”, é preciso recorrer a elementos alienígenas. Vejamos o que Impey tem a dizer:

“A vida hoje não se parece com substâncias químicas flutuando em uma lagoa salgada, ou com moléculas complexas aprisionadas em uma superfície mineral. Todas as formas de vida, da menor bactéria até a sequóia mais imponente, são feitas de células. Depois que uma célula primitiva foi criada, o caminho para o alto ficou claro. Certamente ir de uma bactéria a um chimpanzé é um passo menor do que ir de uma mistura de aminoácidos a uma bactéria. Saber como se formaram às primeiras células é vital para que a ciência compreenda a origem da vida.

Mas essa questão ainda permanece em aberto. Apesar de nos dias atuais a ciência pelo menos fazer uma idéia básica de como o processo provavelmente se conduziu, nunca vimos moléculas se reproduzindo, nunca produzimos uma célula sequer a partir de elementos sem vida.”

Em suma: o mecanismo pelo qual as bactérias evoluíram ao longo dos milhões de anos de vida na Terra até a incrível diversidade biológica que encontramos atualmente, este é bem fundamentado pela revolução do pensamento e da ciência a partir da teoria de Darwin-Wallace. Já o mecanismo que deu efetivamente origem a vida, e que transformou matéria inanimada em células orgânicas complexas, possibilitando o surgimento do RNA e do DNA, este ainda intriga a comunidade científica, e não sabemos ainda quando poderá ser compreendido.

Entretanto, não há motivo para imaginar que o homem nunca irá solucionar tal enigma. Se considerarmos o ano cósmico – todo o tempo do universo comprimido em um ano imaginário – faltando 20 segundos para meia-noite, os hominídios evoluem para se tornar exatamente como nós, inventam as ferramentas e a agricultura, e constroem as primeiras cidades. A Revolução Coperniciana acontece quando falta um segundo para a meia-noite. A teoria de Darwin-Wallace e a biologia surgem dentro desses centésimos de segundo já no finalzinho do ano... Ou seja: se é verdade que a evolução da vida levou bilhões de anos na Terra, também é verdade que chegamos a um estágio inimaginável, uma verdadeira ebulição da informação e do conhecimento humano acerca do grande Cosmos a sua volta.

Carl Sagan dizia que “nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo”. Pois bem, até pouco tempo atrás a vida evoluiu por si mesma, no que costumamos chamar de “evolução natural”. A vida permitiu que seres humanos pudessem evoluir para chegar ao conhecimento necessário para descobrir o DNA, clonar algumas espécies e seqüênciar seu próprio genoma... Mas nesse momento chegamos ao anúncio de Craig Venter: a primeira forma de vida auto-replicante, a primeira bactéria “artificial” foi “criada” pelos cientistas de sua equipe.

Até aqui estivemos na Vida 1.0, agora chegamos a Vida 2.0

» continua em Vida 2.0

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Crédito da foto: Nepmet

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19.12.09

O universo conhecido

Vídeo pelo Museu Americano de História Natural. Texto original por Kentaro Mori, no blog 100 nexos.

"O Cosmos é tudo o que há, tudo o que algum dia foi e tudo o que nalgum dia será."
Carl Sagan

São imagens poderosas, afinal, é todo O Universo Conhecido, um filme produzido pelo Museu Americano de História Natural em uma viagem do monte Everest e as gargantas do rio Ganges até os limites de todo o cosmo conhecido.

No caminho, enquanto nos afastamos do planeta vemos o azul profundo do Pacífico, a Terra como um todo, as órbitas de milhares de satélites que lançamos em órbitas baixas e então um anel daqueles em órbita geostacionária; rapidamente focando o brilho de nosso Sol, o sistema solar, a bolha de nossas transmissões de rádio com décadas de anos-luz de raio, a nossa galáxia, a estrutura filamentar de milhões de outras galáxias próximas até o limite do Universo observável, na radiação de fundo composta dos ecos do Big Bang.

Viajar pelo espaço nesta escala é também viajar no tempo, enquanto a esfera final do Universo conhecido marca também os primeiros instantes de tudo. Caso se sinta alguma vertigem, basta se segurar nos assentos porque logo fazemos todo o caminho de volta ao pálido ponto azul.

Esse tipo de visualização não é particularmente novo, e sua versão mais famosa é o clássico Potências de 10 (1977), sendo que uma versão recente particularmente bela inicia o filme Contato (1997). A diferença é que desta vez, “a estrutura de O Universo Conhecido é baseada em observações e pesquisas precisas e cientificamente acuradas”. Isto é, enquanto todas as outras versões anteriores contavam com uma boa dose de licença artística e imaginação, nesta versão a beleza é derivada diretamente de dados científicos concretos. É por isto que em certo momento a visualização de galáxias e quasares forma uma espécie de ampulheta, porque só podemos observar em grandes distâncias em planos perpendiculares ao disco de nossa Via Láctea – isto é, “para cima ou para baixo”, porque “dos lados” todas as estrelas de nossa galáxia bloqueiam a visão.

» Post orginal no blog 100 nexos

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10.11.09

Estamos todos conectados

Video de autoria de John Boswell, uma tocante homenagem musical ao Cosmo e a cientistas como Carl Sagan, Richard Feynman e outros...

Trecho:
Verdade, sou somente uma partícula
Comparado à uma estrela, o planeta é somente outra partícula
Pensar em tudo isto
Pensar no vasto vazio do espaço
Existem bilhões e bilhões de estrelas
Bilhões e bilhões de partículas
(...)
A beleza de um ser vivo não são os átomos que o formam
Mas a maneira que estes atómos se agrupam
O Cosmo está dentro de nós
Somos feitos de pó estelar
Somos uma maneira do Cosmo se conhecer

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26.6.09

Todo o Cosmos de Sagan

A série Cosmos é um dos mais formidáveis exemplos da amplitude e eficácia que a divulgação científica pode atingir por meios audiovisuais, quando servida por uma personalidade carismática como Carl Sagan e por meios técnicos adequados. Filmado ao longo de três anos, em quarenta locais de doze países, o programa Cosmos abriu a janela do Universo a mais de 500 milhões de pessoas. O segredo desta série de treze horas foi o talento de comunicador de Sagan, capaz de desmitificar o que até então fora informação científica inacessível. A versão escrita deste programa continua a ser o livro de divulgação científica mais vendido da história.

Como no Brasil estão esgotados os DVDs da série (lançados pela Editora Abril), o jeito é recorrer a própria web. Infelizmente esses videos costumam ser retirados do ar de tempos em tempos, tentarei manter os links atualizados na medida do possível:

Episódio 1: Os Limites do Oceano Cósmico [ver este episódio]
Partindo dos limites do grande oceano espacial, Carl Sagan embarca numa imensa viagem cósmica que começa a 8 bilhões de anos-luz da Terra. A bordo da nave espacial da sua imaginação, ele transporta-nos às maravilhas do Cosmos: quasares, galáxias em espiral, nebulosas, supernovas e pulsares. Penetrando nas nuvens da Terra, encontramo-nos no Egito, onde Eratóstenes pela primeira vez mediu a Terra. A Biblioteca de Alexandria, berço da aprendizagem da Antiguidade, ressuscita em toda a sua glória - para ilustrar a fragilidade do conhecimento. É então que, para nos fazer compreender a enormidade do tempo que passou desde o Big bang até hoje, Sagan nos apresenta o "Calendário Cósmico".

Episódio 2: Uma Voz na Sinfonia Cósmica [ver este episódio]
Como começou a vida na Terra? Há outros seres vivos em outros mundos? Carl Sagan explora a origem, evolução e diversidade da vida na terra. Com uma espantosa animação computadorizada, entramos no coração de uma célula viva para lhe examinarmos a molécula da vida: o DNA. Vamos assistir a experiências laboratoriais que nos darão idéia dos primeiros passos que conduziram à origem da vida. Seqüências animadas espetaculares acompanham a evolução humana a partir de organismos unicelulares que existiam nos oceanos. E, finalmente, conheceremos as diferentes formas de vida que poderiam habitar uma atmosfera como a do planeta Júpiter, os "caçadores", "flutuadores" e "mergulhadores".

Episódio 3: A Harmonia dos Mundos [ver este episódio]
Em todo o mundo, os nossos antepassados de todas as culturas tiveram conhecimentos próprios de astronomia. As suas vidas disso muito dependiam. O último astrólogo científico foi também o primeiro astrônomo moderno: Johannes Kepler. Kepler lutou pela busca de uma harmonia nos céus e deu um passo fundamental para nos conduzir à era científica. O segredo que conduziu Kepler foi um respeito descomprometido pela observação dos céus, mesmo quando, agonizante, o confrontaram com as mais enraizadas crenças que acarinhava. Os profundos conhecimentos de Kepler ensinaram-nos como a Lua e os planetas se movem nas respectivas órbitas e, mais recentemente, como viajar para eles.

Episódio 4: Céu e Inferno [ver este episódio]
Em 1908, na Sibéria, uma explosão misteriosa abalou a paisagem, projetando árvores a milhares de quilômetros de distância e produzindo um som que se ouviu em todo o mundo. Teria uma nave espacial extraterrestre sofrido um acidente nuclear? Carl Sagan examina os testemunhos e conclui que a Terra foi atingida por um pequeno cometa. Um modelo do sistema solar demonstra a possibilidade de outros planetas terem sofrido impactos semelhantes. Embarcamos numa viagem descendente através da atmosfera infernal de Vênus, para explorar a superfície de braseira, atingida esta pelo chamado efeito de estufa. O destino de Vênus pode ser uma história de alerta para o nosso mundo.

Episódio 5: O Blues do Planeta Vermelho [ver este episódio]
O planeta Marte vem fascinando os humanos há séculos, tanto na ficção científica quanto na ciência real. Carl Sagan nos conduz ao Observatório Percival Lowell, construído no Arizona, para estudar os "canais" de Marte, que Lowell acredita terem sido construídos por uma civilização extinta. Há alguns anos, duas espaçonaves Vikings pousaram em Marte. Explorando a superfície do planeta vermelho, Viking não achou nenhuma indicação, nenhum artefato, ou qualquer tipo de vida inteligente. Mas a possibilidade de vida microscópica, passada ou presente, ainda permanece em discussão. Segundo os estudos realizados, se já houve vida em Marte, ela desapareceu...

Episódio 6: A Saga dos Viajantes [ver este episódio]
Há trezentos anos a Holanda começou a enviar seus navios mundo afora recolhendo dados sobre nosso planeta; hoje espaçonaves já navegam para todos os planetas conhecidos de nossos ancestrais. Carl Sagan leva-nos ao Laboratório de Propulsão a Jato para compararmos a empolgante viagem exploratória a bordo de um navio com a emocionante experiência dos cientistas que presenciaram as primeiras imagens das luas de Júpiter, tomadas pela espaçonave Voyager. A espaçonave da imaginação segue a trilha da Voyager levando-nos aos anéis de Saturno e a seu satélite Titã, cuja atmosfera é rica em material orgânico. E após explorar o sistema solar, a nave Voyager continuará cruzando para sempre o grande oceano interestelar.

Episódio 7: A Espinha Dorsal da Noite [ver este episódio]
O que são as estrelas? Tempos houve em que os humanos curiosos imaginaram que as estrelas eram fogueiras no céu, mantidas acesas por magia, ou pensaram que a Via Láctea era a "Coluna Vertebral da Noite". Há 2300 anos, na ilha grega de Samos, um homem de nome Aristarcos sugeriu que era o Sol e não a Terra que estava no centro do sistema solar. Ele foi o culminar duma tradição com 200 anos, agora amplamente esquecida, segundo a qual leis naturais e não deuses caprichosos regiam o universo. Na caverna de Pitágoras, em Samos, Carl Sagan descobre também um lado diverso do pensamento grego, o mundo místico guardado por uma irmandade erudita que trabalhava para ocultar do povo o conhecimento que possuía. O tema deste episódio é o nascimento do pensamento científico na nossa civilização e em nós mesmos.

Episódio 8: Viagens no Espaço e no Tempo [ver este episódio]
Há mais estrelas no Cosmos que grãos de areia em todas as praias da Terra. Se conseguíssemos observar os céus durante milhões de anos, as constelações mudariam de forma conforme as estrelas que as compõem se movem e evoluem. Numa máquina do tempo, exploramos o que sucederia se pudesse alterar o passado. Viajamos até aos planetas de outras estrelas. Refazemos o sonho de adolescente de Albert Einstein de viajar num feixe de luz; a sua teoria da relatividade prevê que cerca da velocidade da luz produziria estranhos efeitos, mas daria aos exploradores espaciais a possibilidade de, numa só vida, irem até ao centro da galáxia. Voltariam, contudo, a uma Terra muito mais velha do que aquela de onde haviam partido.

Episódio 9: As Vidas das Estrelas [ver este episódio]
A maioria dos átomos dos nossos corpos foram feitos no interior das estrelas. "Somos matéria estelar". Com animação computadorizada e espantosa arte astronômica, nôs é mostrado como as estrelas nascem, vivem e morrem. Carl Sagan persegue a origem e a natureza dos buracos negros, objetos com uma gravidade de tal ordem que a luz não consegue sair deles. Testemunhamos a explosão de estrelas distantes que produzem raios cósmicos que provocam mutações nos seres da Terra. No sentido mais profundo, a origem, evolução e destino da vida do nosso planeta estão relacionados com a evolução do Cosmos.

Episódio 10: O Limiar da Eternidade [ver este episódio]
Qual é a origem do universo? Qual é o seu destino? Continuará a expandir-se para sempre ou sofrerá um dia um colapso? Carl Sagan explora o tempo em que as estrelas e galáxias se começaram a formar, e mostra como neste século os seres humanos descobriram a expansão do Universo. Vamos até à Índia onde uma velha cerimônia comemora os ciclos da Natureza. Tal como os modernos astrofísicos, a mitologia Hindu fala de um universo velho de bilhões de anos e da possibilidade de ciclos eternos de morte e renascimento. São explorados mundos de duas e quatro dimensões antes do Dr. Sagan desaparecer num buraco negro. Os astrônomos conjecturam qual o destino que aguarda o Cosmos: expansão eterna sem limites ou oscilação sem fim.

Episódio 11: A Persistência da Memória [ver este episódio]
O cérebro humano é ponto de embarque de todas as nossas viagens cósmicas. É um repositório de informação, como são os genes que evoluíram muito mais cedo e os livros que despontaram muito mais tarde. Carl Sagan leva-nos a bordo de um navio de pesquisa oceânica para examinarmos uma das outras espécies inteligentes que conosco partilham o planeta... as grandes baleias. Ele nos mostra depois a uma caminhada pelo cérebro humano para que testemunhemos a arquitetura do pensamento. O Dr. Sagan penetra na "Biblioteca cerebral", onde estão armazenados trilhões de bits de informação. Um pouco da informação existente nos nossos genes, nos nossos cérebros e nas nossas bibliotecas, foi lançado a bordo da nave espacial interestelar Voyager... Uma mensagem dentro de uma garrafa, dirigida a seres de outras épocas e de outros mundos.

Episódio 12: Enciclopédia Galáctica [ver este episódio]
Carl Sagan examina os relatos persistentes de visitantes extraterrestres à Terra e argumenta que não se encontram, entre todas as histórias de UFOs, Não há alguma prova física convincente. Numa recriação da decifração da pedra da Rosetta, ele conduz-nos ao Egito, onde Jean François Champollion foi pioneiro na decodificação das mensagens hieroglíficas deixadas por uma antiga civilização. A "Pedra da Rosetta" da comunicação interestelar, argumenta ele, é a própria ciência. O maior radiotelescópio do mundo está permanentemente capaz de receber mensagens radio enviadas por civilizações estranhas de qualquer ponto da Via Láctea.

Episódio 13 (Último): Quem Pode Salvar A Terra? [ver este episódio]
Este episódio é a histórica declaração televisiva que refere a necessidade urgente de uma perspectiva planetária para enfrentar a loucura da corrida aos armamentos nucleares.
No passado, guerreamo-nos uns aos outros, raramente apreciando as semelhanças de todas as culturas e povos da Terra. Mas agora o mundo encontra-se no meio de uma devastadora revolução de nível mundial, conforme se vai encaminhando para uma única comunidade global. Ao mesmo tempo, as máquinas de destruição tornaram-se capazes de arrasar a nossa civilização, e talvez, até mesmo a nossa espécie. A promessa de uma grande civilização científica já foi uma vez destruída pela ignorância e pelo medo, quando no séc. V uma multidão de fanáticos destruiu por completo a grande Biblioteca de Alexandria. O Dr. Sagan argumenta que a nossa sobrevivência não se deve apenas a nós próprios, aos nossos antepassados, ou aos nossos descendentes, mas também a esse Cosmos, antigo e enorme, do qual despontamos.


Obs: Os vídeos costumam sair do ar de tempos em tempos, por questões de copyright. Tento manter todos os links atualizados, mas ultimamente tem sido difícil achar os vídeos disponíveis no YouTube ou Vimeo...

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Crédito da imagem: carlsagan.com

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10.7.08

Onde começa a ciência e termina a religião?

Este é um dos vídeos mais "religiosos"(*) que conheço... Admiro profundamente Sagan por, apesar de ter sido um dos homens mais céticos e racionais do século passado, ter sido também um dos homens mais maravilhados e absortos pelo que há de transcendental em nosso Universo.

"Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo."
Carl Sagan

É possível encontrar a série toda no YouTube, porém alguns episódios só são encontrados em inglês. Este acima é o primeiro de 13 capítulos.

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(*) Religião, do latim "re-ligare", significa exatamente "religar"... No caso, religar-se com Deus ou com o Cosmos pode significar exatamente a mesma coisa, dependendo da concepção de cada um.

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